Tuyo, Noname e Sleep Party People

TUYO | ⭐⭐⭐⭐⭐

A mistura de trip hop com dream pop e MPB me pegou totalmente desprevenido. A proposta do trio curitibano Tuyo em PRA CURAR, o primeiro disco do grupo, é de uma delicadeza notável e originalidade ímpar. Em o site Noize este ano, Tuyo foi categorizado com afrofolk futurista, o que parece fazer bastante sentido também, já que o apelo imagético do trio é bem forte, tão trabalhado quanto seu som.
As irmãs Lay e Lio já participaram do The Voice Brasil (como Lílian e Layane). Não venceram, o que, paradoxalmente, é sempre ótimo.

Geralmente, é quem não vence esses programas que acaba fazendo a música que importa. A voz de ambas nas faixas de Pra Curar é coisa de louco. Elas cantam e usam as cordas vocais como instrumentos, acrescentando diversos detalhes vocais que enriquecem os arranjos de cada faixa. “Vidaloca” é a indicação mais óbvia para reparar nisso.

Vozes, batidas, sintetizadores, efeitos eletrônicos e violão são os principais ingredientes do som do Tuyo, que tem em Jean seu terceiro membro. Mas diria que a mixagem do disco é aquele elemento definitivo que faz Pra Curar ser tão coerente, tão tridimensional e sensível, trazendo sons à superfície enquanto outros parecem crescer do infinito. Coisa fina!

Pra Curar é mais um álbum que se encaixa na definição: lindas melodias dizendo coisas terríveis. Uma de suas faixas é chamada ” :'( “, o que já denota muito do tipo de sentimentos que vamos encontrar. Não se deixe levar pelo nome do disco. Tuyo ainda está na vibe do primeiro EP Pra Doer.

NONAME | ⭐⭐⭐⭐

Eu estava ouvindo o novo FM! e planejava falar de Vince Staples, mas terminou o disco dele, achei meio morno, e começou a tocar “Blaxploitation” da Noname, muito mais interessante e fora da casinha. Aqui está então a indicação de ROOM 25, novo álbum dessa rapper de Chicago que faz um hip hop bem moderno, com elementos de jazz, funk e soul, preferindo uma abordagem mais orgânica, com uma boa banda, do que eletrônica.

Room 25 é seu segundo disco e foi gravado inteiramente ao longo de um mês, após Noname se mudar para Los Angeles e logo depois de terminar sua primeira turnê.

Com Lauryn Hill e Andre 3000, do Outkast, como grandes inspirações, e ex-participante de slams de poesia e noites de improviso, ela sabe mandar um recado. Seu flow é direto e mais falado do que cantado, sua música é ágil e não parece fazer muitas concessões para ser mais comercial.

SLEEP PARTY PEOPLE | ⭐⭐⭐⭐

Já viu aquela banda cujos integrantes estão vestidos de coelho, né? É o projeto musical do dinamarquês Brian Batz, o Sleep Party People, que lançou o quinto álbum, LINGERING PT. II.

Entre a fofura do dream pop e os outbursts sonoros do post-rock, o Sleep Party People continua a fazer uma música de sensações. Viajante na medida, uma produção bem acabada e melodias que não são pegajosas, mas agradam fácil. Os discos de Batz sempre tiveram entre tiveram mais de 40 e menos de 50 minutos. Lingering Pt. II, no entanto, acaba em pouco mais de 30 minutos. É rápido, mas não fica a impressão de que poderia ser maior. Como não há uma diversidade tão grande assim no disco, 30 minutos é tempo suficiente para o dinamarquês mostrar seu ótimo pop psicodélico.


RDR2 – Mas será o Cthulhu? – Parte 2

Não tive mais notícias do serial killer de RED DEAD REDEMPTION 2 desde os eventos relatados na primeira parte deste diário. Encontrei uma cabana, no alto de um morro cercado de campos floridos, bem suspeita. Não havia ninguém nela e pude dar uma boa olhada (ou seja: roubar) em tudo que os sujeitos deixaram ali. Há um galpão abaixo da cabana lotado de equipamentos de caça. Me deixou com a pulga atrás da orelha, mas às vezes são apenas caçadores que vivem ali mesmo. Talvez eu nunca saiba.

O que eu sei é que enquanto procurava um urso lendário encontrei uma comprida casa decrépita. Madeira envelhecida e teias de aranha para todo lado, à beira de uma lagoa. Dentro dela encontrei fileiras de beliches, cada cama com um esqueleto humano deitado. Apenas alimentos podres e ratos, além dos cadáveres. Havia uma carta também que deixava claro que havia uma crença muito forte ali em algo cósmico e grande. Não devia ser Deus. Ou talvez seja um deus, mas um dos Antigos lovecraftianos. A forma como os corpos estão nas beliches me faz pensar que nessa cabana ocorreu um suicídio em massa.

Já tivemos um assassinato horrendo assinado com frase de Shelley. Será que agora temos adoradores de Cthulhu antes mesmo de um único conto sobre ele ser escrito?

SECUNDÁRIOS

Red Dead Redemption 2 tem personagens interessantes, ainda que suas participações na história sejam minúsculas. Em duas ocasiões, vi um coice levar a vida de um infeliz. Eles estavam pedindo ajuda e tentando recolocar a ferradura de seus cavalos. O cavalo deu um coice fatal antes que eu pudesse me aproximar para ajudar. A cena foi meio triste e meio patética e me vi sem outra alternativa a não ser saquear o corpo dos dois e os alforjes em seus animais.

Tem a mulher que sabe-se lá como conseguiu detonar sua carroça e matar seu cavalo no meio na estrada entre Emerald Ranch e Valentine e ficou debaixo de uma árvore frondosa esperando passar alguém que lhe desse carona. Subiu na minha garupa e fomos conversando durante todo o caminho. A vida dela é muito parecida com a vida de muitas mulheres de 2018. O marido não foi exatamente um grande marido e ela resolveu criar os filhos sozinha. Ia de um lado para outro em busca de emprego. O cavalo vai lhe fazer falta, mas se ficasse ali naquela estrada até anoitecer um destino ainda mais terrível poderia lhe aguardar, como ser comida por um lobo ou coiote. Ou cruzar com um cowboy mal intencionado.

