Valciãn Calixto, Kovtun e Sungazer

VALCIÃN CALIXTO | ⭐⭐⭐⭐⭐

De surpresa, partindo de uma brincadeira em seu perfil no Facebook, o piauiense Valciãn Calixto lançou MÚSICAS PARA SE OUVIR NA BAD DURANTE O PERÍODO CHUVOSO DE TERESINA em seu Bandcamp. São cinco canções, todas violão e voz e gravadas com nada mais do que um celular. Se você ouvir mais do que seis cordas do instrumento e o vocal do cantor, saiba que nada foi acrescentado em pós-produção. São sons do ambiente caseiro dele entrando na captação do smartphone e dando uma ambiência sutil ao registro.

MPSONBDOPCDT é íntimo, como o Crush Songs da Karen O. São quatro músicas do Valciãn e um cover. O som do violão é extremamente nítido. Que pena que ele não erra no dedilhado e nem trasteja. A Karen faz dessas e ficou legal. Valciãn, embora tenha gravado tudo quase de uma vez só, logo após meter na cabeça que lançaria o EP, tem um domínio muito bem do violão e dos próprios arranjos.

É só ouvir “Fim de Ano” para sacar como sua voz aparece muito melhor posicionada, com afinação acertada, um nível técnico bem maior do que o apresentado em FODA!, seu primeiro álbum (pega lá no Spotify, bebê). Isso só aumenta minha ansiedade pelo próximo álbum completo de Valciãn Calixto, que de Foda! para cá já evoluiu demais.

Não julgue as letras de Valciãn muito cedo. A amostra presente em Músicas Para Se Ouvir Na Bad Durante o Período Chuvoso de Teresina têm uma lírica que é melancólica e irônica, reflexiva e ácida. Ele fala do ponto de vista do homem e da mulher comuns com seus dramas hipercomuns, mas sempre chega a um ponto interessantíssimo. “Teoria do Abacaxi”, por exemplo, sou eu próprio descrito ali. Talvez ele esteja descrevendo você também.

KOVTUN | ⭐⭐⭐⭐👻

Desde que DEATH saiu, ouvi o álbum uma vez por dia pelo menos. É aquela coisa: música ambiente, sombrio, às vezes tem silêncio sinistro, às vezes tem ritmos sinistros, às vezes parece que você está num hospital abandonado, às vezes parece que a indústria do desconhecido tá em plena atividade.

Kovtun é o stage name de Raphael Mandra, de Ribeirão Preto (SP), que produz esses sons para quem gosta de música para além de ritmo, melodia, harmonia e letras. Não é todo mundo que curte essa parada, eu sei, mas todo mundo que curte um dark ambient conhece Kovtun (ou deveria conhecer).

A cada trabalho, Raphael tenta incluir elementos novos sem perder de vista o núcleo sonoro de faz do Kovtun o que ele é. Enquanto alguns artistas partem do cavernoso para criar alguma beleza (caso da Demen e também do Arca em alguns momentos), me parece que Kovtun não está muito interessado em dar esse salto para o outro lado, mantendo o seu mundo sonoro tenso, misterioso, e com pouca luminosidade mesmo. Achei Infernal, de 2017, um tanto ruidoso. Death, por outro lado, é muito mais equilibrado e ouvi todas as vezes do começo ao fim sem sair do clima proposto pelo artista.

“The Swarm” é minha faixa preferida. “Everything Must Finish Exempt From Suffering” é a mais fora da caixa, pois basicamente são duas faixas, uma sobreposta à outra. Ideia sensacional, execução inteligente, desconforto garantido.

SUNGAZER | ⭐⭐⭐⭐😵

SUNGAZER VOL. 2 é um EP muito bom do duo Sungazer, formado pelo baixista Adam Neely e pelo baterista Shawn Crowder. Vol. 2 segue o estilo do Vol. 1, entregando mais uma leva de canções que fundem jazz com EDM, glitch e sons de videogame 8-bits. A dupla faz coro com as encarnações mais atuais possíveis do jazz nova-iorquino.

Adam Neely é um estudante de música muito dedicado e possui um canal no YouTube que, aparentemente, virou sua melhor fonte de renda. E o conteúdo dele é bom mesmo, eu garanto! A música que ele faz com Shawn Crowder não é bolinho e nem viraria hit no YouTube: cada faixa tem uma profusão de ritmos, harmonias complexas, momentos de groove, momentos de virtuose, difícil saber onde termina o jazz e a loucura com a música eletrônica começa. Mas sério: se você acha que jazz hoje ainda se resume ao que viu em filme do Damien Chazelle ou em figurões antigos, ouça Sungazer e surpreenda-se.

“Drunk” foi gravada com os músicos realmente altos de tanto beber. “Bird on the Wing” é provavelmente a minha favorita do EP, cheia de vida, de ideias e em compasso 9/8. “Electro” tem ritmos complexos e quebrados, carregada de efeitos sonoros em sua porção mais EDM, além de um ótimo solo de sax no miolo.

Se neste início de 2019 você estiver procurando algo que represente o que existe de mais arrojado em termos de música contemporânea e que tenha um lado comercial, Sungazer Vol. 2 é um ótimo exemplo.

A Pé Ele Não Vai Longe, Os Irmãos Sisters e Sorry To Bother You

A PÉ ELE NÃO VAI LONGE

O novo filme do diretor Gus Van Sant é sobre John Callahan, um cartunista que sofreu um acidente nos anos 70 e ficou paraplégico. É uma história, em nível profundo, sobre enxergar quem você é, suas limitações e aceitar suas merdas, sem autopiedade e sem culpar quem não tem, de fato, culpa pelas péssimas escolhas que você fez. E A PÉ ELE NÃO VAI LONGE (Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot) cumpre muito bem esse papel.

Joaquin Phoenix é extremamente convincente como Callahan, e não é fácil imitar um tetraplégico, com movimentos limitados, a forma como usava os pulsos e não as mãos para segurar objetos (garrafas de uísque, canetas, etc), a forma como o corpo deve ficar em uma cadeira de rodas, etc. Jonah Hill, como Connie, o padrinho de Callahan na Alcoólicos Anônimos, está um gigante. Rooney Mara, como Annu, está a fofura sueca em carne e osso.

O filme é considerado uma comédia, mas não espere muitos risos no fim das contas. Ele é bem mais dramático do que qualquer outra coisa, já que o o personagem lida com questões bastante sérias, como o alcoolismo antes e após o acidente, a impossibilidade de um relacionamento amoroso e o abandono da mãe quando criança. Não é uma história para chorar, pois Van Sant não apela para sentimentalismo, mas é tocante em diversos momentos.

A Pé Ele Não Vai Longe estreou em Sundance em janeiro de 2018 e só agora, um ano depois, chegou aos cinemas brasileiros, com distribuição da Amazon. A produção se baseia no livro de memórias do cartunista e o próprio Callahan está creditado como um dos idealizadores da história que deu origem ao roteiro de Van Sant. Mas Callahan morreu em 2010, o que nos dá uma boa ideia do tempo em que o projeto estava sendo gestado. A princípio, Robin Williams (que faleceu em 2014) interpretaria o protagonista.

OS IRMÃOS SISTERS

OS IRMÃOS SISTERS (The Sisters Brothers) é um western que se passa durante a corrida do ouro na Califórnia. Apesar de ser um gênero e uma história tipicamente estadunidense, é uma produção francesa dirigida por Jacques Audiard, seu primeiro filme todo falado em inglês. O filme estreou no Festival de Veneza de 2018 e foi muito mal na bilheteria norte-americana. Uma pena, pois foi um dos filmes mais tocantes que vi ano passado.

O elenco está primoroso. A princípio, acompanhamos as aventuras dos irmãos Charlie (Joaquin Phoenix) e Eli (John C. Riley). Um é beberrão e impulsivo, outro é mais comedido e já pensa em um futuro diferente para si mesmo. Apesar das diferenças de planos e personalidade, ambos são igualmente mortais e trabalham como assassinos para um comodoro do Oregon. Descem a costa oeste dos EUA atrás do investigador John Morris (Jake Gyllenhaal) e do químico Hermann Warm (Riz Ahmed), que aparentemente desenvolveu uma nova técnica para procurar ouro e o comodoro quer o segredo a todo custo.

Os Irmãos Sisters é sobre manipulação política e ganância, mas também é um conto moral sobre empatia e o que realmente importa no final das contas em um ambiente inóspito em que a lei está longe de ser aplicada a todos. Embora nos identifiquemos com Eli e Charlie, eles são matadores de aluguel que vão enfrentar aranhas, ursos, outros capangas do comodoro e uma gangue que usa chapéu de pele de guaxinim. É um drama, mas faz valer seu lado western com variados obstáculos e até um lado filosófico.

Duas coisas são preciosas em Os Irmãos Sisters. Primeiro, poder ver Phoenix, Riley, Gyllehaal e Ahmed atuando juntos. Segundo, assim que nossos olhos se enchem e nosso coração se aquece com o clímax da história, logo em seguida Audiard nos dá o maior banho de água fria, só para nos fazer perceber o quanto aprendemos a gostar daquele quarteto.

