Lista: os Melhores na Música em 2018

Melhor álbum contra a angústia

Chastity – DEATH LUST |Uma banda nova que fez sua estreia em 2018 com Death Lust, Chastity foi um dos maiores acontecimentos par mim. Banda canadense de Whitby, pequena cidade próxima a Toronto, que vive entre o tédio e a falta de perspectiva, uma noção que faz parte de toda a angústia presente no álbum. Trafega por diversos estilos e vai da pancada que é “Children” até conseguir deixar entrar os primeiros raios de esperança em “Innocence”.

Álbum mais delicado

Lauren Auder – WHO CARRY’s YOU | Lauren Auder é um francês que fazia suas produções em casa e as postava no Soundcloud. Ainda estudava no ensino médio quando chamou a atenção de rappers e gravadoras. Ao se formar, foi para a Inglaterra. Who Carry’s You é seu primeiro EP e já demonstra maturidade, sensibilidade e boa mão para experimentar sem perder a ternura.

Tuyo – PRA CURAR | Trip hop brasileiro de qualidade, com lírica, ótima escolha de sons, de duetos, de contrastes de voz e com ótima atmosfera. Além disso, o trio do Tuyo mostrou uma maturidade bem grande em Pra Curar que não estava toda no EP Pra Doer. Falei mais de Pra Curar aqui.

Rubel – CASAS | O carioca Rubel fez um dos álbuns que mais ouvi este ano. Doce, contido, quente a sua maneira, poético. Uma trincheira onde deságua rap, MPB e folk, orquestrações e violões, cenas da vida real e espaço para a imaginação.

Melhor álbum feminista

U.S. Girls – IN A POEM UNLIMITED | Desde que U.S. Girls (nome do projeto solo de Meg Remy) lançou In a Poem Unlimited, o disco foi baixado na minha biblioteca do Spotify e não cogitei apagar. O disco é bom do começo ao fim. Funk rock, funk pop, levemente lisérgico e cheio de mensagens feministas, inclusive um tapão na cara do Barack Obama e uma história de vingança. Remy é americana e vive no Canadá, seu novo disco entretém e ilustra a luta, os medos e a esperança de diversas mulheres. O Dirty Computer de Janelle Monáe poderia figurar aqui também com tranquilidade, mas a voz de Remy no U.S. Girls precisa ser ouvida e destacada também.

Melhor disco nacional

Luiza Lian – AZUL MODERNO | A fluidez como Luiza Lian e seus músicos produzem uma obra sentimental e misturando referências que vão do funk ao pop e da música negra à eletrônica é incrível. Azul Moderno tem o que dizer e tem som para embalar sua meditação, sua magia, sua dança e até sua festa. Foi um ano de ótimos lançamentos nacionais e nada fácil escolher apenas um disco, mas foi este da Luiza Lian que quis sempre ter à mão desde que foi lançado. Falei mais de Azul Moderno aqui.

Álbum que achei que ia ouvir muito e ouvi bem pouco

Florence + The Machine – HIGH AS HOPE | Adoro Florence Welch e sua banda. Adoro sua voz e a forma efusiva como interpreta suas composições. Adoro inclusive que ela tenha algo de místico. Mas High As Hope me soou contemplativo demais e com pouca força. As letras são boas, as músicas são bonitas, está tudo certo, mas mesmo assim não é um disco que empolga. Quem sabe com o tempo a gente não redescobre este 4º álbum do Florence + The Machine, né?

Banda que ia lançar disco novo, não lançou e me frustrou

TOOL | Eu e toda uma legião de fãs do Tool estávamos esperando por um novo álbum em 2018. Eu e toda uma legião de fãs do Tool estamos esperando o 5º álbum da banda americana há mais de 10 anos. Ficou para 2019. O que sabemos é que a banda já gravou todas as músicas e só falta colocar a voz em tudo. Vários músicos – incluindo Tom Morello, Nergal Darski e o líder dos Melvins, entre outros – já puderam ouvir o que o Tool aprontou e todos dizem que é incrível.

Artista mais incompreendido de 2018

JACK WHITE | Passei boa parte de 2018 seguindo os passos de Jack White. Ele lançou o disco mais estranho da carreira, o menos roqueiro, é verdade, e finalmente usou edição digital para montá-lo. Contudo, Boarding House Reach foi extremamente incompreendido por boa parte do público e até da crítica. Cansei de ver textos sobre o álbum bem mal-informados, porque neste caso, a forma totalmente alinear como White compôs e gravou, determinou o resultado final, e a grande maioria da crítica analisou como se fosse um disco produzido de forma convencional. A turnê de Jack foi longa e ele registrou tudo em seu Instagram. Ao vivo, as canções ganharam peso rock e as performances do músico eram sempre entregas de corpo e alma. Continua sendo o embaixador do espírito rock’n’roll em nossos tempos, mesmo com um álbum esquisito e experimental.

Artista mais controverso de 2018

KANYE WEST | Kanye West, o rapper originalmente de Chicago, de onde veio o ex-presidente Obama, nunca foi parte do séquito de Obama. Querendo ter algum peso na Casa Branca, deu declarações polêmicas sobre escravidão e pareceu passar pano em Donald Trump. Sua saúde mental foi colocada em xeque e seu estado emocional foi brilhantemente sintetizado no clipe animado de “Feels Like Summer” de Childish Gambino. Se fechou no estúdio em 2018 e produziu 5 discos curtos de 5 rappers diferentes, incluindo um novo álbum próprio e um em parceria com Kid Cudi. Todos ficaram ótimos. Esse é o Kanye: ótimo por um lado e uma besta por outro.

Melhor capa

Blood Orange – NEGRO SWAN | Ouvi Negro Swan muito menos do que pretendia, mas ainda assim, que grande disco de R&B. Dev Hynes, o homem por trás de Blood Orange, disse que o tema geral da obra é a depressão negra. A capa, uma foto, é maravilhosa no que retrata e em como retrata. Há algo de absurdo, inda que profundamente humano, mesmo que remetendo a algo sobrenatural ou irreal em um ambiente urbano. O tipo de imagem que permite trocentas leituras, tantas que talvez seja melhor apenas apreciar e sentir, sem explicar muito.

Show mais esperado

RADIOHEAD no Allianz Parque | Não compareci àquele primeiro show do Radiohead em São Paulo em 2009 e por muito tempo me arrependi profundamente de não ter ido. Finalmente lavei a alma e conferi a banda no Soundhearts Festival, que teve também Aldo The Band, Junun e Flying Lotus. Gostei de todos os shows, mas o mais esperado era mesmo o do Radiohead, que tocou por 2h30, Thom Yorke estava animado e deu pra ver como  banda reproduz o máximo de sons possíveis ao vivo mesmo, sem recorrer a VS e trilhas disparadas por teclado ou notebook.

Show mais emocionante e suante

NICK CAVE AND THE BAD SEEDS no Espaço das Américas | Fazia quase 30 anos que Nick Cave não se apresentava em SP e pelo menos há 10 eu aguardava sua volta. O show único no Espaço das Américas foi anunciado no dia do meu aniversário e mais do que depressa me dei o ingresso de presente. Foi incrível. Não só esteve à altura das expectativas como superou todas elas. Já estive em muitos shows de rock e metal, dentro de festivais e fora, e nunca saí tão suado de uma apresentação como foi esse show do Nick Cave. Ele não parou um segundo no palco, a gente não parou lá embaixo também. Durante “Higgs Boson Blues”, toquei o coração do cantor, que riu para mim quando fiz isso. Falei mais do show dele aqui.