Essa mulher trabalhava em Emerald Ranch e me disse que o lugar é OK, mas o dono do rancho é meio esquisito. É a segunda vez que alguém cita isso durante minhas perambulações pela área. Preciso investigar isso aí. Talvez termine em tiroteio ou pelo menos comigo sacando meu laço para amarrar o tal patrão esquisitão.

Em outra oportunidade, um senhor me pediu para ajudá-lo. Sua carroça estava debulhada no chão de terra batida na beira da estrada e o cavalo, morto. Ele queria ir até Strawberry, o povoado mais próximo, para pegar outra carroça, voltar até ali e recuperar a carga antes que seu chefe ficasse muito furioso. Concordei em ficar guardando a carga até que ele voltasse. Embora Arthur Morgan seja um bandido – orgulhoso de seu status de fora da lei do velho oeste – eu realmente tentei fazer o certo. Mas passaram-se 20 minutos e o cara não voltava. Saqueei o que ainda cabia em minha bolsa e fui embora. Espero que tudo tenha corrido bem para ele.

Contudo, me pergunto se ele me recompensaria pelo meu favor. Muitas vezes quem não te recompensa com dinheiro ou produtos acaba passando informações. Um dos homens que ajudei bem no início de minha jornada acabou me reencontrando do lado de fora do Armeiro em Valentine. Como ele não tinha grana quando nos vimos pela primeira vez, resolveu me fazer uma benesse: que eu fosse até o armeiro e escolhesse a arma que eu quisesse que ele pagaria. Foi assim que adquiri um Rifle Springfield que me ajudou demais a caçar e a pipocar inimigos há uma distância segura.

HISTÓRIAS HUMANAS

No acampamento da bandidagem do Dutch Van der Linde é possível ouvir muitas histórias curiosas. Tantas que nem cabem aqui. É necessário também manter relacionamento com as pessoas da gangue, mesmo com as que Arthur tem certos problemas. Entre os membros, dois me chamam a atenção em particular. O Reverendo Swansson é um cara que substituiu a fé pela bebedeira e pelas drogas injetáveis. Quando o encontrei entre jogadores de pôquer, ele tava alucinado no álcool. No acampamento, ele vive trêbado. Triste mesmo foi quando abri a Bíblia do Reverendo e vi que não era um livro de verdade, mas sim um estojo para suas drogas injetáveis.

Dutch é um cara interessante. Em 1899, essa coisa de Oeste sem lei nos Estados Unidos já começa a cair. O governo federal está colocando ordem no quintal. Dutch não quer se dobrar às autoridades, mas sabe que seu way of life está com os dias contados. Arthur passa por questionamentos parecidos. São parte de um grupo que um dia se orgulhou de não viver sob a régua do Estado, mas que agora veem a impotência de se manterem assim por muito mais tempo. O que eles enxergam é que não há grandeza em ser fora-da-lei, apenas o ideal romântico sobrevive. Os EUA estão mudando e essa mudança vai engoli-los. Ou matá-los. É questão de tempo e oportunidade.

Red Dead Redemption 2 é realmente um jogo interessante. O cômico e o macabro andam lado a lado, mas como todo jogo de seu tamanho, há muita passagens comoventes para se ver, mesmo que sejam detalhes minúsculos no escopo da jornada. Encontrei uma cabana no alto de um morro em Grizzles. Estava nevando e a porta estava trancada por fora. Arrombei a fechadura com uma gazua. Entrei no humilde casebre e encontrei dois jovens mortos. Deviam ter entre 10 e 14 anos. Um garoto com o corpo recostado na cama e uma garota, sobre a cama. Não dava para saber se tinham pele clara ou escura originalmente, pois a putrefação já estava adiantada. Havia pouca coisa para saquear, no entanto achei uma carta assinada pela “mãe”. Ela saíra para buscar mantimentos na cidade mais próxima e trancou os meninos em casa, selando as janelas com tábuas, para que ninguém lá de fora fizesse mal a eles. Disse que deixava água e comida suficiente para quatro dias e voltaria antes disso.

Queria que fosse possível pelo menos enterrar os corpos das crianças que encontrei. Nunca vou saber o que aconteceu com essa mãe.

Leia a primeira parte da crônica RDR2 – Lá Vem a Morte

BlacKKKlansman é o retrato de uma nação

E se o primeiro negro da força policial de Colorado Springs, nos Estados Unidos de 1978, se infiltrasse na Ku Klux Klan, o mais notório grupo supremacista branco da América? A ideia é tão boa que poderia virar filme. E virou o ótimo INFILTRADO NA KLAN (BlacKKKlansman), do diretor Spike Lee. Mas é uma história real, baseada nas investigações de um detetive negro, Ron Stallworth, que escreveu um livro sobre o caso, mesmo após o chefe de seu departamento ter mandado destruir todos os documentos e provas de que a operação ocorreu.

Pois é, censura oficial ocorre mesmo em países liberais e com democracia sólida, afinal.

A trama é basicamente o seguinte: Stallworth (John David Washington) se candidata para um posto na polícia de Colorado Springs. O chefão do lugar está disposto a contratá-lo para mostrar o progressismo do departamento, não porque Ron lhe pareça qualificado para o trabalho. Ron sabe o mundo racista em que vive, mas não é politizado. Ele vê um anúncio da KKK no jornal local recrutando novos membros (apenas o primeiro dos absurdos dessa história) e resolve se candidatar. Quando resolvem conhecer o tal Stallworth pessoalmente, o detetive envia o parceiro Flip (Adam Driver) em seu lugar.

Assim se arquiteta o plano. Por telefone, Stallworth mantém contato com os membros da KKK até chegar a David Duke, o Grande Mago da organização baseado na Louisiana, que está usando cargos públicos como meio de permear sua ideologia na política e legislação estadunidense. Pessoalmente, Flip, descendente de judeus, enfrenta a escória da extrema direita em meio a tiros e discursos abertamente xenófobos, racistas e homicidas.

É sempre muito complicado quando um diretor faz de sua obra um panfleto. Ao invés da história conter os elementos que nos levam a reflexão, ele toma uma posição bem demarcada e advoga abertamente por uma “causa”. Spike Lee realmente conta uma boa história com BlacKKKlansman, mas ativista como é, faz questão de colocar várias cenas na história que servem muito mais para traçar um paralelo com os EUA da era Trump do que necessárias para contar a história do negro que se infiltrou no grupo dos gorros brancos.