SORRY TO BOTHER YOU

Da safra 2018 de Sundance temos também SORRY TO BOTHER YOU, primeiro longa-metragem do rapper, produtor, roteirista e ativista Boots Riley. É um filme norte-americano, de comédia e drama, com laivos de ficção-científica. Assim como o Infiltrado Na Klan, de Spike Lee, é um filme sobre o homem e a mulher negros dos EUA neste momento, com um ethos forte e que não tem medo de parecer panfletário para falar o que precisa.

Cassius Green (Lakeith Stanfield, perfeito em suas caras de dó) começa a trabalhar em uma empresa de telemarketing, mas vai mal. Tudo parece sem sentido para ele, até que recebe a dica de ligar para as pessoas usando sua voz de branco, sem dar a entender pelo telefone que é um afro-americano. É aí que sua carreira deslancha. Ele sabe que a grana federal que começa a entrar em sua conta vem manchada de sangue e durante o segundo e terceiro atos do filme, ele vai ver e sentir quão inescrupuloso o capitalismo pode ser.

O elenco é bem legal (completado por Tessa Thompson, Steven Yeun, Danny Glover e participação de Terry Crews) e a trilha sonora original foi feita pela Tune-Yards. Além disso, Boots Riley juntou o seu grupo de rap The Coup para gravar canções especialmente para o filme. Não é um ataque à administração Donald Trump, pois o roteiro foi concebido durante o governo Obama. Seja qual for o presidente, os mecanismos do capitalismo mais agressivo continuam sendo os mesmos e Sorry To Bother You teria o mesmo impacto hoje ou daqui três anos.

Quando a porção mais sci-fi da história começa a tomar corpo, o filme bambeia, quase perde o seu chão, mas o diretor segura firme as rédeas e consegue chegar a um final plenamente satisfatório, desde que o público abrace a piração, é claro. Ela não é gratuita e se se afasta do realismo, é porque às vezes o absurdo não só ajuda a entreter, mas ilustra melhor o que pode ser difícil colocar em palavras.

Homem-Aranha encontra sua melhor casa no Aranhaverso

Quem diria que um filme animado do Homem-Aranha seria o melhor filme do Homem-Aranha que já vimos na telona? Não só tem uma forte base nos quadrinhos como também se aproveita do que já ocorreu na trilogia Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi na década passada. Peter Parker está lá, mas o verdadeiro amigo da vizinhança é o afrodescendente e latino-americano Miles Gonzalo Morales, o novo Homem-Aranha de um universo dos quadrinhos desde 2011 pelas mãos do roteirista Brian Michael Bendis.

Foram todas decisões acertadíssimas pela Sony, em parceria com a Marvel, para transformar HOMEM-ARANHA: NO ARANHAVERSO (Spiderman: Into The Spider-Verse) no filme de super-herói mais estiloso e interessante que o estúdio já fez.

Desde que o primeiro trailer saiu, já deixando claro que o jovem estudante Morales seria o protagonista, e não o fotógrafo Peter Parker, ficou a sensação de que estavam enfim fazendo um filme de personagem de quadrinhos que realmente tinha a vibe dos quadrinhos. Assistir essa animação é se reencontrar nas páginas. Não apenas elementos da linguagem dos quadrinhos estão na tela a todo momento – recordatórios, onomatopeias, divisão da tela/página em quadros – como há uma textura que se repete em diversos momentos para imitar aquelas bolinhas de tinta no papel, visíveis se você olhar uma página de gibi com um microscópio.

O fato de Homem-Aranha: no Aranhaverso ser uma animação ajuda a comprarmos tudo o que ele propõe. Como não há uma figura humana de carne e osso e cenários reais, nossa suspensão de crença automaticamente já se ajusta à todas as possibilidades que uma animação pode ter, que são muito menos críveis em live action.

O humor funciona muito bem e não é forçado em momento algum. Há drama também, principalmente da parte de Miles Morales e de Peter. Miles precisa lidar com uma nova escola mais elitizada que não fica mais em sua área no Brooklyn, precisa lidar com o fato de que seu pai é um policial que não gosta do Homem-Aranha, e lidar com várias outras transformações que são levadas à décima potência quando é picado por uma aranha radioativa.

Peter Parker, que vem de outra realidade, não está na melhor forma física e anda meio decepcionado com essa coisa de ser um herói em Nova York. Em sua realidade, não queria filhos (o que se torna mais um de seus dramas ao lidar com Miles) e se divorciou de Mary Jane. Quando os personagens chegam a base do Peter Parker da “realidade normal”, Miles logo se encanta pelos uniformes e alta tecnologia do lugar. Peter não liga pra nada disso, mas se comove com uma fotografia de casamento com Mary Jane. Isso não é evidenciado em palavras, são as imagens que contam esse detalhe. Em meio a tantos filmes com atores reais que afogam emoções, achei essa uma das cenas mais maduras dos filmes de super-heróis dos últimos anos.

Há, inclusive, mortes. E elas não são gratuitas. O fato de estarmos em um contexto em que é possível – graças a uma máquina do Rei do Crime – “puxar” elementos e pessoas de dimensões paralelas não vira desculpa para restabelecer pessoas importantes que perderam a vida na realidade de Miles, ou em qualquer outra.

Em 1999, quando Matrix estreou, tive a impressão de que estava vendo o filme mais estiloso da minha vida. Naquela época, era mesmo. Vinte anos depois, me vejo na sala de cinema vendo o Homem-Aranha se balançar pelo Brooklyn e pensando que talvez seja o filme com estética mais estilosa que já minhas retinas já presenciaram. A Imageworks, divisão de animação da Sony, fez um excelente trabalho ao misturar 3D e 2D, fugindo da estética padrão da Disney, da Pixar e da Dreamworks. Os cortes são rápidos, os ângulos de câmera são inteligentemente invertidos a todo momento, aproveitando o fato das Aranhas no filme (são 6, ao todo) conseguirem andar pelas paredes, darem mortais no ar e ficarem presas no teto.

O filme não tenta explorar o fato de Miles Morales ser negro, latino e filho de um policial numa escola elitizada nova-iorquina. Assim, questões raciais e sociais envolvendo sua origem evadem o vitimismo, mas também não são exploradas para chamar a atenção para algum fato mais relevante. Miles é o que é e, se não precisa enfrentar algum tipo de preconceito, também não tem que provar nada para ninguém que tenha a ver com a cor de sua pele ou etnia.

O hip-hop é a trilha sonora do começo ao fima de Homem-Aranha: No Aranhaverso. É uma das melhores trilhas para filme de super-heróis que já montaram, visto o quanto os sons escolhidos se conectam com o protagonista, com a área em que o protagonista vive, com a cultura jovem americana atual e com toda a modernidade do visual do filme, que não raro mistura algo de cyberpunk com psicodelia. Até mesmo a música tema, “Sunflower”, cantada por Post Malone e Swae Lee, é usada de forma inteligente dentro do filme.

Em menos de 20 anos, o cabeça de teia foi encarnado nas telas por três atores diferentes, em três fases distintas. Os dois primeiros filmes de Sam Raimi foram ótimos para o personagem e para o gênero cinema de super-herói. Desde que o Marvel Studios pegou emprestado para integrá-lo ao seu universo cinematográfico, vimos uma significativa melhora nas histórias de Peter Parker.

Contudo, seria a mais mirabolante das situações – tirando Peter Parker do centro e colocando o afrodescendente Miles Morales como protagonista, unindo realidades paralelas (sempre uma faca de dois gumes para roteiristas ansiosos) e fazendo uma animação fora da estética padrão – que o Homem-Aranha encontraria sua melhor casa no Aranhaverso.

Não vamos reduzir ROMA à fotografia, ok?

ROMA é como Alfonso Cuarón falou: um filme sobre uma empregada doméstica no México em 1971, em preto e branco e que não força plot twists para animar a plateia. Filmado digitalmente em uma câmera Alexa, com o formato de 65 milímetros, fazendo qualquer cena doméstica, qualquer fato cotidiano e tomada mais íntima ter a grandeza de um épico de guerra. É por aí que opera a sensibilidade artística de Cuarón, que fez o filme baseado em sua infância, em sua família, no mixteco (um dos dialetos do país) e no México que viu desabrochar a duras penas. Ele foi diretor, roteirista, diretor de fotografia e editor da obra fazendo deste o filme mais pessoal de sua carreira.

Muito já se falou da fotografia de Roma e ela precisa mesmo ser reconhecida. Perdi a conta de quantas cenas foram icônicas para mim. Teve a cena da “despedida” do médico na frente da casa com as crianças na calçada, a tomada dos praticantes de artes marciais, Cleo (Yalitza Aparicio) andando por um bairro sem calçadas, ruas ou esgotamento sanitário, a cena do incêndio, aquela no cinema, o plano sequência do parto, o abraço quente e que mistura alívio e desespero próximo do fim e que virou cartaz do filme. Que coisa linda tudo isso! A câmera se comporta como uma mera testemunha de tudo e sua movimentação, que parece meio canhestra a princípio, faz com que as perambulações dos personagens tenham que ser milimetricamente encenadas, e mesmo assim diretor e elenco fazem tudo soar natural.

