Seu cão tem uma playlist?

O meu cão tem uma playlist. Eu amo tanto ele que fiz uma playlist. Começou como uma brincadeira, mas aos poucos fui curtindo a ideia e descobrindo músicas que não conhecia e lembrando de outras que podiam fazer parte do contexto.

Aliás, meu cão é o Moby. Ele foi resgatado com poucas semanas de vida por uma amiga. Ele, um cachorrinho preto, e seu irmão, um cachorrinho branco, foram abandonados em uma casa dentro de um condomínio rural. Havia um terceiro irmão, mas ele não resistiu ao período sem alimentação e água. A mãe era uma bonita labradora, que foi retirada dali pela família de filhos da puta que tiveram coragem de abandonar filhotes.

Essa amiga resgatou e os trouxe para a cidade, sob seus cuidados. Postou no Facebook e eu, num impulso que não é muito a minha cara, resolvi adotar um deles. Fui com minha namorada buscá-lo. Peguei o pretinho no colo. Ele foi logo lambendo minha cara e minha orelha. Peguei o branco: ou estava com sono, ou muito assustado, ou não foi com a minha cara. Peguei o cão preto, achando que ele era mais carinhoso. Como fui descobrir nas semanas seguintes, eu peguei o irmão endiabrado: não era que ele gostou de mim, é que ele é mais atiradão mesmo. Minha amiga acabou adotando de vez o irmão branquinho, chamado Fred.

Ele poderia ter se chamado Ozzy ou Vader e teria combinado bem com a personalidade dele, acreditem. Mas se chamou Moby, sugestão da minha namorada, que pensou no Moby, o artista techno e cantor, que é vegano e defensor da causa animal.

Essa playlist é baseada em músicas que falem de cães de algum modo. Pode ser um cão real, uma alusão, uma metáfora. Se falar de cão preto então, melhor ainda. Às vezes, só de falar da cor preta já é um bom motivo para estar na playlist. Consegui nomes bem conhecidos, como Led Zeppelin, Ozzy, Johnny Cash, Pink Floyd, Kate Bush, Os Mutantes, Zeca Baleiro, New Order, David Bowie e, claro, o próprio Moby. Há algumas coisas alternativas bem legais também, como um lado B da carreira solo de Bruce Dickinson, uma faixa cheia de sintetizador do Jack White, um rap com bossa do Rubel, um doom da Emma Ruth Rundle que entrou no apagar das luzes, e um progressivo dark do Steven Wilson que estava na lista desde o primeiro instante.

Tem ainda uma faixa dos cariocas do Estranhos Românticos, uma balada sentimental da texana Sarah Jarosz, e uma música linda, de apenas dois acordes, dos mexicanos do Vaya Futuro. Três nomes das Américas que talvez você não conheça, mas que vale a pena ouvir. O Behemoth, aquela banda extrema da Polônia, lançou uma faixa chamada “God = Dog” que estará no novo álbum, que sai em outubro. Infelizmente a música não está no Spotify ainda. Ficou faltando essa nessa primeira versão da playlist.

Moby hoje

É claro que a playlist é para mim, não para o cão. Moby não se importa com o que está tocando: pode ser death metal ou synthpop, um podcast ou o som que sai do meu próprio amp de guitarra. Mas é uma playlist especial, que começou como brincadeira e acabou se evocando sentimentos reais que tenho pelo meu cachorro.

A foto da capa, aliás, eu mesmo fiz, quando o garotão tinha alguns meses de vida. Não é nosso momento mais íntimo, mas acho que retrata bem o momento em que comecei a fazer essa seleção de músicas. Como não há como deixar de amar o Moby, essa playlist pode ir sofrendo alterações ao longo do tempo.

Agradecimentos especiais ao Eder Robertinho que deu algumas ideias bem merdas (como o hit da minha adolescência “Dogão é Mau”) e algumas que ainda bem que ele lembrou, como a faixa d’Os Mutantes e a “Seamus”, do Pink Floyd, que fica ótima para fechar a lista.

Moby meses após ser resgatado e adotado, na época em que a playlist começou a ser feita

É hoje: Life is Strange 2

Hoje começo a jogar LIFE IS STRANGE 2. Eu conheci o primeiro jogo mais de um ano após seu lançamento, mas foram tantas opiniões favoráveis que fui convencido a vivenciar aquele turbulento período da vida de Max e Chloe. E é de fato um jogo incrível, daqueles que despejam tantas ideias e questões dentro de uma narrativa, com personagens tão interessantes, que até bate um certo desconforto em alguns momentos.

Life Is Strange 2 não terá Max e Chloe. Temos uma dupla de irmãos agora como protagonistas. E assim como Max descobria a habilidade de controlar o tempo, um desses irmãos também terá um poder especial. No caso da série Life Is Strange, como já vimos no primeiro game, trata-se de um drama, com temáticas pesadas, e não um jogo de super-herói. Ter poderes ajudou Max a salvar sua amiga, por exemplo, mas não impediu que uma série de outros eventos terríveis ocorressem, bagunçando sua vida de uma forma agoniante.

Em Life Is Strange 2 eu aposto que os poderes com essa ambivalência – podem ajudar e destruir – deva ser mantido. Afinal, a premissa é que os irmãos Sean e Daniel Diaz saem de casa após algum evento traumático que tem a ver com uma habilidade especial e que acaba envolvendo a morte de um policial. Agora as autoridades estão na cola dos dois jovens.

Sean e Diaz fogem de casa, para dentro de bosques e beiras de estradas. Deverão migrar de Seattle até o México, cortando o Oregon, estado em que se passava o Life Is Strange original. Não está claro como os eventos de Arcadia Bay terão alguma influência em Life Is Strange 2. Há rumores de que o game carregará suas escolhas feitas no primeiro LiS para respeitar o contexto escolhido por você no final da jornada. Além disso, LiS 2 se passa três anos após o primeiro. Se as narrativas não estivessem no mesmo universo, a diferença temporal não precisaria ser destacada, não é mesmo?

O primeiro Life Is Strange

IMAGINAÇÃO E BEBEDEIRA

Porém, é certo que não será um jogo independente de seu prólogo, The Awesome Adventures of CAPTAIN SPIRIT. Quem já jogou, precisou fazer algumas escolhas que serão carregadas para dentro de LiS 2. Quando Captain Spirit foi anunciado e liberado gratuitamente durante a E3 2018, ninguém entendeu bem qual era a do jogo e como ele se conectaria ao universo de LiS. O trailer não deixava claro e motivou piadas como: é um simulador de garotinho branco.

Assim que comecei a jogar Captain Spirit reparei que não era só isso. O jovem Chris Eriksen vive com o pai e perdeu a mãe. O pai é um ex-atleta que agora está desempregado durante o inverno do Oregon e bebe para… bem, para passar o tempo, esquecer os problemas e anestesiar a angústia. O design da casa de Chris, assim que a vi, já me indicava que seria um jogo em que problemas econômicos teriam um lugar. A imaginação fértil do garoto seria sua forma de enfrentar esse seu mundo de sofrimento e perda.