Melhor show que vi no YouTube

NINE INCH NAILS – Live: Black and Blue and Broken Bones | Filmado em Madri, na Espanha, em julho deste ano, este é só uma das várias apresentações que o Nine Inch Nails está disponibilizando online. Trent Reznor, Atticus Ross e toda a banda é de uma energia inesgotável no palco. A edição do vídeo e a câmera frenética só tornam tudo mais intenso. A certeza é que não quero perder outro show desses caras no Brasil como já perdi uma vez.

Melhores clipes

Rubel – COLÉGIO |Pode pegar qualquer novela ou série que se passa em escolas: RiverdaleSabrinaEliteBaby, MalhaçãoAmerican Vandal: nenhuma retratou o colégio e seus alunos de forma tão delicada, comovente e premente como Rubel no clipe de “Colégio”. Falei mais dele aqui.

Chastity – HEAVEN HELL ANYWHERE ELSE |Mais um clipe que tenta retratar a juventude, seu tédio, seu deslumbramento, sua autodestruição, o sentimento ruim de gritar que não sai do peito e que faz ser tão comum queimar uma igreja e andar numa roda gigante. O primeiro verso da música da banda Chastity já dá indícios suficientes: “Quem atou meus dias com a dor?”

Childish Gambino – THIS IS AMERICA | Childish Gambino pegou todo mundo de surpresa com esse clipe arrasa quarteirão e lotado de crítica, sarcasmo e ironia. Um dedo que parece um canhão apontado para o rosto dos EUA. Uma pena que grande parte do público ficou mais preocupado em pegar cada referência escondida na obra do que em absorver o que ela realmente quer dizer.

Melhor trilha sonora de série

REQUIEM – trilha de Dominik Scherrer e Natasha Khan | A série é uma produção da BBC e que foi comprada pela Netflix. Mortes misteriosas e espelhos negros levam a protagonista a um culto enoquiano, sigilos de John Dee e invocações angelicais. A trilha sonora é bem interessante em como tenta produzir suspense sem perder essa veia mágica. Não sei do perfil de Dominik Scherrer, mas Natash Khan (que talvez vcê conheça por Bat For Lashes), que empresta sua voz à trilha, tem familiaridade com o rolê oculto inglês.

Melhor trilha de filme que ainda não vi

SUSPIRIA – Thom Yorke | O filme de Luca Guadagnino não chegou ao Brasil e eu ainda não o assisti, mas a trilha sonora composta e interpretada por Thom Yorke, do Radiohead, é magnífica. A trilha do filme original de 1977 foi criada por uma banda prog chamada Goblin e Yorke sabia o que tinha nas mãos quando aceitou a empreitada. Tem assombro, tem delicadeza e sutilezas harmônicas para aficionados em partituras notarem e babarem. E é apenas a primeira trilha que Thom faz para cinema.

Música mais emocionante de filme

Kendrick Lamar & SZA – “All The Stars” | Da trilha de Pantera Negra, primeiro filme da Marvel que realmente se preocupou com a trilha sonora e trouxe Kendrick Lamar para cuidar dela e das ideias que a música poderia comunicar. “All The Stars”, com um emocionante refrão cantado pela SZA merece o Oscar e o Grammy a que foi indicada. Desculpa Lady Gaga e Bradley Cooper, mas a verdade tem que ser dita.

Melhor rock feito por não roquistas

Grimes feat. Hana Truly – “We Appreciate Power” | Grimes era indie pop, indie LSD, difícil de categorizar, mas não metaleira. Seu novo single traz a guitarra da parceira Hana Truly afinada em Drop D, tema cyberpunk, um peso e uma mensagem direta que nem mesmo o Muse conseguiu compor em 2018. Além disso, as buscas pelo significado do verbo “to capitulate” explodiram por causa da canção.

Disco que muita gente gosta e eu não tive interesse em ouvir

Twenty One Pilots – TRENCH | Não se trata de dizer que Trenché ruim. É que muita gente parou para ouvir o novo álbum do Twenty One Pilots e eu nem tive a curiosidade de salvar no Spotify. Aliás, a 5ª temporada de Bojack Horseman na Netflix faz uma piada sensacional com a banda.

Melhor disco cheio de ruído

Low – DOUBLE NEGATIVE | Que obra maravilhosa! O Low, 25 anos de estrada, ainda criativo, se reinventando, dessa vez usando a música eletrônica para fazer sons que parecem um erro  de programação, ou como a música que havia nessas faixas tivesse sido estragada por sinais magnéticos. Há algo de espectral e de metafísico, como se a alma viajasse pelos cabos da rede de força. Falei mais de Double Negative aqui.

Melhor disco de rap pra ouvir no repeat

Baco Exu do Blues – BLUESMAN |O baiano Baco Exu do Blues ressignificou o blues e fez um disco rápido e que defende mais uma vez a cultura negra e toda a sua importância, resgatando o valor de sua luta e seu pensamento. Bluesman é divertido, importante e variado. Falei mais sobre ele aqui.

Pusha T – DAYTONA |Um dos cinco álbuns de 2018 produzidos por Kanye West, em Daytona Pusha T manda um rap direto, com influências do old school e bastante instigante. Como tem a duração de um EP, o repeat é necessário par não sair vibe muito rápido.

Melhor disco antifascista

Behemoth – I LOVED YOU AT YOUR DARKEST | O Behemoth tomou a política de seu país, a Polônia, como pano de fundo de toda a vociferação raivosa de I Loved You At Your Darkest. O governo do país é de extrema direita e chegou ao poder por vias democráticas. Não bastasse isso, o governo é profundamente influenciado pelo catolicismo que, por sua vez, também está alinhado à extrema direito, junto ao partido que hoje comanda a Polônia. É contra a política e contra a religião que o Behemoth direciona seu blackened death metal. Não tenta superar o anterior, The Satanist, mas faz um metal tão vigoroso quanto.

Melhor disco feito em casa / DIY

Nithael – ATLANTIS | Nithael mergulhou fundo mesmo na experimentação musical para dar cara e cor ao seu disco Atlantis. Seu trabalho anterior era apenas vocal e me surpreendeu o quanto ele testou de sons, camadas e texturas, algumas bem experimentais, para fazer seu álbum ter um conceito de fato. Ele não usou músicos ou aparelhagem de estúdio, apenas o próprio conhecimento, a própria voz e a indômita vontade de fazer música. Falei mais sobre Atlantis aqui.

Melhor indicação que o @o_eder me deu

ELVIS PRESLEY ao vivo | Elvis Presley é uma figura americana tão marcante na cultura dos EUA que está associado a tudo: roupas extravagantes, carros com cauda, topetes, vozeirão, beleza, branco roubando o brio de negros na música, cinema, polêmicas, sucesso que vai além de sua própria vida e invade a morte. O @o_eder me mandou vídeos do Elvis ao vivo e pude lembrar como ele era grande, porque era o Rei. 

Melhor disco para ouvir internado

Manoel Magalhães – CONSERTOS EM GERAL | Eu não fiquei internado em 2018. No máximo saí mais cedo do trabalho um dia por causa de uma gripe. Mas o @o_eder ficou, após um acidente sério, e teve conforto na música. Consertos em Geral, do Manoel Magalhães, foi um disco que ele ouviu enquanto habitava o hospital.