Mas por favor não reduza Roma à sua fotografia. É como reduzir o clipe de “This Is America” às referências. O filme fala por si só, mesmo que pareça muito quieto. A tensão fica no ar, nas entrelinhas dos diálogos, em cada cômodo da casa onde a dinâmica familiar vai ruindo e depois se reconfigurando. Mais do que ver a tensão – e olha que Roma é um filme para não desgrudar os olhos – é preciso sentir como uma coisa leva a outra, como o drama de Cleo fica em segundo plano sufocado pelo que ocorre na casa da família. Se por mais de uma hora parece que os elementos da história soam meio aleatórios, eles vão fazer muito sentido e se unir na segunda metade.

É lindo de acompanhar.

Conforme assistia pela Netflix, diversas vezes me peguei pensando em filmes italianos dos anos 60, como os de Michelangelo Antonioni, mas principalmente os de Federico Felini. É claro que pode ter um pouco desse DNA em Cuarón, mas não soa como homenagem – o que é ótimo, nesse mundo onde parece que uma obra só consegue se fazer notar por certo público se tiver uma “referência” para pescar. Outra coisa que me peguei pensando constantemente é que era um dos melhores exemplos de Cinema que vi em 2018, do tipo que muita gente teria medo de fazer visto que não há mais um mercado de salas de cinema para produções como essa. É por isso que é tão importante que a Netflix esteja promovendo a obra e a colocando em mais de 100 países ao mesmo tempo.

Se eu tivesse que destacar uma cena, seria a dos praticantes de artes marciais, quando o mestre pede que todos juntem as mãos acima da cabeça, recolham uma das pernas formando um 4 e vejam se conseguem se equilibrar. A princípio parece uma cena longa demais e que seria cortada a seus momentos principais em um filme mais prático no roteiro e no trato com sua audiência. Mas Alfonso Cuarón quer dar tempo para sentirmos as coisas e tudo o que se revela nessa cena que aparentemente está sobrando. É importante que Cleo se veja desamparada por Fermín. Mas é mais importante ver do que ela foi capaz sozinha.

Uma vez, durante os anos de faculdade, um amigo (oi, César!) disse que gostava de deixar um dos filmes do Antonioni – acho que era o inglês Blow Up – Depois Daquele Beijo – passando na tevê, sem áudio, só para apreciar as imagens. Roma tem o mesmo poder, com a “vantagem” do formato 65 mm encher os olhos. Se Blow Up tem o jogo de tênis imaginário para coçar nossa mente, Roma tem uma poesia intrínseca e aponta para cima, para vermos mais um avião cruzando o céu do bairro, e pensarmos no que isso talvez queira nos dizer hoje.

RDR2 – Cadê o Gavin? Cadê a Miriam? – Parte 3

Encontrei mais duas obras de um provável serial killer do velho oeste americano, seguindo o mesmo padrão da primeira: corpo decepado da cintura para baixo, membros e entranhas pelo chão, a cabeça presa ali por perto, com um papel entre os dentes. Foram ao todo três vítimas, dispostas de modo bem espetaculoso, em regiões bem diferentes do mapa de Red Dead Redemption 2. Cada pedaço de papel tinha um pedaço de frase em que o assassino desafia você a encontrá-lo.

Com as três pistas na algibeira, cavalgava por aí até encontrar, na beira de uma estrada de terra, uma casa destruída. Sobrou apenas o assoalho e algumas madeiras. Mas havia um alçapão. Assim que Arthur Morgan o abriu, um cheiro azedo o fez dar uns passos para trás e emitir ruídos enjoados. Ao chegar ao pé da escada, havia um show de horrores: corpos dilacerados, membros amputados, humanos e animais, por todos os cômodos. Manchas de sangue e pedaços de corpos, ossos, crânios, ferramentas. O covil de um perturbado. Havia a carta de uma mãe também, onde líamos que ela se preocupava com a solidão do filho e desejava que tudo estivesse bem com ele, embora ela não fizesse ideia do que o “garoto” fazia por aí. No fundo da sala subterrânea havia um cômodo onde o homem deveria fazer o trabalho pesado. Muitos elementos dispostos ali davam a entender que ele ritualizava tudo, com fervorosa inspiração metafísica. Achei a faca dos crimes e quando fui pegá-la, ZÁS… Arthur Morgan foi para o chão com um golpe do criminoso, que se aproximou por trás.

Consegui sair da enrascada antes que ele começasse a me esfolar. Amarrei o homem com minha corda de laçar cavalos e o joguei na garupa do meu cavalo de guerra, chamado Marlon. Cavalguei até Valentine, a cidade mais próxima, e o levei ao gabinete do xerife. Joguei o rapaz na cela. Nesse ponto, o homem parecia bem controlado até, mas foi só o xerife se aproximar dele para o sujeito virar uma fera e pular na jugular da autoridade. Não teve jeito, tive que sacar minha pistola Volcanic e abrir um orifício em seu crânio. Uma pena! Queria saber mais sobre as motivações do serial killer. O xerife ficou tão abalado com o ataque que nem me pagou recompensa. Oh boy…

BIZARRICES

RDR2 mostra o oeste em decadência, quando a lei já começa a fazer parte do ideário americano. Arthur Morgan e sua gangue ainda preferem o jeito antigo de fazer e resolver as coisas e sentem que estão ficando para trás, mas o romantismo do banditismo está nas veias de Dutch van Der Linde e sua gangue. Enquanto tentamos enganar famílias rivais e ricas de Rhodes e nos extorquir cada pobre cidadão que pegou dinheiro emprestado do Strauss, um alemão agiota do meu bando, temos que tomar cuidado com as autoridades ao longo da história principal. Enquanto essa parte do jogo é bem pé no chão, há um sem fim de bizarrices em Big Valley, Scarlett Meadows, Grizzlies, Bayou e Roanoke Ridge.

Tem uma casa de dois andares abandonada. Se conseguir invadi-la pela janela do segundo andar, vai encontrar uma criatura construída com partes humanas e animais. Vai saber o que aconteceu para o local ser esvaziado aparentemente às pressas, pois o experimento ficou ali, assim como as anotações do homem da ciência que tentou dar vida ao mutante. Tem uma outra casa que, ao entrar, tem uma família inteira morta. Os corpos estão deformados, como se algo tivesse explodido e levado metade do rosto da mãe, uma parte do tronco do pai, as pernas do filho. Uma rápida investigação e descobrimos que uma lasca de meteorito caiu na casa, bem no forno da família, e causou essa impactante cena de horror.

Aquela cabana que encontrei cheia de esqueletos e um texto que parecia apontar para um suicídio em massa te deixa ver um óvni, é tudo uma questão de esperar até a hora certa. Em Butchers Creek, um dos lugares mais sinistros do jogo, tem um casebre onde uma pentagrama brilha toda noite às 4 AM. Estou curioso para saber o que fazer com isso. Há um vampiro em Saint Denis, a maior cidade do jogo, um homem que corre (pelado) com lobos perto de Roanoke e vozes na floresta durante a noite. Sem falar de um hermitão escondido em uma caverna no ponto mais a oeste do mapa. Ele só diz que abandonou a sociedade e que não vai sair de lá, que quer ficar sozinho e que você deve ir embora.

Encontrei uma cobra vermelha e enorme, morta e pendurada em uma árvore. Pelo jeito ela não serve para nada, apenas para enfeitar a floresta, mas aproveitei para fazer um autorretrato de Morgan com o bichão. A leste do Big Valley, achei um ritual pagão. Tinha desenhos no chão, velas e pedras marcando os quatro pontos cardeais e um torso de um humano fincado numa estaca bem no centro. O meio cadáver usava uma máscara, que eu roubei para mim e usei para assaltar várias lojas, carroças e matar vários inimigos com estilo. Não tenho certeza ainda se esse local tem alguma conexão com algum segredo ou se é só piração weird da Rockstar.

PESSOAS FALTANDO

Um dos mistérios mais legais de Red Dead Redemption 2 pode ser um dos mais bobos também. Em Rhodes, um chapa anda pelo vilarejo perguntando sobre seu amigo Gavin, que ele não consegue achar. É possível encontrar o mesmo sujeito em Saint Denis. Se interagir com esse NPC, podemos ouvir a história e a preocupação do personagem, mas nunca é dada a opção de ajudá-lo ou não. Simplesmente não é uma tarefa para Arthur Morgan no jogo. Pode ser que seja só isso, uma piada dos desenvolvedores da Rockstar. Ou pode ser que os elementos para resolvermos esse quebra-cabeça – ou pelo menos saber o que houve com Gavin – necessite juntar peças muito distantes uma das outras, como o caso de Emerald Ranch, ou a disputa entre os Braithwaite e os Gray. (Aliás, que entrada emocionante, triunfal e bem feita a da gangue Van Der Linde no casarão dos Braithwaite no fim do capítulo 3!)