O jogo é curto e se passa totalmente dentro da casa e do quintal dos Eriksen, mas coloca uma quantidade de objetos e segredos a serem descobertos bastante grande, já deixando claro como a Dontnod, a desenvolvedora francesa do game, evoluiu de um game a outro. Embora o estilo de jogo continue sendo o mesmo – em terceira pessoa, fazendo escolhas que alteram o futuro e com muitos objetos e personagens para interagir (ou não) -, a engine é a Unreal Engine 4, oferecendo mais possibilidades, melhor física ao game e uma inteligência artificial maior ao personagem Daniel.

The Awesome Adventures of Captain Spirit

A partir desse prólogo/demo, já vislumbro quantas possibilidades não teremos na jornada de Sean e Daniel, e quantas oportunidades vamos perder ao longo do caminho, seja pelas escolhas que fizermos ou por não explorarmos tudo o que há pra fazer. Eu joguei Captain Spirit duas vezes e mesmo assim não consegui fazer tudo o que dava para fazer.

Também joguei Life Is Strange: Before The Storm, o jogo de prelúdio desenvolvido pelo estúdio americano Deck Nine (com aprovação da Dontnod) . Não é tão surpreendente quanto o original, mas fez um bom serviço em contar a história de Chloe e Rachel. A cena do teatro Sonho de Uma Noite de Verão é inacreditavelmente bem conduzida e roteirizada. A trilha sonora, muito importante no primeiro game, ganhou até faixas originais feita por bandas reais, como Daughter, uma novidade que também estará em LiS 2.

Assim como estou lendo a Trilogia do Sprawl e postando textos comentando cada livro (já falei de Neuromancer e de Count Zero), vou comentar sem spoilers cada um dos 5 episódios de Life Is Strange 2 conforme vou jogando. É uma série que mexe com nossos sentimentos, ou pelo menos é isso que espero.

Life Is Strange e Life is Strange: Before The Storm estão disponíveis para Playstation 4, X-Box One, Windows 10, Android e iOS. Captain Spirit e Life Is Strange 2, por enquanto, estão disponíveis apenas para consoles PS4 e X-Box One e Windows.

Corrupted Data está no Spotify, mas podia estar na Bienal

O prêmio de disco mais tresloucado de 2018 vai para CORRUPTED DATA 蝶とクジラ, quinto disco de Cadu Tenório. O carioca fez um bundle de música, site, livro e estética glitch. O álbum é um produto da cibercultura e isso é o ponto chave para entender, aliás, que não é só música ou que o ouvinte não deveria parar ali dentro da playlist no Spotify.

Explorar apenas sua música é perder parte do todo. Ver só o site é deixar de lado o coração do projeto. O negócio é se jogar, explorar, brincar. Tem até um curious.cat ali no meio da baguncinha para você deixar sua pergunta ao artista.

É um projeto pretensioso. A parte musical tem 32 faixas, alternando entre músicas com um tempo aceitável e outras que vão dos 45 segundos aos 21 minutos. Acho que a última vez que ouvi um disco com 2h30 que não era ao vivo ou de banda de rock progressivo, foi em 2014, quando deadmau5 lançou While(1<2).

Ele abraça essa ideia de que estamos conectados, de que a personalidade pode ser fluida e posta em xeque, que deus existe ou não e como fica a questão de uma existência virtual, digital, de zeros e uns, nos wires, e sem presença corpórea? E como as falhas eletrônicas fazem parte desse mundo – do nosso mundo – há vários glitches nos textos e narrativas.

Tenório explora o isolamento e a dissolução de laços também, uma questão que ficou mais presente do que nunca com o papel das redes sociais. Por deixar tantas portas abertas e tão poucas respostas, Corrupted Data é instigante. Mr. Robot meets Twin Peaks com um Serial Experiments Lain twist.

Sintetizadores e ruídos justapostos, vozes, robôs, gravações que parecem vindas do além, caso haja um além-ciberespaço, resumem o álbum. É uma experiência de imersão que ouvi justamente enquanto mergulho na Trilogia do Sprawl de William Gibson. Imagine pegar uns textos, jogar no Google Tradutor e deixar a voz do sistema ler. Aí você pega essas gravações e junta tudo numa faixa, executando uma por cima da outra. Pois é… E há muito Google Tradutor, tanto que o serviço deve estar creditado em algum lugar da ficha técnica. (Não é legal que o Google Tradutor tenha se convertido em uma espécie de instrumento?)

Corrupted Data 蝶とクジラ lembra aquela discussão se “Revolution #9”, dos Beatles, é música ou não. Diria que o álbum tem música (eletrônica, ambiente, disruptiva, noir), mas é uma arte muito mais ampla no sentido auditivo do que uma obra de arte pode ser. Visualizo, aliás, Corrupted Data como uma instalação em uma Bienal sem problema algum.

É um bom álbum? Digamos que não é um disco para quem gosta de dar play em música no sentido mais tradicional da palavra, como já ficou claro. Quem procura novas formas de expressão vai enxergar os méritos apesar da participação do Google Tradutor que, passada a primeira hora, você saca que é importante para o storytelling mas que, auditivamente, meio que enche o saco. Quando ele cria harmonias, é um disco de ambiente muito legal.

Você pode não conhecer – ou reconhecer Cadu Tenório – mas ele já tem um reconhecimento no meio. Fez música com a Juçara Marçal, Márcio Bulk e Alice Caymmi, entre outros, e já deixava seus ouvintes hipnotizados ou a beira de um ataque de nervos com seu primeiro disco Riming Compilation, de 2016, em que já mostrava sobreposição de vozes, a música eletrônica para os subterrâneos e referências da cultura popular oriental.

Dê play no álbum e não deixe de visitar o site-livro do projeto.

Sharp Objects e as palavras

As grandes metrópoles que nos deem licença. Por mais que seus becos, suas periferias pouco vigiadas e metrôs cheios de gente e de indiferença sejam ótimos subterfúgios para crimes e toda sorte de situação estranha, nada parece mais insólito do que as pequenas cidades. SHARP OBJECTS, minissérie da HBO que adapta Objetos Cortantes, o romance de Gillian Flynn, vem engrossar o caldo de cidadezinhas do interior com suas próprias idiossincrasias, aristocracias, senso de justiça e segredos lúgubres.

Amy Adams, com uma atuação acima da média, é a jornalista Camille Preaker, convidada pelo seu editor do jornal da grande St. Louis, na divisa do Missouri com Illinois, a passar uns dias em sua cidade natal, Wind Gap, no interior profundo, para investigar a morte de uma adolescente e o desaparecimento de uma segunda. A jornalista é meio ferrada na vida: passou anos se cortando para aliviar a dor mental e, agora que já consegue não se automutilar, bebe pra caramba para aliviar a ansiedade e o sofrimento. O problema é que ao voltar para Wind Gap e confrontar a mãe, o padrasto e o quarto vazio da irmã que morreu quando Camille ainda era pré-adolescente, muitas memórias e muita dor recaem sobre a jornalista que não vê a hora de cair fora dali.

