Aquaman entrega herói bad ass, mas fica devendo

O único filme da DC/Warner em 2018 após as falhas em Liga da Justiça é AQUAMAN. O filme é colorido e espetaculoso como prometido nos trailers, mas deixa muito a desejar para quem esperava uma redenção do estúdio. O filme, dirigido por James Wan e estrelado por Jason Momoa, até está bem intencionado e direcionado, mas a DC ainda precisa ajustar muitas coisas antes de entregar um bom filme que saiba o que quer ser.

1. VISUAL

Aquaman tenta traduzir as HQs de Geoff Johns e Ivan Reis para as telas e pega emprestado a estética de alguns outros filmões. Avatar, de James Cameron, é o primeiro a ser lembrado, já que Atlântida é um mundo fantasioso, repleto de criaturas, cores e luzes. Outro que logo vem à mente é a franquia Star Wars. A imensidão das profundezas do oceano de Atlântida, com suas criaturas grandes e pequenas, suas construções e pontes, é análoga à imensidão do espaço na galáxia muito distante, com suas naves grandes e pequenas, seus planetas e seus cruzadores imperiais. É um desbunde imagético que lembra pouco a estética de Batman V. Superman e outros filmes que tinham a assinatura de Zack Snyder.

Contudo, é um filme feito para ser visto imediatamente. Em pouquíssimos anos – uns 4 mais ou menos – grande parte do visual de Aquaman parecerá extremamente datado. A primeira vez em que Atlanna (Nicole Kidman) salta ao mar é CGI puro e facilmente identificável, o que fica bem estranho na telona. Os cabelos digitais esvoaçantes dos personagens embaixo d’água, embora agora pareçam uma conquista visual, serão extremamente vexatórios mais pra frente.

2. MOMOA RULES

A princípio, Jason Momoa com todos os seus músculos e tatuagens, barba e cabeleira não tem nada a ver com o Aquaman que conhecíamos. Mas digamos que a repaginada do personagem para o cinema (mais uma obra de Snyder) funciona bem. Momoa convence como um ser de capacidades extraordinárias e tem carisma para carregar os atributos mais humanos de seu Arthur Curry. Um herói bad ass no caminho certo, mas sozinho não carrega o filme todo.

3. PAI E FILHO

A relação de Arthur e seu pai mortal, o faroleiro que conquistou a rainha Atlanna, funciona muito bem. Em uma cena de perigo, torci para que o homem não morresse e que Aquaman não se tornasse mais um herói amargurado pela perda da figura masculina. Os dois são parceiros, bebem juntos, se importam um com o outro e têm uma relação saudável. Dividem a mesma saudade e isso está bem representado, sem pesar em melodramas desnecessários.

4. MERA E ORM

Amber Heard está bem caracterizada como a princesa Mera, uma pena sua relação com o herói ser tão fria. Momoa e Heard não conseguem nem a química mais básica vista em, por exemplo, Visão e Feiticeira Escarlate. O príncipe Orm, meio-irmão do protagonista, está bem caracterizado também. Patrick Wilson loirão e usando roupas e armaduras reais sabe que o negócio é ser um vilão de visual brega e parece confortável com isso. Ele está OK e não rouba a cena, embora pareça que a intenção fosse criar uma disputa parecida com a de Thor e Loki.

5. ROTEIRO BÁSICO E APRESSADO

Sim, Aquaman aposta na manjadíssima jornada do herói. Arthur tenta se esquivar o quanto pode de sua missão (a recusa do herói), tem um mestre, uma parceira que o acompanha na jornada, adquire habilidades, prova seu valor e recebe uma recompensa, tudo by the book. Os roteiristas colocaram tanta coisa nessa história que a aventura precisa ser acelerada de um modo que realmente atropela muitas coisas na superfície e nas profundezas.

Enquanto Aquaman e Mera vão do Maine ao Saara e à Sicília, Orm viaja por vários reinos submersos reunindo exércitos e dando forma ao seu golpe de Estado. No fim das contas, não há muita coisa para se ver em termos de história. Com tantos lugares para visitarem e tantos inimigos cheios de armaduras para enfrentar, o lado dramático acaba sendo resumido. Pelo menos, não é um filme de 2h20 dedicado a mostrar o Aquaman crescendo e adquirindo poderes. Quando ele surge, já é um ser poderoso.