Embora muita gente possa considerá-lo um filme menor por esse viés mais “partidário”, eu diria que é totalmente compreensível e que aumenta, como um microcosmo, a importância do filme. É uma delícia ver os supremacistas serem enganados daquela forma, mas é terrível ao mesmo tempo acompanharmos as cenas finais de BlacKKKlansman, com filmagens documentais de marchas supremacistas e atentados ocorridos nos últimos dois anos nos Estados Unidos. Há 40 anos ainda havia grupos de ódio prontos para exterminar negros, homossexuais e judeus caso isso fosse possível. Hoje em dia, eles ainda existem e saíram da toca, sentindo-se legitimados pela ideologia do novo ocupante da Casa Branca.

– Mas também, sabe, estou atrás de camaradagem na Klan.
– Que merda cê falou?
– Camaradagem?
– Não, a outra palavra.
– A Klan?
– Sem “Klan.” É “A Organização.” O Império Invisível conseguiu permanecer invisível por um motivo. Nunca use essa palavra. Entendeu?

Aliás, o David Duke que aparece no filme como o cabeça da KKK, também aparece, ainda hoje, como o cabeça da organização, fazendo discurso público aos americanos extremados em Charlottesville.

Se BlacKKKlansman é um bom filme com um fundo panfletário, podemos lembrar do controverso clássico O Nascimento de Uma Nação (1915), filme do começo do século 20 que trouxe uma série de inovações para o cinema e é considerado um épico americano. Contudo, é um filme panfletário também, uma propaganda da KKK. Qual a diferença entre eles, então? Bem, a KKK (e seu filme) divulga uma ideologia homicida. Já o filme de Spike Lee denuncia a existência ontem e hoje dessa ideologia homicida e faz um apelo pelo respeito aos cidadãos, qualquer que seja a cor, a religião ou opção sexual deles.

Como todos os filmes baseados em fatos reais, Infiltrado na Klan toma liberdades para fazer o filme se ajustar melhor à telona e não precisar ter 3 horas de duração. Uma das diferenças que vale a pena mencionar é que enquanto o Ron Stallworth interpretado por John Washington é realmente bem parecido com o Stallworth da vida real, o personagem de Adam Driver pode não ser. Primeiro porque ninguém sabe ainda quem foi o detetive branco que se infiltrou pessoalmente na KKK nesse caso. No livro, ele é Chuck, um codinome apenas, e não Flip. E o fato de Flip ser um judeu não praticante serve para aumentar a carga dramática, já que não há evidência de que Chuck era judeu.

22 de Julho, o mediano filme de Paul Greengrass sobre o atentado extremista de direita na Noruega em 2011, deixa claro que atualmente existem grupelhos radicais espalhados por todo o mundo. Enquanto alguns partem para as vias de fato e outros são para agitação ideológica, há aqueles que esperam impactar a sociedade de dentro das instituições. Eles não querem plantar bombas na casa do presidente para tomar o poder. Querem influenciar a opinião pública e aí sim serem eleitos para mudarem as leis e os rumos de suas nações. No final da década de 1970, a investigação que originou BlacKKKlansman também averiguou a mesma coisa: David Duke estava na política e havia, naquela célula em que Ron Stallworth se infiltrou, pelo menos dois membros do Exército.

É um interessantíssimo caso em Colorado Springs que só pudemos saber que existiu em 2014, quando o Ron da vida real se aposentou da força policial e escreveu seu livro. Spike Lee toma esse episódio da história de uma cidade e o transforma em retrato de seu país. De diversas formas é também retrato do que vem ocorrendo ao mundo.

O segredo como fantasma em A Maldição da Residência Hill

Estava um pouco cético quando comecei a assistir a A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting Of Hill House). Será que esse gênero de terror com casa mal assombrada ainda poderia render algo interessante? De todos os gêneros do terror, esse me parece um dos mais desgastados e só perde, talvez, para os zumbis.

Mas a série original da Netflix prova que o subgênero ainda pode ter fôlego. É aquela velha história: tudo depende de uma boa história para contar e ter o que dizer com ela. A favor da série contam também mais três fatores, os mais determinantes de todos: bons personagens pelos quais você aprende a se importar, bons atores adultos e mirins para dar vida a essas almas torturadas e um diretor que está à frente do projeto do começo ao fim.

Até o quarto episódio eu vi A Maldição da Residência Hill com curiosidade. A partir do quinto eu comecei a realmente ver como a estrutura daquilo tudo se desenhava. O sexto capítulo é maravilhoso, com todos aqueles longos planos sequência e detalhes minuciosos, uma prova da qualidade de todos os envolvidos, da sala de roteiristas à direção de arte, dos atores e do diretor Mike Flanagan à equipe de filmagem que precisou ensaiar todas as etapas do episódio 6 durante mais de um mês antes de sua realização. Fiquei pensando seriamente que a série teria chegado ao seu ápice nesse episódio. Afinal, depois daquela demonstração de verve narrativa, de interpretação e de arquitetura de uma cena em uma série de TV, haveria como se superar?

De fato, em termos de formato, não há como superar o sexto capítulo. Porém, o sétimo confirmou algo que eu vinha sentindo há algum tempo. A série não faz você pular de susto, mas também não fica escondendo que é um terror. Elementos sobrenaturais estão presentes desde o primeiro episódio, sempre em doses suficientes para que se instale uma tensão, e não para te desviar do drama familiar, que é o que realmente importa. Ao terminar o sétimo episódio, senti o ambiente ao meu redor gelado. Não estava arrepiado, mas minha coluna estava rígida. Eu fiquei tenso de verdade.

Aliás, a Residência Hill é rica em fantasmas. A velha e doente Hazel, a insana Poppy, o homem do relógio, Abigail, a mulher do pescoço torto e o homem alto são apenas aqueles que a série escolheu para conduzir a história da primeira temporada. Existem diversos outros que aparecem por brevíssimos momentos, escondidos em cantos escuros dos enquadramentos. Não são exatamente fáceis de ver, mas uma vez que os descobrimos lá, é mais fácil entender a “reunião” deles no último capítulo – além de dar um ar de ainda mais tensão no espectador.