Melhor álbum para puxar ferro

Daughters – YOU WON’T GET WHAT YOU WANT |Um disco de rock bem nervoso e enervante de uma banda que não tocava junta há muitos anos. A fúria passa pelos seus ouvidos e atinge a corrente sanguínea, dando aquele impulso venenosa no seu treino de cada dia. Bom álbum, cheio de sentimentos pesados para que você lide com seus próprios pesos na academia e, quem sabe, na vida. Falei mais de You Won’t Get What You Want aqui.

Melhor álbum para dormir ouvindo

LIMINAL | A playlist infinita do pessoal do Sigur Rós é um dos projetos mais legais e inovadores de 2018 na música. A música de Liminal, contudo, não sei é para todos os gostos, mas caso goste de sons novos, timbres esquisitos, uma interconexão entre o acústico e o eletrônico, o melodioso e o ruidoso, vá fundo noite adentro.

Melhor disco de artista muito veterano

Marianne Faithfull – NEGATIVE CAPABILITY | Marianne Faithfull chamou o Warren Ellis para produzir seu novo disco. Nick Cave participa. Mark Lanegan, também. O disco é precioso. Uma senhora de idade avançada refletindo sobre amor, falta de amor, solidão, morte, solidão de novo, mais morte, terrorismo, e fazendo algumas releituras de sua própria obra. É cortante a honestidade como retrata a si mesma nessa fase da vida. Falei mais de Negative Capability aqui.

A tragédia das 32 crianças da República Luminosa

O madrilenho Andrés Barba ganhou notoriedade nas letras espanholas quando lançou REPÚBLICA LUMINOSA por lá e venceu o Prêmio Herralde em 2017. O seu livro chegou ao Brasil este ano pela editora Todavia e quando comecei a ler, demorei um tempinho para entrar na vibe do autor. Li os três primeiros capítulos e fiquei desconfiado de que ele enrolaria muito para contar a história das 32 crianças que surgiram nas ruas de San Cristóbal e se refugiavam na floresta. Li os capítulos 4 e 5 e, ao fechar o livro para dar uma pausa, já estava totalmente ganho pela história e pelo autor. Não precisei nem chegar ao final da obra para ter certeza de que seria uma das três melhores coisas que li este ano.

A história é contada em primeira pessoa, da perspectiva de um homem, um profissional da gestão pública, que assume a pasta da Ação Social ou Desenvolvimento Social de San Cristóbal, uma cidade espanhola onde vivem muitos Ñeê, um povo característico ao que parece. Então 32 crianças começam a aparecer na cidade, sem origem muito definida, algumas são órfãs, outras fugiram de casa em outras cidades, mas ninguém sabe como é que começaram a se reunir.

O que se sabe é que estiveram em San Cristóbal, praticaram mendicância e pequenos roubos, incomodaram a princípio e depois viraram parte da paisagem, já que, como muitos excluídos em nossas ruas, fingimos que não estão lá. Mas é difícil não ver que são crianças. Como Barba escreve: “Por mais que as víssemos miseráveis, sujas e muitas vezes afetadas por doenças viróticas, já tínhamos nos imunizado contra a situação. Podíamos comprar uma orquídea delas ou um saquinho de limão sem nos alterarmos: aquelas crianças eram pobres e iletradas como a selva era verde, a terra era vermelha e o rio Eré carregava toneladas de lama.”

Sabemos também, desde o início, que uma tragédia vai acontecer com essas crianças. Não só com as 32, mas com algumas outras que vão se juntar ao bando também, o que só aumenta a tensão na cidade, atingindo em cheio as autoridades policiais e municipais.

E então você pensa em todas as coisas que você tem e elas não, e nas coisas que você faz e elas não podem fazer. Porque elas não têm uma casa. Nem comida. Nem cama. E, como não têm essas coisas, dormem com os olhos abertos para não sentir medo. E entram em você. E você é elas.

Andrés Barba conta a história de forma alinear. O narrador está à frente dos acontecimentos e vai revelando o coração dessa narrativa aos poucos, intercalando-o com fatos que se seguiram inclusive anos após a tragédia. Isso cria uma dimensão muito maior da tragédia e da barbárie, fazendo com que República Luminosa não seja um livro apenas sobre o que houve com as 32, e sim páginas repletas de reflexões filosóficas e investigações de cunho moral que só aumentam a tensão e o escopo do ocorrido. República Luminosa, dessa forma, parece ter muito mais história do que cabem em suas 160 páginas.

Foi como ler As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides, também. Tanto na estreia de Eugenides como neste de Barba, nunca temos a perspectiva de quem realmente é o centro das atenções. As irmãs Lisbon nunca tomam a palavra para contar a sua versão dos fatos, assim como as crianças também não falam conosco, nem com o narrador e nem deixam documento para termos um insight mais seguro sobre a história delas. Tudo o que é contado sobre elas parte de terceiros ou das elucubrações do próprio narrador, formando um quebra-cabeça muito interessante.

A história que Barba quer nos contar é boa. A forma como escolhe contá-la, é ótima. As reflexões que faz – sobre a história e sobre como nós, os leitores e os sancristobalenses respondemos a ela – é o verdadeiro ouro de República Luminosa. No meio do caos e do desespero, até as melhores intenções podem se traduzir em violência, física e social.

Mas as crianças não apareciam, as patrulhas policiais retornavam todos os dias ocultando a sua frustração, e cada vez que olhávamos para a selva parecia que aquela massa tinha se voltado contra nós para defender as crianças. Se não era uma fábula moral, tínhamos que reconhecer que era bem parecida com uma.

REPÚBLICA LUMINOSA
Andrés Barba
Tradução de Antônio Xerxenesky
Editora Todavia
160 páginas

Black Hole: uma das HQs mais estranhas que já li

Eu tinha a percepção de que BLACK HOLE era uma história em quadrinhos esquisita desde que foi publicada no Brasil pela primeira vez, mais de 10 anos atrás, pela pioneira editora Conrad. A capa de cada volume era um rosto sorridente. Um sorriso meio maníaco, meio doente, meio psicopata. Um sorriso menos exagerado que o do Coringa e, talvez por isso mesmo, muito mais preciso em seu mal-estar.

Tinha muita vontade de ler, mas sempre deixava a obra de Charles Burns de lado. Fui adquirir só recentemente essa graphic novel, e adquiri a nova edição lindona da editora Darkside, com a história na íntegra e tradução do escritor Daniel Pellizzari. Nesta altura do campeonato, já sabia da importância de Black Hole para os quadrinhos alternativos e autorais e de como alçou Burns para um patamar de maior destaque na área dos quadrinhos americanos, mas nunca soube absolutamente nada do enredo ou sobre algum de seus personagens até de fato começar a ler a edição brasileira. Ainda tenho a mesma impressão do sorriso na capa, mas comecei a ler como às vezes sou levado a ver um filme sem nem ter visto o trailer.

Black Hole é um dos quadrinhos mais estranhos que já li. Publicado originalmente entre 1995 e 2005 de forma seriada, representa uma juventude de meados dos anos 70 que está descobrindo amor, sexo, usando drogas, sentindo medo e tentando viver. Os pais existem mas não estão nessas páginas. Todos eles, independente das boas notas e da beleza, acabam todos virando párias. É uma história sobre outcasts por excelência, com um elemento fantástico: por algum motivo, o contato íntimo entre esses jovens acaba contaminando-os com alguma coisa que abre fendas em seus corpos, deformando partes ou até criando novos membros.