Logo após chegar a Wind Gap e começar a acompanhar o caso – muito a contragosto das autoridades locais e de sua mãe, dona da indústria de carne suína que movimenta a economia local -, Camille reencontra sua irmã mais nova, a adolescente Amma Crellin, interpretada com uma vivacidade incrível por Eliza Scanlen.

– Quando ouve o que as pessoas dizem todos estão loucos ou são maus. Apenas a metade é verdade.
– Isso é o que me preocupa. Estamos vendo a metade errada.

Com apenas oito episódios de uma hora cada, ouvi comentários de que a série poderia enrolar para chegar a seu final. Não é o caso. O assassinato e o novo desaparecimento, que logo se confirma como mais um homicídio hediondo, nunca perdem espaço na série. Mas o que os roteiristas e o criador Marti Noxon fazem é dar espaço para que se desenvolva a relação de Camille com sua mãe, Adora Crellin (Patricia Clarkson, uma perfeita mulher do sul dos EUA) que nunca foi das melhores e continua não sendo, sua relação com os homens, sua relação com os lugares de Wind Gap, e sua relação consigo mesma.

Não são poucas as cenas em que acompanhamos Camille em seu Volvo 240 GL dos anos 80, quase sempre com o celular conectado ao sistema de som e rolando um bom Led Zeppelin (suspeito que boa parte do orçamento de Sharp Objects tenha sido queimada com o licenciamento das músicas do quarteto inglês). A princípio, essa cenas de Camille rodando pela cidade podem parecer enrolação, mas aos poucos se tornam um espaço para vir à tona lembranças, emoções e reflexões.

PALAVRAS E IMAGENS

Dois elementos visuais são incrivelmente marcantes e fugazes na série. O primeiro, impossível não notar, é a edição que coloca microssequências de alucinações ou de memórias de Camille no meio de uma cena linear da narrativa principal. Piscou, perdeu. Em diversos momentos voltei a cena e fui assistindo frame a frame para ver melhor todos os vultos e fantasmas que assombram a jornalista.

Todas essas lembranças que piscam na tela e todas aquelas relações que vão se desenvolvendo paralelamente à investigação dos crimes são importantes para o desfecho, acredite. A pasmaceira não é só efeito estético ou enrolação. É parte de uma criação sofisticada de plot.

O segundo elemento visual pode ter passado despercebido. Tratam-se de palavras que podem ser encontradas ao longo da série nos mais insuspeitos locais. Caçá-las nos enquadramentos é como procurar pelos easter eggs de jogos de vídeo-game. O diretor canadense Jean-Marc Vallée e os diretores de fotografia Yves Bélanger e Ronald Plante resolveram seguir a metodologia “esconder em plena vista”.

Essas imagens espalhadas pela série às vezes estão mesmo escritas onde aparecem. Outras vezes, é a mente de Camille as colocando lá. Um quadro onde se lia “Hope” muda para “Hurt“; “Scared” (com medo) na porta de um carro muda para “Sacred” (sagrado); o logo da Caterpillar vira “Catfight“; o sinal de “Open” (aberto) em uma loja vira “Omen” (presságio). De todo modo, servem como uma parte do design da série. As palavras nos dão pistas e nos dão sentido, assim como as palavras que estão marcadas no corpo da protagonista.

E as palavras ditas em alto e bom som também dão pistas. Embora a identidade do assassino só seja descoberta no último episódio, quando você menos espera, eu pude apostar todas as fichas em um dos personagens logo a partir do segundo episódio. Quem prestar atenção às palavras ditas – não nas que estão “escondidas” no ambiente – notará uma relação difícil de ignorar, uma escolha de termos que não é por acaso. O enredo cria várias circunstâncias que dificultam descobrirmos qual dos suspeitos é o bicho-papão de mocinhas, mas confiar nas palavras provou ser uma forma de foreshadowing (antecipação de uma revelação ou acontecimento) bem interessante.

Sharp Objects dá a Amy Adams um papel de destaque pelo qual ela pode ser lembrada e, de fato, ela parece perfeita na pela da jornalista. Eliza Scanlen é uma jovem que sai da série com um portfólio incrível para conseguir novos trabalhos. Ela mostra presença, confiança, doçura, atitude e habilidade com a patinação. Fica trás só de Adams.

Abaixo temos algumas das palavras que aparecem ao longo das cenas. Algumas estão lá mesmo, outras são substituídas, outras não estão, outras se disfarçam de frases totalmente dentro de seus contextos (como as da clínica). Mas nenhuma delas é inocente e todas querem nos dizer algo. Há muitas outras pela série.

Falling
Faith
Sacred
Bitch
Yelp

“Count Zero”, a sequência de Neuromancer

E, por um instante, ela olhou diretamente para aqueles ternos olhos azuis e soube, com a certeza do instinto mamífero, que os extremamente ricos não eram nem de longe humanos.

Publicado em 1986, três anos após Neuromancer, COUNT ZERO é a sequência que William Gibson achou que nunca escreveria. A princípio, ele achou que Neuromancer não daria em nada, mas levar para casa os três principais prêmios da literatura de ficção científica de uma vez realmente pode fazer um homem mudar de ideia, certo?

Primeiro, é preciso dizer que, caso você queira, pode ler Count Zero sem ter lido Neuromancer. A trama é totalmente independente da contada no primeiro livro da Trilogia do Sprawl, com (quase) todos novos personagens e situações. Contudo, há detalhes e pequenas passagens no livro que são saborosos para quem conhece Neuromancer. Nenhum desses detalhes é importantíssimo para compreender o que se passa em Count Zero, mas são necessários para que saibamos o que mudou no ciberespaço, na matrix, no Sprawl, nas corporações desde os eventos do primeiro livro.

Em segundo lugar, Count Zero é muito mais fluido que Neuromancer. Por mais que Gibson tenha reescrito diversas vezes muita coisa do primeiro, com medo de que o leitor não ficasse entretido o bastante, Neuromancer parece mais truncado em diversas ocasiões. Count Zero não. O enredo só vai.

O vodu diz que há um Deus, claro, Gran Met, mas ele é grande, grande demais e distante demais pra se preocupar se você é pobre ou não arranja mulher. Vamos lá, cara, você sabe como funciona, é uma religião de rua, que veio do lugar mais pobre possível um milhão de anos atrás. Vodu é como a rua. Se um cheirador de pó fizer picadinho da sua irmã, você não vai acampar na porta da Yakuza, vai? De jeito nenhum. Você procura alguém que pode cuidar do assunto. Certo?

Acompanhamos três histórias diferentes, que se alternam até o final. Primeiro, a de Turner, um mercenário, um cara grandão e que é chamado para fazer o trabalho sujo para corporações. A princípio, ele é contratado para fazer a extração de um cientista da Maas Lab para a Hosaka. Mas é claro que algo dará muito errado nesse processo e Turner, de predador, vira a caça. Em Paris, Marly Krushkhova se deu mal no ramo das galerias de arte e acaba contratada por um dos homens mais ricos deste mundo para investigar um artista. Não demora para ela perceber que sua missão não é tão simples e que há muito mais do arte envolvida no caso.