6. ÉPICO? FANTASIA? SCI-FI? COMÉDIA?

Zack e Deborah Snyder ainda estão creditados como produtores executivos do longa, mas o tom sisudo e duro de seus filmes se foi. O problema é que James Wan e o resto da equipe não conseguem decidir que tipo de filme é Aquaman. É uma fantasia, sem sombra de dúvida, que flerta com a ficção científica de vez em sempre. Atlântida é tanto um lugar de magia (e modos meio medievais) quanto de máquinas mais avançadas que as da superfície. Pela escala da missão de Aquaman e várias cenas grandiosas, tenta ser um épico, mas não mantém essa pegada por todo o tempo. Tenta ser comédia também, e até consegue, mas claramente não é o forte do filme.

7. SALADA MUSICAL

Fazia muito tempo que não via um filme com uma trilha sonora tão variada e tão desconjuntada. A princípio, as músicas pop parecem querer criar alguma relação com os personagens, enquanto a trilha original de Rupert-Gregson Williams se esforça para sintetizar a fantasia high tech do visual. Com o tempo, fica claro que Aquaman atira para todos os lados e todas as tendências. Em uma cena em que Arthur e Mera saem do mar e chegam a uma praia, a música torna a cena um comercial de xampu.

8. EXPLOSÕES

É incrível como James Wan e os roteiristas se repetem nas soluções de cena. Em diversos momentos, os personagens estão tranquilos em seus afazeres quando DE REPENTE alguém os ataca e a pancadaria começa. Esse DE REPENTE, em 70% dos casos de Aquaman, é uma explosão. Não é brincadeira: se Atlanna e seu marido estão curtindo a vida conjugal e algo precisa mudar, começa com uma parede explodindo. Se Orm precisa convencer Nereus a ficar do seu lado na guerra, uma explosão é o que interrompe a diplomacia e inicia o conflito. Se Mera e Vulko (Willem Dafoe) estão escondidos, é uma explosão que mostra que foram descobertos…

9. CÂMERA INSANA

Desde a primeira vez que assisti à Invocação do Mal, também dirigido por James Wan, fiquei embasbacado com a movimentação de câmera do diretor. Aquaman também se beneficia disso, principalmente nas cenas de ação. A primeira luta, com Nicole Kidman, é ótima, com ângulos extremamente criativos. Outra cena que se aproveita disso é a perseguição na Sicília, que todo mundo já viu no trailer estendido. Quando a batalha é muito gigante e épica, aí a filmagem fica mais comum mesmo.

10. FUROS

A construção de um universo da DC realmente foi abandonada e nem lógica interna mais conta. Em Liga da Justiça Mera já havia aparecido, certo? Pois quando ela dá as caras para Arthur Curry pela primeira vez em Aquaman, ela cita o Lobo das Estepes (que Aquaman ajudou a derrotar em eventos passados, correto?) mas parece que o protagonista nunca a tinha visto antes. Ainda no começo do filme, alguns motoqueiros tiram selfies com o herói, pois o reconheceram como o “garoto-peixe” (uma das melhores cenas do filme). Na cena pós-créditos, dias depois da cena das selfies, há um cartaz com a silhueta de um rosto e uma frase perguntando quem é o Aquaman. Como assim o governo e os jornais não sabem, mas os motoqueiros sim?

11. BREGA E BOBO

Muito se fala de Aquaman soar meio brega e infantilizado. De fato é, mas se pensarmos que é um filme que quer encantar aos meninos e meninas de 8 e 10 anos também, e não somente aos marmanjões, tá tudo bem. Mas a cena que sintetiza o que é brega e bobo em Aquaman é o polvo baterista.

Por fim, o filme não se prende à seriedade e violência outros filmes da DC e, com já era claro desde os primeiros trailers, não tenta ter o realismo dos filmes de Christopher Nolan. Aquaman tenta seguir muito mais a Marvel Studios agora, com histórias mais leves, violência sem sangue e um heroísmo mais declarado. Mas enquanto a Marvel já sabe equilibrar bem humor, drama e ação sem perder o foco, Wan não conseguiu acertar um tom. Parece estar no caminho para refazer o universo da DC no cinema, mas cuidar e costurar melhor as partes que constituem o filme.

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