Outras Mentes e a consciência dos polvos

Antes que a vida abandonasse a imensidão dos oceanos e migrasse para o ambiente terreno, um ancestral comum dos vertebrados e de alguns invertebrados que conhecemos hoje desenvolveu o sistema nervoso. Um sistema que dava sentidos a esse animal e coordenava as diversas partes que seu corpo deveria ter. Com o tempo, essa rede de células neuronais formulou a inteligência e alguns animais tornaram-se seres sencientes e dotados de uma certa inteligência. É o caso de vários vertebrados, parentes mais próximos do homem. Algo próximo a uma consciência é muito, mas muito mais difícil de se observar em invertebrados, mas há um grupo específico, os cefalópodes, que desenvolveu grandes cérebros e comportamentos complexos. Entre eles está o polvo, objeto de estudo desde 2008 do filósofo australiano Peter Godfrey-Smith.

Em seu livro OUTRAS MENTES, Godfrey-Smith busca na evolução das espécies uma resposta de como e porquê a consciência teria ocorrido nos animais – sobretudo, nos humanos, mas também em outras espécies consideradas inteligentes, como os corvos, papagaios e polvos. É no invertebrado, de corpo mole e com oito braços que o filósofo da ciência fecha seu foco e utiliza como fio condutor para nos dar pistas de como a seleção natural, os infindáveis processos de adaptação e a evolução, como proposta por Charles Darwin, chegou até a consciência do eu e por que. Afinal, como os animais passaram a ter experiências subjetivas?

É um livro de ciência, sim. Especialmente o capítulo 2 pode parecer muito denso para quem não lembra muita coisa das aulas de biologia e química, mas a prosa de Godfrey-Smith não é nada empolada e ele toma o cuidado de pegar o leitor pela mão e conduzi-lo pelos recifes de corais da história dos animais da forma mais suave possível. Outras Mentes é um livro para qualquer interessado ler, não apenas para acadêmicos e biólogos.

“Quando você trabalha com peixes, eles não têm ideia de que estão num tanque, um lugar que não é natural. Com os polvos é totalmente diferente. Eles sabem que estão dentro de um lugar específico, e que você está fora. Todos os seus comportamentos são afetados por essa experiência do cativeiro.”

Os polvos se mostram criaturas fascinantes. Suas peles mudam de cor constantemente como se fossem grandes telas formadas por pixels (comparação feita pelo autor); seu sistema nervoso é formado por um grande cérebro na cabeça, mas está vastamente distribuído por seus tentáculos, o que levanta a hipótese de que haveria certa autonomia de cada um de seus membros; é provável que eles enxerguem não apenas com seus olhos muito desenvolvidos, mas a partir da informação de luz que atinge suas peles; possuem sangue azul-esverdeado porque usam moléculas de cobre para transportar oxigênio, não ferro; sabem reconhecer pessoas específicas; sabem reconhecer quando não estão sendo observados; polvos brincam; polvos aprendem a abrir potes; polvos se adaptam rapidamente a novos ambientes; enfim, é possível saber muita coisa sobre esses animais que eu, particularmente, não fazia ideia de que eram parte da breve vida de um cefalópode.

O autor tenta, sempre que possível, apresentar cada característica do animal com a explicação biológica, química, psicológica ou neurológica que leva os pesquisadores a acreditarem no porquê o polvo é assim ou se comporta de determinadas formas. “Os cefalópodes são uma ilha de complexidade mental no mar dos animais invertebrados. […] Eles são, provavelmente, o mais perto que chegaremos de um alienígena inteligente”, escreve o pesquisador australiano.

Ao mesmo tempo, os polvos são misteriosos. Como Peter Godfrey-Smith busca pistas sobre o desenvolvimento da consciência a partir dos polvos, muita coisa ainda é apenas suposição, deixando um grande mar de dúvidas entre as páginas de Outras Mentes. Isso não é um ponto fraco do livro: enquanto o filósofo vai desnudando diversas questões que já são conhecidas da ciência, o que permanece incerto vira motivo de especulação por parte do autor ou então ele apresenta diversas evidências do que poderia explicar tais mistérios. Cerca de 30% do livro são de notas para explicações adicionais ou para o autor dizer de onde tirou certas inferências e ideias que usa ao longo do livro. De outro modo, temos que lembrar que Godfrey-Smith é um filósofo e mais do que dar respostas assertivas sobre tudo, o papel da filosofia é fazer perguntas e aguçar a mente. Nesse aspecto, Outras Mentes é um combustível e tanto para a mente.

Peter é um filósofo de métodos darwinistas em sua busca, o que faz de Outras Mentes um livro muito mais amplo do que uma publicação sobre os polvos apenas. Em um dos capítulos, discute-se o envelhecimento e como a vida dos polvos é brevíssima. No entanto, o autor funde filosofia e bioquímica de uma forma interessantíssima para fazer o leitor entender o que significa, biologicamente, envelhecer e como esse processo é complexo. Para mim, foi um dos pontos mais esclarecedores sobre a vida – no geral da existência, não apenas dos cefalópodes – que já li.

No fim das contas, os polvos operam para ele como um grande exemplo do maravilhoso e misterioso percurso que a seleção natural tomou para desenvolver o sistema nervoso e suas funções e percepções. Talvez estudando os cefalópodes encontre pistas – biológicas e filosóficas – sobre como as experiências subjetivas vieram a se firmar na existência dos animais (lembrando que o homem também é um animal). De certa forma, Outras Mentes lembra bastante o que Oliver Sacks fez: o neurologista partiu de casos selecionados e desnudou a neurologia, o cérebro e os limites da percepção humana para um público maior e curioso. Se você faz parte desse público, mergulhe com Godfrey-Smith pelas infinitas veredas da evolução.

[Os polvos] Têm o sistema nervoso grande por causa do que seus corpos sem limitações possibilitaram, e porque precisam caçar enquanto são caçados; sua vida é curta porque a duração de sua vida se ajusta à sua vulnerabilidade. Essa combinação, inicialmente paradoxal, faz sentido.

Fun fact: leitores de H. P. Lovecraft sabem que o Cthulhu geralmente é retratado em ilustrações como um monstrengo cósmico com uma grande cabeça e diversos tentáculos. Ou seja, um cefalópode. Sempre achei que fosse a representação de um polvo, mas lendo Outras Mentes descobri que, na verdade, as ilustrações do grande Old One estão mais para um choco, um primo do polvo, muito menos estudado, mas também com um grande cérebro.

OUTRAS MENTES: O polvo e a origem da consciência
Peter Godfrey-Smith
Tradução: Paulo Geiger
Editora Todavia
280 páginas

Capitão Nemo, Sharon Van Etten e James Blake

CAPITÃO NEMO | ⭐⭐⭐⭐

Quando escrevi sobre o Bon Voyage, primeiro disco da banda Capitão Nemo, ressaltei que era uma banda de rock que não estava perdida em um mundo cor-de-rosa, usando mesmo o poder de riffs e bateria firme para falar inclusive de problemas sociais sem perder o feeling pop. E essa é a característica dos piracicabanos que continua ressoando no novo EP da banda, EU NÃO NASCI PARA SER O MESMO.

É um lançamento bem curto (nem 15 minutos de som) com quatro faixas curtas, mas já mostram a banda mais madura e deixam a porta aberta para um segundo disco tão bom ou melhor que Bon Voyage.

Como cantor, Bruno Razera está ainda melhor. Não só não há o que dizer de coisas mais técnicas como afinação e respiração, mas o carisma que transmite com seu timbre, mesmo que ele não esteja cantando na sua frente, é algo que fica ainda mais nítido em Eu Não Nasci Para Ser o Mesmo. O rock das duas primeiras faixas, “Ser o Mesmo” e “Aqui Se Faz, Aqui Se Paga”, é rápido e direto. Mesmo que tenha algo de vintage, seja na escolha dos instrumentos, pedais ou amplificadores, a produção soa moderna e sofisticada, com diversos bons arranjos, dando mais corpo às canções. Ponto para a banda e para a produção de Giu Daga, que tem três Grammys latinos no currículo e trabalhas com Titãs e NX Zero.

“Carta” não tem tom crítico ou político, mas é, para mim, a canção desse EP que resume como o Capitão Nemo está mais sofisticado. É uma música de fácil assimilação e que poderia tocar em FMs, podcasts, entrar em boas playlists do Spotify e em trilha de novela global. Mas não digo isso porque ela é comercial. Se tem algo que o Capitão Nemo não se tornou é uma banda de musiquinhas chicletonas e gratuitas. “Carta” é muito bem composta e cria uma atmosfera quase cinematográfica na forma como guitarra, violão e piano se complementam.

Como EP, Eu Não Nasci Para Ser o Mesmo cumpre o papel de introduzir uma nova fase da banda nas mãos de um novo produtor. Em um cenário em que identidade é o que mais falta ao rock’n’roll nacional, sentir que as características do quinteto estão bem preservadas é um excelente primeiro passo até a chegada do novo álbum.

SHARON VAN ETTEN | ⭐⭐⭐⭐

Não é questão de preferir um álbum ou outro. É questão de observar como os cinco anos que separam Are We There e REMIND ME TOMORROW mostram como Sharon Van Etten é mais do que você imaginou que ela seria. Lembro claramente do barulho que Are We There fez em 2014 e como rendeu o maior reconhecimento para a compositora que ela jamais tivera. Como superar aquilo?

Durante todo o tempo em que esteve fora dos estúdios e sem material inédito, ela se formou, teve um filho, virou atriz na série The OA da Netflix e trocou as guitarras por pianos e novas texturas. E ainda assim ela continua soando tão indie rock e indie pop quanto antes, com a mesma melancolia, sem se render aos refrãos fáceis. Muda-se a produção musical, mantém-se o mesmo DNA.

Às vezes, ao discutir a estética do artista, olhamos apenas para o som que está saindo de nossos fones e dos falantes do aparelho de som – e isso certamente faz parte da estética. Mas há um elemento mais fundamental, que também é estética, que é a forma como se compõe tudo aquilo, quais são as linhas mestras por trás do resultado sensorial final. Veja que o gênero tragédia, para um filme, não muda. Uma tragédia é um conceito estético, seja ela retratada em um futuro cheio de luzes e decadência urbana, ou num épico grego de milênios atrás, ou em uma história íntima em 2019. Sharon Van Etten tem seu jeito de fazer as coisas, tem sua própria voz, acima de tudo, e isso não mudou em Remind Me Tomorrow, mesmo que o instrumental possa ser outro.

O álbum tem a tristeza de “I Told You Everything”, a força de “Comeback Kid”, a atmosfera de “Jupiter 4”, o rock alternativo de “Hands” e todo o feeling de “Seventeen”, faixa no qual Van Etten não se segura e, sem aviso, grita. E esse grito mostra que não é nem tudo precisa ser polido, há espaço para a emoção saltar pra fora do peito.

JAMES BLAKE | ⭐⭐⭐🧞‍♂️

Um dos artistas mais interessantes da música eletrônica, James Blake permanece fiel ao seu jeito quase abstrato de fazer música. “Assume Form”, que abre o disco e dá nome ao disco, é a melhor música de ASSUME FORM também. Muda de harmonia, se contorce, coloca orquestrações, coloca um sample de voz sintetizada em loop e só então encontra sua regularidade. A beleza em sua música nem sempre vem fácil. É preciso se deixar levar, entrar no jogo do músico inglês, e ouvir diversas vezes, até que o que soa estranho soe (quase) natural.

Assim como seu nome é bastante requisitado para colaborações, dessa vez ele também pediu para que artistas do hip hop, como André 3000, Travis Scott e Metro Boomin, estivessem em seu álbum. O álbum é uma direção bem mais calcada no hip hop em “Mile High”, “Tell Them” e rap em “Where’s The Catch?”, faixas em que esses artistas aparecem. A cantora espanhola Rosalía também contribui com seus vocais quase etéreos em “Barefoot In The Park”, cantando inclusive versos em espanhol.

Dizer que Assume Form é mais upbeat não significa dizer que Blake tenha encontrado a felicidade em si. Há ainda uma grande quantia de melancolia e experimentação no que ele faz (“Don’t Miss It é o encontro desses dois elementos), mas há também canções mais diretas e que tomam menos detours e acabam sendo pontos altos de Assume Form. É o caso de “I’ll Come Too” e “Power On”. A vulnerabilidade, expressa em sua voz e em sua produção esmerada, ainda são marcas que o inglês sustenta.

Assume Form também tenta dar conta de uma mudança de ares. Blake agora vive em Los Angeles e namora a atriz, modelo e ativista Jameela Jamil. Embora diversas letras sejam sobre ele mesmo e o que ele sente, o artista deixou claro que quase tudo no álbum tem uma referência em seu atual relacionamento. Um rapaz tristonho, sim, mas romântico também.

Suspiria tem o clímax mais diabólico dos últimos tempos

O diretor italiano Luca Guadagnino não brincou em serviço ao fazer uma releitura do clássico Suspiria de seu conterrâneo Dario Argento. Guadagnino não desperdiçou nenhuma chance de mostrar toda a sua verve como diretor, uma verve aliás que envolve correr diversos riscos, como já haviam em outros de seus filmes, mas nunca, nunquinha, titubear. Seu SUSPIRIA sabe o que é, ou melhor, o diretor sabe o que quer com seu filme e mostra que maturidade na hora de contar uma história, e liberdade criativa para isso, contam a seu favor.

As surpresas não tardaram. Para começar, esperava uma estética mais limpa e iluminada, como são os filmes de hoje, mesmo aqueles com orçamentos mais baixos. Guadagnino e seu diretor de fotografia, Sayombhu Mukdeeprom, no entanto, optaram por captar imagens mais realista, sem se importar em iluminar tudo o que estaria em cena, o que capta uma atmosfera mais opressiva e distante, com uma paleta de cores mais apagada, fugindo da saturação de 1977. Esperava um filme mais lento, mas novamente Guadgnino e seu montador, Walter Fasano, encheram sua versão de Suspiria de cortes violentos, secos, rápidos, com vários inserts um tanto estranhos e às vezes até desconcertantes, sem falar em zooms rápidos que hoje quase não existem mais. Esses elementos tanto afastam o filme de produções recentes do terror quanto o aproxima do original de 1977. Mas não fica a impressão de que a nova produção está querendo reproduzir ou “homenagear” Argento. Suspiria pega emprestado algumas coisas, mas em 2018 o filme tem seu próprio DNA.

O roteiro de David Kajganich também colabora para que o novo Suspiria se mantenha em pé sozinho e de forma gloriosa ao seu estupendo final. Dê um tapa na cara de quem disser “Ain, tem que ver o original para entender o novo”, certo? Na trama, estamos de volta à Berlim de 1977, a Segunda Guerra Mundial e os efeitos do nazismo ainda assombram a cidade em plena Guerra Fria. Susie Bannion (Dakota Johnson), uma intrépida alma do interior de Ohio, vinda de uma família menonita (um grupo cristão), precisou se rebelar contra família e religião para se tornar dançarina e enfim ser aceita na Academia Markos, o coletivo liderado por madame Blanc (Tilda Swinton) que possui um coração extremamente sombrio. Enquanto isso, Patricia (Chloë Grace-Moretz), tenta avisar seu psicanalista que está em maus-lençóis e deixa o homem (também interpretado por Swinton) com a pulga atrás da orelha, embora cético sobre toda a parte da bruxaria relatado pela menina.

Só por essa breve introdução já é possível perceber que Suspiria 2018 segue a trama de Suspiria 1977 mas já introduz diversos outros elementos, dando mais estofo aos personagens. No original, você descobre que a companhia de dança é lar de um coven de bruxas lá na frente; desta vez, a magia está presente desde o começo, se manifestando de formas bem criativas e crueis, aliás, demandando o mínimo de efeitos visuais. Não é um filme de terror de sustos. Isso é importante: nada vai te pegar de surpresa e te fazer pular da cadeira. O filme não demora a mostrar que não precisa economizar no sangue, no gore, nos corpos retorcidos (afinal, estamos em uma academia de dança). E garanto: o clímax planejado por Guadagnino e Kajganich é muito mais diabólico que o original ou qualquer outro dos últimos tempos.