Por fim, temos Bobby “Count Zero” Newmark, um hotdogger, um cowboy do ciberespaço iniciante que ao tentar acessar um sistema de proteção (ICE), acaba se metendo sem querer numa conspiração envolvendo corporações e a existências de “deuses” na matrix.

No futuro cyberpunk criado pelo autor americano, os Estados, enquanto governos, são mínimos. Grandes corporações são tão presentes no universo social, político e econômico que acabam dando as cartas, criando teias de relações e conspirações bastante intrincadas. Bobby, Turner e Marly atuam cada um em uma ponta dessa grande teia e aos poucos o desenho vai ficando claro, com um série de reviravoltas que garantem movimento constante às três narrativas.

Há alguns pensamentos bem interessantes no livro, como a reflexão de que espaço teriam, nesse mundo de corporações, fortunas incalculáveis de famílias ou pessoas. A aristocracia é quase uma anomalia nessa era, mas ainda persiste. Outro assunto que se desenvolve ao longo das páginas é a existência de IAs que não apenas tomam consciência de si mesmas, como acabam se identificando com os loa (entidades espirituais) da religião vodu haitiana. Essa apropriação cultural pela máquina e como os humanos, por sua vez, recebem essa apropriação e a aceitam, é o traço filosófico que considero o melhor de Count Zero. Por outro lado, é inegável que Neuromancer parecia muito mais carregado de filosofia até nos pequenos detalhes.

Isso faz com que a sequência seja muito mais focada em ação e aventura. Ainda assim, os capítulos estão cheios de detalhes sobre como é esse mundo (retro)futurista imaginado por Gibson. São pequenos trechos que, por mais que imaginação que exista em sua concepção, espelha possibilidades reais de nossa sociedade, seja ela como era nos anos 80 ou mesmo agora, 30 anos depois. William Gibson é chamado de visionário não por tentar acertar o que seria nosso futuro – até porque ele não previu a telefonia móvel e a rede como a temos e usamos hoje –, mas por conseguir ler o seu zeitgeist e conseguir projetar nossas obsessões, traumas e medos mais fundamentais no tempo.

Nessa projeção cabe até a crença religiosa na cultura cyberpunk. Se hoje ela ainda existe tomando como base “uma existência superior”, como se estivesse em uma camada de existência não acessível aos homens e mulheres, no futuro, com toda a tecnologia disponível, a crença ainda está lá, mas mudou de lugar. Dos templos para a matrix. Ao mesmo tempo, isso não excluiu Jesus do rol de divindades, mas inclui o controverso L. B. Hubbard, o criador da cientologia, como um profeta digno de culto e admiração.

“Nos últimos sete, oito anos, tem coisas engraçadas lá fora, lá na roda dos cowboys de console. Os novos jóqueis fazem tratos com as coisas, não fazem, Lucas? É, pode aposta que eu sei. Eles ainda precisam do hard e do soft, e ainda precisam ser mais rápidos que cobras no gelo. Mas todos eles, todos os que sabem mesmo cortar, têm aliados, não têm, Lucas?”

Citei quando falei sobre a série Strange Angel, que conta a história do cientista e ocultista Jack Parsons, falei de uma sutil mudança que vivemos, onde os mundos da ciência e da crença metafísica se reencontram, mais do que se combatem. Em 1986, Gibson já deixava isso palpável entre tribos urbanas do Sprawl (megacidade que vai de Boston a Atlanta), inteligências artificiais e megacorporações. O Finlandês, que já estava em Neuromancer, reaparece em Count Zero mais velhaco do que antes para fazer essa conexão: “É, tem coisas lá. Fantasmas, vozes. Por que não? Os oceanos tinham sereias, e toda aquela merda, e a gente estava com um mar de silício, vê? Claro, é só uma alucinação inventada que todos concordamos em ter, o ciberespaço, mas qualquer um que se conecta sabe, sabe mesmo que é todo um universo. E a cada ano fica um pouco mais lotado, é o que parece…”

Embora seja muito menos debatido e citado que seu antecessor, Count Zero  é uma leitura válida se seu intuito é se aprofundar na obra de Gibson ou de mais um bom exemplo de cyberpunk com ideias que continuam sendo reaproveitadas até hoje. O autor está mais afiado neste livro e parte de uma estrutura diferente para contar sua história, ao mesmo tempo em que apresenta uma paleta de personagens e cobre uma geografia mais vasta. Terminamos a história de Bobby, Marly, Turner, Lucas, Paco e Angie com uma ideia melhor das várias tribos que habitam o planeta e que fronteiras ainda existem.

Mona Lisa Overdrive, a terceira parte da Trilogia do Sprawl, já está nos planos de leitura e em breve devo escrever sobre ela.

Leia também: Minha releitura de Neuromancer

COUNT ZERO
William Gibson
Tradução: Carlos Angelo
Editora Aleph
312 páginas

Justice, The Pineapple Thief, E A Terra Nunca me Pareceu Tão Distante

JUSTICE

WOMAN WORLDWIDE é o novo ao vivo do duo francês Justice. Quase 1h30 de música e lotado de bons momentos. A maioria deles têm a ver com a forma esperta como encaixam uma música na outra. É sensacional logo na primeira faixa como “Safe and Sound” antecipa “DANCE” e como “Love S.O.S” brilha lá no fim do álbum/show mesmo tendo sido antecipada em “Canon”.
E há ainda os crossovers de “Pleasure x Newjack x Civilization” e o de “DANCE x Fire x Safe and Sound”.

Woman Worldwide é um registro que mostra bom gosto para cruzar faixas, uma das maiores características da cultura DJ e que Gaspard Augé e Xavier de Rosnay, a dupla de franceses que é Justice, executam com perfeição. Além disso, conseguem fazer improvisações e manter ora o caráter pop de sua discografia e ora o caráter mais eletronicozão de respeito, passando pelos 3 discos de estúdio e variando bastante a dinâmica.

Aquele som de baixo legal que mistura rock, funk e disco soa muito bem ao vivo, um dos melhores traços do DNA do Justice, seja nas faixas mais dançantes (“Fire”) ou nas mais nervosas, como “Genesis” ou a tensa “Stress”. “Randy”, uma das faixas mais acessíveis do último disco, Woman, ganhou uma versão estendida cheia de energia, trazendo elementos mais pesados que estavam no substrato da original para uma longa seção de improviso ao vivo.

Os cruzamentos de canções faz com que Woman Worldwide seja diferente dos outros dois ao vivo do Justice e dá nova perspectiva de como suas músicas podem soar. Para ouvir bem alto.