De cara isso lembra um pouco os filmes de David Cronenberg, com aquele fundo filosófico a partir dos corpos e das mutações que ele sofre. Cronenberg faz intervenções muito mais radicais, de certa forma, o que o aproxima da ficção científica. É claro que Burns usa as mutações como uma metáfora para a juventude e suas transformações, mas foge do “tudo vai ficar bem”, colocando uma aura constante de inadequação, falta de perspectivas e de saídas. Eu já tinha lido 80% da obra e pensava que não fazia ideia de como aquilo poderia acabar.

Se a questão do corpo – de onde partem as cisões na vida dos personagens – lembra Cronenberg, o aspecto misterioso geral do livro fazia eu sentir como se estivesse vendo Donnie Darko novamente. Com certeza, é uma das coisas mais estranhas que já li nos quadrinhos. Perde apenas, talvez, para Uzamaki e Fragmentos do Horror de Junji Ito.

Mesmo sendo uma obra dos anos 90 retratando os anos 70, quando adolescentes não estavam colados aos seus celulares, Black Hole tem uma narrativa que se mantém atual até hoje, mais de 20 anos após seu início. As sombras sobre a juventude ainda são as mesmas. A arte de Burns, sem tons de cinza, abusa do nanquim para criar escuridão em 90% dos quadros, o que também quer dizer muitas coisas sobre como retrata esse público, como se algo sinistro ou oculto estivesse à espreita o tempo todo, mesmo quando Chris, Rob, Eliza e Keith tentam ser o mais afetuosos possível. Há ternura mesmo nas situações mais irracionais.

Algo de que gostei muito em Black Hole foi de como Charles Burns dispensou a procura por lógica. Os personagens “infectados” não vão ao médico, não conversam sobre suas mutações, não tentam encontrar um ponto de origem, não há busca por cura. Eles seguem vivendo, se conformando com o que viraram, se afastando do resto da sociedade e em alguns casos tentando imaginar uma vida possível idilicamente. Afinal, como é que se cura a adolescência, suas transformações e seu mal-estar? Pois é, isso não se cura.

Antes de ir para a Evergreen State College (inclusive ao mesmo tempo que Matt Groening, criador dos Simpsons, estava lá), o autor lia Batman e Superman, comprava as edições da MAD quando ainda eram sobre quadrinhos (em branco e preto e cheias de coisas “alternativas”) e Zap, de Robert Crumb, foi uma das HQs que logo tiveram impacto sobre ele. Antes de começar a escrever e publicar sua mais famosa história, Burns já estava às voltas com a ideia de falar sobre adolescentes e uma praga ou doença em histórias curtas. Quando começou Black Hole, concentrou-se muito mais em seus personagens, em como viajar para o interior deles, do que em aprofundar a trama em sim. Aliás, aprofundar os personagens é uma forma de aprofundar uma trama também, dar uma terceira dimensão a ela.

Desde 2005, quando a Pantheon Books publicou o livro completo com todas as edições de uma vez e o público da HQ foi ampliado com vendas em livrarias (e não apenas em comicshops), há o projeto de um filme. Neil Gaiman e Roger Avary (de Pulp Fiction) chegaram mesmo a escrever um roteiro, mas então a direção passou para David Fincher (de Clube da Luta) e outro teria que ser feito. Desde março de 2018, os direitos da adaptação estão com a Plan B, produtora do Brad Pitt, e sob os cuidados de Rick Famuyiwa, que lançou Dope em Sundance em 2015, como diretor e roteirista.

Impossível saber se o projeto vai vingar ou não no cinema, mas vale a pena aproveitar para ler Black Hole na íntegra. A experiência do branco e preto nas páginas de alta gramatura e capa dura da edição brasileira só aumenta o estranhamento dessa história.

BLACK HOLE
Charles Burns
Tradução de Daniel Pellizzari
Editora Darkside Books
368 páginas

David Bowie, Steven Wilson e Opeth ao vivo

DAVID BOWIE | ⭐⭐⭐⭐⭐😍

GLASTONBURY 2000 é o show do David Bowie no prestigioso festival inglês. Demorou só 18 anos para ser lançado, mas que bom que chegou até nós. É um disco duplo com 22 faixas e que passa a limpo a carreira de Bowie. Você coloca para tocar a primeira faixa e não tem a menor vontade de parar de dançar, cantar e sentir o seu pulso até que a última nota termine.

Grandes clássicos do cantor estão nesse disco, como “Heroes”, “Changes”, “Rebel Rebel”, “Ashes to Ashes”, “Starman”, “Station to Station” entre outras. Um repertório tão bem montado e uma banda tão boa que mesmo que você não tenha familiaridade com metade do setlist será possível entrar na vibe. É praticamente um The Best Of com a energia de quem foi gigante na arte, no palco, na discografia, na vida e até na morte.

Não consigo escolher melhores momentos. “Wild Is The Wind” inicia o show com uma categoria e elegância raras. “Life On Mars” é de arrancar o coração do peito. A performance vocal de Bowie é incrível. Seu inconfundível timbre de voz dá vazão a um vibrato poderoso e consciente que caso alguém não tenha reparado nas gravações de estúdio, esse show em Glastonbury faz questão de destacar. Os sete minutos de “Stay”, “Absolute Beginners” e “Let’s Dance” são um deleite, não uma enrolação. Quem sabe aproveitar o momentum ao vivo sabe como esticar as músicas sem parecer exagerado.E até as faixas da era mais eletrônica e drum’n’bass de Bowie ganham aquele boost rock’n’roll. Sem suma: um ao vivaço!

Bônus: tem “Under Pressure”, música composta por Bowie e pelo Queen. Neste momento em que a nostalgia pelo Queen voltou impulsionada pelo filme Bohemian Rhapsody, a faixa no show do Glastonbury em 2000 soa incrivelmente sentimental logo que o baixo toca as primeiras notas características da canção.

Em 2000, David Bowie foi headliner da noite de domingo no Glastonbury e fez uma noite histórica, tocando um repertório considerado dos melhores da história do festival. O show nunca antes havia sido lançado na íntegra, nem em áudio e nem em vídeo. Glastonbury 2000 já chega histórico em CD, vinil, plataformas digitais e com um DVD com o show completo.

STEVEN WILSON | ⭐⭐⭐⭐⭐

Steven Wilson é sem dúvida um dos artistas que mais tenho tido satisfação em acompanhar. Gosto de todos os seus álbuns solos a ponto de não conseguir escolher um preferido e compareci a todos os shows de suas turnês, podendo testemunhar como ele evoluiu como performer no palco, a cada turnê incrementando mais o espetáculo ao vivo sem perder a intimidade com o público, sem ser brega e sem jogar confete pra galera (tudo o que usa ao vivo, do telão às projeções holográficas, têm um sentido para estar ali).

HOME INVASION: LIVE AT THE ROYAL ALBERT HALL é um ao vivo de sua mais recente turnê do álbum To The Bone (2017) gravado ao fim de uma residência de três dias no prestigioso teatro londrino. Toca o disco novo quase na íntegra e coloca diversas pérolas de outros álbuns, com destaque para a dobradinha perfeita “Home Invasion/Regret #9” e a longa “Ancestral”. Além disso, brinda os fãs recuperando algumas músicas do Porcupine Tree, como “The Creator Has a Mastertape” (que riffão foda, amigos), a balada “Lazarus”, “Even Less” (apenas Steven e sua guitarra) e a maravilhosa “Arriving Somewhere But Not Here”, entre outras.

