A psicologia em SACRIFICE, de Derren Brown

Quando assisti a Miracle, um dos mais recentes espetáculos do mentalista inglês Derren Brown, fiquei impressionado não com a habilidade de ilusionista do homem,mas como ele foi capaz de “enganar” o cérebro das pessoas explicando tudo o que fazia, mas criando um teatro para fazê-las crer que tudo estava acontecendo mesmo. No fim, ele prova que as pessoas (grande parte delas, pelo menos) acreditam no que querem ou escolhem acreditar.

Brown sempre repete o mantra “as histórias que contamos a nós mesmos”. Seus espetáculos, como Miracle e o novo SACRIFICE (ambos disponíveis na Netflix), nos mostram como esse tipo de mantra funciona em nossas vidas. Em Miracle, ele diz com todas as letras que é um ateu e que não haveria possibilidade de Deus agir por meio dele, mas mesmo anunciando isso, ele cria um teatro religioso análogo ao dos pastores evangélicos americanos e repete – ele, um homem sem fé – os mesmos milagres que os tais pastores que dizem estar imbuídos do poder do Espírito Santo. Derren deixa implícito como tudo é sugestão, hipnose, ilusão e técnicas psicológicas, mas que muita gente tira proveito disso para se passar por instrumento de Deus – e nós nos deixamos levar por essa falácia, pois não compreendemos como aquilo que ele faz seria humanamente possível.Porém, um ateu acabou de realizar os tais milagres (truques) bem na frente de centenas de pessoas.

Em Sacrifice, Derren Brown cria uma espécie de reality show para mais uma vez mostrar como muitas de nossas limitações e também a forma como enxergamos o mundo estão presas às histórias que contamos a nós mesmos. Após uma seleção de pessoas, ele define que Phil, um morador da Florida,será sua “cobaia”. Phil é casado e pai. Logo percebem que o homem é da opinião de que a permanência de mexicanos e latinos nos Estados Unidos é um erro, pois eles roubam os empregos dos americanos, entre outros motivos.

Mas dessa vez o show de Brown é um experimento de comportamento. A intenção do ilusionista é fazer com que sua cobaia seja capaz de pular na frente de uma bala para salvar um desconhecido. Para isso, implanta um chip na nuca de Phil e diz que o aparelho está ligado a um aplicativo que foi instalado em seu celular. O intuito seria aprimorar Phil. Na realidade, Brown quer que Phil acredite que será capaz de novos feitos justamente porque tem um chip em seu corpo e faz os treinamentos mentais com o app. Brown conta uma história à sua cobaia.

A cobaia precisa crer nessa história para crer em si mesmo. Embora Sacrifice seja um produto para televisão e use muitos artifícios para criar tensão no expectador, pode ficar a impressão de que tudo o que Brown faz com Phil é combinado. Mas a psicologia pode explicar. Recorri aos conhecimentos em Análise do Comportamento da minha namorada, Juliana, para poder contar quais são as prováveis técnicas usadas por Brown neste caso.

CONDICIONAR É PRECISO

De frente para Phil, Derren Brown começa a envolver sua cobaia em uma narrativa sobre o que fazer com o corpo para não sentir dor. Isso envolve falar certas palavras para encorajá-lo e ensiná-lo alguns truques, como dar três soquinhos na cabeça. No caso, Derren quer que Phil sinta sua mão anestesiada a ponto de poder perpassá-la com uma agulha e o homem não sentir nada. Phil já está usando o aplicativo, já tem o chip implantado e já sabe reconhecer um sinal sonoro do app que indica que “é hora de ter coragem” ou então “é hora de acreditar”. Como já sabemos, o chip não funciona. O app é só parte do teatro para que ele acredite estar sendo treinado para novos feitos. O som é um gatilho para lembrá-lo disso tudo. Os socos na cabeça é uma ritualística. E dá certo. A agulha atravessa a pele da mão de Phil e ele não sente nada.

Em Análise do Comportamento, podemos dizer que Brown está realizando um Treino Discriminativo. Ele introduz estímulos para que Phil comece a discriminá-los, ou seja, reagir a cada um deles diferentemente do que normalmente reagiria. Derren coloca Phil em certas situações – como na beira de um precipício para um lago – para disparar esses estímulos e ver se Phil é tomado pelo ímpeto de fazer o que o ilusionista quer que ele faça, mesmo que vá contra sua vontade. Phil não gosta de água ou de altura, então pular seria ir contra sua “programação”. Ele tenta. Ouve o sinal sonoro do app, dá os socos na cabeça, fica de cara como abismo, mas não pula. Por quê não? “Porque a história de aprendizagem de uma pessoa é longa e forte o bastante para impedir que certos pareamentos de estímulos façam-na ter comportamentos dessa magnitude”, diz Juliana.

É importante lembrar que Brown faz um produto de entretenimento, não uma pesquisa acadêmica com Sacrifice. É possível que ele tenha utilizado métodos realmente existentes na psicologia comportamental (que descrevemos neste texto), é preciso notar também que pode ser um método eticamente duvidoso para os padrões da Análise do Comportamento.

