Suspiria tem o clímax mais diabólico dos últimos tempos

O diretor italiano Luca Guadagnino não brincou em serviço ao fazer uma releitura do clássico Suspiria de seu conterrâneo Dario Argento. Guadagnino não desperdiçou nenhuma chance de mostrar toda a sua verve como diretor, uma verve aliás que envolve correr diversos riscos, como já haviam em outros de seus filmes, mas nunca, nunquinha, titubear. Seu SUSPIRIA sabe o que é, ou melhor, o diretor sabe o que quer com seu filme e mostra que maturidade na hora de contar uma história, e liberdade criativa para isso, contam a seu favor.

As surpresas não tardaram. Para começar, esperava uma estética mais limpa e iluminada, como são os filmes de hoje, mesmo aqueles com orçamentos mais baixos. Guadagnino e seu diretor de fotografia, Sayombhu Mukdeeprom, no entanto, optaram por captar imagens mais realista, sem se importar em iluminar tudo o que estaria em cena, o que capta uma atmosfera mais opressiva e distante, com uma paleta de cores mais apagada, fugindo da saturação de 1977. Esperava um filme mais lento, mas novamente Guadgnino e seu montador, Walter Fasano, encheram sua versão de Suspiria de cortes violentos, secos, rápidos, com vários inserts um tanto estranhos e às vezes até desconcertantes, sem falar em zooms rápidos que hoje quase não existem mais. Esses elementos tanto afastam o filme de produções recentes do terror quanto o aproxima do original de 1977. Mas não fica a impressão de que a nova produção está querendo reproduzir ou “homenagear” Argento. Suspiria pega emprestado algumas coisas, mas em 2018 o filme tem seu próprio DNA.

O roteiro de David Kajganich também colabora para que o novo Suspiria se mantenha em pé sozinho e de forma gloriosa ao seu estupendo final. Dê um tapa na cara de quem disser “Ain, tem que ver o original para entender o novo”, certo? Na trama, estamos de volta à Berlim de 1977, a Segunda Guerra Mundial e os efeitos do nazismo ainda assombram a cidade em plena Guerra Fria. Susie Bannion (Dakota Johnson), uma intrépida alma do interior de Ohio, vinda de uma família menonita (um grupo cristão), precisou se rebelar contra família e religião para se tornar dançarina e enfim ser aceita na Academia Markos, o coletivo liderado por madame Blanc (Tilda Swinton) que possui um coração extremamente sombrio. Enquanto isso, Patricia (Chloë Grace-Moretz), tenta avisar seu psicanalista que está em maus-lençóis e deixa o homem (também interpretado por Swinton) com a pulga atrás da orelha, embora cético sobre toda a parte da bruxaria relatado pela menina.

Só por essa breve introdução já é possível perceber que Suspiria 2018 segue a trama de Suspiria 1977 mas já introduz diversos outros elementos, dando mais estofo aos personagens. No original, você descobre que a companhia de dança é lar de um coven de bruxas lá na frente; desta vez, a magia está presente desde o começo, se manifestando de formas bem criativas e crueis, aliás, demandando o mínimo de efeitos visuais. Não é um filme de terror de sustos. Isso é importante: nada vai te pegar de surpresa e te fazer pular da cadeira. O filme não demora a mostrar que não precisa economizar no sangue, no gore, nos corpos retorcidos (afinal, estamos em uma academia de dança). E garanto: o clímax planejado por Guadagnino e Kajganich é muito mais diabólico que o original ou qualquer outro dos últimos tempos.

Sobre atuações, nem é preciso dizer que Tilda Swinton está excelente como sempre. Além de madame Blanc, retratada de forma muito limpa (roupas neutras, cabelão escorrido, pouquíssima maquiagem), ela interpreta o terapeuta e uma das grandes bruxas do filme, sempre muito carregada de maquiagem. Dakota Johnson também está muito bem em seu papel. A fama de atriz ruim surgiu com seu trabalho na trilogia 50 Tons de Cinza, e então parte do público confundiu um filme ruim com roteiro e direção preguiçosos com uma incapacidade da atriz. Dakota não é incapaz. A mesma confusão (que acaba virando uma implicância) ocorria com Kristen Stewart durante a tetralogia Crepúsculo. Depois ela participou de filmes do diretor francês Olivier Assayas e vejam só que boa atriz ela é.