Esse mesmo show está disponível não apenas em áudio, mas em vídeo também, com três canções a mais que não foram gravadas no terceiro show do Royal Albert Hall mas que vale a pena conferir também. Além de uma banda afiadíssima (com participação da cantora israelense Ninet Tayeb), a edição do material ficou muito boa, não repetindo a mesma e velha batida edição de shows ao vivo.

Home Invasion: Live At The Royal Albert Hall é para fãs, sem dúvida, mas atesta como esse artista do prog rock (e agora do prog pop também?) entrega o que promete ao vivo, conduzindo 3 horas de show cheio de dinâmica.

OPETH |⭐⭐⭐⭐

O Opeth é minha banda de death metal que virou prog metal preferida, mas ao vivo eles ainda são os mesmos suecos que mostram riffs incríveis, acordes soturnos, solos lindos e vocais guturais de antes. GARDEN OF THE TITANS é o show da última turnê, para o disco mais recente Sorceress (2016) e foi gravado em Red Rocks, nos Estados Unidos.

Do disco novo, apenas três músicas (incluindo o rock acelerado de “Era”). O restante é um breve passeio pela discografia, incluindo os death metals fodões “Ghost of Perdition”, “Heir Apparent” e “Demon of the Fall”, assim como a balada “In My Time of Need” e progressiva “The Devil’s Orchid”. Para fechar o show, e o disco, escolheram “Deliverance”, música que é death, prog e melodiosa tudo ao mesmo tempo e uma das preferidas do público.

Embora tenha apenas 10 músicas no repertório de Red Rocks, Garden of The Titans tem 1h30 de som. Três músicas passam dos 10 minutos e apenas duas ficam abaixo dos seis minutos de duração.

Talvez ano que vem já tenhamos um novo disco do Opeth de estúdio. Mikael Åkerfeldt, o compositor do grupo, já tem 12 novas músicas escritas. Fredrik Åkesson, o guitarrista, já tem vários solos prontos. Questão de tempo.

The 1975 foca no conceito e atira pra todo lado na música

A BRIEF INQUIRY INTO ONLINE RELANTIOSHIPS é o terceiro disco da jovem banda inglesa The 1975 que, ao que parece, substituiu o Arctic Monkeys no quesito “jovem banda inglesa” do indie, já que o AM não é mais tão jovem (e isso é bom, não é?). O tema do disco são os relacionamentos mediados pela internet ou como ela afeta nosso comportamento.

“TOOTIMETOOTIMETOOTIME”, por exemplo, é sobre trocar mensagens com outro alguém. Já “Love It If We Made It” é mais forte, colocando na conta da sociedade atual vários problemas de nossa vida existencialmente cansada e em constante perigo.

O The 1975 é indie rock e sempre esteve muito próximo ao pop, sem nunca esconder essa faceta. Enquanto o primeiro disco deles eu tenha achado um horror, adorei o segundo e entendi qual é a da banda. O terceiro é claramente uma evolução, ampliando muito mais os horizontes musicais do grupo até o ponto de a porção pop tomar muito mais espaço e a porção roqueira estar muito mais mastigada. Aí entra a música eletrônica que faz o papel de representar a internet no contexto da obra e também serve como um dos principais eixos por onde o The 1975 consegue apresentar novas ideias.

Matt Healy é o vocalista, guitarrista e líder da banda. Jovem, carismático, tem problemas com drogas e está em recuperação do uso de heroína. Um personagem clássico do mundo pop para ser admirado pelo que consegue fazer e pelas batalhas diárias que precisa travar consigo mesmo. Ele está ótimo nos novos vídeos da banda, que eu gostaria de comentar separadamente, mas vale a pena ver os clipes de 2018. São bem pertinentes.

O grande trunfo de A Brief Inquiry Into Online Relationships é tratar bem de um tema e ter ótimas músicas e mostrar uma banda que trafega do eletrônico ao trap, do pop/rock de protesto ao pop mais Maroon 5 possível, da balada sentimental ao pop com sopros e influência de jazz. O grande problema de ABIIOR é apontar para todos os lados e parecer uma obra meio desconjuntada: fácil de entender as músicas separadamente, mas uma após a outra dentro do álbum parecem não colar bem uma com as outras. Ter 15 faixas apenas amplia essa sensação de descolamento. Talvez, se tivessem parado em 10 faixas, retirando o que está ali apenas para validar o conceito da obra, teriam acertado melhor. Mas talvez Matty e sua banda não abram mão dos momentos mais conceituais porque são parte do que quer dizer com o disco, mesmo que sacrifique a coesão.

The 1975 é uma das atrações do Lollapalooza 2019 (pela segunda vez) e uma das que vale a pena ver ao vivo, quando a porção rock’n’roll tende a dominar o aspecto geral da apresentação. Confesso que gosto muito da porção mais animada da banda, independente do gênero musical que escolha (o jazzinho de “Sincerity is Scary” ou o pop feliz de “It’s Not Living”), mas as baladas da banda me soam quase sempre melosas demais e uma recuperação de músicas românticas soporíferas e cafonas de boybands dos anos 90. “Surrounded By Heads and Bodies” é a única exceção desse disco.

Muita gente esperava que A Brief Inquiry Into Online Relationships seria um dos álbuns do ano e, dado o status de banda queridinha do momento, não duvido que apareça em alguma lista. Da minha parte, diria que nem sempre a soma de excelentes partes resulta em algo extraordinário.

Contudo, o quarto disco do grupo já está pronto e deve chegar em maio de 2019. Se chamará Notes On a Conditional Form e espero que Matt Healy e banda consigam encaixar melhor as peças e explorem outras ideias, não sendo somente uma continuação previsível de ABIIOR.

Baco Exu do Blues, Hekla e The Good, The Bad & The Queen

BACO EXU DO BLUES | ⭐⭐⭐⭐

Com Esú, o baiano Baco Exu do Blues entrou para o cânone do rap brasileiro. O álbum foi muito elogiado e muito ouvido, embora ele tivesse mais momentos memoráveis – dada a mensagem e à energia transmitida – do que pela originalidade. BLUESMAN, segundo disco do rapper Diogo Álvaro Ferreira Moncorvo, consolida o bom momento do artista e vai além das fronteiras anteriormente determinadas.

O cara é esperto. Isso já era claro em Esú, mas Bluesman expande essa percepção para a música como um todo. Love songs e blues, hip hop e R&B dividem espaço entre si e com alguns experimentos bem legais. A maior complexidade de produção musical é um dos principais méritos do disco como continuação de uma investida de sucesso.

Mas o que fica para mim é o atrevimento do rapper. Acredito que a arte deve balançar nossas certezas, contestar o mundo que aí que está e, se possível, propor novos olhares. “Bluesman”, que abre o disco, se resolve em “BB King”, que fecha os 30 min de som do álbum. O discurso de Baco Exu dos Blues, tendo a tenacidade de re-significar o blues como ferramenta de resistência, oposição e contra-opressão, é forte, premente e original.