Sobre atuações, nem é preciso dizer que Tilda Swinton está excelente como sempre. Além de madame Blanc, retratada de forma muito limpa (roupas neutras, cabelão escorrido, pouquíssima maquiagem), ela interpreta o terapeuta e uma das grandes bruxas do filme, sempre muito carregada de maquiagem. Dakota Johnson também está muito bem em seu papel. A fama de atriz ruim surgiu com seu trabalho na trilogia 50 Tons de Cinza, e então parte do público confundiu um filme ruim com roteiro e direção preguiçosos com uma incapacidade da atriz. Dakota não é incapaz. A mesma confusão (que acaba virando uma implicância) ocorria com Kristen Stewart durante a tetralogia Crepúsculo. Depois ela participou de filmes do diretor francês Olivier Assayas e vejam só que boa atriz ela é.

Uma das grandes contribuições dessa releitura é colocar um peso político maior em Suspiria. Isso tanto se reflete em como Nazismo e Guerra Fria são fantasmas ao redor de personagens e contexto da época e também no Feminismo, sendo afirmado desde que Susie é aceita na companhia de dança, sendo criticado ao longo do filme na forma como pode se manifestar quando há abuso, e enfim recolocado em seu trilho. O Feminismo também está presente na forma como a trindade de mães (das Trevas, das Lágrimas e dos Suspiros) são entidades anteriores ao cristianismo e à ideia de diabo, sedimentando um contexto matriarcal. A impotência masculina, aliás, está muito presente nesse filme. O roteirista tomou o cuidado de deixar tudo dentro do filme, seja em imagens ou em pequenos diálogos, para que o espectador leia as entrelinhas. Também há uma questão de poder dentro da academia/coven ocorrendo ao longo do filme.

A própria resolução da parte mais mística e satânica do filme pode confundir algumas pessoas, mas se não há diálogos para deixar tudo às claras, Luca Guadagnino se serviu de material visual e da montagem para poder ligar uma coisa na outra e assim quem assiste monta o quebra-cabeça.

É interessante também ver como os arcos de personagens são ricos. A poderosa Madame Blanc experiencia um arco negativo de queda, segundo a nomenclatura usada por K. M. Weiland em seu livro Creating Characters Arcs. Susie, seduzida pelas bruxas, engana o público, seguindo um arco negativo de ilusão. No entanto, ao final, temos uma reviravolta e, com a aceitação de Susie – ou sua consciência desperta – passamos a ver um arco negativo de corrupção (o mesmo vivido por Anakin ao final do terceiro capítulo de Star Wars ou de Walter Walt no fim de Breaking Bad). Ao mesmo tempo, apesar das trevas dentro da garota, Susie aparentemente redireciona o coven para um estado menos abusivo.

Coisas curiosas para se prestar atenção: Dario Argento, criador e diretor do filme original, é um dos produtores de Suspiria. Jessica Harper, que interpretou Susie no passado, faz uma participação. “Suspiria” é uma das placas luminosas atrás de Susie assim que ela chega a Berlim. David Kajganich é o roteirista por trás do seriado The Terror. Os diretores Paul Thomas Anderson, Quentin Tarantino e Edgar Wright, assim como o compositor japonês Ryuichi Sakamoto, estão entre os agradecimentos de Suspiria. Fique até o fim dos créditos para uma ceninha extra.

Suspiria é um excelente terror que não fica em cima do muro: não joga todos os fatos sobrenaturais como se fossem apenas fenômenos psicológicos e ainda encontra um jeito de ligar a situação política com tudo o que está ocorrendo na companhia de dança. Luca Guadagnino segue lançando filmes muito diferentes entre si e muito bons, sem fazer concessões para tornar sua obra mais palatável para um público maior. Provavelmente não será indicado a nenhum grande prêmio, mas deve ganhar todos os corações negros dos apreciadores do horror.

RDR2 – Sobre cavalos, amores e mulheres – Parte 4

Perdi o Marlon, meu cavalo de guerra. Não sei o que aconteceu, mas o equino que me acompanhou por mais de 100 horas simplesmente sumiu do meu estábulo, do meu mapa, do meu RDR2. Era um excelente cavalo. Praticamente sozinho, eu e ele completamos 8 desafios de Equitação do jogo. O nono é cavalgar de Van Horn até Blackwater sem tocar a água em menos de 17 minutos, uma tarefa que só poderei completar após terminar os seis capítulos da história principal.

Por sorte, tinha capturado um Nokota azulado, um cavalo de corrida. Cavalguei muito com ele, já que meu cavalo de guerra desapareceu. Até que precisei ir a uma região geladíssima para caçar um Bisão Lendário. Eis que me deparo com duas coisas: no alto de um morro de nove, um cara congelado, morto, mas preservado, com uma arma na mão. O jogo me diz que a arma eu poderia pegar, mas não me deixa interagir com ela. Não atirei e nem joguei uma garrafa incendiária para não quebrar o homem de gelo. A segunda coisa que encontrei foi uma égua Árabe Puro Sangue!

Os Árabes Puro Sangue são animais difíceis de encontrar, caros e muito bons. Apesar do Nokota ser um animal de corrida, o Árabe é mais rápido. Demorei quase 40 minutos até conseguir domar a égua branca, que batizei de Celeste. Provavelmente será minha companheira de viagem pelo resto do jogo. Com as selas bem evoluídas que já tenham, todos os status do animal estão no máximo. RED DEAD REDEMPTION não é Red Dead Redemption sem um cavalo. A gente se afeiçoa ao animal. ❤

Meu coração se parte toda vez que preciso alvejar com minha Carabina de Repetição um animal lendário. O Alce Lendário, grande, imponente, belo e branco como a neve, caminhando perto do riacho, foi uma das coisas mais velas que vi no jogo. Mas tarefas são tarefas.

Leia a 1ª parte da crônica RDR2 – Lá Vem a Morte

AMOR E MORTE

Antes que Hosea, John Marston, Dutch Van Der Linde e o resto da gangue acabasse com os Gray e com os Braithwaite, duas famílias rivais na região de Rhodes, eu fiz papel de pombo correio. Um jovem da clã Gray, Beau, se apaixonou por uma jovem do clã Braithwaite, Penelope. Tive que levar uma carta para ela, depois uma resposta para ele. Houve uma passeata em prol do direito das mulheres votarem nos EUA de 1899 e como Penelope ia participar, acabei pegando o trabalho de dirigir a carroça e protegê-la. Deu tudo certo. No fim das contas, após os dois massacres, os jovens sobreviveram (a garota com certeza, Beau não sei, mas não me lembro de ter pipocado seu peito com meu Rifle de Ferrolho). Mas não devem ter acabado juntos. A matriarca dos Braithwaite morreu em sua mansão. Após o incêndio é possível voltar ao local – para roubar umas barras de ouro dos destroços da casa grande – e ver seu corpo carbonizado.

No alto de uma montanha – que nem é tão alta assim e ainda tem um andaime – encontrei um arquiteto enforcado. A carta que achei com ele diz que foi por amor. Ou por falta de amor, na verdade. Aparentemente ele estava esculpindo o rosto da amada na pedra. Ficou pela metade, a obra e a vida. Em uma de minhas cobranças para o agiota Strauss, encontrei a família Downes. O pai estava doente e trabalhando a terra quando o achei. Insistiu que não tinha dinheiro para pagar o empréstimo, então não tive outra saída a não ser dar porrada nele. Não usei nenhuma arma, apenas os punhos, e foi suficiente para marcar seu rosto. A mulher e o filho apareceram e me impediram de “insistir” na cobrança. Fiquei com pena da situação, do garoto vendo seu pai ser esmurrado, da mulher vendo o marido dando duro e tendo que pagar esse preço. É em momentos assim que Red Dead Redemption 2 nos lembra que por mais honrados que queiramos ser com nosso Arthur Morgan, ainda somos um anti-herói capaz de coisas terríveis e de pouco peso na consciência.

Mas o personagem é só um monte de códigos de programação e uma modelagem 3D. Não há consciência mesmo. O incrível é como a Rockstar atinge a nossa em cheio, como se fosse a bala disparada de um Rolling Block.