O sobrenatural existe na Residência Hill, como manifestação de forças além de nossa compreensão e como sintomas de culpa e medo. O contraste entre os irmãos Steve e Luke é ótimo. De um lado, um cara que ganhou a vida falando de assombrações e ele mesmo nunca viu uma e nem acredita nessas coisas. É cético mesmo quando a irmã morta aparece na frente dele. E ele tem razão em não sucumbir à histeria. Luke tem uma ligação de gêmeo com Nellie, a irmã que falece. Ele quer ficar bem, quer ficar sóbrio (das drogas e da superstição), mas acredita na manifestação sobrenatural lá no fundo do seu eu. Steve e Luke somos todos nós, afinal, quando o desconhecido se apresenta. São fantasmas ou vestígios de alguma doença mental?

Doença mental é outro aspecto evocado a todo momento em A Maldição da Residência Hill – e não é evocado apenas para despistar as ocorrências sobrenaturais. Mike Flanagan, o criador, realmente deixa o tema fluir, como no episódio 3, focado em Theo, a psicóloga, que ilustra com muita habilidade como uma criança pode processar um abuso e transformá-lo em algo metafísico. A irmã Shriley representa sobriedade e controles brutais, mas desde cedo é possível perceber que algo não está exatamente certo com ela. E a assombração relacionada a ela é outro exemplo de manifestação gerada por uma culpa ocultada por seu orgulho e vergonha.

É um bom terror pela tensão e por ser, acima de qualquer coisa, a história de uma família. De forma completamente alinear vamos juntando pedaços de histórias e entendendo quem é o que e quem fez o que e quando. Isso vale para os irmãos, para os pais, para alguns dos fantasmas e para a própria casa mal assombrada. É um labirinto pelo qual Flanagan nos conduz. Em seu final, é preciso estarmos atentos para perceber que a mãe Olivia – vivida pela ótima Carla Gugino – é a chave de tudo que nos intriga mais. Ou melhor, a maternidade e o peso de suas responsabilidades pode ser tanto uma benção como uma maldição (um tema que é bem comum em várias histórias de terror, como O Bebê Rosemary e Alien, o 8º Passageiro, entre tantos outros).

No oitavo episódio há um diálogo excelente entre Theo e Shirley após alguns eventos traumáticos. Theo tenta explicar à irmã o que é ser tomada pelo mais escuro vazio e sentir o mais absoluto nada. Isso ressoa na ideia em uma das ideias de terror mais profundas analisadas por Eugene Thacker em In The Dust Of This Planet. É interessante que A Maldição da Residência Hill acabe tentando por em palavras algo que é impossível de ser ilustrado, mas que está em sua história.

Várias dimensões do terror colidem na série. Os mortos assombram a família Crain. A doença mental também. Mas a metáfora usada que é a grande sacada dessa história são os segredos que a família guarda e que acabam virando fantasmas em suas vidas. Quase todos eles têm algo a esconder. E o que permanece oculto é o que castiga suas vidas. No caso de Steve, o cético, isso se manifesta como fim de um casamento. Para Shirley, que se preocupa em ser a fortaleza moral da família, seu segredo se manifesta como uma alucinação. Em alguns casos, como no dos gêmeos Luke e Nellie, há uma somatória de sobrenatural, segredo e doença mental.

Fantasmas escondidos nos enquadramentos, segredos e uma casa enorme com um quarto fechado. Uma série que te resume todo o drama logo no primeiro episódio, mas que precisa percorrer os outros nove para te dar um panorama mais completo. Roteiro e montagem, assim como aspectos da direção de arte, se comportam como um labirinto. O mesmo que está na abertura de Maldição da Residência Hill. Tudo isso sem pesar demais a mão e sem soar hermético, mas exige que você tenha atenção aos detalhes.

Daughters, Marianne Faithfull e Jon Hopkins

DAUGHTERS | ⭐⭐⭐⭐⭐

O quarteto de Rhoade Island quebrou o silêncio de 8 oitos anos do jeito que qualquer fã do Daughters adora: com YOU WON’T GET WHAT YOU WANT, um disco forte e violento, que causa desconforto, mas uma certa fascinação também, como uma cena tensa em filme de suspense e terror no estilo Mandy.

O riffs são repetitivos, como é característico nesse tipo de rock alternativo praticado pelo Daughters e Swans. Mas as repetições são importantes, pois serve de mantra, uma forma de a cada volta enredar o ouvinte em uma espécie de ladainha profana que instiga algo dentro do ouvinte a cada compasso.

You Won’t Get What You Want é bad vibe pra caramba. As guitarras às vezes parecem serras, a bateria uma grande marreta e o vocal de Alexis Marshall não está preocupado com melodias. Tudo bem ao estilo daquele kautrock alemão. Um tipo bem específico de rock.

A banda estava espalhada pelos Estados Unidos e precisaram aprender a compor junta novamente, mandando arquivos demos de um lado para o outro até conseguirem gravar o trabalho final. Não houve receita, apenas a fé de que haveria disco novo se fizessem canções à altura do legado da banda.

Todo o processo demorou três anos, mas o Daughters mostra que está afiadíssimo e faz um dos grandes trabalhos do ano. “Long Roads, No Turns”, “Satan In The Wait” e “The Reason They Hate Me” são preciosidades de YWGWYW.

MARIANNE FAITHFULL | ⭐⭐⭐⭐⭐

NEGATIVE CAPABILITY mostra como a maturidade é uma coisa linda mesmo. Nem sempre os mais maduros são os mais inovadores em suas áreas, mas entregam obras dotadas de uma sensibilidade que só quem não tem mais paciência para papo furado é capaz de conceber.

A cantora folk e atriz inglesa Marianne Faithfull vai direto ao ponto e preenche canções delicadas com letras sobre amor, solidão, morte (inclusive a sua própria) e temas mais gerais, como a chacina extremista no Bataclan em Paris em 2015. Tudo de peito aberto e de forma poética, sim, mas com honestidade pungente. “To die a good death, is my dream“, ela canta em “Born to Die”.

Várias faixas parecem improvisadas, como se Faithfull e banda encontrassem seus tempos on the fly. E boa parte do álbum combina um clima onírico de sintetizadores com levadas de violão, ambos sobrepostos pela voz rouca da cantora. Estrutura simples, mas produção sofisticada. Se essas características lembra os últimos discos de Nick Cave And The Bad Seeds, não é por acaso. Cave coescreveu “The Gypsi Faerie Queen” com Marianne e Warren Ellis, grande responsável pelo som contemporâneo do australiano, é um dos produtores de Negative Capability.