Uma das grandes contribuições dessa releitura é colocar um peso político maior em Suspiria. Isso tanto se reflete em como Nazismo e Guerra Fria são fantasmas ao redor de personagens e contexto da época e também no Feminismo, sendo afirmado desde que Susie é aceita na companhia de dança, sendo criticado ao longo do filme na forma como pode se manifestar quando há abuso, e enfim recolocado em seu trilho. O Feminismo também está presente na forma como a trindade de mães (das Trevas, das Lágrimas e dos Suspiros) são entidades anteriores ao cristianismo e à ideia de diabo, sedimentando um contexto matriarcal. A impotência masculina, aliás, está muito presente nesse filme. O roteirista tomou o cuidado de deixar tudo dentro do filme, seja em imagens ou em pequenos diálogos, para que o espectador leia as entrelinhas. Também há uma questão de poder dentro da academia/coven ocorrendo ao longo do filme.

A própria resolução da parte mais mística e satânica do filme pode confundir algumas pessoas, mas se não há diálogos para deixar tudo às claras, Luca Guadagnino se serviu de material visual e da montagem para poder ligar uma coisa na outra e assim quem assiste monta o quebra-cabeça.

É interessante também ver como os arcos de personagens são ricos. A poderosa Madame Blanc experiencia um arco negativo de queda, segundo a nomenclatura usada por K. M. Weiland em seu livro Creating Characters Arcs. Susie, seduzida pelas bruxas, engana o público, seguindo um arco negativo de ilusão. No entanto, ao final, temos uma reviravolta e, com a aceitação de Susie – ou sua consciência desperta – passamos a ver um arco negativo de corrupção (o mesmo vivido por Anakin ao final do terceiro capítulo de Star Wars ou de Walter Walt no fim de Breaking Bad). Ao mesmo tempo, apesar das trevas dentro da garota, Susie aparentemente redireciona o coven para um estado menos abusivo.

Coisas curiosas para se prestar atenção: Dario Argento, criador e diretor do filme original, é um dos produtores de Suspiria. Jessica Harper, que interpretou Susie no passado, faz uma participação. “Suspiria” é uma das placas luminosas atrás de Susie assim que ela chega a Berlim. David Kajganich é o roteirista por trás do seriado The Terror. Os diretores Paul Thomas Anderson, Quentin Tarantino e Edgar Wright, assim como o compositor japonês Ryuichi Sakamoto, estão entre os agradecimentos de Suspiria. Fique até o fim dos créditos para uma ceninha extra.

Suspiria é um excelente terror que não fica em cima do muro: não joga todos os fatos sobrenaturais como se fossem apenas fenômenos psicológicos e ainda encontra um jeito de ligar a situação política com tudo o que está ocorrendo na companhia de dança. Luca Guadagnino segue lançando filmes muito diferentes entre si e muito bons, sem fazer concessões para tornar sua obra mais palatável para um público maior. Provavelmente não será indicado a nenhum grande prêmio, mas deve ganhar todos os corações negros dos apreciadores do horror.

A Pé Ele Não Vai Longe, Os Irmãos Sisters e Sorry To Bother You

A PÉ ELE NÃO VAI LONGE

O novo filme do diretor Gus Van Sant é sobre John Callahan, um cartunista que sofreu um acidente nos anos 70 e ficou paraplégico. É uma história, em nível profundo, sobre enxergar quem você é, suas limitações e aceitar suas merdas, sem autopiedade e sem culpar quem não tem, de fato, culpa pelas péssimas escolhas que você fez. E A PÉ ELE NÃO VAI LONGE (Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot) cumpre muito bem esse papel.

Joaquin Phoenix é extremamente convincente como Callahan, e não é fácil imitar um tetraplégico, com movimentos limitados, a forma como usava os pulsos e não as mãos para segurar objetos (garrafas de uísque, canetas, etc), a forma como o corpo deve ficar em uma cadeira de rodas, etc. Jonah Hill, como Connie, o padrinho de Callahan na Alcoólicos Anônimos, está um gigante. Rooney Mara, como Annu, está a fofura sueca em carne e osso.

O filme é considerado uma comédia, mas não espere muitos risos no fim das contas. Ele é bem mais dramático do que qualquer outra coisa, já que o o personagem lida com questões bastante sérias, como o alcoolismo antes e após o acidente, a impossibilidade de um relacionamento amoroso e o abandono da mãe quando criança. Não é uma história para chorar, pois Van Sant não apela para sentimentalismo, mas é tocante em diversos momentos.

A Pé Ele Não Vai Longe estreou em Sundance em janeiro de 2018 e só agora, um ano depois, chegou aos cinemas brasileiros, com distribuição da Amazon. A produção se baseia no livro de memórias do cartunista e o próprio Callahan está creditado como um dos idealizadores da história que deu origem ao roteiro de Van Sant. Mas Callahan morreu em 2010, o que nos dá uma boa ideia do tempo em que o projeto estava sendo gestado. A princípio, Robin Williams (que faleceu em 2014) interpretaria o protagonista.