Passeando por uma fazendo de porcos (mas sem muitos porcos), encontrei um casal simpático, os irmãos Aberdeen. Ele é grande e corpulento. Ela é uma mulher com tudo em cima. São estranhos, porém. Ela sentou no colo dele e sem cerimônias o cara alisou a bunda dela. Comi e bebi com eles até passar mal e acordar sem dinheiro, com minha vida por um fio, em uma vala de lama cheia de outros corpos. Tomei um tônico e voltei à casa dos irmãos incestuosos. Encontrei a mulher no andar de baixo e a amarrei no chão. Assim que o grandão apareceu, meti um balote de escopeta em seu crânio, que foi debulhado pelo projétil. O corpo do homem sem cabeça caiu bem ao lado da irmã, que berrava imóvel no chão. Vasculhei a casa e peguei tudo o que podia, inclusive encontrei todo o meu dinheiro atrás de um quadro. Levei a mulher para o quarto dela no andar de cima. Joguei-a na cama, acendi uma dinamite bem ao lado dela e esperei pelo espetáculo. O grito de morte da senhora Aberdeen foi seco. Esperava que o corpo explodisse pelo quarto, o que não aconteceu. Fiquei decepcionado.

Leia a 2ª parte da crônica RDR2 – Mas Será o Cthulhu?

O’DRISCOLLS E MULHERES

Ao longo da história principal do jogo – que eu não tenho comentado muito nessas crônicas, mas quando me aproximar de seu final comentarei – estabeleceu-se uma richa entre a gangue Van Der Linde e a de Colm O’Driscoll. Algo a ver com Dutch ter matado o irmão de Colm e, como vingança, o líder dos O’Driscolls assassinou o interesse amoroso de Dutch. Agora a gangue inteira está no meio desse fogo cruzado, inclusive mulheres e crianças.

Logo no início do game, Kieran, um jovem pobre coitado que acabou se tornando um O’Driscoll, é capturado pelos Van Der Lindes. Ele salva a vida de Arthur durante uma investida contra sua antiga gangue e ganha o respeito e parcial confiança do grupo, podendo circular pelos acampamentos, trabalhar, comer e dormir como um novo integrante. A certa altura do capítulo 4, ele some do acampamento e vários personagens começam a questionar onde Kieran teria ido. Mary-Beth é uma das que mais se importam com o rapaz. Talvez rolasse algo entre eles.

Pois bem. Eis que o jogo te ludibria, mandando você conversar com a Sadie, uma mulher fodona do grupo, como se uma missão com foco nela fosse começar. No entanto, após alguns poucos diálogos, Red Dead Redemption 2 mostra um cavaleiro entrando lentamente no acampamento. Ele está com a cabeça decepada, segurando o crânio com as mãos em seu colo. É Kieran. Pobre Kieran, deve ter sido capturado pelos seus antigos colegas de gangue e torturado até revelar onde estava o acampamento de Dutch. Pagou um preço alto por mudar de lado – como se ele tivesse alguma escolha caso quisesse sobreviver mais algum tempo.

Atrás desse cavaleiro-sem-cabeça veio um enxame de O’Driscolls atirando para matar. Eu morri duas vezes durante essa invasão, mas quando completei a missão nenhum companheiro, mulher ou criança havia se ferido. Foi um dos tiroteios mais intensos que RDR2 ofereceu ao seu gameplay até agora na história principal. Em dado momento, precisei abandonar a casa que estava defendendo para ajudar Sadie. Ao chegar ao local onde ela estava, vi a mulher lutar com três O’Driscolls de uma vez e abater cada um deles. A mulher é fodona mesmo!

Sadie juntou-se ao grupo logo no primeiro capítulo de Red Dead Redemption 2, quando Arthur Morgan, Dutch e outros da gangue seguem os O’Driscolls até uma casa no meio da neve. A casa era de Sadie e seu marido, que acaba executado pela gangue invasora. Durante essa missão, limpamos a área da presença da turma de Colm e encontramos Sadie em choque com a morte a sangue frio do marido. No meio do tiroteio, sua casa, seu único patrimônio nesse oeste americano selvagem, é incendiada. Ela também entra para o grupo como forma de sobreviver. A princípio, ela é arredia e fica distante de todos do grupo em nossos diversos acampamentos de fugitivos da lei. Ela se integra de verdade quando tem a chance de portar uma espingarda e vestir camisa e calça. Ela é uma caçadora, uma mulher de ação.

Falando em mulheres fodas, a partir do capítulo 2, em um salloon de Valentine, você pega a missão paralela de ajudar um escritor a coletar relatos dos mais lendários pistoleiros do velho oeste sobre Jim Boy Calloway. Então lá vai Arthur Morgan e seu cavalo rodar o mapa de RDR2 atrás de quatro pistoleiros. São três homens e uma mulher. Dois desses homens não querem conversa, pois são procurados pela lei e por caçadores de recompensa, então quando eu apareço sou logo obrigado a enfiar um projétil no corpo deles. Já que eles não falaram nada de Jim Boy, fotografo o corpo sem vida deles para entregar ao escritor. O terceiro pistoleiro já teve dias mais gloriosos. Atualmente, no jogo, ele cuida de um sitiozinho e vive cheirando a bosta de porco. Ele acaba contando que Jim Boy era um covardão do cacete. A gente se desentende e foi preciso passar a faca nesse cara também. Tiro foto do corpo. A última da minha lista é a mulher pistoleira. Ela vive numa cabana no meio do pântano no Bayou. Me recebe desconfiada, mas quando caçadores de recompensa aparecem atrás do prêmio por sua cabeça, me uno a ela e, juntos, despachamos a corja. Foi uma batalha bem sangrenta que deixou muitos cadáveres para servir de alimento para jacaré. Ela, já idosa mas ainda mortal, posou para uma foto e contou que as história do pistoleiro Calloway não passam de histórias. Em seu bando, qualquer um(a) tinha mais coragem e iniciativa que ele.

Ela acaba abandonando sua cabana, já que seu paradeiro foi descoberto. Coloca uma trouxa de roupas em um ombro e pendura o rifle no outro. Nunca mais devo encontrá-la, mas aí está uma personagem que poderia render muitas aventuras e diálogos deliciosos.

Leia a 3ª parte da crônica RDR2 – Cadê o Gavin? Cadê a Miriam?

Valciãn Calixto, Kovtun e Sungazer

VALCIÃN CALIXTO | ⭐⭐⭐⭐⭐

De surpresa, partindo de uma brincadeira em seu perfil no Facebook, o piauiense Valciãn Calixto lançou MÚSICAS PARA SE OUVIR NA BAD DURANTE O PERÍODO CHUVOSO DE TERESINA em seu Bandcamp. São cinco canções, todas violão e voz e gravadas com nada mais do que um celular. Se você ouvir mais do que seis cordas do instrumento e o vocal do cantor, saiba que nada foi acrescentado em pós-produção. São sons do ambiente caseiro dele entrando na captação do smartphone e dando uma ambiência sutil ao registro.

MPSONBDOPCDT é íntimo, como o Crush Songs da Karen O. São quatro músicas do Valciãn e um cover. O som do violão é extremamente nítido. Que pena que ele não erra no dedilhado e nem trasteja. A Karen faz dessas e ficou legal. Valciãn, embora tenha gravado tudo quase de uma vez só, logo após meter na cabeça que lançaria o EP, tem um domínio muito bem do violão e dos próprios arranjos.

É só ouvir “Fim de Ano” para sacar como sua voz aparece muito melhor posicionada, com afinação acertada, um nível técnico bem maior do que o apresentado em FODA!, seu primeiro álbum (pega lá no Spotify, bebê). Isso só aumenta minha ansiedade pelo próximo álbum completo de Valciãn Calixto, que de Foda! para cá já evoluiu demais.

Não julgue as letras de Valciãn muito cedo. A amostra presente em Músicas Para Se Ouvir Na Bad Durante o Período Chuvoso de Teresina têm uma lírica que é melancólica e irônica, reflexiva e ácida. Ele fala do ponto de vista do homem e da mulher comuns com seus dramas hipercomuns, mas sempre chega a um ponto interessantíssimo. “Teoria do Abacaxi”, por exemplo, sou eu próprio descrito ali. Talvez ele esteja descrevendo você também.