Na primeira, ele diz: “Sou o primeiro ritmo a formar pretos ricos. Primeiro Ritmo que tornou pretos livres. […] A partir de agora considero tudo blues. O samba é blues, o rock é blues, o jazz é blues, o funk é blues, o soul é blues, eu sou Exu do Blues. Tudo que quando era preto era do demônio e depois virou branco e foi aceito eu vou chamar de blues. É isso, entenda. Jesus é blues”. Na última, arremata: “O que é ser bluesman? É ser o inverso dos que os outros pensam. É ser contra a corrente. Ser a própria força, ser sua própria raiz. É saber que nunca fomos uma reprodução automática da imagem que foi criada por eles. Foda-se a imagem que vocês criaram.”

Esú já tinha uma bela provocação em sua capa, usando o nome de Jesus para isso. O rap ágil que valorizava o povo negro – com sua cultura, religiosidade, origens africanas, papel social e musicalidade – já estavam presentes. Bluesman continua nessa mesma pegada. Baco Exu do Blues é um cara com uma missão, realizando-a por meio da música. Fico feliz que esteja sendo reconhecido e encontrar uma forma de ser comercial sem sacrificar a verve contestadora do hip hop.

Fizeram um filme oficial muito bem filmado e muito bem montado para acompanhar o lançamento do disco.

HEKLA | ⭐⭐⭐

Hekla e seu álbum Á é a dose de música estranha e diferentona da semana. Eletrônica, evanescente, sombria, fugaz e profunda. É quase ambiente e pode ser bastante desconfortável para quem não está muito acostumado. É música para os sentidos, para deixá-los aflorar, fazer a mente vagar. Os instrumentos são vaporosos e o teremim ganha protagonismo. A voz é um dos únicos traços de humanidade. Há algo de espiritual em Á, mas é mais próximo ao senso de alma deixando o corpo do que dos spirituals da música gospel.

Hekla é o projeto musical de Hekla Magnúsdóttir, uma islandesa baseada em Berlim atualmente que compõe a partir dos timbres que tira de seu teremim. É um instrumento que precisa de treino dos ouvidos, pois não há nada para tocar e dele extrair as notas e frequências necessárias. É uma antena que responde com som conforme sua mão se aproxima dela. Quanto mais perto, mais agudo o som. E apesar da liberdade de forma em Á, dá para notar que Hekla não toca qualquer nota.

Hekla também é o nome de um vulcão ativo no sul da Islândia desde o ano 1104. É conhecido entre os nativos da ilha como “Portal para o Inferno”. Já a música de Hekla, embora seja um pouco assombrada, não diria que leva ao inferno, mas com certeza é possível imaginar um meio termo entre nosso plano material e algum outro.

THE GOOD, THE BAD & THE QUEEN | ⭐⭐⭐

Faz alguns anos – 10 anos talvez? – que tudo o que Damon Albarn toca acaba saindo com uma qualidade acima da média. Tem ópera, tem trilha para uma reencenação de Alice nos País das Maravilhas, tem participação em show ao vivo de uma orquestra do Oriente Médio, tem Gorillaz (com ênfase para o The Now Now) e tem seu primeiro e único disco solo, o lindo e triste Everyday Robots. A volta do supergrupo The Good, The Bad & The Queen, com MERRIE LAND, não podia ser diferente.

No caso, esperava um álbum ainda mais marcante, mas OK, porque Merrie Land é bem bonito, redondo, elegante, muito bem arranjado e carrega aquele DNA político que tem dominado a cabeça de Albarn e de tantos outros britânicos atualmente. Mas falta um pouco mais de verve e de substância, mais força para demonstrar o descontentamento.

Além de Albarn (Gorillaz e Blur), a banda conta com o guitarrista Simon Tong (ex-The Verve), o baixista Paul Simonon (The Clash) e o baterista nigeriano Tony Allen. Todos mostrando o peso da década que se passou desde o primeiro disco, mas tocando muito, como gente grande.

Não vai entrar nas listas de melhores do ano, mas ainda assim é um destaque de 2018, seja para quem se interessa pelo trabalho de Albarn, pela música pop, folk e rock com fundo político ou quer apenas ouvir a boa e velha música inglesa rica em melodias.

Um velho e um menino. Quem assombra quem?

Um senhor de 70 e tantos anos. Um menino de 4. Um apartamento – a atual residência do menino que é também onde o velho morou em sua adolescência. Os dois precisam passar alguns dias juntos, praticamente sozinhos a maior parte do tempo, o avô e seu neto. O velho e seus fantasmas e a criança e todo seu futuro. ASSOMBRAÇÕES, do italiano Domenico Starnone, não é um livro sobre o choque de gerações. É muito, muito mais que isso.

O avô precisa ficar com Mario durante três dias. Sair de Milão, onde mora e trabalha como um ilustrador reconhecido, e voltar à Nápoles já é um martírio por si só para ele. Gosta do menino, mas não é do tipo que gosta de cuidar de crianças. A filha e o marido, dois matemáticos, estão tendo problemas conjugais e precisam participar de um congresso. Como é um avô um tanto ausente, se sente obrigado a aceitar ficar com o garoto, entrar em suas exaustivas brincadeiras e sua lógica infantil.

Você quis se transformar – diziam – num senhorzinho de fina sensibilidade e veja a que se reduziu.

Starnone quer contar essa história de limites em primeiro lugar. O avô é Daniele Mallarico sabe muita coisa da vida, mas está debilitado. Nem tudo é fácil para ele realizar. O garoto, por sua vez, sabe bastante para sua idade, mas longe de interpretar tudo como deve ser interpretado. Cada um em uma ponta da vida. Como ilustrador já velho de guerra (que não está em redes sociais e que vê cair o número de pedidos de trabalho), o avô se vê contestado por editor 40 anos mais jovem que lhe pediu para ilustrar um conto fantasmagórico de Henry James. Até seu neto coloca seu trabalho em xeque, dizendo que acha seus desenhos “escuros”. O velho então vê Mario desenhar e nota que ali há mais originalidade do que em seu trabalho. Isso o desnorteia. Ele comenta melancolicamente: “Tudo se esfarela em poucos segundos, as opiniões, as certezas. Talvez, pensei, meus desenhos não digam mais nada a uma criança.”

Se recuperando de um cirurgia, vendo vultos na escuridão, precisando terminar um trabalho, de volta à sua velha casa no sul da Itália e tendo que cuidar de um menino que ser sua aprovação em tudo. Aí estão os conflitos do protagonista, todos eles agindo nos poucos dias em que se passa a trama. Domenico Starnone sabe que é essa história que quer contar e, embora Assombrações seja um livro muito devotado a essa trama, é interessante notar como autor consegue fazer comentários sobre a Itália de ontem e de hoje que refletem a leitura sociopolítica do narrador. São breves comentários dentro das elucubrações do artista protagonista, mas bastante relevantes para que Starnone mostre que sua história, quase toda dentro de um apartamento em Nápoles, tem mais dimensões.

Assombrações também não esconde seus pontos de virada. É fácil identificar quando o artista, já cheio de problemas e desgostos mal-disfarçados, precisa encarar a figura do menino e os dias que passará com ele, tendo não exatamente que confrontar a juventude e a geração mais nova, mas sim conviver com ela, da forma mais natural possível, colocando a sua própria imagem em perspectiva da história de suas escolhas. A convivência chega a um ponto limítrofe no livro que beira a tragédia, mas também é fácil identificar quando a situação se transforma mais uma vez, fazendo com que Mallarico atinja uma espécie de suave iluminação.