Em Emerald Ranch há uma garota que todos os dias aparece na janela mais alta da maior casa. Ela não faz nada e não diz nada. Não há como entrar na casa ou interagir com ela. Nesse mesmo rancho, há um salloon fechado, marcas de tiros de grosso calibre na parede e sangue no chão. Mas não é apenas umas pocinhas de sangue que vemos. É sangue remexido, como se o dono daqueles glóbulos vermelhos tivesse se arrastado pelo chão para tentar se esconder, sair pelos fundos ou, quem sabe, chegar até uma escopeta.

Atrás do salloon há uma lápide em nome de Joshua Burgess. Muitas milhas cavalgadas acima do rancho, peto da floresta Cumberland, encontrei uma carroça dos correios abandonada e uma carta de uma tal Annabelle a uma tal Miriam Wegner. A remetente dizia que virou atriz em Nova York, fazendo pequenos papeis na Broadway, e que lamentava a morte trágica de Joshua, provavelmente o mesmo da lápide. No fim, a amiga pedia para que seu tio Eugene, o pai da garota e um já conhecido manda-chuva de Emerald Ranch, entregasse a carta a ela, pois esta era a sexta carta que Annabelle enviava e não obteve respostas das anteriores. Huuuummmm…

Foi assim que deduzi que a garota na janela em Emerald Ranch deve ser Miriam Wegner. Joshua, seu suposto namorado ou coisa do tipo, deve ter morrido no confronto no salloon (e que confronto brutal deve ter sido). Sabe-se lá porque e por que ela está confinada na casa grande agora, se por espontânea vontade e luto ou se Eugene tem algo a ver com isso. Estou com muito mais de 100 horas de jogo e no meio do capítulo 4 e até agora não encontrei esse Eugene. Planejo não fazer nada de bom com ele.

O Gavin virou um hit fora do game. Jogadores fazem essa piada, procuram pistas e até forçam a barra para tentar fazer alguma coisa se encaixar no caso. É bem legal, realmente, pois o amigo do Gavin é um pobre coitado que deve andar muito por aí perguntando pelo desaparecido sem que ninguém se importe. Apenas nós, no comando do joystick. Isso é só uma demonstração do tamanho da imersão em RDR2. O caso de Miriam, no entanto, é um desses que vem sendo citado desde as primeiras horas de exploração e acaba dando um senso de imprevisibilidade ao jogo, criando uma tensão entre nós e aquela região do jogo eletrônico. A gente se importa e se importa muito com a jovem na torre.

Leia a primeira parte da crônica RDR2 – Lá Vem a Morte

Leia a segunda parte da crônica RDR2 – Mas Será o Cthulhu?

A Casa que Jack Construiu com sangue, cinismo e arte

É bem conhecida entre os psicanalistas a história de que James Joyce, o escritor irlandês, escrevia para lidar com sua psicose. Seus livros são uma escalada de estilo e verborragia e experimentação, até chegar a Finnegans Wake e aquilo parecer um quadro de Jackson Pollock com frases e parágrafos. O argentino Ricardo Piglia até escreveu em Formas Breves que Joyce nunca admitiu que sua filha sofresse do mesmo mal, mas incentiva a garota a buscar na arte uma forma de lidar com a sua condição.

É bem verdade também que diversos autores – em qualquer uma das artes – gosta de compor obras que falem de si mesmos ou exponha seus pontos de vista, seus gostos, suas críticas à sociedade, etc. Lars von Trier, o cineasta dinamarquês, sempre deixou muito claro em seus filmes, nos melhores e nos piores, que é uma alma da contracultura e que tem o que dizer, e que nunca facilita com o que tem a dizer, até porque seus pontos de vista podem ser chocantes ou, se acertados, encenados em seus filmes de uma forma bastante espetaculosa, beirando o doentio.

Em A CASA QUE JACK CONSTRUIU (The House That Jack Built), Trier segue alguns dos pontos que já são comuns a sua filmografia: é a história de um serial killer americano na América do Norte, e assim aponta sua câmera inquisidora para os EUA para criticar aquela sociedade mais uma vez. O pessimismo, a falta de fé na bondade das pessoas, também está de volta, o que não é surpresa nenhuma. No entanto, sabemos que o diretor passou por alguns problemas mentais, como a depressão, e trabalhar foi uma forma de ele também lidar com o assunto. Dessa fase saíram pelo menos Melancolia e A Ninfomaníaca.

A Casa Que Jack Construiu é Lars von Trier se olhando no espelho e refletindo nele não um cineasta polêmico, mas um engenheiro serial killer com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC); se Trier se refugiou na arte, como Joyce e tantos outros, para ajudar a lidar com o problema, Jack (Matt Dillon), o protagonista, assassina para criar arte e essa arte (do assassinato) o ajuda a ter prazer na vida. Essa relação que Trier estabelece entre ele próprio e seu matador fica claro por meio dos diálogos. Há até uma conversa especificamente para falar de como artistas com problemas mentais usam a arte para se manterem mais firmes no mundo.

Há aí também um cinismo bem proposital: o cineasta sabe que pelo menos parte do público vai entender que ele está se refletindo na tela e exagerando, e então vamos olhar de volta para ele com caras abissais de quem pode querer confundir o personagem com o autor.

Cinismo é parte importante da história desse filme também, tanto para mostrar como as pessoas (americanos) são burros ou manipuladores. A primeira vítima, interpretada por Uma Thurman, simplesmente trata o protagonista como um serial killer, sem saber que ele realmente o é. Mas o espectador já sabe disso, o que dá um ar de comédia à cena. Em outros momentos, Jack vai assumir que é um assassino só para que o absurdo da afirmação faça com que ele pareça tudo, menos o que ele realmente é.

Lars von Trier pode até parecer que quer emular um Tarantino aqui e ali, principalmente na forma como a tensão às vezes leva à comédia (de risos nervosos), mas sua assinatura é única. Pode não mostrar uma criança levando um tiro na cabeça, mas mostra seu corpo congelado e manipulado para permanecer entalhado e sorridente. Um corpo arrastado pelo asfalto deixa um rastro de sangue e um corpo sem face. E por aí vai. Trazer o que há de mais obscuro num psicopata serve tanto para retratar o engenheiro/artista Jack quanto para tecer comentários sociais e, por fim e principalmente, chocar.

Erudição é o ponto final para discutirmos aqui. O cineasta europeu vai da arquitetura às pinturas para comparar a arte de seu Jack com a arte ao longo dos séculos. O final é bastante surpreendente e não devo comentar nada aqui, apenas que ao longo do filme, dividido em Incidentes (que operam como capítulos, algo bem comum aos roteiros de Trier), Jack conversa com Verge (Bruno Ganz), que é Virgílio, provavelmente o mesmo Virgílio que guia Dante pelo Inferno na Divina Comédia. Se você sabe pelo menos como o Inferno é retratado no livro mais famoso de Dante Alighieri, ficará mais fácil entender onde Trier quer chegar com o ato final de seu filme.

Melancolia segue sendo seu melhor filme após Dogville. A Casa Que Jack Construiu é excelente em conseguir o que o diretor mais quer: público dividido, gente com nojo da humanidade, rostos retorcidos com a feiura daquilo que ele foi capaz de conceber como obra de arte e pessoas que vão olhar para o filme, ver o reflexo exagerado do diretor, e pensar que a mente que o concebeu deve ser tão doente quanto a do psicopata.

A psicologia em SACRIFICE, de Derren Brown

Quando assisti a Miracle, um dos mais recentes espetáculos do mentalista inglês Derren Brown, fiquei impressionado não com a habilidade de ilusionista do homem,mas como ele foi capaz de “enganar” o cérebro das pessoas explicando tudo o que fazia, mas criando um teatro para fazê-las crer que tudo estava acontecendo mesmo. No fim, ele prova que as pessoas (grande parte delas, pelo menos) acreditam no que querem ou escolhem acreditar.

Brown sempre repete o mantra “as histórias que contamos a nós mesmos”. Seus espetáculos, como Miracle e o novo SACRIFICE (ambos disponíveis na Netflix), nos mostram como esse tipo de mantra funciona em nossas vidas. Em Miracle, ele diz com todas as letras que é um ateu e que não haveria possibilidade de Deus agir por meio dele, mas mesmo anunciando isso, ele cria um teatro religioso análogo ao dos pastores evangélicos americanos e repete – ele, um homem sem fé – os mesmos milagres que os tais pastores que dizem estar imbuídos do poder do Espírito Santo. Derren deixa implícito como tudo é sugestão, hipnose, ilusão e técnicas psicológicas, mas que muita gente tira proveito disso para se passar por instrumento de Deus – e nós nos deixamos levar por essa falácia, pois não compreendemos como aquilo que ele faz seria humanamente possível.Porém, um ateu acabou de realizar os tais milagres (truques) bem na frente de centenas de pessoas.

Em Sacrifice, Derren Brown cria uma espécie de reality show para mais uma vez mostrar como muitas de nossas limitações e também a forma como enxergamos o mundo estão presas às histórias que contamos a nós mesmos. Após uma seleção de pessoas, ele define que Phil, um morador da Florida,será sua “cobaia”. Phil é casado e pai. Logo percebem que o homem é da opinião de que a permanência de mexicanos e latinos nos Estados Unidos é um erro, pois eles roubam os empregos dos americanos, entre outros motivos.