KOVTUN | ⭐⭐⭐⭐👻

Desde que DEATH saiu, ouvi o álbum uma vez por dia pelo menos. É aquela coisa: música ambiente, sombrio, às vezes tem silêncio sinistro, às vezes tem ritmos sinistros, às vezes parece que você está num hospital abandonado, às vezes parece que a indústria do desconhecido tá em plena atividade.

Kovtun é o stage name de Raphael Mandra, de Ribeirão Preto (SP), que produz esses sons para quem gosta de música para além de ritmo, melodia, harmonia e letras. Não é todo mundo que curte essa parada, eu sei, mas todo mundo que curte um dark ambient conhece Kovtun (ou deveria conhecer).

A cada trabalho, Raphael tenta incluir elementos novos sem perder de vista o núcleo sonoro de faz do Kovtun o que ele é. Enquanto alguns artistas partem do cavernoso para criar alguma beleza (caso da Demen e também do Arca em alguns momentos), me parece que Kovtun não está muito interessado em dar esse salto para o outro lado, mantendo o seu mundo sonoro tenso, misterioso, e com pouca luminosidade mesmo. Achei Infernal, de 2017, um tanto ruidoso. Death, por outro lado, é muito mais equilibrado e ouvi todas as vezes do começo ao fim sem sair do clima proposto pelo artista.

“The Swarm” é minha faixa preferida. “Everything Must Finish Exempt From Suffering” é a mais fora da caixa, pois basicamente são duas faixas, uma sobreposta à outra. Ideia sensacional, execução inteligente, desconforto garantido.

SUNGAZER | ⭐⭐⭐⭐😵

SUNGAZER VOL. 2 é um EP muito bom do duo Sungazer, formado pelo baixista Adam Neely e pelo baterista Shawn Crowder. Vol. 2 segue o estilo do Vol. 1, entregando mais uma leva de canções que fundem jazz com EDM, glitch e sons de videogame 8-bits. A dupla faz coro com as encarnações mais atuais possíveis do jazz nova-iorquino.

Adam Neely é um estudante de música muito dedicado e possui um canal no YouTube que, aparentemente, virou sua melhor fonte de renda. E o conteúdo dele é bom mesmo, eu garanto! A música que ele faz com Shawn Crowder não é bolinho e nem viraria hit no YouTube: cada faixa tem uma profusão de ritmos, harmonias complexas, momentos de groove, momentos de virtuose, difícil saber onde termina o jazz e a loucura com a música eletrônica começa. Mas sério: se você acha que jazz hoje ainda se resume ao que viu em filme do Damien Chazelle ou em figurões antigos, ouça Sungazer e surpreenda-se.

“Drunk” foi gravada com os músicos realmente altos de tanto beber. “Bird on the Wing” é provavelmente a minha favorita do EP, cheia de vida, de ideias e em compasso 9/8. “Electro” tem ritmos complexos e quebrados, carregada de efeitos sonoros em sua porção mais EDM, além de um ótimo solo de sax no miolo.

Se neste início de 2019 você estiver procurando algo que represente o que existe de mais arrojado em termos de música contemporânea e que tenha um lado comercial, Sungazer Vol. 2 é um ótimo exemplo.

A Pé Ele Não Vai Longe, Os Irmãos Sisters e Sorry To Bother You

A PÉ ELE NÃO VAI LONGE

O novo filme do diretor Gus Van Sant é sobre John Callahan, um cartunista que sofreu um acidente nos anos 70 e ficou paraplégico. É uma história, em nível profundo, sobre enxergar quem você é, suas limitações e aceitar suas merdas, sem autopiedade e sem culpar quem não tem, de fato, culpa pelas péssimas escolhas que você fez. E A PÉ ELE NÃO VAI LONGE (Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot) cumpre muito bem esse papel.

Joaquin Phoenix é extremamente convincente como Callahan, e não é fácil imitar um tetraplégico, com movimentos limitados, a forma como usava os pulsos e não as mãos para segurar objetos (garrafas de uísque, canetas, etc), a forma como o corpo deve ficar em uma cadeira de rodas, etc. Jonah Hill, como Connie, o padrinho de Callahan na Alcoólicos Anônimos, está um gigante. Rooney Mara, como Annu, está a fofura sueca em carne e osso.

O filme é considerado uma comédia, mas não espere muitos risos no fim das contas. Ele é bem mais dramático do que qualquer outra coisa, já que o o personagem lida com questões bastante sérias, como o alcoolismo antes e após o acidente, a impossibilidade de um relacionamento amoroso e o abandono da mãe quando criança. Não é uma história para chorar, pois Van Sant não apela para sentimentalismo, mas é tocante em diversos momentos.

A Pé Ele Não Vai Longe estreou em Sundance em janeiro de 2018 e só agora, um ano depois, chegou aos cinemas brasileiros, com distribuição da Amazon. A produção se baseia no livro de memórias do cartunista e o próprio Callahan está creditado como um dos idealizadores da história que deu origem ao roteiro de Van Sant. Mas Callahan morreu em 2010, o que nos dá uma boa ideia do tempo em que o projeto estava sendo gestado. A princípio, Robin Williams (que faleceu em 2014) interpretaria o protagonista.

OS IRMÃOS SISTERS

OS IRMÃOS SISTERS (The Sisters Brothers) é um western que se passa durante a corrida do ouro na Califórnia. Apesar de ser um gênero e uma história tipicamente estadunidense, é uma produção francesa dirigida por Jacques Audiard, seu primeiro filme todo falado em inglês. O filme estreou no Festival de Veneza de 2018 e foi muito mal na bilheteria norte-americana. Uma pena, pois foi um dos filmes mais tocantes que vi ano passado.

O elenco está primoroso. A princípio, acompanhamos as aventuras dos irmãos Charlie (Joaquin Phoenix) e Eli (John C. Riley). Um é beberrão e impulsivo, outro é mais comedido e já pensa em um futuro diferente para si mesmo. Apesar das diferenças de planos e personalidade, ambos são igualmente mortais e trabalham como assassinos para um comodoro do Oregon. Descem a costa oeste dos EUA atrás do investigador John Morris (Jake Gyllenhaal) e do químico Hermann Warm (Riz Ahmed), que aparentemente desenvolveu uma nova técnica para procurar ouro e o comodoro quer o segredo a todo custo.

Os Irmãos Sisters é sobre manipulação política e ganância, mas também é um conto moral sobre empatia e o que realmente importa no final das contas em um ambiente inóspito em que a lei está longe de ser aplicada a todos. Embora nos identifiquemos com Eli e Charlie, eles são matadores de aluguel que vão enfrentar aranhas, ursos, outros capangas do comodoro e uma gangue que usa chapéu de pele de guaxinim. É um drama, mas faz valer seu lado western com variados obstáculos e até um lado filosófico.

Duas coisas são preciosas em Os Irmãos Sisters. Primeiro, poder ver Phoenix, Riley, Gyllehaal e Ahmed atuando juntos. Segundo, assim que nossos olhos se enchem e nosso coração se aquece com o clímax da história, logo em seguida Audiard nos dá o maior banho de água fria, só para nos fazer perceber o quanto aprendemos a gostar daquele quarteto.

SORRY TO BOTHER YOU

Da safra 2018 de Sundance temos também SORRY TO BOTHER YOU, primeiro longa-metragem do rapper, produtor, roteirista e ativista Boots Riley. É um filme norte-americano, de comédia e drama, com laivos de ficção-científica. Assim como o Infiltrado Na Klan, de Spike Lee, é um filme sobre o homem e a mulher negros dos EUA neste momento, com um ethos forte e que não tem medo de parecer panfletário para falar o que precisa.

Cassius Green (Lakeith Stanfield, perfeito em suas caras de dó) começa a trabalhar em uma empresa de telemarketing, mas vai mal. Tudo parece sem sentido para ele, até que recebe a dica de ligar para as pessoas usando sua voz de branco, sem dar a entender pelo telefone que é um afro-americano. É aí que sua carreira deslancha. Ele sabe que a grana federal que começa a entrar em sua conta vem manchada de sangue e durante o segundo e terceiro atos do filme, ele vai ver e sentir quão inescrupuloso o capitalismo pode ser.