Há músicas completamente novas (dentre essas, destaco “In My Own Particular Way” e o rock soturno “They Come At Night”, em parceria com Mark Lanegan) e releituras como “It’s All Over Now, Baby Blue”, “Witches Song” e a histórica “As Tears Go By” que, caso você não conheça as versões originais, vão passar como músicas novas de Negative Capability, tamanha é a coesão estética do projeto. “Loniest Person” é um cover do Pretty Things de 1968.

Assim como Leonard Cohen em seus últimos álbuns, Marianne Faithfull faz agora uma espécie de canto do cisne. Não queremos que signifique e nem marque seu fim, mas se assim for, ela sairá por cima. É um álbum de sensações que só quem já viveu muito consegue exprimir.

JON HOPKINS | ⭐⭐⭐⭐⭐

O produtor inglês Jon Hopkins dá continuidade ao seu projeto de música eletrônica iniciado com o disco anterior, Immunity (2013), e consegue superá-lo com SINGULARITY, o quinto de sua carreira.

O disco saiu em maio e de lá para cá colecionou elogios. Ele merece mesmo. Com muitas faixas longas, duas acima dos 10 minutos e três acimas dos 6, ele se deu espaço suficiente para fazer composições que servem tanto para a pista de dança quanto para o cérebro. “Emerald Rush” é um excelente single! Ouvi Singularity durante uma manhã de trabalho intensa essa semana e me peguei virando a cabeça ao ritmo hipnótico de “Everything Connected” enquanto tentava encontrar uma solução para o que a tela do computador me mostrava. Estava motivado e não era por conta do trabalho – e nem por causa do café, que não bebo.

Singularity está cheio de camadas e imaginação. Batidas ritmadas podem sofrer interferências, podem se dissolver em música ambiente, oferecer alívio como uma faixa noturna de dinâmica mais baixa (como a linda “Feel First Life”), e podem voltar a soar grandes e poderosas sem precisar de grandes refrãos. Hopkins é um dos grandes caras do techno atual há alguns anos e Singularity o mantém nesse posto com folga.

Muse eclético até demais em Simulation Theory

⭐⭐👍

Em 2015, Drones trouxe o Muse mais roqueiro de volta. Pode não ser a mesma coisa de antigamente, mas ouvimos a banda apostar em rock de novo, ao invés de cair no pop como acontecia com muitas bandas que vinham tocando para estádios.

Em SIMULATION THEORY, o trio parece bem menos um trio. Ou pelo menos é um trio muito bem mixado com um computador como quarto membro. Todo guitarrista que já tentou tirar as músicas da banda sabe que acertar nos timbres é um trabalho árduo, mas agora ficará impossível. São as faixas mais texturizadas e sintetizadas que o grupo já produziu. Embora existam riffs roqueiros, a quantidade de processamento em cima de cada nota as transformam sons novos, uma alquimia interessante entre o eletrônico e o overdrive.

A veia pop inegável do grupo está presente de cabo a rabo em Simulation Theory. “Propaganda” é bizarra. Eletrorock com vocal em falsete e um trecho meio country ali no meio. Poderia estar no último disco do Jack White. “Break It To Me” é igualmente bizonha, porém coloca o baterista Dominic Howard para fazer alguma coisa diferente do que vinha tocando nos últimos quatro álbuns. Ao misturar batidas oitentistas com seu estilo de pancadaria reto e preciso, mostra que a ideia da banda é realmente explorar novos terrenos.

A balada “Something Human” continua sendo terrível dentro do contexto do álbum, como já era quando ouvida como single. Esta faixa marca a metade do disco e começo a pensar que parece apesar das diferenças é um trabalho que tem sim a assinatura característica do Muse, mas feito a partir da mesma receita que Justin Timberlake utilizou em seu Man Of The Woods (2018).

“Get Up and Fight” tem participação da sueca Tove Lo. O refrão é um puta rock, mas até chegarmos a ele dá para colocar o gosto dessa banda em xeque, amigos. Fica a questão: o Muse não tinha ninguém no estúdio para avisar a eles que nem todas as misturas que estavam promovendo pareciam coesas o bastante?

Sim, eles tinham os coprodutores Rich Costley (um cara que produziu tudo do Muse de 2003 até aqui), Mike Elizondo (principalmente rap e hip hop), Shellback (sueco especialista em pop hypado) e Timbaland (já trabalhou com Jay-Z, Drake, Björk e, veja só, Justin Timberlake). Mas uma rápida olhada no perfil desses produtores explica muita coisa do que se ouve em ST, para o bem e para o mal.

“Dig Down” foi revelada bem antes de Simulation Theory ser um projeto em andamento. Achei até que era uma sobra de Drones e que não entraria no disco seguinte. Agora, contudo, ouvindo-a no contexto do álbum, dá para ver que ela pertence muito mais ao Muse de 2018 do que ao de 2015. Era uma faixa fraca quando surgiu, continua sendo fraca agora (mas o registro acústico e gospel da versão deluxe é boa!).

“Algorithm” não é ruim. Ruim é compará-la com aberturas como “Supremacy” e “Apocalypse Please”. Não tem nem o caráter épico da primeira e nem a linda urgência da segunda. Tem aqueles arranjos de corda básicões que Matt Bellamy toma de inspiração da trilha de filmes. “The Void”, a última do álbum, parecia promissora, mas acaba sem grandes graças.

Há potencial para ser o pior disco da discografia da banda, mas não subestime o tamanho do público dessa banda e nem o ecletismo dessa massa. Aliás, ao vivo, o Muse continua sendo uma banda incrível – e isso pode contar muito na percepção das noivas músicas.

É o LP mais arriscado dentro os oito do catálogo e não acho que seja uma tentativa de soar mais pop. Bandas que fizeram essa migração chegaram lá com uma música mais acessível e redonda, caso de Coldplay e Maroon 5, Kaiser Chiefs e The Killers. O Muse promove uma mistura que tenta unir seu lado mais exploratório com o pop e seu rock poderoso, tentando fazer isso tudo casar com o conceito mais alegre, colorido com neon e sci-fi do álbum. O problema é que acaba soando brega em boa parte das vezes. Salvam-se algumas faixas, como “The Dark Side”, “Thought Contagion” e “Blockades”.