Mas dessa vez o show de Brown é um experimento de comportamento. A intenção do ilusionista é fazer com que sua cobaia seja capaz de pular na frente de uma bala para salvar um desconhecido. Para isso, implanta um chip na nuca de Phil e diz que o aparelho está ligado a um aplicativo que foi instalado em seu celular. O intuito seria aprimorar Phil. Na realidade, Brown quer que Phil acredite que será capaz de novos feitos justamente porque tem um chip em seu corpo e faz os treinamentos mentais com o app. Brown conta uma história à sua cobaia.

A cobaia precisa crer nessa história para crer em si mesmo. Embora Sacrifice seja um produto para televisão e use muitos artifícios para criar tensão no expectador, pode ficar a impressão de que tudo o que Brown faz com Phil é combinado. Mas a psicologia pode explicar. Recorri aos conhecimentos em Análise do Comportamento da minha namorada, Juliana, para poder contar quais são as prováveis técnicas usadas por Brown neste caso.

CONDICIONAR É PRECISO

De frente para Phil, Derren Brown começa a envolver sua cobaia em uma narrativa sobre o que fazer com o corpo para não sentir dor. Isso envolve falar certas palavras para encorajá-lo e ensiná-lo alguns truques, como dar três soquinhos na cabeça. No caso, Derren quer que Phil sinta sua mão anestesiada a ponto de poder perpassá-la com uma agulha e o homem não sentir nada. Phil já está usando o aplicativo, já tem o chip implantado e já sabe reconhecer um sinal sonoro do app que indica que “é hora de ter coragem” ou então “é hora de acreditar”. Como já sabemos, o chip não funciona. O app é só parte do teatro para que ele acredite estar sendo treinado para novos feitos. O som é um gatilho para lembrá-lo disso tudo. Os socos na cabeça é uma ritualística. E dá certo. A agulha atravessa a pele da mão de Phil e ele não sente nada.

Em Análise do Comportamento, podemos dizer que Brown está realizando um Treino Discriminativo. Ele introduz estímulos para que Phil comece a discriminá-los, ou seja, reagir a cada um deles diferentemente do que normalmente reagiria. Derren coloca Phil em certas situações – como na beira de um precipício para um lago – para disparar esses estímulos e ver se Phil é tomado pelo ímpeto de fazer o que o ilusionista quer que ele faça, mesmo que vá contra sua vontade. Phil não gosta de água ou de altura, então pular seria ir contra sua “programação”. Ele tenta. Ouve o sinal sonoro do app, dá os socos na cabeça, fica de cara como abismo, mas não pula. Por quê não? “Porque a história de aprendizagem de uma pessoa é longa e forte o bastante para impedir que certos pareamentos de estímulos façam-na ter comportamentos dessa magnitude”, diz Juliana.

É importante lembrar que Brown faz um produto de entretenimento, não uma pesquisa acadêmica com Sacrifice. É possível que ele tenha utilizado métodos realmente existentes na psicologia comportamental (que descrevemos neste texto), é preciso notar também que pode ser um método eticamente duvidoso para os padrões da Análise do Comportamento.

EMPATIA

Em outra situação muito bonita do programa, Phil é colocado cara a cara com um mexicano em uma sala. Ficam sozinhos e em silêncio, um olhando para o outro. Derren Brown conhece os preconceitos de Phil e tenta quebrá-los. Phil percebe que o mexicano é igual a ele, não é uma ameaça ali. Chora e pede um abraço do rapaz. Não sabemos se isso desmonta seu preconceito contra imigrantes, mas fica claro que passou a enxergar as coisas de forma diferente. O abraço até parece uma culpa (de Phil) sendo jogada para fora.

Antes, porém, Brown analisou o genoma de sua cobaia e apresentou de quais regiões do mundo vêm os genes de Phil. E uma pequena porcentagem é da América Latina. Quem diria, logo ele, um cara que vê os mexicanos como um problema, tem dentro dele uma herança desse povo também.

A revelação genética amaciou Phil. Essa nova informação em sua história (devida e no experimento) fez com que ele chegasse a se sentar de frente para o mexicano tendo que encarar não apenas seu preconceito refletido em si mesmo.

De acordo com Juliana, que me explicou as técnicas psicológicas que podem estar envolvidas aí, Phil tem uma história de aprendizagem muito longa e tem muitas autorregras que não descrevem a realidade, como a crença de que imigrantes roubam os empregos dos estadunidenses. Ao apresentar o mapa do genoma de Phil, Derren colocou mais um elemento para que o homem criasse para si mesmo “uma nova história” e outras regras mais condizentes com a realidade(mais afastadas do preconceito).

Por causa das autorregras que “regiam” o pensamento e comportamento de Phil, ele tinha um padrão de comportamento quando era confrontado com certas questões ou situações, como é o caso dos imigrantes. Todos os estímulos apresentados até aqui, desde a informação do genoma até os soquinhos na cabeça para lhe dar força em uma situação difícil, são parte de uma espécie de treinamento para que Phil aprenda a se comportar de outra forma, quebrando o padrão produzido por seu histórico de aprendizagem.

SENSIBILIZAR DE NOVO

Phil, como você já percebeu lendo até aqui ou assistindo, está condicionado por sua história de aprendizagem, que o levou a criar suas autorregras. O experimento faz com que ele seja dessensibilizado, para que certos pareamentos aversivos se dissolvam. Ou melhor: o experimento buscar quebrar o pareamento entre o estímulo aversivo(presença de latinos) e a resposta emocional (preconceito, ódio). Neste caso, dessensibilizar significa sensibilizar de novo, ressignificando, por exemplo, seu entendimento sobre o que é um mexicano. “Essas quebras de pareamento e o reforço positivo (entender o mexicano, abraça-lo, enxerga-lo como igual) lhe contam uma nova história e aumentam a probabilidade de se comportar com mais empatia no futuro”, me diz Juliana.

No final, o ilusionista cria uma situação que envolve atores e uma equipe de filmagem escondida para fazer com que Phil de fato acredite estar em uma situação extrema e tenha que tomar uma decisão que envolva ficar entre uma arma e um imigrante por livre e espontânea vontade.

É interessante notar que na cena final de Sacrifice, Brown espalha estímulos pelo cenário. O carro em que Phil está reproduz o mesmo sinal sonoro que ele ouviu no aplicativo em situações chave anteriormente. O local da ação contém um catavento vermelho, que lembra muito a espiral vermelha ícone do app. Mas será que o preconceito foi desmontado a ponto de Phil acharque é seu dever defender um imigrante em seu país?

Quem já assistiu, sabe o que acontece. Quem não viu, precisa assistir para saber como a metodologia do mentalista e ilusionista podem ser encaradas à luz das técnicas psicológicas da Análise do Comportamento – dessensibilização e treino discriminativo. Lembrando que Brown embora sempre explique ao público o que está fazendo e o que espera conseguir de Phil, ele não entra em detalhes sobre a teoria que dá base ao seu experimento. As técnicas de Análise do Comportamento explicam, mas ele pode ter seguido outra linha teórica.

Apesar de todo o espetáculo montado por Brown para encantar a plateia, seja dentro de um teatro ou pelo streaming da Netflix, o que acho incrível nele é como ele monta seu discurso ao seu público (ou sua cobaia). Ele diz o que está fazendo e tem um objetivo com isso, que pode ser desmascarar charlatões que querem nosso dinheiro e nossa mente (como gurus, religiosos, pessoas malintencionadas querendo se aproveitar da fé das pessoas) ou até mesmo nos fazer enxergar alguns dos entraves psicológicos que estabelecemos a nós mesmos, acreditamos nesses entraves e assim nos limitamos. O importante não é a ilusão ou a graça do truque de Derren Brown, mas sim o que ele revela de real sobre nós a partir da ilusão.


Aquaman entrega herói bad ass, mas fica devendo

O único filme da DC/Warner em 2018 após as falhas em Liga da Justiça é AQUAMAN. O filme é colorido e espetaculoso como prometido nos trailers, mas deixa muito a desejar para quem esperava uma redenção do estúdio. O filme, dirigido por James Wan e estrelado por Jason Momoa, até está bem intencionado e direcionado, mas a DC ainda precisa ajustar muitas coisas antes de entregar um bom filme que saiba o que quer ser.

1. VISUAL

Aquaman tenta traduzir as HQs de Geoff Johns e Ivan Reis para as telas e pega emprestado a estética de alguns outros filmões. Avatar, de James Cameron, é o primeiro a ser lembrado, já que Atlântida é um mundo fantasioso, repleto de criaturas, cores e luzes. Outro que logo vem à mente é a franquia Star Wars. A imensidão das profundezas do oceano de Atlântida, com suas criaturas grandes e pequenas, suas construções e pontes, é análoga à imensidão do espaço na galáxia muito distante, com suas naves grandes e pequenas, seus planetas e seus cruzadores imperiais. É um desbunde imagético que lembra pouco a estética de Batman V. Superman e outros filmes que tinham a assinatura de Zack Snyder.