O elenco é bem legal (completado por Tessa Thompson, Steven Yeun, Danny Glover e participação de Terry Crews) e a trilha sonora original foi feita pela Tune-Yards. Além disso, Boots Riley juntou o seu grupo de rap The Coup para gravar canções especialmente para o filme. Não é um ataque à administração Donald Trump, pois o roteiro foi concebido durante o governo Obama. Seja qual for o presidente, os mecanismos do capitalismo mais agressivo continuam sendo os mesmos e Sorry To Bother You teria o mesmo impacto hoje ou daqui três anos.

Quando a porção mais sci-fi da história começa a tomar corpo, o filme bambeia, quase perde o seu chão, mas o diretor segura firme as rédeas e consegue chegar a um final plenamente satisfatório, desde que o público abrace a piração, é claro. Ela não é gratuita e se se afasta do realismo, é porque às vezes o absurdo não só ajuda a entreter, mas ilustra melhor o que pode ser difícil colocar em palavras.

Homem-Aranha encontra sua melhor casa no Aranhaverso

Quem diria que um filme animado do Homem-Aranha seria o melhor filme do Homem-Aranha que já vimos na telona? Não só tem uma forte base nos quadrinhos como também se aproveita do que já ocorreu na trilogia Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi na década passada. Peter Parker está lá, mas o verdadeiro amigo da vizinhança é o afrodescendente e latino-americano Miles Gonzalo Morales, o novo Homem-Aranha de um universo dos quadrinhos desde 2011 pelas mãos do roteirista Brian Michael Bendis.

Foram todas decisões acertadíssimas pela Sony, em parceria com a Marvel, para transformar HOMEM-ARANHA: NO ARANHAVERSO (Spiderman: Into The Spider-Verse) no filme de super-herói mais estiloso e interessante que o estúdio já fez.

Desde que o primeiro trailer saiu, já deixando claro que o jovem estudante Morales seria o protagonista, e não o fotógrafo Peter Parker, ficou a sensação de que estavam enfim fazendo um filme de personagem de quadrinhos que realmente tinha a vibe dos quadrinhos. Assistir essa animação é se reencontrar nas páginas. Não apenas elementos da linguagem dos quadrinhos estão na tela a todo momento – recordatórios, onomatopeias, divisão da tela/página em quadros – como há uma textura que se repete em diversos momentos para imitar aquelas bolinhas de tinta no papel, visíveis se você olhar uma página de gibi com um microscópio.

O fato de Homem-Aranha: no Aranhaverso ser uma animação ajuda a comprarmos tudo o que ele propõe. Como não há uma figura humana de carne e osso e cenários reais, nossa suspensão de crença automaticamente já se ajusta à todas as possibilidades que uma animação pode ter, que são muito menos críveis em live action.

O humor funciona muito bem e não é forçado em momento algum. Há drama também, principalmente da parte de Miles Morales e de Peter. Miles precisa lidar com uma nova escola mais elitizada que não fica mais em sua área no Brooklyn, precisa lidar com o fato de que seu pai é um policial que não gosta do Homem-Aranha, e lidar com várias outras transformações que são levadas à décima potência quando é picado por uma aranha radioativa.

Peter Parker, que vem de outra realidade, não está na melhor forma física e anda meio decepcionado com essa coisa de ser um herói em Nova York. Em sua realidade, não queria filhos (o que se torna mais um de seus dramas ao lidar com Miles) e se divorciou de Mary Jane. Quando os personagens chegam a base do Peter Parker da “realidade normal”, Miles logo se encanta pelos uniformes e alta tecnologia do lugar. Peter não liga pra nada disso, mas se comove com uma fotografia de casamento com Mary Jane. Isso não é evidenciado em palavras, são as imagens que contam esse detalhe. Em meio a tantos filmes com atores reais que afogam emoções, achei essa uma das cenas mais maduras dos filmes de super-heróis dos últimos anos.

Há, inclusive, mortes. E elas não são gratuitas. O fato de estarmos em um contexto em que é possível – graças a uma máquina do Rei do Crime – “puxar” elementos e pessoas de dimensões paralelas não vira desculpa para restabelecer pessoas importantes que perderam a vida na realidade de Miles, ou em qualquer outra.

Em 1999, quando Matrix estreou, tive a impressão de que estava vendo o filme mais estiloso da minha vida. Naquela época, era mesmo. Vinte anos depois, me vejo na sala de cinema vendo o Homem-Aranha se balançar pelo Brooklyn e pensando que talvez seja o filme com estética mais estilosa que já minhas retinas já presenciaram. A Imageworks, divisão de animação da Sony, fez um excelente trabalho ao misturar 3D e 2D, fugindo da estética padrão da Disney, da Pixar e da Dreamworks. Os cortes são rápidos, os ângulos de câmera são inteligentemente invertidos a todo momento, aproveitando o fato das Aranhas no filme (são 6, ao todo) conseguirem andar pelas paredes, darem mortais no ar e ficarem presas no teto.

O filme não tenta explorar o fato de Miles Morales ser negro, latino e filho de um policial numa escola elitizada nova-iorquina. Assim, questões raciais e sociais envolvendo sua origem evadem o vitimismo, mas também não são exploradas para chamar a atenção para algum fato mais relevante. Miles é o que é e, se não precisa enfrentar algum tipo de preconceito, também não tem que provar nada para ninguém que tenha a ver com a cor de sua pele ou etnia.

O hip-hop é a trilha sonora do começo ao fima de Homem-Aranha: No Aranhaverso. É uma das melhores trilhas para filme de super-heróis que já montaram, visto o quanto os sons escolhidos se conectam com o protagonista, com a área em que o protagonista vive, com a cultura jovem americana atual e com toda a modernidade do visual do filme, que não raro mistura algo de cyberpunk com psicodelia. Até mesmo a música tema, “Sunflower”, cantada por Post Malone e Swae Lee, é usada de forma inteligente dentro do filme.

Em menos de 20 anos, o cabeça de teia foi encarnado nas telas por três atores diferentes, em três fases distintas. Os dois primeiros filmes de Sam Raimi foram ótimos para o personagem e para o gênero cinema de super-herói. Desde que o Marvel Studios pegou emprestado para integrá-lo ao seu universo cinematográfico, vimos uma significativa melhora nas histórias de Peter Parker.

Contudo, seria a mais mirabolante das situações – tirando Peter Parker do centro e colocando o afrodescendente Miles Morales como protagonista, unindo realidades paralelas (sempre uma faca de dois gumes para roteiristas ansiosos) e fazendo uma animação fora da estética padrão – que o Homem-Aranha encontraria sua melhor casa no Aranhaverso.

Não vamos reduzir ROMA à fotografia, ok?

ROMA é como Alfonso Cuarón falou: um filme sobre uma empregada doméstica no México em 1971, em preto e branco e que não força plot twists para animar a plateia. Filmado digitalmente em uma câmera Alexa, com o formato de 65 milímetros, fazendo qualquer cena doméstica, qualquer fato cotidiano e tomada mais íntima ter a grandeza de um épico de guerra. É por aí que opera a sensibilidade artística de Cuarón, que fez o filme baseado em sua infância, em sua família, no mixteco (um dos dialetos do país) e no México que viu desabrochar a duras penas. Ele foi diretor, roteirista, diretor de fotografia e editor da obra fazendo deste o filme mais pessoal de sua carreira.

Muito já se falou da fotografia de Roma e ela precisa mesmo ser reconhecida. Perdi a conta de quantas cenas foram icônicas para mim. Teve a cena da “despedida” do médico na frente da casa com as crianças na calçada, a tomada dos praticantes de artes marciais, Cleo (Yalitza Aparicio) andando por um bairro sem calçadas, ruas ou esgotamento sanitário, a cena do incêndio, aquela no cinema, o plano sequência do parto, o abraço quente e que mistura alívio e desespero próximo do fim e que virou cartaz do filme. Que coisa linda tudo isso! A câmera se comporta como uma mera testemunha de tudo e sua movimentação, que parece meio canhestra a princípio, faz com que as perambulações dos personagens tenham que ser milimetricamente encenadas, e mesmo assim diretor e elenco fazem tudo soar natural.