É divertido, mas falta coesão e consistência em ST. Se resume a uma composição muito mediana e produção que parece uma gangorra tentando abraçar coisas demais enquanto sobe e desce. Quando lembramos de canções como “Panic Station” ou “Supermassive Blackhole” temos o Muse que sabe incorporar o pop descarado no seu som, na sua identidade. “Pressure” é o mais próximo desse equilíbrio que temos no álbum novo.

Sons de videogame antigo, teremim, percussão e arranjos com inspiração árabe e cinematográfica. Visual cyberpunk e o clima menos sisudo da carreira. Bom, com todos esses elementos também presentes em Simulation Theory, pelo menos não dá para acusar o trio inglês de não tentar fazer algo diferente.

Garotas Mortas e como encarar o feminicídio

Depois do imenso prazer que foi ler O Vento que Arrasa, o primeiro livro da argentina Selva Almada, ler GAROTAS MORTAS não poderia ter me dado uma experiência mais diferente.

O Vento é leve, mesmo quando investiga o fundo da alma daqueles homens que são seus personagens. Garotas Mortas, por um lado, é escrito com delicadeza. Apesar de ser a história de três feminicídios sem solução que ocorrem 30 anos atrás no interior da Argentina, Almada não os descreve com sensacionalismo. Essa é uma marca de sua escrita. No entanto, é impossível ler sobre como os crimes foram brutais (às vezes, sem sentido aparente) e não sentir desconforto. São muitos abusos, muitas mortes e muitas injustiças.

A autora fica na tríplice fronteira da memória, do jornalismo e da literatura. Parte da lembrança de ouvir sobre um dos assassinatos no rádio ainda garota. Outros dois se somam a essa recordação para serem explorados. Contudo, Selva Almada nos dá um verdadeiro panorama de como eram as coisas na Argentina profunda dos anos 80 e 90. Conversas de bairro sobre “certas garotas” e “certos homens”, sobre matrimônios em que abusos eram cometidos mas que ninguém metia a colher e todo tipo de segredos que guarda a intimidade das residências e a violência deixada à mostra em terrenos baldios, lagoas e charcos hermanos. Quem assistiu a série da HBO Sharp Objects, ou cresceu em cidades do interior ,terá uma imagem mental bem precisa do que a autora puxa de sua memória.

Nunca ninguém falou que você podia ser estuprada pelo marido, pelo pai, pelo irmão, pelo vizinho, pelo professor. Por um homem em quem você tem toda a confiança.

Como uma jornalista pouco ortodoxa, Selva Almada também vai em busca da reconstituição do assassinato de Andrea Danne, María Luisa Quevedo e Sarita Mundín. Espalha pelos onze capítulos detalhes do que ocorreu, como morreram ou como acreditam que morreram, quem seriam os suspeitos e de como era a relação dessas mulheres com os suspeitos e com o mundo ao seu redor. Fala com familiares e pessoas que estiveram envolvidas no caso. Ela não nos dá aspas que veríamos em páginas de jornais. O interesse dela não está em solucionar os crimes, e sim em nos mostrar a experiência de perceber que estamos em um mundo em que a mulher vive muito perto de ser uma vítima. Como ela mesma conclui rapidamente: “Eu não sabia que uma mulher podia ser morta pelo simples fato de ser mulher”.

Almada não fala em machismo ou em patriarcado. Não fala em submissão da mulher pelo homem. Não fala da dominação sexual. Ela não dá certos nomes a certas situações porque não precisa. Tudo isso é parte da equação e basta ler para entender, mesmo que você não ligue os fatos relatados a um termo como machismo, por exemplo. Eu mesmo só me dei conta de que a escritora não fala em machismo enquanto escrevia este texto.

E aí entra outro fator que faz de Garota Mortas um livro relevante. Almada usa técnicas da ficção para contar sua história. Não há travessões para anunciar a fala de um personagem de suas memórias ou de uma fonte em suas conversas. O discurso indireto livre abunda. O Vento que Arrasa, só para efeito de comparação, era muito mais bem delineado, com todas as falas e pensamentos muito bem distinguíveis no texto. Isso mostra como Selva Almada é uma escritora de recursos, como no trecho abaixo:

Ela não perdia a calma nem desmanchava o sorriso, mas eu sabia que no fundo estava tão assustada quanto eu. Não, obrigada, tenho namorado. E daí? Eu não sou ciumento. Teu namorado deve ser um moleque, o que ele pode te ensinar da vida? Uma menininha como você precisa de um cara maduro como eu. Proteção. Segurança econômica. Experiência. As frases chegavam até mim entrecortadas. Lá fora já era noite e não se enxergavam nem as lavouras à beira da estrada.

Ao utilizar a prosa criativa (e utilizar bem!) em uma obra de não-ficção, dá até para dizer que Garotas Mortas é um exemplo de jornalismo literário. Embora os três casos que são o mote do livro sejam bem interessantes em suas brutalidades e indefinições, os relatos pessoais de Selva Almada contribuem para entendermos ainda melhor toda a situação das mulheres dos anos 80 até hoje, do cenário político e social argentino (que acaba influenciando em tudo de certa forma) e da própria autora tentando não exatamente descobrir o que aconteceu com Andrea, María Luisa Quevedo e Sarita Mundín, mas o que é que fica dessas três vidas que acabaram tão cedo, tão sem sentido, e que são apenas exemplos de tantas outros assassinatos de garotas que ocorreram e ainda ocorrem e são tratados como mais um homicídio, sem que se importem com todas as contingências que fazem do feminicídio uma situação singular.

O livro chegou ao Brasil pela Todavia justamente quando esperamos que investigações cheguem a algum lugar no caso Marielle Franco. A ex-vereadora do Rio de Janeiro, homossexual e negra, com uma atuação política bastante crítica e incômoda para tantos bambambans da cidade, é um caso um tanto diferente daqueles tratados por Almada, pois é razoável supor que Marielle foi morta por motivos políticos. Ainda assim, tanto o livro quanto o caso lidam com o que há de mais fundamental nesse cenário: a mulher como alvo, ou a visão de uma sociedade machista sobre o que se sentem no direito de fazer a uma mulher.

Como ninguém diz isso claramente, Selva usa sua própria voz para dizer o que é que precisa mudar e qual é a intenção de relatos como o de seu livro:

Eu acho que o que nós precisamos é reconstruir o jeito como o mundo olhava para elas. Se conseguirmos saber como elas eram vistas, como eram olhadas, vamos saber qual era o olhar que elas tinham sobre o mundo, entende?