Contudo, é um filme feito para ser visto imediatamente. Em pouquíssimos anos – uns 4 mais ou menos – grande parte do visual de Aquaman parecerá extremamente datado. A primeira vez em que Atlanna (Nicole Kidman) salta ao mar é CGI puro e facilmente identificável, o que fica bem estranho na telona. Os cabelos digitais esvoaçantes dos personagens embaixo d’água, embora agora pareçam uma conquista visual, serão extremamente vexatórios mais pra frente.

2. MOMOA RULES

A princípio, Jason Momoa com todos os seus músculos e tatuagens, barba e cabeleira não tem nada a ver com o Aquaman que conhecíamos. Mas digamos que a repaginada do personagem para o cinema (mais uma obra de Snyder) funciona bem. Momoa convence como um ser de capacidades extraordinárias e tem carisma para carregar os atributos mais humanos de seu Arthur Curry. Um herói bad ass no caminho certo, mas sozinho não carrega o filme todo.

3. PAI E FILHO

A relação de Arthur e seu pai mortal, o faroleiro que conquistou a rainha Atlanna, funciona muito bem. Em uma cena de perigo, torci para que o homem não morresse e que Aquaman não se tornasse mais um herói amargurado pela perda da figura masculina. Os dois são parceiros, bebem juntos, se importam um com o outro e têm uma relação saudável. Dividem a mesma saudade e isso está bem representado, sem pesar em melodramas desnecessários.

4. MERA E ORM

Amber Heard está bem caracterizada como a princesa Mera, uma pena sua relação com o herói ser tão fria. Momoa e Heard não conseguem nem a química mais básica vista em, por exemplo, Visão e Feiticeira Escarlate. O príncipe Orm, meio-irmão do protagonista, está bem caracterizado também. Patrick Wilson loirão e usando roupas e armaduras reais sabe que o negócio é ser um vilão de visual brega e parece confortável com isso. Ele está OK e não rouba a cena, embora pareça que a intenção fosse criar uma disputa parecida com a de Thor e Loki.

5. ROTEIRO BÁSICO E APRESSADO

Sim, Aquaman aposta na manjadíssima jornada do herói. Arthur tenta se esquivar o quanto pode de sua missão (a recusa do herói), tem um mestre, uma parceira que o acompanha na jornada, adquire habilidades, prova seu valor e recebe uma recompensa, tudo by the book. Os roteiristas colocaram tanta coisa nessa história que a aventura precisa ser acelerada de um modo que realmente atropela muitas coisas na superfície e nas profundezas.

Enquanto Aquaman e Mera vão do Maine ao Saara e à Sicília, Orm viaja por vários reinos submersos reunindo exércitos e dando forma ao seu golpe de Estado. No fim das contas, não há muita coisa para se ver em termos de história. Com tantos lugares para visitarem e tantos inimigos cheios de armaduras para enfrentar, o lado dramático acaba sendo resumido. Pelo menos, não é um filme de 2h20 dedicado a mostrar o Aquaman crescendo e adquirindo poderes. Quando ele surge, já é um ser poderoso.

6. ÉPICO? FANTASIA? SCI-FI? COMÉDIA?

Zack e Deborah Snyder ainda estão creditados como produtores executivos do longa, mas o tom sisudo e duro de seus filmes se foi. O problema é que James Wan e o resto da equipe não conseguem decidir que tipo de filme é Aquaman. É uma fantasia, sem sombra de dúvida, que flerta com a ficção científica de vez em sempre. Atlântida é tanto um lugar de magia (e modos meio medievais) quanto de máquinas mais avançadas que as da superfície. Pela escala da missão de Aquaman e várias cenas grandiosas, tenta ser um épico, mas não mantém essa pegada por todo o tempo. Tenta ser comédia também, e até consegue, mas claramente não é o forte do filme.

7. SALADA MUSICAL

Fazia muito tempo que não via um filme com uma trilha sonora tão variada e tão desconjuntada. A princípio, as músicas pop parecem querer criar alguma relação com os personagens, enquanto a trilha original de Rupert-Gregson Williams se esforça para sintetizar a fantasia high tech do visual. Com o tempo, fica claro que Aquaman atira para todos os lados e todas as tendências. Em uma cena em que Arthur e Mera saem do mar e chegam a uma praia, a música torna a cena um comercial de xampu.

8. EXPLOSÕES

É incrível como James Wan e os roteiristas se repetem nas soluções de cena. Em diversos momentos, os personagens estão tranquilos em seus afazeres quando DE REPENTE alguém os ataca e a pancadaria começa. Esse DE REPENTE, em 70% dos casos de Aquaman, é uma explosão. Não é brincadeira: se Atlanna e seu marido estão curtindo a vida conjugal e algo precisa mudar, começa com uma parede explodindo. Se Orm precisa convencer Nereus a ficar do seu lado na guerra, uma explosão é o que interrompe a diplomacia e inicia o conflito. Se Mera e Vulko (Willem Dafoe) estão escondidos, é uma explosão que mostra que foram descobertos…

9. CÂMERA INSANA

Desde a primeira vez que assisti à Invocação do Mal, também dirigido por James Wan, fiquei embasbacado com a movimentação de câmera do diretor. Aquaman também se beneficia disso, principalmente nas cenas de ação. A primeira luta, com Nicole Kidman, é ótima, com ângulos extremamente criativos. Outra cena que se aproveita disso é a perseguição na Sicília, que todo mundo já viu no trailer estendido. Quando a batalha é muito gigante e épica, aí a filmagem fica mais comum mesmo.

10. FUROS

A construção de um universo da DC realmente foi abandonada e nem lógica interna mais conta. Em Liga da Justiça Mera já havia aparecido, certo? Pois quando ela dá as caras para Arthur Curry pela primeira vez em Aquaman, ela cita o Lobo das Estepes (que Aquaman ajudou a derrotar em eventos passados, correto?) mas parece que o protagonista nunca a tinha visto antes. Ainda no começo do filme, alguns motoqueiros tiram selfies com o herói, pois o reconheceram como o “garoto-peixe” (uma das melhores cenas do filme). Na cena pós-créditos, dias depois da cena das selfies, há um cartaz com a silhueta de um rosto e uma frase perguntando quem é o Aquaman. Como assim o governo e os jornais não sabem, mas os motoqueiros sim?

11. BREGA E BOBO

Muito se fala de Aquaman soar meio brega e infantilizado. De fato é, mas se pensarmos que é um filme que quer encantar aos meninos e meninas de 8 e 10 anos também, e não somente aos marmanjões, tá tudo bem. Mas a cena que sintetiza o que é brega e bobo em Aquaman é o polvo baterista.

Por fim, o filme não se prende à seriedade e violência outros filmes da DC e, com já era claro desde os primeiros trailers, não tenta ter o realismo dos filmes de Christopher Nolan. Aquaman tenta seguir muito mais a Marvel Studios agora, com histórias mais leves, violência sem sangue e um heroísmo mais declarado. Mas enquanto a Marvel já sabe equilibrar bem humor, drama e ação sem perder o foco, Wan não conseguiu acertar um tom. Parece estar no caminho para refazer o universo da DC no cinema, mas cuidar e costurar melhor as partes que constituem o filme.

Lista: os Melhores na Música em 2018

Melhor álbum contra a angústia

Chastity – DEATH LUST |Uma banda nova que fez sua estreia em 2018 com Death Lust, Chastity foi um dos maiores acontecimentos par mim. Banda canadense de Whitby, pequena cidade próxima a Toronto, que vive entre o tédio e a falta de perspectiva, uma noção que faz parte de toda a angústia presente no álbum. Trafega por diversos estilos e vai da pancada que é “Children” até conseguir deixar entrar os primeiros raios de esperança em “Innocence”.

Álbum mais delicado

Lauren Auder – WHO CARRY’s YOU | Lauren Auder é um francês que fazia suas produções em casa e as postava no Soundcloud. Ainda estudava no ensino médio quando chamou a atenção de rappers e gravadoras. Ao se formar, foi para a Inglaterra. Who Carry’s You é seu primeiro EP e já demonstra maturidade, sensibilidade e boa mão para experimentar sem perder a ternura.

Tuyo – PRA CURAR | Trip hop brasileiro de qualidade, com lírica, ótima escolha de sons, de duetos, de contrastes de voz e com ótima atmosfera. Além disso, o trio do Tuyo mostrou uma maturidade bem grande em Pra Curar que não estava toda no EP Pra Doer. Falei mais de Pra Curar aqui.

Rubel – CASAS | O carioca Rubel fez um dos álbuns que mais ouvi este ano. Doce, contido, quente a sua maneira, poético. Uma trincheira onde deságua rap, MPB e folk, orquestrações e violões, cenas da vida real e espaço para a imaginação.

Melhor álbum feminista

U.S. Girls – IN A POEM UNLIMITED | Desde que U.S. Girls (nome do projeto solo de Meg Remy) lançou In a Poem Unlimited, o disco foi baixado na minha biblioteca do Spotify e não cogitei apagar. O disco é bom do começo ao fim. Funk rock, funk pop, levemente lisérgico e cheio de mensagens feministas, inclusive um tapão na cara do Barack Obama e uma história de vingança. Remy é americana e vive no Canadá, seu novo disco entretém e ilustra a luta, os medos e a esperança de diversas mulheres. O Dirty Computer de Janelle Monáe poderia figurar aqui também com tranquilidade, mas a voz de Remy no U.S. Girls precisa ser ouvida e destacada também.

