A Pé Ele Não Vai Longe, Os Irmãos Sisters e Sorry To Bother You

A PÉ ELE NÃO VAI LONGE

O novo filme do diretor Gus Van Sant é sobre John Callahan, um cartunista que sofreu um acidente nos anos 70 e ficou paraplégico. É uma história, em nível profundo, sobre enxergar quem você é, suas limitações e aceitar suas merdas, sem autopiedade e sem culpar quem não tem, de fato, culpa pelas péssimas escolhas que você fez. E A PÉ ELE NÃO VAI LONGE (Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot) cumpre muito bem esse papel.

Joaquin Phoenix é extremamente convincente como Callahan, e não é fácil imitar um tetraplégico, com movimentos limitados, a forma como usava os pulsos e não as mãos para segurar objetos (garrafas de uísque, canetas, etc), a forma como o corpo deve ficar em uma cadeira de rodas, etc. Jonah Hill, como Connie, o padrinho de Callahan na Alcoólicos Anônimos, está um gigante. Rooney Mara, como Annu, está a fofura sueca em carne e osso.

O filme é considerado uma comédia, mas não espere muitos risos no fim das contas. Ele é bem mais dramático do que qualquer outra coisa, já que o o personagem lida com questões bastante sérias, como o alcoolismo antes e após o acidente, a impossibilidade de um relacionamento amoroso e o abandono da mãe quando criança. Não é uma história para chorar, pois Van Sant não apela para sentimentalismo, mas é tocante em diversos momentos.

A Pé Ele Não Vai Longe estreou em Sundance em janeiro de 2018 e só agora, um ano depois, chegou aos cinemas brasileiros, com distribuição da Amazon. A produção se baseia no livro de memórias do cartunista e o próprio Callahan está creditado como um dos idealizadores da história que deu origem ao roteiro de Van Sant. Mas Callahan morreu em 2010, o que nos dá uma boa ideia do tempo em que o projeto estava sendo gestado. A princípio, Robin Williams (que faleceu em 2014) interpretaria o protagonista.

OS IRMÃOS SISTERS

OS IRMÃOS SISTERS (The Sisters Brothers) é um western que se passa durante a corrida do ouro na Califórnia. Apesar de ser um gênero e uma história tipicamente estadunidense, é uma produção francesa dirigida por Jacques Audiard, seu primeiro filme todo falado em inglês. O filme estreou no Festival de Veneza de 2018 e foi muito mal na bilheteria norte-americana. Uma pena, pois foi um dos filmes mais tocantes que vi ano passado.

O elenco está primoroso. A princípio, acompanhamos as aventuras dos irmãos Charlie (Joaquin Phoenix) e Eli (John C. Riley). Um é beberrão e impulsivo, outro é mais comedido e já pensa em um futuro diferente para si mesmo. Apesar das diferenças de planos e personalidade, ambos são igualmente mortais e trabalham como assassinos para um comodoro do Oregon. Descem a costa oeste dos EUA atrás do investigador John Morris (Jake Gyllenhaal) e do químico Hermann Warm (Riz Ahmed), que aparentemente desenvolveu uma nova técnica para procurar ouro e o comodoro quer o segredo a todo custo.

Os Irmãos Sisters é sobre manipulação política e ganância, mas também é um conto moral sobre empatia e o que realmente importa no final das contas em um ambiente inóspito em que a lei está longe de ser aplicada a todos. Embora nos identifiquemos com Eli e Charlie, eles são matadores de aluguel que vão enfrentar aranhas, ursos, outros capangas do comodoro e uma gangue que usa chapéu de pele de guaxinim. É um drama, mas faz valer seu lado western com variados obstáculos e até um lado filosófico.

Duas coisas são preciosas em Os Irmãos Sisters. Primeiro, poder ver Phoenix, Riley, Gyllehaal e Ahmed atuando juntos. Segundo, assim que nossos olhos se enchem e nosso coração se aquece com o clímax da história, logo em seguida Audiard nos dá o maior banho de água fria, só para nos fazer perceber o quanto aprendemos a gostar daquele quarteto.

SORRY TO BOTHER YOU

Da safra 2018 de Sundance temos também SORRY TO BOTHER YOU, primeiro longa-metragem do rapper, produtor, roteirista e ativista Boots Riley. É um filme norte-americano, de comédia e drama, com laivos de ficção-científica. Assim como o Infiltrado Na Klan, de Spike Lee, é um filme sobre o homem e a mulher negros dos EUA neste momento, com um ethos forte e que não tem medo de parecer panfletário para falar o que precisa.

Cassius Green (Lakeith Stanfield, perfeito em suas caras de dó) começa a trabalhar em uma empresa de telemarketing, mas vai mal. Tudo parece sem sentido para ele, até que recebe a dica de ligar para as pessoas usando sua voz de branco, sem dar a entender pelo telefone que é um afro-americano. É aí que sua carreira deslancha. Ele sabe que a grana federal que começa a entrar em sua conta vem manchada de sangue e durante o segundo e terceiro atos do filme, ele vai ver e sentir quão inescrupuloso o capitalismo pode ser.

O elenco é bem legal (completado por Tessa Thompson, Steven Yeun, Danny Glover e participação de Terry Crews) e a trilha sonora original foi feita pela Tune-Yards. Além disso, Boots Riley juntou o seu grupo de rap The Coup para gravar canções especialmente para o filme. Não é um ataque à administração Donald Trump, pois o roteiro foi concebido durante o governo Obama. Seja qual for o presidente, os mecanismos do capitalismo mais agressivo continuam sendo os mesmos e Sorry To Bother You teria o mesmo impacto hoje ou daqui três anos.

Quando a porção mais sci-fi da história começa a tomar corpo, o filme bambeia, quase perde o seu chão, mas o diretor segura firme as rédeas e consegue chegar a um final plenamente satisfatório, desde que o público abrace a piração, é claro. Ela não é gratuita e se se afasta do realismo, é porque às vezes o absurdo não só ajuda a entreter, mas ilustra melhor o que pode ser difícil colocar em palavras.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *