A tragédia das 32 crianças da República Luminosa

O madrilenho Andrés Barba ganhou notoriedade nas letras espanholas quando lançou REPÚBLICA LUMINOSA por lá e venceu o Prêmio Herralde em 2017. O seu livro chegou ao Brasil este ano pela editora Todavia e quando comecei a ler, demorei um tempinho para entrar na vibe do autor. Li os três primeiros capítulos e fiquei desconfiado de que ele enrolaria muito para contar a história das 32 crianças que surgiram nas ruas de San Cristóbal e se refugiavam na floresta. Li os capítulos 4 e 5 e, ao fechar o livro para dar uma pausa, já estava totalmente ganho pela história e pelo autor. Não precisei nem chegar ao final da obra para ter certeza de que seria uma das três melhores coisas que li este ano.

A história é contada em primeira pessoa, da perspectiva de um homem, um profissional da gestão pública, que assume a pasta da Ação Social ou Desenvolvimento Social de San Cristóbal, uma cidade espanhola onde vivem muitos Ñeê, um povo característico ao que parece. Então 32 crianças começam a aparecer na cidade, sem origem muito definida, algumas são órfãs, outras fugiram de casa em outras cidades, mas ninguém sabe como é que começaram a se reunir.

O que se sabe é que estiveram em San Cristóbal, praticaram mendicância e pequenos roubos, incomodaram a princípio e depois viraram parte da paisagem, já que, como muitos excluídos em nossas ruas, fingimos que não estão lá. Mas é difícil não ver que são crianças. Como Barba escreve: “Por mais que as víssemos miseráveis, sujas e muitas vezes afetadas por doenças viróticas, já tínhamos nos imunizado contra a situação. Podíamos comprar uma orquídea delas ou um saquinho de limão sem nos alterarmos: aquelas crianças eram pobres e iletradas como a selva era verde, a terra era vermelha e o rio Eré carregava toneladas de lama.”

Sabemos também, desde o início, que uma tragédia vai acontecer com essas crianças. Não só com as 32, mas com algumas outras que vão se juntar ao bando também, o que só aumenta a tensão na cidade, atingindo em cheio as autoridades policiais e municipais.

E então você pensa em todas as coisas que você tem e elas não, e nas coisas que você faz e elas não podem fazer. Porque elas não têm uma casa. Nem comida. Nem cama. E, como não têm essas coisas, dormem com os olhos abertos para não sentir medo. E entram em você. E você é elas.

Andrés Barba conta a história de forma alinear. O narrador está à frente dos acontecimentos e vai revelando o coração dessa narrativa aos poucos, intercalando-o com fatos que se seguiram inclusive anos após a tragédia. Isso cria uma dimensão muito maior da tragédia e da barbárie, fazendo com que República Luminosa não seja um livro apenas sobre o que houve com as 32, e sim páginas repletas de reflexões filosóficas e investigações de cunho moral que só aumentam a tensão e o escopo do ocorrido. República Luminosa, dessa forma, parece ter muito mais história do que cabem em suas 160 páginas.

Foi como ler As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides, também. Tanto na estreia de Eugenides como neste de Barba, nunca temos a perspectiva de quem realmente é o centro das atenções. As irmãs Lisbon nunca tomam a palavra para contar a sua versão dos fatos, assim como as crianças também não falam conosco, nem com o narrador e nem deixam documento para termos um insight mais seguro sobre a história delas. Tudo o que é contado sobre elas parte de terceiros ou das elucubrações do próprio narrador, formando um quebra-cabeça muito interessante.

A história que Barba quer nos contar é boa. A forma como escolhe contá-la, é ótima. As reflexões que faz – sobre a história e sobre como nós, os leitores e os sancristobalenses respondemos a ela – é o verdadeiro ouro de República Luminosa. No meio do caos e do desespero, até as melhores intenções podem se traduzir em violência, física e social.

Mas as crianças não apareciam, as patrulhas policiais retornavam todos os dias ocultando a sua frustração, e cada vez que olhávamos para a selva parecia que aquela massa tinha se voltado contra nós para defender as crianças. Se não era uma fábula moral, tínhamos que reconhecer que era bem parecida com uma.

REPÚBLICA LUMINOSA
Andrés Barba
Tradução de Antônio Xerxenesky
Editora Todavia
160 páginas

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