Melhor disco nacional

Luiza Lian – AZUL MODERNO | A fluidez como Luiza Lian e seus músicos produzem uma obra sentimental e misturando referências que vão do funk ao pop e da música negra à eletrônica é incrível. Azul Moderno tem o que dizer e tem som para embalar sua meditação, sua magia, sua dança e até sua festa. Foi um ano de ótimos lançamentos nacionais e nada fácil escolher apenas um disco, mas foi este da Luiza Lian que quis sempre ter à mão desde que foi lançado. Falei mais de Azul Moderno aqui.

Álbum que achei que ia ouvir muito e ouvi bem pouco

Florence + The Machine – HIGH AS HOPE | Adoro Florence Welch e sua banda. Adoro sua voz e a forma efusiva como interpreta suas composições. Adoro inclusive que ela tenha algo de místico. Mas High As Hope me soou contemplativo demais e com pouca força. As letras são boas, as músicas são bonitas, está tudo certo, mas mesmo assim não é um disco que empolga. Quem sabe com o tempo a gente não redescobre este 4º álbum do Florence + The Machine, né?

Banda que ia lançar disco novo, não lançou e me frustrou

TOOL | Eu e toda uma legião de fãs do Tool estávamos esperando por um novo álbum em 2018. Eu e toda uma legião de fãs do Tool estamos esperando o 5º álbum da banda americana há mais de 10 anos. Ficou para 2019. O que sabemos é que a banda já gravou todas as músicas e só falta colocar a voz em tudo. Vários músicos – incluindo Tom Morello, Nergal Darski e o líder dos Melvins, entre outros – já puderam ouvir o que o Tool aprontou e todos dizem que é incrível.

Artista mais incompreendido de 2018

JACK WHITE | Passei boa parte de 2018 seguindo os passos de Jack White. Ele lançou o disco mais estranho da carreira, o menos roqueiro, é verdade, e finalmente usou edição digital para montá-lo. Contudo, Boarding House Reach foi extremamente incompreendido por boa parte do público e até da crítica. Cansei de ver textos sobre o álbum bem mal-informados, porque neste caso, a forma totalmente alinear como White compôs e gravou, determinou o resultado final, e a grande maioria da crítica analisou como se fosse um disco produzido de forma convencional. A turnê de Jack foi longa e ele registrou tudo em seu Instagram. Ao vivo, as canções ganharam peso rock e as performances do músico eram sempre entregas de corpo e alma. Continua sendo o embaixador do espírito rock’n’roll em nossos tempos, mesmo com um álbum esquisito e experimental.

Artista mais controverso de 2018

KANYE WEST | Kanye West, o rapper originalmente de Chicago, de onde veio o ex-presidente Obama, nunca foi parte do séquito de Obama. Querendo ter algum peso na Casa Branca, deu declarações polêmicas sobre escravidão e pareceu passar pano em Donald Trump. Sua saúde mental foi colocada em xeque e seu estado emocional foi brilhantemente sintetizado no clipe animado de “Feels Like Summer” de Childish Gambino. Se fechou no estúdio em 2018 e produziu 5 discos curtos de 5 rappers diferentes, incluindo um novo álbum próprio e um em parceria com Kid Cudi. Todos ficaram ótimos. Esse é o Kanye: ótimo por um lado e uma besta por outro.

Melhor capa

Blood Orange – NEGRO SWAN | Ouvi Negro Swan muito menos do que pretendia, mas ainda assim, que grande disco de R&B. Dev Hynes, o homem por trás de Blood Orange, disse que o tema geral da obra é a depressão negra. A capa, uma foto, é maravilhosa no que retrata e em como retrata. Há algo de absurdo, inda que profundamente humano, mesmo que remetendo a algo sobrenatural ou irreal em um ambiente urbano. O tipo de imagem que permite trocentas leituras, tantas que talvez seja melhor apenas apreciar e sentir, sem explicar muito.

Show mais esperado

RADIOHEAD no Allianz Parque | Não compareci àquele primeiro show do Radiohead em São Paulo em 2009 e por muito tempo me arrependi profundamente de não ter ido. Finalmente lavei a alma e conferi a banda no Soundhearts Festival, que teve também Aldo The Band, Junun e Flying Lotus. Gostei de todos os shows, mas o mais esperado era mesmo o do Radiohead, que tocou por 2h30, Thom Yorke estava animado e deu pra ver como  banda reproduz o máximo de sons possíveis ao vivo mesmo, sem recorrer a VS e trilhas disparadas por teclado ou notebook.

Show mais emocionante e suante

NICK CAVE AND THE BAD SEEDS no Espaço das Américas | Fazia quase 30 anos que Nick Cave não se apresentava em SP e pelo menos há 10 eu aguardava sua volta. O show único no Espaço das Américas foi anunciado no dia do meu aniversário e mais do que depressa me dei o ingresso de presente. Foi incrível. Não só esteve à altura das expectativas como superou todas elas. Já estive em muitos shows de rock e metal, dentro de festivais e fora, e nunca saí tão suado de uma apresentação como foi esse show do Nick Cave. Ele não parou um segundo no palco, a gente não parou lá embaixo também. Durante “Higgs Boson Blues”, toquei o coração do cantor, que riu para mim quando fiz isso. Falei mais do show dele aqui.

Melhor show que vi no YouTube

NINE INCH NAILS – Live: Black and Blue and Broken Bones | Filmado em Madri, na Espanha, em julho deste ano, este é só uma das várias apresentações que o Nine Inch Nails está disponibilizando online. Trent Reznor, Atticus Ross e toda a banda é de uma energia inesgotável no palco. A edição do vídeo e a câmera frenética só tornam tudo mais intenso. A certeza é que não quero perder outro show desses caras no Brasil como já perdi uma vez.

Melhores clipes

Rubel – COLÉGIO |Pode pegar qualquer novela ou série que se passa em escolas: RiverdaleSabrinaEliteBaby, MalhaçãoAmerican Vandal: nenhuma retratou o colégio e seus alunos de forma tão delicada, comovente e premente como Rubel no clipe de “Colégio”. Falei mais dele aqui.

Chastity – HEAVEN HELL ANYWHERE ELSE |Mais um clipe que tenta retratar a juventude, seu tédio, seu deslumbramento, sua autodestruição, o sentimento ruim de gritar que não sai do peito e que faz ser tão comum queimar uma igreja e andar numa roda gigante. O primeiro verso da música da banda Chastity já dá indícios suficientes: “Quem atou meus dias com a dor?”

Childish Gambino – THIS IS AMERICA | Childish Gambino pegou todo mundo de surpresa com esse clipe arrasa quarteirão e lotado de crítica, sarcasmo e ironia. Um dedo que parece um canhão apontado para o rosto dos EUA. Uma pena que grande parte do público ficou mais preocupado em pegar cada referência escondida na obra do que em absorver o que ela realmente quer dizer.

Melhor trilha sonora de série

REQUIEM – trilha de Dominik Scherrer e Natasha Khan | A série é uma produção da BBC e que foi comprada pela Netflix. Mortes misteriosas e espelhos negros levam a protagonista a um culto enoquiano, sigilos de John Dee e invocações angelicais. A trilha sonora é bem interessante em como tenta produzir suspense sem perder essa veia mágica. Não sei do perfil de Dominik Scherrer, mas Natash Khan (que talvez vcê conheça por Bat For Lashes), que empresta sua voz à trilha, tem familiaridade com o rolê oculto inglês.

Melhor trilha de filme que ainda não vi

SUSPIRIA – Thom Yorke | O filme de Luca Guadagnino não chegou ao Brasil e eu ainda não o assisti, mas a trilha sonora composta e interpretada por Thom Yorke, do Radiohead, é magnífica. A trilha do filme original de 1977 foi criada por uma banda prog chamada Goblin e Yorke sabia o que tinha nas mãos quando aceitou a empreitada. Tem assombro, tem delicadeza e sutilezas harmônicas para aficionados em partituras notarem e babarem. E é apenas a primeira trilha que Thom faz para cinema.

Música mais emocionante de filme

Kendrick Lamar & SZA – “All The Stars” | Da trilha de Pantera Negra, primeiro filme da Marvel que realmente se preocupou com a trilha sonora e trouxe Kendrick Lamar para cuidar dela e das ideias que a música poderia comunicar. “All The Stars”, com um emocionante refrão cantado pela SZA merece o Oscar e o Grammy a que foi indicada. Desculpa Lady Gaga e Bradley Cooper, mas a verdade tem que ser dita.

Melhor rock feito por não roquistas

Grimes feat. Hana Truly – “We Appreciate Power” | Grimes era indie pop, indie LSD, difícil de categorizar, mas não metaleira. Seu novo single traz a guitarra da parceira Hana Truly afinada em Drop D, tema cyberpunk, um peso e uma mensagem direta que nem mesmo o Muse conseguiu compor em 2018. Além disso, as buscas pelo significado do verbo “to capitulate” explodiram por causa da canção.