Mas por favor não reduza Roma à sua fotografia. É como reduzir o clipe de “This Is America” às referências. O filme fala por si só, mesmo que pareça muito quieto. A tensão fica no ar, nas entrelinhas dos diálogos, em cada cômodo da casa onde a dinâmica familiar vai ruindo e depois se reconfigurando. Mais do que ver a tensão – e olha que Roma é um filme para não desgrudar os olhos – é preciso sentir como uma coisa leva a outra, como o drama de Cleo fica em segundo plano sufocado pelo que ocorre na casa da família. Se por mais de uma hora parece que os elementos da história soam meio aleatórios, eles vão fazer muito sentido e se unir na segunda metade.

É lindo de acompanhar.

Conforme assistia pela Netflix, diversas vezes me peguei pensando em filmes italianos dos anos 60, como os de Michelangelo Antonioni, mas principalmente os de Federico Felini. É claro que pode ter um pouco desse DNA em Cuarón, mas não soa como homenagem – o que é ótimo, nesse mundo onde parece que uma obra só consegue se fazer notar por certo público se tiver uma “referência” para pescar. Outra coisa que me peguei pensando constantemente é que era um dos melhores exemplos de Cinema que vi em 2018, do tipo que muita gente teria medo de fazer visto que não há mais um mercado de salas de cinema para produções como essa. É por isso que é tão importante que a Netflix esteja promovendo a obra e a colocando em mais de 100 países ao mesmo tempo.

Se eu tivesse que destacar uma cena, seria a dos praticantes de artes marciais, quando o mestre pede que todos juntem as mãos acima da cabeça, recolham uma das pernas formando um 4 e vejam se conseguem se equilibrar. A princípio parece uma cena longa demais e que seria cortada a seus momentos principais em um filme mais prático no roteiro e no trato com sua audiência. Mas Alfonso Cuarón quer dar tempo para sentirmos as coisas e tudo o que se revela nessa cena que aparentemente está sobrando. É importante que Cleo se veja desamparada por Fermín. Mas é mais importante ver do que ela foi capaz sozinha.

Uma vez, durante os anos de faculdade, um amigo (oi, César!) disse que gostava de deixar um dos filmes do Antonioni – acho que era o inglês Blow Up – Depois Daquele Beijo – passando na tevê, sem áudio, só para apreciar as imagens. Roma tem o mesmo poder, com a “vantagem” do formato 65 mm encher os olhos. Se Blow Up tem o jogo de tênis imaginário para coçar nossa mente, Roma tem uma poesia intrínseca e aponta para cima, para vermos mais um avião cruzando o céu do bairro, e pensarmos no que isso talvez queira nos dizer hoje.

RDR2 – Cadê o Gavin? Cadê a Miriam? – Parte 3

Encontrei mais duas obras de um provável serial killer do velho oeste americano, seguindo o mesmo padrão da primeira: corpo decepado da cintura para baixo, membros e entranhas pelo chão, a cabeça presa ali por perto, com um papel entre os dentes. Foram ao todo três vítimas, dispostas de modo bem espetaculoso, em regiões bem diferentes do mapa de Red Dead Redemption 2. Cada pedaço de papel tinha um pedaço de frase em que o assassino desafia você a encontrá-lo.

Com as três pistas na algibeira, cavalgava por aí até encontrar, na beira de uma estrada de terra, uma casa destruída. Sobrou apenas o assoalho e algumas madeiras. Mas havia um alçapão. Assim que Arthur Morgan o abriu, um cheiro azedo o fez dar uns passos para trás e emitir ruídos enjoados. Ao chegar ao pé da escada, havia um show de horrores: corpos dilacerados, membros amputados, humanos e animais, por todos os cômodos. Manchas de sangue e pedaços de corpos, ossos, crânios, ferramentas. O covil de um perturbado. Havia a carta de uma mãe também, onde líamos que ela se preocupava com a solidão do filho e desejava que tudo estivesse bem com ele, embora ela não fizesse ideia do que o “garoto” fazia por aí. No fundo da sala subterrânea havia um cômodo onde o homem deveria fazer o trabalho pesado. Muitos elementos dispostos ali davam a entender que ele ritualizava tudo, com fervorosa inspiração metafísica. Achei a faca dos crimes e quando fui pegá-la, ZÁS… Arthur Morgan foi para o chão com um golpe do criminoso, que se aproximou por trás.

Consegui sair da enrascada antes que ele começasse a me esfolar. Amarrei o homem com minha corda de laçar cavalos e o joguei na garupa do meu cavalo de guerra, chamado Marlon. Cavalguei até Valentine, a cidade mais próxima, e o levei ao gabinete do xerife. Joguei o rapaz na cela. Nesse ponto, o homem parecia bem controlado até, mas foi só o xerife se aproximar dele para o sujeito virar uma fera e pular na jugular da autoridade. Não teve jeito, tive que sacar minha pistola Volcanic e abrir um orifício em seu crânio. Uma pena! Queria saber mais sobre as motivações do serial killer. O xerife ficou tão abalado com o ataque que nem me pagou recompensa. Oh boy…

BIZARRICES

RDR2 mostra o oeste em decadência, quando a lei já começa a fazer parte do ideário americano. Arthur Morgan e sua gangue ainda preferem o jeito antigo de fazer e resolver as coisas e sentem que estão ficando para trás, mas o romantismo do banditismo está nas veias de Dutch van Der Linde e sua gangue. Enquanto tentamos enganar famílias rivais e ricas de Rhodes e nos extorquir cada pobre cidadão que pegou dinheiro emprestado do Strauss, um alemão agiota do meu bando, temos que tomar cuidado com as autoridades ao longo da história principal. Enquanto essa parte do jogo é bem pé no chão, há um sem fim de bizarrices em Big Valley, Scarlett Meadows, Grizzlies, Bayou e Roanoke Ridge.

Tem uma casa de dois andares abandonada. Se conseguir invadi-la pela janela do segundo andar, vai encontrar uma criatura construída com partes humanas e animais. Vai saber o que aconteceu para o local ser esvaziado aparentemente às pressas, pois o experimento ficou ali, assim como as anotações do homem da ciência que tentou dar vida ao mutante. Tem uma outra casa que, ao entrar, tem uma família inteira morta. Os corpos estão deformados, como se algo tivesse explodido e levado metade do rosto da mãe, uma parte do tronco do pai, as pernas do filho. Uma rápida investigação e descobrimos que uma lasca de meteorito caiu na casa, bem no forno da família, e causou essa impactante cena de horror.

Aquela cabana que encontrei cheia de esqueletos e um texto que parecia apontar para um suicídio em massa te deixa ver um óvni, é tudo uma questão de esperar até a hora certa. Em Butchers Creek, um dos lugares mais sinistros do jogo, tem um casebre onde uma pentagrama brilha toda noite às 4 AM. Estou curioso para saber o que fazer com isso. Há um vampiro em Saint Denis, a maior cidade do jogo, um homem que corre (pelado) com lobos perto de Roanoke e vozes na floresta durante a noite. Sem falar de um hermitão escondido em uma caverna no ponto mais a oeste do mapa. Ele só diz que abandonou a sociedade e que não vai sair de lá, que quer ficar sozinho e que você deve ir embora.

Encontrei uma cobra vermelha e enorme, morta e pendurada em uma árvore. Pelo jeito ela não serve para nada, apenas para enfeitar a floresta, mas aproveitei para fazer um autorretrato de Morgan com o bichão. A leste do Big Valley, achei um ritual pagão. Tinha desenhos no chão, velas e pedras marcando os quatro pontos cardeais e um torso de um humano fincado numa estaca bem no centro. O meio cadáver usava uma máscara, que eu roubei para mim e usei para assaltar várias lojas, carroças e matar vários inimigos com estilo. Não tenho certeza ainda se esse local tem alguma conexão com algum segredo ou se é só piração weird da Rockstar.