E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE

FUNDAÇÃO é uma experiência muito boa de ouvir. O pós-rock nacional realmente conserva as características do gênero, mas dá o pulo do gato para se diferenciar, em nível planetário, colocando elementos diversos em sua música. 
A banda faz música instrumental e abre com uma pedrada grave, “Karoshi”, que é tudo o que um fã de pós-rock pode querer. Porém, ao longo do disco,vamos descobrindo novos sons, uma mistura de timbres que são muito próprios do gênero com outros bastante presentes no rock nacional contemporâneo.

A banda é formada por Lucas Theodoro, Luccas Vilella, Luden Viana e Rafael Jonke. Juntos, fizeram composições muito redondas para Fundação que ao mesmo tempo que podem remeter para outras bandas nacionais, como o Macaco Bong, também remetem a nomes como Explosions In The Sky e Mogwai antes das trilhas sonoras.

Há constante movimento em suas músicas. Bateria e baixo cuidam para manter o vigor da banda sempre presente, dando aquela sensação de vai chegar em algum lugar. E aí solos, fills, riffs e dedilhados de guitarra tratam de adornar cada composição. “Se Fosse Assim, Onde Iríamos Parar” tem aquele grave pecado de ser muito boa, porém muito curta. Será que ao vivo ela ganha uma versão estendida?

E falando em ao vivo, Fundação tem aquela qualidade de ser muito bom nos fones de ouvido, no carro e num aparelho de som bonzão. Porém, qualquer fã de shows fica sedento para ver como ficariam em cima do palco, ver uma música como “Como Aquilo Que Não se Repete” ganhar corpo e levar o quarteto do suspense à explosão roqueira.

Fundação foi produzido e mixado por Gabriel Alex e masterizado por Fernando Sanches. Trabalho de captação e mixagem de primeira. Timbres bonitos e uma ambiência que realmente dá um aspecto 3D à gravação.

THE PINEAPPLE THIEF

Por muito tempo, tive um tipo de bode com o The Pineapple Thief, a banda inglesa de rock liderada por Bruce Soord. Ouvia e achava apenas OK, sem nada demais, nenhum diferencial. Além disso, ele tentar entrar no rolê progressivo me incomodava, já que era mínimos os elementos prog em seu som. 
O último disco da banda, Your Wilderness, me fez reconsiderar. 
A qualidade das composições foi elevada e embora não tivesse nada de novo no cenário do rock, eram músicas boas.

Admiti então que não devia ouvir esperando um progressivo e isso me fez curtir bastante o que a banda tinha de melhor. Apliquei o mesmo pensamento ao novo álbum, DISSOLUTION, e percebo que venci finalmente minha resistência com o The Pineapple Thief.

Todas as vezes que deu play em Dissolution consegui ouvir fluidamente até o fim, sem querer pular faixa nenhuma e sem ansiedade para que alguma determinada música chegasse logo. Há vários pontos altos, bons refrãos (como em “Threatening War” e “Far Below”), uma seção rítmica consistente e uma banda que nunca pesa muito a mão no rock, mas cria dinâmicas muito bem.

Bruce Soord está cantando cada vez melhor e fazendo faixas cada vez mais redondas. “White Mist” tem 11 minutos e em momento algum senti que parecia enrolar ou que poderia ser menor. Ela faz valer cada minuto. A cereja do bolo é a presença, mais uma vez, do grande baterista Gavin Harrison (King Crimson, Porcupine Tree). Não exigido dele que pegue pesado, que seja extremamente ágil ou que comande compassos excêntricos, mas é nos detalhes e sutilezas que Harrison deixa suas marcas e eleve a qualidade geral da rítmica, como fica claro em “All That You’ve Got”, por exemplo. E ele sabe encaixar seus maneirismos onde eles cabem, sem ficar chamando a atenção para si.

Nithael e sua Atlantis musical

Quando conheci Nithael, ele ainda usava sua persona angelical Arckanzarieus e era um cruzamento muito misterioso de música de inspiração religiosa e, quem sabe, Depeche Mode. Porém, todas as suas canções eram a capella, só com voz, sem instrumental. Rebatizado como Nithael, ele lança o disco ATLANTIS, com forte inspiração oceânica e colocando som no que faz.

Atlantis é um tanto puxado para os anos 80 e continua com um quê de música litúrgica, mas de uma forma mais pop. Imagine uma igreja embaixo d’água depois da passagem do tufão Madonna. Agora você me entende!

A música de Nithael é lo-fi, provavelmente feita todinha em um quarto, não em um daqueles grandes estúdios do Rio de Janeiro. Uma forma de gravar e produzir cada vez mais comum entre artistas alternativos no mundo inteiro.

Sendo assim, como produtor de si mesmo, ele consegue fazer um disco bastante diversificado com alguns acertos em cheio, como é o caso de “Island” e da instrumental “Gibraltar/Peninsula”. “Plunge”, com as ondas do mar avançando sobre a areia ao fundo, evoca o estilo de quando era Arckanzarieus. Parece cantar de dentro de uma concha, inclusive. Dificuldades técnicas e falta de recursos, afinal, não é desculpa para não adequar o que se pretende criar com o que é possível.

Como cantor, Nithael garante uma ótima afinação e um estilo muito próprio de se expressar que ele tira de seu interior e transforma em diferentes vertentes do pop.  

“Israel River” deixa clara a (grande) influência do canto religioso. “Subaquatic Experience” é bem viajada e bem conduzida, um dos pontos mais interessantes do álbum.  “Roses in the Ocean” é uma das coisas mais lindas do disco. Experimental na medida certa e sem pesar a mão, deixando para que o emaranhado de cordas (talvez tocadas ao contrário) faça sua mágica. O problema dessa faixa é ser uma das mais curtas de Atlantis.

“Golden Aquifer” é light-hearted e evidencia o cuidado em juntar melodia e harmonia, um talento que ele já mostrava quando cantava a capella (não havia harmonia, mas era possível derivar uma facilmente de seu canto quase que instintivamente). 

Às vezes, tenho a sensação de estar ouvindo um primo distante do Enigma. Mas como se Nithael fosse anterior à banda. Uma boa dose de Kate Bush também é possível identificar, principalmente em “The Secret Prophecy”, pelos timbres e pela estrutura da música. Há realmente pouca percussão em Atlantis, talvez porque seja difícil bater em caixas, pratos e bumbos dentro d’água, mas nada que prejudique o andamento. Há algo de transcendente e de nostálgico, de experimental e de inesperado.

Tendo conhecido sua encarnação a capella anterior, não esperava de Nithael o nível de quebra com a linearidade que encontrei em Atlantis. Ele está rompendo suas próprias barreiras e pode variar o estilo musical o quanto quiser. Seu canto ainda é o que melhor o destaca de qualquer outro artista. “Me, My Thoughts And the Night”, parceria com $adBoyRick é prova disso também. O piano e harpa, o som ambiente e o sintetizador não são suficientes para afastar as características mais intrínsecas do cantor.