Disco que muita gente gosta e eu não tive interesse em ouvir

Twenty One Pilots – TRENCH | Não se trata de dizer que Trenché ruim. É que muita gente parou para ouvir o novo álbum do Twenty One Pilots e eu nem tive a curiosidade de salvar no Spotify. Aliás, a 5ª temporada de Bojack Horseman na Netflix faz uma piada sensacional com a banda.

Melhor disco cheio de ruído

Low – DOUBLE NEGATIVE | Que obra maravilhosa! O Low, 25 anos de estrada, ainda criativo, se reinventando, dessa vez usando a música eletrônica para fazer sons que parecem um erro  de programação, ou como a música que havia nessas faixas tivesse sido estragada por sinais magnéticos. Há algo de espectral e de metafísico, como se a alma viajasse pelos cabos da rede de força. Falei mais de Double Negative aqui.

Melhor disco de rap pra ouvir no repeat

Baco Exu do Blues – BLUESMAN |O baiano Baco Exu do Blues ressignificou o blues e fez um disco rápido e que defende mais uma vez a cultura negra e toda a sua importância, resgatando o valor de sua luta e seu pensamento. Bluesman é divertido, importante e variado. Falei mais sobre ele aqui.

Pusha T – DAYTONA |Um dos cinco álbuns de 2018 produzidos por Kanye West, em Daytona Pusha T manda um rap direto, com influências do old school e bastante instigante. Como tem a duração de um EP, o repeat é necessário par não sair vibe muito rápido.

Melhor disco antifascista

Behemoth – I LOVED YOU AT YOUR DARKEST | O Behemoth tomou a política de seu país, a Polônia, como pano de fundo de toda a vociferação raivosa de I Loved You At Your Darkest. O governo do país é de extrema direita e chegou ao poder por vias democráticas. Não bastasse isso, o governo é profundamente influenciado pelo catolicismo que, por sua vez, também está alinhado à extrema direito, junto ao partido que hoje comanda a Polônia. É contra a política e contra a religião que o Behemoth direciona seu blackened death metal. Não tenta superar o anterior, The Satanist, mas faz um metal tão vigoroso quanto.

Melhor disco feito em casa / DIY

Nithael – ATLANTIS | Nithael mergulhou fundo mesmo na experimentação musical para dar cara e cor ao seu disco Atlantis. Seu trabalho anterior era apenas vocal e me surpreendeu o quanto ele testou de sons, camadas e texturas, algumas bem experimentais, para fazer seu álbum ter um conceito de fato. Ele não usou músicos ou aparelhagem de estúdio, apenas o próprio conhecimento, a própria voz e a indômita vontade de fazer música. Falei mais sobre Atlantis aqui.

Melhor indicação que o @o_eder me deu

ELVIS PRESLEY ao vivo | Elvis Presley é uma figura americana tão marcante na cultura dos EUA que está associado a tudo: roupas extravagantes, carros com cauda, topetes, vozeirão, beleza, branco roubando o brio de negros na música, cinema, polêmicas, sucesso que vai além de sua própria vida e invade a morte. O @o_eder me mandou vídeos do Elvis ao vivo e pude lembrar como ele era grande, porque era o Rei. 

Melhor disco para ouvir internado

Manoel Magalhães – CONSERTOS EM GERAL | Eu não fiquei internado em 2018. No máximo saí mais cedo do trabalho um dia por causa de uma gripe. Mas o @o_eder ficou, após um acidente sério, e teve conforto na música. Consertos em Geral, do Manoel Magalhães, foi um disco que ele ouviu enquanto habitava o hospital.

Melhor álbum para puxar ferro

Daughters – YOU WON’T GET WHAT YOU WANT |Um disco de rock bem nervoso e enervante de uma banda que não tocava junta há muitos anos. A fúria passa pelos seus ouvidos e atinge a corrente sanguínea, dando aquele impulso venenosa no seu treino de cada dia. Bom álbum, cheio de sentimentos pesados para que você lide com seus próprios pesos na academia e, quem sabe, na vida. Falei mais de You Won’t Get What You Want aqui.

Melhor álbum para dormir ouvindo

LIMINAL | A playlist infinita do pessoal do Sigur Rós é um dos projetos mais legais e inovadores de 2018 na música. A música de Liminal, contudo, não sei é para todos os gostos, mas caso goste de sons novos, timbres esquisitos, uma interconexão entre o acústico e o eletrônico, o melodioso e o ruidoso, vá fundo noite adentro.

Melhor disco de artista muito veterano

Marianne Faithfull – NEGATIVE CAPABILITY | Marianne Faithfull chamou o Warren Ellis para produzir seu novo disco. Nick Cave participa. Mark Lanegan, também. O disco é precioso. Uma senhora de idade avançada refletindo sobre amor, falta de amor, solidão, morte, solidão de novo, mais morte, terrorismo, e fazendo algumas releituras de sua própria obra. É cortante a honestidade como retrata a si mesma nessa fase da vida. Falei mais de Negative Capability aqui.

A tragédia das 32 crianças da República Luminosa

O madrilenho Andrés Barba ganhou notoriedade nas letras espanholas quando lançou REPÚBLICA LUMINOSA por lá e venceu o Prêmio Herralde em 2017. O seu livro chegou ao Brasil este ano pela editora Todavia e quando comecei a ler, demorei um tempinho para entrar na vibe do autor. Li os três primeiros capítulos e fiquei desconfiado de que ele enrolaria muito para contar a história das 32 crianças que surgiram nas ruas de San Cristóbal e se refugiavam na floresta. Li os capítulos 4 e 5 e, ao fechar o livro para dar uma pausa, já estava totalmente ganho pela história e pelo autor. Não precisei nem chegar ao final da obra para ter certeza de que seria uma das três melhores coisas que li este ano.

A história é contada em primeira pessoa, da perspectiva de um homem, um profissional da gestão pública, que assume a pasta da Ação Social ou Desenvolvimento Social de San Cristóbal, uma cidade espanhola onde vivem muitos Ñeê, um povo característico ao que parece. Então 32 crianças começam a aparecer na cidade, sem origem muito definida, algumas são órfãs, outras fugiram de casa em outras cidades, mas ninguém sabe como é que começaram a se reunir.

O que se sabe é que estiveram em San Cristóbal, praticaram mendicância e pequenos roubos, incomodaram a princípio e depois viraram parte da paisagem, já que, como muitos excluídos em nossas ruas, fingimos que não estão lá. Mas é difícil não ver que são crianças. Como Barba escreve: “Por mais que as víssemos miseráveis, sujas e muitas vezes afetadas por doenças viróticas, já tínhamos nos imunizado contra a situação. Podíamos comprar uma orquídea delas ou um saquinho de limão sem nos alterarmos: aquelas crianças eram pobres e iletradas como a selva era verde, a terra era vermelha e o rio Eré carregava toneladas de lama.”

Sabemos também, desde o início, que uma tragédia vai acontecer com essas crianças. Não só com as 32, mas com algumas outras que vão se juntar ao bando também, o que só aumenta a tensão na cidade, atingindo em cheio as autoridades policiais e municipais.

E então você pensa em todas as coisas que você tem e elas não, e nas coisas que você faz e elas não podem fazer. Porque elas não têm uma casa. Nem comida. Nem cama. E, como não têm essas coisas, dormem com os olhos abertos para não sentir medo. E entram em você. E você é elas.

Andrés Barba conta a história de forma alinear. O narrador está à frente dos acontecimentos e vai revelando o coração dessa narrativa aos poucos, intercalando-o com fatos que se seguiram inclusive anos após a tragédia. Isso cria uma dimensão muito maior da tragédia e da barbárie, fazendo com que República Luminosa não seja um livro apenas sobre o que houve com as 32, e sim páginas repletas de reflexões filosóficas e investigações de cunho moral que só aumentam a tensão e o escopo do ocorrido. República Luminosa, dessa forma, parece ter muito mais história do que cabem em suas 160 páginas.

Foi como ler As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides, também. Tanto na estreia de Eugenides como neste de Barba, nunca temos a perspectiva de quem realmente é o centro das atenções. As irmãs Lisbon nunca tomam a palavra para contar a sua versão dos fatos, assim como as crianças também não falam conosco, nem com o narrador e nem deixam documento para termos um insight mais seguro sobre a história delas. Tudo o que é contado sobre elas parte de terceiros ou das elucubrações do próprio narrador, formando um quebra-cabeça muito interessante.

A história que Barba quer nos contar é boa. A forma como escolhe contá-la, é ótima. As reflexões que faz – sobre a história e sobre como nós, os leitores e os sancristobalenses respondemos a ela – é o verdadeiro ouro de República Luminosa. No meio do caos e do desespero, até as melhores intenções podem se traduzir em violência, física e social.

Mas as crianças não apareciam, as patrulhas policiais retornavam todos os dias ocultando a sua frustração, e cada vez que olhávamos para a selva parecia que aquela massa tinha se voltado contra nós para defender as crianças. Se não era uma fábula moral, tínhamos que reconhecer que era bem parecida com uma.

REPÚBLICA LUMINOSA
Andrés Barba
Tradução de Antônio Xerxenesky
Editora Todavia
160 páginas