PESSOAS FALTANDO

Um dos mistérios mais legais de Red Dead Redemption 2 pode ser um dos mais bobos também. Em Rhodes, um chapa anda pelo vilarejo perguntando sobre seu amigo Gavin, que ele não consegue achar. É possível encontrar o mesmo sujeito em Saint Denis. Se interagir com esse NPC, podemos ouvir a história e a preocupação do personagem, mas nunca é dada a opção de ajudá-lo ou não. Simplesmente não é uma tarefa para Arthur Morgan no jogo. Pode ser que seja só isso, uma piada dos desenvolvedores da Rockstar. Ou pode ser que os elementos para resolvermos esse quebra-cabeça – ou pelo menos saber o que houve com Gavin – necessite juntar peças muito distantes uma das outras, como o caso de Emerald Ranch, ou a disputa entre os Braithwaite e os Gray. (Aliás, que entrada emocionante, triunfal e bem feita a da gangue Van Der Linde no casarão dos Braithwaite no fim do capítulo 3!)

Em Emerald Ranch há uma garota que todos os dias aparece na janela mais alta da maior casa. Ela não faz nada e não diz nada. Não há como entrar na casa ou interagir com ela. Nesse mesmo rancho, há um salloon fechado, marcas de tiros de grosso calibre na parede e sangue no chão. Mas não é apenas umas pocinhas de sangue que vemos. É sangue remexido, como se o dono daqueles glóbulos vermelhos tivesse se arrastado pelo chão para tentar se esconder, sair pelos fundos ou, quem sabe, chegar até uma escopeta.

Atrás do salloon há uma lápide em nome de Joshua Burgess. Muitas milhas cavalgadas acima do rancho, peto da floresta Cumberland, encontrei uma carroça dos correios abandonada e uma carta de uma tal Annabelle a uma tal Miriam Wegner. A remetente dizia que virou atriz em Nova York, fazendo pequenos papeis na Broadway, e que lamentava a morte trágica de Joshua, provavelmente o mesmo da lápide. No fim, a amiga pedia para que seu tio Eugene, o pai da garota e um já conhecido manda-chuva de Emerald Ranch, entregasse a carta a ela, pois esta era a sexta carta que Annabelle enviava e não obteve respostas das anteriores. Huuuummmm…

Foi assim que deduzi que a garota na janela em Emerald Ranch deve ser Miriam Wegner. Joshua, seu suposto namorado ou coisa do tipo, deve ter morrido no confronto no salloon (e que confronto brutal deve ter sido). Sabe-se lá porque e por que ela está confinada na casa grande agora, se por espontânea vontade e luto ou se Eugene tem algo a ver com isso. Estou com muito mais de 100 horas de jogo e no meio do capítulo 4 e até agora não encontrei esse Eugene. Planejo não fazer nada de bom com ele.

O Gavin virou um hit fora do game. Jogadores fazem essa piada, procuram pistas e até forçam a barra para tentar fazer alguma coisa se encaixar no caso. É bem legal, realmente, pois o amigo do Gavin é um pobre coitado que deve andar muito por aí perguntando pelo desaparecido sem que ninguém se importe. Apenas nós, no comando do joystick. Isso é só uma demonstração do tamanho da imersão em RDR2. O caso de Miriam, no entanto, é um desses que vem sendo citado desde as primeiras horas de exploração e acaba dando um senso de imprevisibilidade ao jogo, criando uma tensão entre nós e aquela região do jogo eletrônico. A gente se importa e se importa muito com a jovem na torre.

Leia a primeira parte da crônica RDR2 – Lá Vem a Morte

Leia a segunda parte da crônica RDR2 – Mas Será o Cthulhu?

A Casa que Jack Construiu com sangue, cinismo e arte

É bem conhecida entre os psicanalistas a história de que James Joyce, o escritor irlandês, escrevia para lidar com sua psicose. Seus livros são uma escalada de estilo e verborragia e experimentação, até chegar a Finnegans Wake e aquilo parecer um quadro de Jackson Pollock com frases e parágrafos. O argentino Ricardo Piglia até escreveu em Formas Breves que Joyce nunca admitiu que sua filha sofresse do mesmo mal, mas incentiva a garota a buscar na arte uma forma de lidar com a sua condição.

É bem verdade também que diversos autores – em qualquer uma das artes – gosta de compor obras que falem de si mesmos ou exponha seus pontos de vista, seus gostos, suas críticas à sociedade, etc. Lars von Trier, o cineasta dinamarquês, sempre deixou muito claro em seus filmes, nos melhores e nos piores, que é uma alma da contracultura e que tem o que dizer, e que nunca facilita com o que tem a dizer, até porque seus pontos de vista podem ser chocantes ou, se acertados, encenados em seus filmes de uma forma bastante espetaculosa, beirando o doentio.

Em A CASA QUE JACK CONSTRUIU (The House That Jack Built), Trier segue alguns dos pontos que já são comuns a sua filmografia: é a história de um serial killer americano na América do Norte, e assim aponta sua câmera inquisidora para os EUA para criticar aquela sociedade mais uma vez. O pessimismo, a falta de fé na bondade das pessoas, também está de volta, o que não é surpresa nenhuma. No entanto, sabemos que o diretor passou por alguns problemas mentais, como a depressão, e trabalhar foi uma forma de ele também lidar com o assunto. Dessa fase saíram pelo menos Melancolia e A Ninfomaníaca.

A Casa Que Jack Construiu é Lars von Trier se olhando no espelho e refletindo nele não um cineasta polêmico, mas um engenheiro serial killer com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC); se Trier se refugiou na arte, como Joyce e tantos outros, para ajudar a lidar com o problema, Jack (Matt Dillon), o protagonista, assassina para criar arte e essa arte (do assassinato) o ajuda a ter prazer na vida. Essa relação que Trier estabelece entre ele próprio e seu matador fica claro por meio dos diálogos. Há até uma conversa especificamente para falar de como artistas com problemas mentais usam a arte para se manterem mais firmes no mundo.

Há aí também um cinismo bem proposital: o cineasta sabe que pelo menos parte do público vai entender que ele está se refletindo na tela e exagerando, e então vamos olhar de volta para ele com caras abissais de quem pode querer confundir o personagem com o autor.

Cinismo é parte importante da história desse filme também, tanto para mostrar como as pessoas (americanos) são burros ou manipuladores. A primeira vítima, interpretada por Uma Thurman, simplesmente trata o protagonista como um serial killer, sem saber que ele realmente o é. Mas o espectador já sabe disso, o que dá um ar de comédia à cena. Em outros momentos, Jack vai assumir que é um assassino só para que o absurdo da afirmação faça com que ele pareça tudo, menos o que ele realmente é.

Lars von Trier pode até parecer que quer emular um Tarantino aqui e ali, principalmente na forma como a tensão às vezes leva à comédia (de risos nervosos), mas sua assinatura é única. Pode não mostrar uma criança levando um tiro na cabeça, mas mostra seu corpo congelado e manipulado para permanecer entalhado e sorridente. Um corpo arrastado pelo asfalto deixa um rastro de sangue e um corpo sem face. E por aí vai. Trazer o que há de mais obscuro num psicopata serve tanto para retratar o engenheiro/artista Jack quanto para tecer comentários sociais e, por fim e principalmente, chocar.

Erudição é o ponto final para discutirmos aqui. O cineasta europeu vai da arquitetura às pinturas para comparar a arte de seu Jack com a arte ao longo dos séculos. O final é bastante surpreendente e não devo comentar nada aqui, apenas que ao longo do filme, dividido em Incidentes (que operam como capítulos, algo bem comum aos roteiros de Trier), Jack conversa com Verge (Bruno Ganz), que é Virgílio, provavelmente o mesmo Virgílio que guia Dante pelo Inferno na Divina Comédia. Se você sabe pelo menos como o Inferno é retratado no livro mais famoso de Dante Alighieri, ficará mais fácil entender onde Trier quer chegar com o ato final de seu filme.

Melancolia segue sendo seu melhor filme após Dogville. A Casa Que Jack Construiu é excelente em conseguir o que o diretor mais quer: público dividido, gente com nojo da humanidade, rostos retorcidos com a feiura daquilo que ele foi capaz de conceber como obra de arte e pessoas que vão olhar para o filme, ver o reflexo exagerado do diretor, e pensar que a mente que o concebeu deve ser tão doente quanto a do psicopata.