EMPATIA

Em outra situação muito bonita do programa, Phil é colocado cara a cara com um mexicano em uma sala. Ficam sozinhos e em silêncio, um olhando para o outro. Derren Brown conhece os preconceitos de Phil e tenta quebrá-los. Phil percebe que o mexicano é igual a ele, não é uma ameaça ali. Chora e pede um abraço do rapaz. Não sabemos se isso desmonta seu preconceito contra imigrantes, mas fica claro que passou a enxergar as coisas de forma diferente. O abraço até parece uma culpa (de Phil) sendo jogada para fora.

Antes, porém, Brown analisou o genoma de sua cobaia e apresentou de quais regiões do mundo vêm os genes de Phil. E uma pequena porcentagem é da América Latina. Quem diria, logo ele, um cara que vê os mexicanos como um problema, tem dentro dele uma herança desse povo também.

A revelação genética amaciou Phil. Essa nova informação em sua história (devida e no experimento) fez com que ele chegasse a se sentar de frente para o mexicano tendo que encarar não apenas seu preconceito refletido em si mesmo.

De acordo com Juliana, que me explicou as técnicas psicológicas que podem estar envolvidas aí, Phil tem uma história de aprendizagem muito longa e tem muitas autorregras que não descrevem a realidade, como a crença de que imigrantes roubam os empregos dos estadunidenses. Ao apresentar o mapa do genoma de Phil, Derren colocou mais um elemento para que o homem criasse para si mesmo “uma nova história” e outras regras mais condizentes com a realidade(mais afastadas do preconceito).

Por causa das autorregras que “regiam” o pensamento e comportamento de Phil, ele tinha um padrão de comportamento quando era confrontado com certas questões ou situações, como é o caso dos imigrantes. Todos os estímulos apresentados até aqui, desde a informação do genoma até os soquinhos na cabeça para lhe dar força em uma situação difícil, são parte de uma espécie de treinamento para que Phil aprenda a se comportar de outra forma, quebrando o padrão produzido por seu histórico de aprendizagem.

SENSIBILIZAR DE NOVO

Phil, como você já percebeu lendo até aqui ou assistindo, está condicionado por sua história de aprendizagem, que o levou a criar suas autorregras. O experimento faz com que ele seja dessensibilizado, para que certos pareamentos aversivos se dissolvam. Ou melhor: o experimento buscar quebrar o pareamento entre o estímulo aversivo(presença de latinos) e a resposta emocional (preconceito, ódio). Neste caso, dessensibilizar significa sensibilizar de novo, ressignificando, por exemplo, seu entendimento sobre o que é um mexicano. “Essas quebras de pareamento e o reforço positivo (entender o mexicano, abraça-lo, enxerga-lo como igual) lhe contam uma nova história e aumentam a probabilidade de se comportar com mais empatia no futuro”, me diz Juliana.

No final, o ilusionista cria uma situação que envolve atores e uma equipe de filmagem escondida para fazer com que Phil de fato acredite estar em uma situação extrema e tenha que tomar uma decisão que envolva ficar entre uma arma e um imigrante por livre e espontânea vontade.

É interessante notar que na cena final de Sacrifice, Brown espalha estímulos pelo cenário. O carro em que Phil está reproduz o mesmo sinal sonoro que ele ouviu no aplicativo em situações chave anteriormente. O local da ação contém um catavento vermelho, que lembra muito a espiral vermelha ícone do app. Mas será que o preconceito foi desmontado a ponto de Phil acharque é seu dever defender um imigrante em seu país?

Quem já assistiu, sabe o que acontece. Quem não viu, precisa assistir para saber como a metodologia do mentalista e ilusionista podem ser encaradas à luz das técnicas psicológicas da Análise do Comportamento – dessensibilização e treino discriminativo. Lembrando que Brown embora sempre explique ao público o que está fazendo e o que espera conseguir de Phil, ele não entra em detalhes sobre a teoria que dá base ao seu experimento. As técnicas de Análise do Comportamento explicam, mas ele pode ter seguido outra linha teórica.

Apesar de todo o espetáculo montado por Brown para encantar a plateia, seja dentro de um teatro ou pelo streaming da Netflix, o que acho incrível nele é como ele monta seu discurso ao seu público (ou sua cobaia). Ele diz o que está fazendo e tem um objetivo com isso, que pode ser desmascarar charlatões que querem nosso dinheiro e nossa mente (como gurus, religiosos, pessoas malintencionadas querendo se aproveitar da fé das pessoas) ou até mesmo nos fazer enxergar alguns dos entraves psicológicos que estabelecemos a nós mesmos, acreditamos nesses entraves e assim nos limitamos. O importante não é a ilusão ou a graça do truque de Derren Brown, mas sim o que ele revela de real sobre nós a partir da ilusão.


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