Embora faixas como “Broken Inside”, “Mystical Voyage” e a ótima “Submarine” sejam mais lineares – e é muito claro porque o artista as escolheu para serem singles – o verdadeiro ouro de Atlantis está no miolo do álbum, naquelas faixas em que ele se deixou levar por um feeling especial e um tantinho mais transgressor.

Assim, é um disco com experimentos, com new age, pop anos 80, canto religioso e um grande senso de melodia, quase como se ele acessasse facilmente uma gaveta mental jungiana e estivesse lá um template pronto de melodia vocal só esperando para receber uma letra, de tão fluente que parece ser.

Atlantis é alternativo, low budget e underground. Não está no Spotify (apenas um single no momento) e você vai ter que abrir YouTube e Soundcloud para ouvir o álbum completo. Além disso, ele preparou uma representação visual bem legal dessa nova fase que pode ser acessada por um Tumblr criado especialmente para o projeto.

Vencendo diversas tormentas, Guilherme, o homem por trás do pseudônimo angélico, cria a sua própria Atlantis com música. No campo da produção ele deverá mostrar amadurecimento conforme continua fazendo música e se arriscando, tornando sua arte mais profissional. Como compositor de melodias vocais, no entanto, parece mais preparado do que nunca.

O Vento Que Arrasa e aquilo que nos falta

– O carro vai estar pronto no finzinho da tarde, se Deus quiser – disse o Reverendo, enxugando a testa com o lenço.

– E se Deus não quiser? – respondeu Leni, ajustando os fones de ouvido do walkman que sempre levava pendurado na cintura. Apertou play e sua cabeça se encheu de música.

Há autores que fazem de tudo para imprimir um estilo a cada frase e acenar para o leitor que sim, você está lendo esse autor mesmo. Pode pensar em figuras como Joyce, Guimarães Rosa, DFW, António Lobo Antunes e tantos outros. Veja bem que não citei entre eles um único autor que não mereça ser lido 🙂 e nem afirmo que façam isso o tempo todo, ao longo de todas as suas obras. Mas fazem.

Há autores que, de outra forma, conseguem submergir seus tiques e suas personalidades por trás da pena, da caneta, da máquina de escrever e do computador e passamos o livro todo vendo a história se desdobrar com naturalidade incrível. É o caso da argentina Selva Almada e seu O VENTO QUE ARRASA, livro que já chegou à décima edição em seu país natal e confirmou o nome da autora como uma das melhores escritores contemporâneas da América Latina.

É um livro leve. Tem apenas 128 páginas e apenas uma locação onde toda a ação e todo o drama se passam. Contém somente quatro personagens. O Reverendo Pearson e sua filha Leni que, viajando pelo charco argentino, acabam ficando na estrada com o carro quebrado e rebocado até a oficina quase no meio do nada onde trabalha Gringo Brauer e seu ajudante Tapioca.

O Vento Que Arrasa é quase um road movie às avessas, primeiro porque não é filme, e sim literatura, e depois porque não é a viagem que leva à transformação, mas sim a estadia de um dia em um mesmo local fora de casa. Contudo, Almada encadeia as cenas e os flashbacks de modo a dar um ar de road movie.

Foto: Santiago Maquelet

Na Argentina católica, Reverendo Pearson é um desses religiosos evangélicos que não se cabem dentro de si e enxergam uma missão cristianizadora em praticamente tudo o que veem ou em todos que conhecem. Beira o irritante, é verdade, mas também é bonito de ver sua fé se manifestar de forma quase ingênua. A mesma ingenuidade que o leva a ver no jovem Tapioca uma alma pura e prontinha para ser fisgada pelo prego da cruz de Cristo.

Leni, a filha adolescente, é a figura que confronta o pai. Age com deboche, com certa rebeldia e guarda para si os fantasmas que ajudam a dar a forma no confronto que vive tendo com seu pai. Gringo Brauer, a figura que não quer ser cristianizada, contrasta tanto com seu parceirinho Tapioca, quanto com o Reverendo.

Selva Almada, assim, forma um quadrado perfeito e coloca cada personagem em um lado, sempre com duas figuras contrastantes e em rota de colisão com os outros dois, do outro lado. A tensão vai sendo criada aos poucos e com exímio controle da autora, para que a história tenha conflito, mas sem perder a ternura. Ela até mesmo concatena uma mudança climática para acompanhar o clímax da história, um velho truque, é claro, mas bastante eficaz.

Mesmo assim, em algum momento, começou a chorar. Só lágrimas, sem nenhum som. Água caindo de seus olhos como a água que caía do céu. Chuva perdida em meio à chuva.

Não sei se cheguei ao cerne de O Vento Que Arrasa, mas me peguei pensando em como substituímos o que nos falta por alguma outra coisa. Há aqueles que, como sabemos bem, buscam uma verdade maior em que tudo caiba. A religião parece o quadro perfeito para este tipo, fornecendo não a resposta, mas a promessa de resposta. A vida simples e espartana, livre de grandes dramas e grandes compromissos, também blinda contra tudo o que mais poderíamos ser ou experimentar. O sarcasmo e um certo grau de negação parece a resposta natural de uma juventude que perdeu algo contra sua escolha e não sabe bem ainda como cobrir esse buraco. E há também quem nunca teve nada e nem esperava que haveria mais o que se ter. Porém, quando o mundo parece poder ficar maior, dá o salto de fé necessário para se agarrar à oportunidade.

É possível se identificar com qualquer um dos quatro. Gringo Brauer não tenta ser simpático e mesmo assim a gente se sente na pele dele quase imediatamente. Tapioca rouba a cena. De um moleque calado passa a ser o personagem pelo qual você torce para que algo mude e, de fato, a sua mudança é a mais relevante ao fim das 120 páginas. Esperava mais de Leni, mas certamente a sutil incursão por sua cabeça vale a pena. Quanto ao Reverendo Pearson, sai ganhando, com a fé firme, mesmo que nada tivesse tido a ver com a vontade de Deus.

Por que o solteirão se enforcou, por que o engenheiro matou o outro engenheiro? E o que é a morte senão uma só e mesma coisa, vazia e obscura, pouco importando o braço que a executa?

O Vento que Arrasa foi publicado originalmente em 2012 e chegou ao Brasil em 2015 pela Cosac Naify. Mesmo sendo um livro curtinho de capítulos igualmente breves, é bom notar que sua editora não existe mais e então não foram feitas mais impressões da obra no país. Se quiser ler a história de Leni, Tapioca, Gringo e do Reverendo, terá que enfrentar a escassez do mercado que elevou o preço das cópias restantes na Amazon para astronômicos R$ 250. Já na Estante Virtual há quem venda cópias usadas por R$ 18 ou por inflacionados R$ 70. Quem tiver criatividade para procurar por livros o encontrará disponível em ainda mais um meio que, apesar de ser meio underground, é vendido, comicamente, como “cópia original”.

Embora o último capítulo seja um dos mais lindos que já tenha lido, com a potência de que apenas os capítulos curtos e precisos têm, Almada não entrega catarses e muito menos deixa sua história com um final aberto. Fiquei com o gosto de cada personagem na boca ao terminar de ler, esperando um raio, esperando uma aparição no retrovisor, ou com o corpo reagindo como o de Gringo: “No peito, o coração parecia um gato metido num saco.”