Acredito que o livro consegue muito bem traçar como essas mulheres eram olhadas e percebidas. Não é muito diferente do que vemos hoje. Falta agora principalmente nós, homens, pensarmos menos como “mais um homicídio” e tentar entender como elas viam o mundo e se sentiam nele.

GAROTAS MORTAS
Selva Almada
Tradução de Sergio Molina
Editora Todavia
128 páginas

Sabrina contra o patriarcado e o “problema” da fé

Quem diria que um seriado adolescente como O MUNDO SOMBRIO DE SABRINA (Chilling Adventures of Sabrina) colocaria o dedo ardendo com as chamas do abismo na ferida aberta das religiões?

Embora seja baseada na personagem dos quadrinhos da Archie Comics, como aquela outra Sabrina Aprendiz de Feiticeira dos anos 90, esta nova Sabrina Spellman se baseia numa renovação mais encapirotada da garota. Além do nome, das duas tias (Zelda e Hilda) e do gato preto Salem, o clima, as aventuras e as magias são totalmente diferentes. A nova Sabrina da Netflix vai à floresta durante a noite para escrever seu nome – com seu próprio sangue – no Livro da Besta, conjura espíritos e cruza linhas entre a vida e a morte que a Aprendiz de Feiticeira jamais sonhou existir.

Sabrina é interpretada por Kiernan Shipka (quem acompanhou Mad Men viu essa menina crescer) que é uma fofa. Sua família é devotada à magia, falam de necromancia e citam o Demonomicon na mesa do café da manhã. Ela se lava com água e sabão como um tipo de banimento para afastar uma possível maldição e faz projeção astral. Embora exista algo de Harry Potter na série (a protagonista perdeu os dois pais e é tratada pelo próprio Satã como uma espécie de Escolhida em formação que precisa frequentar uma escola de bruxaria), existem características que fazem a personagem se destacar.

Para começar, Sabrina Spellman é uma bruxa que veio para contestar o status quo – no mundo mágico e profano. Ela tem uma amiga negra, uma amiga com disforia de gênero (que não se identifica com seu corpo biológico) e um primo feiticeiro abertamente gay e que não é representado em momento algum de forma caricata. Juntos, questionam o patriarcado na escola, em suas vidas particulares e em suas religiões. Há um diálogo logo nos primeiros episódios em que a tia Zelda pergunta se o namorado de Sabrina à deflorou, pois as bruxas devem comparecer ao seu peculiar batismo com a virgindade preservada para o Senhor das Trevas. A garota retruca: “Por que ele tem que decidir o que faço com meu corpo?”

Os dogmas e as fés cegas são colocadas em xeque também. Se a sua igreja cristã ainda mantém regras rígidas e vetustas a serem seguidas, o coven da Igreja da Noite do Mundo Sombrio de Sabrina também tem suas regrinhas doutrinárias e moralistas que parecem incidir com especial peso sobre as mulheres. Mas Sabrina contesta essas regras, um misto da petulância adolescente e crítica social/religiosa.

– Mas eu quero as duas coisas. Quero liberdade e poder.
– (risos) Ele nunca te dará isso. O senhor das trevas. A ideia de você ou qualquer uma de nós ter isso o aterroriza.
– Por quê?
– Ele é homem, não é?

Essa inversão de polos é realmente interessante. Embora a religião das bruxas seja um pouco estereotipada, há uma parte dela bastante chocante para quem assiste esperando emoções mais amenas para o público jovem. Há canibalismo, há decapitações, há assassinato, há tia Zelda dizendo “Satã seja Louvado”, há uma enorme estátua de Baphomet bem no meio do pátio da escola. Pais conservadores e cidadãos de bem, escondam seus filhos! Ainda assim, essa religião das bruxas é representada como uma contraparte das religiões monoteístas mainstream.

Existe um momento, logo no terceiro episódio do seriado, em que parece que toda a parte mais encapetada vai se resolver na moral cristã, o que tornaria o sombrio mundo de Sabrina muito menos diabólico. Mas como é um seriado dos mesmos produtores de Riverdale, temos alguns subterfúgios mal planejados e desenvolvidos às pressas para colocar o roteiro no trilho que desejam (não dá pra exigir o mesmo nível sofisticação de Better Call Saul em tudo que a Netflix lança, afinal). Porém, há pelo menos quatro situações em que Sabrina escolhe o caminho das bruxas e da magia negra – e não o do cristianismo – para resolver seus problemas.

CHILLING ADVENTURES OF SABRINA

Em um deles, ela precisa fazer um exorcismo, mas exorcismo é coisa de padre católico, bruxas não são ordenadas para isso. Achei realmente que ela recorreria a um sacerdote, mas encontraram uma forma de realizar o ritual (a série é cheia de rituais, aliás) apenas com bruxas. E bruxas mulheres invocando outras bruxas mulheres, reais ou fictícias. Uma das cenas mais emocionantes da série do ponto de vista de contestação do patriarcado.

As tias de Sabrina, Hilda (Lucy Davis) e Zelda (Miranda Otto) me lembraram demais o temperamento de Caim e Abel em Sandman, do Neil Gaiman. Elas são parte essencial da atração, seja para a comédia funcionar, principalmente com Hilda, ou para o dogma da Igreja da Noite se fazer presente e atuante na casa da família Spellman – função que cabe a Zelda. Já a Sra. Wardwell (Michelle Gomez) desempenha um papel extremamente ambíguo que é muito bem-vindo, embora pareça conveniente demais em boa parte da trama.

Em Sabrina, a protagonista é impetuosa e acha que tudo vai se curvar à sua vontade. E em boa parte das vezes, ela acha a forma de fazer valer seu desejo e o que julga certo, mesmo que para isso tenha que usar métodos do lado sombrio da força. Contudo, ela é uma heroína que falha e que precisa aprender com os erros. E mesmo seu maior erro de cálculo humano e mágico na primeira temporada abre a porta para a transformação que Sabrina precisa para preparar o terreno narrativo do segundo ano. Ao que tudo indica, a luta contra o patriarcado vai voltar com ainda mais força e propósito.