“Aquele matemático brilhante, um homem poderoso, lhe inoculara uma energia nova, de modo que a cada dia ela se esforçava em parecer mais bonita e elegante do que na véspera. Em pouco tempo a universidade se tornara para Betta como um enorme recipiente cheio de uma substância licorosa, em que seu corpo frágil flutuava a todo instante, quase sem querer, na direção do corpanzil do recém-chegado – organismo, segundo Saverio, de coxas grossas e ventre pesado -, buscando tocá-lo, chocar-se com ele, e depois se esfregar, enredá-lo, arrastá-lo com ela para o fundo.”

As tais assombrações que dão nome ao livro também aparecem em diversas dimensões. O paralelo mais óbvio é com a assombração no livro de Henry James que o artista precisa ilustrar. Em seguida, seu passado. Mario também acaba se convertendo em um tipo de assombro ao velho. E por fim, ele próprio se assombra. É uma história simples, curta e íntima, mas com as camadas que vão se sobrepondo, como o autor havia construído em Laços, seu único outro livro publicado no Brasil pela Todavia (até agora).

A prosa de Starnone não é nada empolada, fazendo de seu livro uma obra bastante acessível e que pode ser lido tranquilamente por quem nunca leu o autor. Não é um livro tristonho, mas tampouco cheio de felicidades. Uma de suas melhores frases, aliás, é: “Uma das mentiras difíceis de morrer é que as histórias possam de fato terminar em alegria.”

Quarenta anos atrás os excepcionais, já em grande número, começaram a pressionar as portas estreitas das fábricas de arte e cultura. Até que agora (…) a excepcionalidade se tornara um desesperado vozerio de massa pelos infinitos canais de televisão e da internet, uma excelência difusa, mal paga, muitas vezes desempregada.

ASSOMBRAÇÕES
Domenico Starnone
Tradução de Maurício Santana Dias
Editora Todavia
177 páginas

Os pênaltis de Bohemian Rhapsody

BOHEMIAN RHAPSODY está longe de ser uma biografia do Queen ou de Freddie Mercury, seu protagonista. Contudo, a trajetória do grupo inglês é tão interessante e suas músicas tão boas que é fácil sair do cinema deslumbrado. Afinal, o filme foi calculado para ter um roteiro que reduz a trajetória da banda a uma fórmula de ascensão, problematização da fama e dos relacionamentos pessoais, derrocada e enfim, redenção.
Apesar de parecer muito redondinho e inspirador, é preciso não cair nas armadilhas da sétima arte. Listei seis tópicos para discutir os pênaltis do filme, suas decisões narrativas e artísticas.

1. DOCUMENTÁRIO

Neste filme, ninguém canta nada, ninguém não toca nada – mas todos interpretam muito. Se já foi legal e emocionante para muita gente ver a dublagem, imagina um documentário! Em vários momentos eu fui tirado da imersão do cinema ao ver os atores e desejar ardentemente que fosse um vídeo de arquivo da banda original no lugar. Todos os atores que interpretaram Freddie Mercury (Rami Malek), Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzelo) estão ótimos, mas uma cena documental teria o poder de dobrar a emoção.

2. HÉTERO, BI OU GAY?

O filme suaviza tanto, mas tanto a homossexualidade de Freddie Mercury que fica parecendo que ele foi bissexual durante toda a vida. Na verdade, o filme deixa claro que ele era gay (e não havia se dado conta, quando até sua esposa já sabia), mas Bohemian Rhapsody força tanto a relação dele com Mary (Lucy Boynton) que muita gente saiu do cinema achando que o cantor realmente era bi, mesmo após a separação. E quem achou ruim as cenas de beijo gay, faça-me o favor de parar de ser preconceituoso e mimizento. Até nisso o filme suavizou. As únicas cenas em que o ator aparece de forma mais sexy ou exposto são as contracenadas com Lucy. Durante as festanças em que Freddie teria ficado com vários homens, como diz seu ex-empresário, não temos no filme nem festas e nem uma cena que ilustrar isso. Ou seja: o filme DIZ que tais eventos ocorreram, mas se acovarda na hora de usar imagens para contar essa parte da história.

3. POUT-POURRI

Bohemian Rhapsody é um grande amontoado de momentos da banda. Não acredito que fosse necessário contar a história de cada música de sucesso ou de cada álbum – e de fato o filme não segue esse caminho, mas passa rapidamente por cada fase do Queen, reduzindo demais diversos contextos. É um pout-pourri. O máximo da forçação de barra foi colocar a apresentação no primeiro Rock In Rio, que ocorreu em 1985, como se tivesse acontecido em algum ponto entre 1976 e 1979. Um grande sacrifício da cronologia histórica, servindo apenas como desculpa para falar da relação de Mercury com Mary. Pelo menos a histórica apresentação de “Love of My Life” (cantada por centenas de milhares no Brasil) foi valorizada.

4. CHAPA BRANCA

O filme tem aprovação de Brian May (guitarrista da banda) e Roger Taylor (baterista), que ganharam créditos como produtores do longa. Isso explica porque é um filme tão chapa branca, que coloca o empresário como vilão, em parte responsável pelos desvios de Freddie. De outra forma, todos os membros da banda são representados como caras legais, que nunca disseram uma palavra atravessada aos outros, que nunca causaram uma briga, que nunca tiveram grandes egos. O ególatra, o estrelinha, o problema é Freddie, o cara que morreu e que não está aqui para aprovar o material e contar sua versão dos fatos. Pelo menos não esconderam a origem iraniana da família do cantor, um detalhe biográfico que muita gente que foi ver o filme não fazia nem ideia.

5. BIOGRAFIA

Assistir a Bohemian Rhapsody acende a vontade de ler a biografia da banda para saber exatamente o que aconteceu e quando aconteceu. O filme realmente recupera a memória e a importância do Queen, mas não o faz com rigor. É bem generalista e toma as liberdades de sempre para contar sua história, ajustando os fatos numa ordem que sirva à ficcionalização. Portanto, não confie no filme cegamente. Busque mais fontes, pois opções não faltam: tem A Verdadeira História do Queen de Mark Blake, Freddie Mercury – A Biografia Definitiva de Lesley-Ann Jones e Queen nos Bastidores, de Peter Hince e Maria Elizabeth H. Neilson.

6. RADIO GAGA & UNDER PRESSURE

Difícil escolher o melhor momento, visto que cada um pode sentir e ter maior ou menor conexão com uma ou outra canção da banda. Mas diria que em termos de apresentação musical, o momento de “Radio Gaga” no Live Aid em 1985 foi o que mais me tocou (e ainda que estivesse muito bem filmado e interpretado por todos os atores, senti falta de cenas reais do show). A última cena de Freddie com seu pai, antes de ir ao Live Aid, também foi bem bonita. “Under Pressure” marcou presença apenas como música de fundo, mas bem que poderia ter ganho seu momento, afinal foi o segundo hit da banda que chegou ao topo da parada inglesa. Além disso, voltando ao primeiro item desta lista, um documentário sobre a banda não perderia a chance de mostrar a colaboração do Queen com David Bowie.

Low, Smashing Pumpkins e Holger

LOW | ⭐⭐⭐⭐⭐

Sei que somos poucos, mas há um nicho espalhado pelo mundo que ouve músicas que parecem música ambiente, mas não é, e reconhece a emoção que ela capaz de transmitir. É claro que há público para isso, caso contrário o Low não estaria ativo desde 1993 e não teria lançado seu décimo segundo trabalho, DOUBLE NEGATIVE, este ano.