O VENTO QUE ARRASA
Selva Almada
Tradução: Samuel Titan Jr.
Editora Cosac Naify
128 páginas

Relendo Neuromancer, o clássico cyberpunk

Cyberpunk 2077 vem aí. Qualquer um que tenha jogado The Witcher sabe da capacidade da CD Projekt Red, o estúdio polonês de games, de contar uma boa história, madura e complexa, cativante e que ilustra quem somos ou podemos ser, seja o nosso melhor ou pior. E não basta que Cyberpunk 2077 seja um jogo baseado na estética cyberpunk. Ele assume o nome do subgênero da ficção-científica como seu título, e então dá-se apenas um ano como complemento. Isso mostra a ambição por trás do estúdio de tentar fazer do jogo um marco do gênero.

Como preparação para este jogo tão estiloso, me lancei à tarefa de ler os livros fundamentais do cyberpunk, a Trilogia do Sprawl do norte-americano William Gibson. Eu já havia lido a segunda tradução de NEUROMANCER antes mesmo de entrar na faculdade, uns 14 anos atrás. A tradução desse livro sempre foi algo muito debatida, pois não é tarefa fácil trazer para o português todos aqueles termos que Gibson usou para descrever seu mundo pós-humano onde o ciberespaço/matrix é uma realidade tão presente. Contudo, a editora Aleph embarcou em um projeto de trazer a trilogia com cara nova e totalmente padronizada para os brasileiros, e então lançou Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive em ótimas novas versões, com ótimas novas traduções.

Eu já reli Neuromancer nesta nova tradução de Fábio Fernandes. Foi engraçado perceber como eu me recordava muito bem de toda a primeira parte do livro em Chiba/Night City e da última parte da história, quando Case, nosso cowboy (hacker do ciberespaço) protagonista, acessa a matrix para confrontar uma inteligência artificial em uma praia de areia cinzenta. Todo o miolo era um breu em minha mente.

Night City era como uma experiência malsucedida de darwinismo social, projetada por um pesquisador entediado que não tirava o dedo do botão de fast-forward.

Quando Gibson escreveu Neuromancer e deu as bases literárias do cyberpunk, não tínhamos quase nada no cinema ou nos quadrinhos que nos ajudassem a imaginar o que ele estava descrevendo quando falava em decks, Hosaka, Ono-Sendais, trodos e plugs na base do crânio humano que servem como uma porta de entrada para informação. Obras que se basearam nos elementos e universo do livro, como o filme Matrix e os animes Ghost In The Shell e Serial Experiments Lain, viriam anos ou décadas após a publicação.

Mesmo hoje conseguindo enxergar muito melhor o que Gibson propõe em sua narrativa por já ter visto na telona, na telinha e nos quadrinhos várias interpretações visuais de suas ideias, há um bom punhado de passagens que são difíceis de visualizar com exatidão. Sabemos qual é o sentido do que Case, Molly, Armitage, Wintermute e Riviera estão fazendo, mas não exatamente o que. Isso, imagino, é outro desafio para a tradução.

Outra coisa que notei é que minha releitura foi muito mais fluida e divertida do que me lembrava da primeira vez. Quaisquer 20 minutos que me sobravam eram desculpa para ler mais um capítulo e ver para onde Case e sua entourage iriam. Do Japão para o Sprawl, ou BAMA, já que no futuro cyberpunk os EUA não existem mais, mas há uma megalópole que se estende de Boston à Atlanta. A Europa ainda existe, assim como o Brasil (que tem uma participação fundamental na história). E há Zion também, e o Freeside, um cidade na órbita da Terra.

“Ciberespaço. Uma alucinação consensual vivenciada por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças que estão aprendendo conceitos matemáticos… uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não espaço da mente, aglomerados e constelações de dados. Como luzes da cidade, se afastando…”

Matrix e Ghost In The Shell beberam muito, muito mesmo na fonte de Neuromancer e de William Gibson. É notável como diversos elementos do livro estão ou copiados mesmo, ou reinterpretados nessas duas obras. Com Cyberpunk 2077, o jogo, não deverá ser diferente. Em primeiro lugar, sabemos que o mapa do game é o mapa de Night City, uma megalópole na Califórnia, que vai de Los Angeles à San Diego. Enquanto eu lia, grifava descrições de lugares e construções sociais que poderão ser incorporadas ao jogo também.

Em segundo lugar, assim como George Lucas imaginava sociedades tecnologicamente mais avançadas em uma galáxia far, far away em Star Wars, mas partia do que conhecia na vira de 60 para 70 ao imaginar o funcionamento e o design de máquinas, a mesma limitação atinge em cheio Neuromancer. O livro não peca por isso e, na verdade, é uma delícia ler o puro retrofuturismo que cerca Case e todos os outros personagens. Será interessante acompanhar como Cyberpunk 2077 atualizará a nossa visão de futuro a partir do que já conhecemos hoje e que Gibson não era capaz de prever em 1983, quando o livro foi publicado. Como será a internet? Como será o ciberespaço e o papel da matrix na sociedade daqui 60 anos? E principalmente, em que estágio estarão as Inteligências Artificiais?

Autor William Gibson em 2012 (foto: Jason Redmond)

Uma história curiosa é que Gibson já tinha escrito um terço de Neuromancer quando Blade Runner estreou em 1982. O filme virou um clássico com o tempo, mas passou muito tempo considerado um filmezinho menor e sem importância. Nem comercialmente foi um sucesso. Mas o escritor gostou do que assistiu e viu boa parte do que tinha imaginado como sociedade cyberpunk retratada na Los Angeles neo-noir de Ridley Scott.

Antes de 1983, a estética cyberpunk e a cibercultura já vinham se desenvolvendo em muitos meios, da moda aos vídeo games, do cinema aos contos que o próprio Gibson publicara (como Queimando Cromo [primeira aparição da palavra ciberespaço] e Johnny Mnemonic [primeira aparição da razorgirl Molly]). Neuromancer foi o primeiro romance a trazer uma longa narrativa calcada no cyberpunk, criando de vez essa subdivisão dentro da ficção-científica. Não foi um sucesso comercial, mas venceu os três maiores prêmios do SciFi: o Hugo, o Nebula e o Philip K. Dick.

“Por milhares de anos os homens sonharam em pactos com demônios. Só que agora essas coisas são possíveis. E o que é que vocês ganham em troca? Qual seria o seu preço para ajudar essa coisa a se libertar e crescer?” 

Embora toda a cibercultura seja um dos traços mais distintos do cyberpunk, com seus eletrodos e Ono-Sendais, com a realidade virtual, holografia, IAs, os implantes cibernéticos e modificações corporais, o livro também tem em seu cerne uma sociedade que vive à base de drogas (lembra do soma que controlava as pessoas em Admirável Mundo Novo?), em péssimas condições de vida caso você não seja um ricaço, e se distanciando da utopia de que a tecnologia melhoraria a vida das pessoas. Que ela traz avanços e que facilita operações, com certeza, mas também traz novos dilemas e precariza parte de nossa vida.