Não é um seriado perfeito. Ao mesmo tempo que o roteiro tenta encontrar saídas mais adequadas ao tal “mundo sombrio” de Sabrina, às vezes toma atalhos incômodos. Contudo, mesmo que seus personagens religiosos sejam de uma igreja satânica, a demonstração da moral religiosa e da fé que molda pessoas e dá sentido a tantas existências é o há de mais acertado na série. Afinal, a dualidade entre obediência à liturgia e seguir a vontade individual existe em todas as comunidades religiosas. De forma espelhada – ou invertida, como é mais o estilo do diabo – O Mundo Sombrio de Sabrina fala a qualquer um que sentiu o peso da ideologia (da cruz, da lua, da estrela, da Nova Era, do pentagrama) e, por isso, o programa serve à sua mesa os problemas da fé na modernidade.

A princípio, Sabrina seria um seriado irmão de Riverdale. Além do mesmo produtor, a mesma equipe que trabalhou atrás das câmeras em um, assumiu as filmagens do outro. Mas ao ser adquirido pela Netflix, o cordão umbilical entre as duas foi cortado. Embora um crossover não esteja confirmado, a primeira temporada de Sabrina já deixa claro que está no mesmo universo de Riverdale.

Robyn, Haken e Sirenia

ROBYN | ⭐⭐⭐⭐⭐

HONEY, o novo disco da sueca Robyn, é perfeito! Semanas atrás falei do novo álbum da , que tentava deixar seu indie pop eletrônico mais comercial e acabou ficando mais comum também. Robyn segue o caminho da elegância da composição e da produção e faz um disco de música eletrônica pop à altura de seu nome e de sua carreira.

Honey é muito acessível, mas não sofre com músicas excessivamente pegajosas. As faixas não tentam voar no ouvinte e agarrá-lo pela garganta. Ela confia nos timbres dos sintetizadores, nas belas melodias vocais e nas batidas mais cadenciadas. Os sons se sobrepõe ao estilo do dream pop.

Chama muito a atenção também como Robyn faz um disco bastante moderno e bem cuidado e que remete ao pop dos anos 90 também, mas não se entrega ao saudosismo. É realmente uma lembrança, um aceno, algo que é recuperado nos detalhes, não plantado na canção para forçar uma identificação com o público.

É o oitavo disco da carreira da artista sueca e demorou oito anos para ver a luz do dia. Valeu a pena, pois é um dos melhores de Robyn, que dessa vez tomou a frente na produção das músicas. Ela própria fez todas as batidas. Sem atropelos em como os arranjos se combinam e cheio de detalhes que ressaltam o bom gosto da cantora, Honey é o exemplo da qualidade do pop escandinavo.

HAKEN | ⭐⭐⭐⭐

Um dos melhores trabalhos de metal progressivo que ouvi em 2018 é VECTOR, o quinto disco dos ingleses do Haken. Chama a atenção como eles têm uma personalidade bem forte: músicas pesadas, cheias de riffs e parte matemáticas, para nenhum fã de prog botar defeito, mas elas se resolvem com um certo colorido que não é tão típico do estilo e nem de bandas que usam guitarras de 8 cordas.

Fogem da escola do Tosin Abasi e do Meshuggah na utilização das 8 cordas e conseguem fazer algo pesado e preciso que não soa como uma serra em seu crânio ou como um instrumento de demolição. Acredito que isso tenha a ver com 1) bom gosto dos guitarristas Richard Henshall e Charles Griffiths e 2) com o fato do vocalista Ross Jennings não ser um cantor de death, e sim de metal da linha mais melódica, e canta em tons altos.

O Haken pega inspiração em uma série de bandas, de Queen a Devin Townsend, mas a grande escola é o Dream Theater. O baterista Raymond Hearne soa como o Mike Portnoy em seus melhores dias. Aliás, é isso que faz do Haken uma grande banda do prog metal atual: apesar de todas as partes extremamente complicadas em suas músicas, soam como se divertissem fazendo música e em momento nenhum encarnam a figura dos metaleiros tr00zões que precisam tocar pesadão e fritar o tempo tempo.

Vector é conceitual e conta a história de um médico que fica obcecado com um paciente e inicia um tratamento. O ponto de vista muda para o paciente catatônico, que pode estar sofrendo as interferências desse tratamento e/ou sendo inundado por memórias. O final dessa história é aberto e cabe a cada um decidir o que acha que está ocorrendo.

Apesar de ser o disco mais curto da discografia, é sólido. Tem tudo o que a gente gosta na banda e que já estava em Affinity, além de alguns elementos novos, como saxofone criando um clima único e flertes com a eletrônica. A faixa instrumental “Nil By Mouth” me lembrou porque eu gosto de metal progressivo.

SIRENIA | ⭐⭐⭐

Não sou um grande fã dessa banda de death metal sinfônico, mas tenho acompanhado todos os lançamentos do Sirenia e achado esses noruegueses bastante consistentes. ARCANE ASTRAL AEONS não é o melhor trabalho do grupo, mas não diria que é ruim, pois parece ser o mais redondo da carreira. Acontece que também é o que obedece a uma certa fórmula – já bastante usada pelo Nightwish – que faz o metalzão do grupo soar como… pop.

Isso quer dizer que Arcane Astral Aeons é pesado, é rápido e carrega todos os elementos que fazem do Sirenia um destacado grupo nessa cena. Porém há muito mais melodia dessa vez, o que traz uma resolução mais confortável aos ouvidos, apesar do peso, da distorção e da velocidade.

Ainda há bumbos duplos, riffs matadores e vocais guturais de Morten Veland misturados aos vocais limpos e operísticos da vocalista Emmanuelle Zoldan (que entrou na banda em 2016, substituindo a espanhola Ailyn, que permaneceu por oito anos na banda). A francesa Zoldan torna-se, assim, a quarta vocalista feminina do grupo.

O novo álbum também chega em um momento em que apenas Veland e Zoldan são creditados como membros fixos da banda. Morten gravou ele mesmo guitarra base, baixo, teclados, seus vocais guturais, programação eletrônica e até bateria o norueguês tocou. Chamou os dois guitarristas contratados para acompanhar a banda ao vivo para fazer os solos e o restante foi feito por músicos convidados ou de estúdio.

Acho que Arcane Astral Aeons é bem divertido. Pode ter faltado pegar um pouco mais pesado na parte death metal do disco, mas não deixa a energia cair em momento nenhum.