É um alento. Há melodia, há canto, há sussurro. Há um preenchimento de som que acaba falhando, criando ruídos, um som que vai e volta, que te faz pensar que o problema está nos seus fones. E aí está outra característica: a música de Double Negative, é para fones de ouvido. Nem adianta compartilhar com outras pessoas (eu acho). Combina com a solidão de um quarto escuro e com a melancolia de uma noite de ausência.

O Low vem experimentando com diversos sons há algum tempo. O preciosismo com cada som que entra na mix e a opção de nunca socar uma batida ou riff nos seus ouvidos são características que se mantêm. Fora isso, o trio de Minnesota vai acrescentando e retirando elementos a cada trabalho. Mas a essência de Allan SparhawkMimi Parker e Steve Garrington ainda é a mesma.

Se for se deixar contaminar por esse experimento soturno que é Double Negative, já aviso que “Quorum” é talvez a faixa mais difícil de todas. Não pule, deixe essa relativa dificuldade fazer parte da experiência.

SMASHING PUMPKINS | ⭐⭐⭐⭐

Quando apertei o play no álbum de reunião do The Smashing Pumpkins, senti aquele frio na barriga. Gostei dos singles lançados anteriormente, mas quem é que sabe se o produto final vai valer a pena mesmo? Mas é com alegria e alívio que SHINY AND OH SO BRIGHT, VOL. 1. NO PAST. NO FUTURE. NO SUN, que vou reduzir para Shiny And Oh, mereceu até replay instantâneo.

Shiny and Oh é a reunião de Billy Corgan (vocal e guitarra) com Jimmy Chamberlain (bateria), Jeff Schroeder e James Iha (guitarras) 18 anos depois da última vez que tocaram juntos como Smashing Pumpkins. A baixista original, D’arcy Wretzky, tem problemas com o grupo e não voltou. Corgan tocou o baixo para gravar o álbum novo e para as apresentações ao vivo o posto é de Jack Bates (filho de Peter Hook, do Joy Division e membro fundador também do New Order) e que já tocou com a banda em 2015.

Shiny And Oh tem sensibilidade pop, excelentes refrãos, representa muito bem o que o Smashing Pumpkins já foi e o que se tornou nos últimos anos. Todas as oito faixas funcionam. Ou melhor dizendo: não consigo achar uma ali que seja abaixo da média. Tem rock diretinho, tem guitarra violenta, tem excelentes linhas de baixo e temas que ajudam a identificar cada faixa.

Resumindo, é um disco com muito carisma, que resgate o Billy Corgan bom compositor que fãs de longa data já conhecem e que funciona muito bem para apresentar a banda a um novato. A produção de Rick Rubin foi bem eficiente, embora conservadora, sem riscos.

HOLGER | ⭐⭐⭐⭐

Três coisas são importantes para falarmos de RELAÇÕES PREMIADAS, novo álbum dos paulistas do Holger. Primeiro, que talvez seja o disco mais interessante deles, rompendo com uma sonoridade mais aberta e colorida que se notava anteriormente em seu rock. O quinteto está soando mais compacto, focado e urgente. O que nos leva a segunda “coisa”.

Parece que Relações Premiadas foi feito com um discurso político. Não panfletário ou defendendo algum lado, mas sim inspirado por esse momento em que parte do Brasil decidiu que seria legal se juntar ao zeitgeist e ter no poder sua própria alt-right. (Ou será que não tem nada a ver com o clima político do país e eu estou enxergando contexto até onde não tem?)

Terceiro: é um disco ligeiro. Em 25 minutos ele já está dando a volta e recomeçando para que você sinta como ele funciona bem com suas poucas frases, mas significativas.

Em quarto lugar, quando você chega a “Tudo Vai Mudar” (climática, roqueira, bonita, estelar) você sente que talvez queira muito cantar junto deles essas músicas, ao vivo, e engrossar o coro. Há discos que aumentam a moral de uma banda no campo ético. Relações Premiadas é exatamente isso.

Tuyo, Noname e Sleep Party People

TUYO | ⭐⭐⭐⭐⭐

A mistura de trip hop com dream pop e MPB me pegou totalmente desprevenido. A proposta do trio curitibano Tuyo em PRA CURAR, o primeiro disco do grupo, é de uma delicadeza notável e originalidade ímpar. Em o site Noize este ano, Tuyo foi categorizado com afrofolk futurista, o que parece fazer bastante sentido também, já que o apelo imagético do trio é bem forte, tão trabalhado quanto seu som.
As irmãs Lay e Lio já participaram do The Voice Brasil (como Lílian e Layane). Não venceram, o que, paradoxalmente, é sempre ótimo.

Geralmente, é quem não vence esses programas que acaba fazendo a música que importa. A voz de ambas nas faixas de Pra Curar é coisa de louco. Elas cantam e usam as cordas vocais como instrumentos, acrescentando diversos detalhes vocais que enriquecem os arranjos de cada faixa. “Vidaloca” é a indicação mais óbvia para reparar nisso.

Vozes, batidas, sintetizadores, efeitos eletrônicos e violão são os principais ingredientes do som do Tuyo, que tem em Jean seu terceiro membro. Mas diria que a mixagem do disco é aquele elemento definitivo que faz Pra Curar ser tão coerente, tão tridimensional e sensível, trazendo sons à superfície enquanto outros parecem crescer do infinito. Coisa fina!

Pra Curar é mais um álbum que se encaixa na definição: lindas melodias dizendo coisas terríveis. Uma de suas faixas é chamada ” :'( “, o que já denota muito do tipo de sentimentos que vamos encontrar. Não se deixe levar pelo nome do disco. Tuyo ainda está na vibe do primeiro EP Pra Doer.

NONAME | ⭐⭐⭐⭐

Eu estava ouvindo o novo FM! e planejava falar de Vince Staples, mas terminou o disco dele, achei meio morno, e começou a tocar “Blaxploitation” da Noname, muito mais interessante e fora da casinha. Aqui está então a indicação de ROOM 25, novo álbum dessa rapper de Chicago que faz um hip hop bem moderno, com elementos de jazz, funk e soul, preferindo uma abordagem mais orgânica, com uma boa banda, do que eletrônica.

Room 25 é seu segundo disco e foi gravado inteiramente ao longo de um mês, após Noname se mudar para Los Angeles e logo depois de terminar sua primeira turnê.

Com Lauryn Hill e Andre 3000, do Outkast, como grandes inspirações, e ex-participante de slams de poesia e noites de improviso, ela sabe mandar um recado. Seu flow é direto e mais falado do que cantado, sua música é ágil e não parece fazer muitas concessões para ser mais comercial.

SLEEP PARTY PEOPLE | ⭐⭐⭐⭐

Já viu aquela banda cujos integrantes estão vestidos de coelho, né? É o projeto musical do dinamarquês Brian Batz, o Sleep Party People, que lançou o quinto álbum, LINGERING PT. II.

Entre a fofura do dream pop e os outbursts sonoros do post-rock, o Sleep Party People continua a fazer uma música de sensações. Viajante na medida, uma produção bem acabada e melodias que não são pegajosas, mas agradam fácil. Os discos de Batz sempre tiveram entre tiveram mais de 40 e menos de 50 minutos. Lingering Pt. II, no entanto, acaba em pouco mais de 30 minutos. É rápido, mas não fica a impressão de que poderia ser maior. Como não há uma diversidade tão grande assim no disco, 30 minutos é tempo suficiente para o dinamarquês mostrar seu ótimo pop psicodélico.