Interessante é notar que, seja em Chiba ou no Sprawl ou em Freeside, a tecnologia é como é e não há como pensar a sociedade sem ela. Os personagens, então, precisam lidar com o mundo como está. Pode não ser uma crítica direta, mas é um retrato do high tech/low life que, como toda boa ficção (científica), deve nos levar a refletir.

Embora seja uma visão do futuro a partir dos anos 80, acredito que Neuromancer seja ainda uma ótima referência. As inquietações presentes em suas páginas ainda são válidas e nem mesmo adaptações de ideias da obra esgotaram o assunto. Mais do que isso, é divertido de ler e tem passagens realmente interessantes. Literariamente, é um malabarismo colocar em palavras coisas que não existiam ainda. Para mim, pelo menos, mesmo na segunda leitura, foi um exercício de imaginação.

Vou ler e escrever sobre Count Zero e Mona Lisa Overdrive, as continuações que pouca gente discute, e postarei aqui no Circle of Manias. Contudo, deverei alternar as leituras para não passar muito tempo dentro da prosa de um autor, de um estilo e de um tema. Também devo voltar a refletir sobre o Cyberpunk 2077 em algum momento. Se já tivemos Philip K. Dick produzindo uma gênese do cyberpunk e em 2018 a Netflix trouxe Altered Carbon, que também se encaixa no gênero, o jogo da CD Projekt Red promete ser mais um produto para marcar a linha do tempo da cibercultura.

NEUROMANCER
William Gibson
5ª Edição (2016)
Tradução: Fábio Fernandes
Editora Aleph
312 páginas

Emma Ruth Rundle, Lenine, Ólafur Arnalds

EMMA RUTH RUNDLE

ON DARK HORSES é o que de mais próximo ao doom a Emma Ruth Rundle já se permitiu. O single “Light Song”, que não é nada leve, poderia ser uma faixa “light” da Chelsea Wolfe. O clima denso e misterioso de suas faixas, um universo entre PJ Harvey e Mark Lanegan, dá o tom do novo álbum, que vem cheio de guitarras com afinações baixas e arroubos sonoros que são intercalados com sua boa mão para melodias melancólicas e emotivas.

Emma é mais uma artista que pega o seu (o nosso) lado mais sombrio e o transforma em algo belo. “Dead Set Eyes” e “You Don’t Heave To Cry” não me deixam mentir.

Nos últimos anos, ela tem sido uma luz para minhas trevas. Marked For Death, seu álbum anterior, já tinha despertado sentimentos fortes em mim, assim como me apresentou uma artista talentosa no comando de uma boa banda. Ano passado, sua balada “The Distance” foi, sem dúvida, a música que mais ouvi no ano, isoladamente. A delicadeza, a profundidade, a sobriedade me acalentaram em diversos momentos. On Dark Horses têm uma pegada mais dark e com certeza o lado roqueiro dela está mais aflorado do que nunca. Nada de baladas acessíveis ou músicas mais comerciais. “Races”, a única que não pesa a mão, é arrastadinha também.

Pessoas noturnas e que gostam de sentimentos pesados, que parecem desabar sobre você podem se jogar nas costas desse cavalo de oito faixas e aproveitar a catarse. Emma Ruth Rundle fica feliz em ajudar.

LENINE

Lenine nunca foi um cara de uma música só. De um estilo só. No cenário da música popular brasileira, é um dos mais inventivos, transitando entre temas de novela e músicas com uma boa dose de experimentação, entre letras de amor e de crítica política, social e ambiental. Ao vivo, sua banda sempre soa mais rock ‘n’ roll. Lenine mesmo não é do tipo que fica paradinho na frente do microfone. Ele agita. 

E principalmente quando o repertório passa por músicas de álbuns como Labiata, Chão e Carbono, o guitarrista Tostoi dá uma cara de post-rock a tudo que contrasta de uma forma interessantíssima com aquelas levadas de violão tão próprias e brasileiras de Lenine.

EM TRÂNSITO é um disco de músicas inéditas do Lenine, mas que ele gravou ao vivo. Ao longo da versão deluxe (com 1h20) há canções antigas também, mas o grosso do álbum é de composições novas. Para quem já teve o prazer de vê-lo ao vivo nas últimas turnês, perceberá que as músicas novas soam bastante como várias das antigas. No palco, a MPB se mistura bem com o rock e resolvem tudo com a banda, sem overdubs, sem as adições de instrumentos e camadas que são comuns em estúdio. Em Trânsito é uma forma de Lenine experimentar um novo jeito de gravar novas composições e, de quebra, serve como registro de como sua banda soa ao vivo ultimamente.

Tem rock (“Virou Areia”), tem experimental (“Lá Vem a Cidade”), tem uma linda balada de piano (“Lua Candeia”), ritmos que eu chamo de radioheadianos (“Lá e Lô”, “Sublinhe e Revele”) e tem até música dançante (“Que Baque é Esse?”). Lenine não se reinventa. Nada que ele faça está a 180 graus do que ele produzira no passado. Mais do que sua voz, há uma forma característica de como suas músicas se comportam. Depois de dois álbuns que consumiram um bom tempo em estúdio, Em Trânsito é uma vigorosa e criativa banda fazendo alquimia musical no ato.

ÓLAFUR ARNALDS

Ólafur Arnalds é um dos meus compositores preferidos da Islândia. RE:MEMBER só mostra como sua versatilidade estilística é enorme. Erudito e eletrônico dão as mãos em seu novo trabalho, abrindo espaço para o ruído e para aquela profundida emocional tão típica da música islandesa, que congrega graça e harmonia com uma ponta de melancolia e dissonância.

Para este álbum, ele estreia um software de processamento chamado Stratus que transforma o som do piano em algo único, com timbres até então nunca usados. Ao lado do baterista e cientista da computação Halldór Eldjárn, ele passou dois anos programando o software. No entanto, ele entrega composições com uma ampla gama artística e, assim, o timbre do Stratus de forma alguma é a única estrela de re:member.

Enquanto algumas músicas flertam com o pop (“inconsist”), outras são mais calcadas no piano clássico (“nyepi”). Mas nada é sagrado. Arnalds borra as fronteiras e nos dá uma música fluida, do popular ao clássico, acessível e ainda assim misteriosamente complexa (“they sink” e “undir”). Difícil de categorizar por estilos, mas enraizada na sensibilidade do homem que a fez, um compositor que já fez erudito, música eletrônica a quatro mãos, rodou seu país natal a procura de diferentes parceiros musicais para capturar a variedade folclórica da música islandesa e que também faz trilhas sonoras.

Combinando sua habilidade no piano às novas possibilidades criada pelo Stratus, Ólafur Arnalds segue se desafiando e exercendo a criatividade.