OS IRMÃOS SISTERS

OS IRMÃOS SISTERS (The Sisters Brothers) é um western que se passa durante a corrida do ouro na Califórnia. Apesar de ser um gênero e uma história tipicamente estadunidense, é uma produção francesa dirigida por Jacques Audiard, seu primeiro filme todo falado em inglês. O filme estreou no Festival de Veneza de 2018 e foi muito mal na bilheteria norte-americana. Uma pena, pois foi um dos filmes mais tocantes que vi ano passado.

O elenco está primoroso. A princípio, acompanhamos as aventuras dos irmãos Charlie (Joaquin Phoenix) e Eli (John C. Riley). Um é beberrão e impulsivo, outro é mais comedido e já pensa em um futuro diferente para si mesmo. Apesar das diferenças de planos e personalidade, ambos são igualmente mortais e trabalham como assassinos para um comodoro do Oregon. Descem a costa oeste dos EUA atrás do investigador John Morris (Jake Gyllenhaal) e do químico Hermann Warm (Riz Ahmed), que aparentemente desenvolveu uma nova técnica para procurar ouro e o comodoro quer o segredo a todo custo.

Os Irmãos Sisters é sobre manipulação política e ganância, mas também é um conto moral sobre empatia e o que realmente importa no final das contas em um ambiente inóspito em que a lei está longe de ser aplicada a todos. Embora nos identifiquemos com Eli e Charlie, eles são matadores de aluguel que vão enfrentar aranhas, ursos, outros capangas do comodoro e uma gangue que usa chapéu de pele de guaxinim. É um drama, mas faz valer seu lado western com variados obstáculos e até um lado filosófico.

Duas coisas são preciosas em Os Irmãos Sisters. Primeiro, poder ver Phoenix, Riley, Gyllehaal e Ahmed atuando juntos. Segundo, assim que nossos olhos se enchem e nosso coração se aquece com o clímax da história, logo em seguida Audiard nos dá o maior banho de água fria, só para nos fazer perceber o quanto aprendemos a gostar daquele quarteto.

SORRY TO BOTHER YOU

Da safra 2018 de Sundance temos também SORRY TO BOTHER YOU, primeiro longa-metragem do rapper, produtor, roteirista e ativista Boots Riley. É um filme norte-americano, de comédia e drama, com laivos de ficção-científica. Assim como o Infiltrado Na Klan, de Spike Lee, é um filme sobre o homem e a mulher negros dos EUA neste momento, com um ethos forte e que não tem medo de parecer panfletário para falar o que precisa.

Cassius Green (Lakeith Stanfield, perfeito em suas caras de dó) começa a trabalhar em uma empresa de telemarketing, mas vai mal. Tudo parece sem sentido para ele, até que recebe a dica de ligar para as pessoas usando sua voz de branco, sem dar a entender pelo telefone que é um afro-americano. É aí que sua carreira deslancha. Ele sabe que a grana federal que começa a entrar em sua conta vem manchada de sangue e durante o segundo e terceiro atos do filme, ele vai ver e sentir quão inescrupuloso o capitalismo pode ser.

O elenco é bem legal (completado por Tessa Thompson, Steven Yeun, Danny Glover e participação de Terry Crews) e a trilha sonora original foi feita pela Tune-Yards. Além disso, Boots Riley juntou o seu grupo de rap The Coup para gravar canções especialmente para o filme. Não é um ataque à administração Donald Trump, pois o roteiro foi concebido durante o governo Obama. Seja qual for o presidente, os mecanismos do capitalismo mais agressivo continuam sendo os mesmos e Sorry To Bother You teria o mesmo impacto hoje ou daqui três anos.

Quando a porção mais sci-fi da história começa a tomar corpo, o filme bambeia, quase perde o seu chão, mas o diretor segura firme as rédeas e consegue chegar a um final plenamente satisfatório, desde que o público abrace a piração, é claro. Ela não é gratuita e se se afasta do realismo, é porque às vezes o absurdo não só ajuda a entreter, mas ilustra melhor o que pode ser difícil colocar em palavras.

Homem-Aranha encontra sua melhor casa no Aranhaverso

Quem diria que um filme animado do Homem-Aranha seria o melhor filme do Homem-Aranha que já vimos na telona? Não só tem uma forte base nos quadrinhos como também se aproveita do que já ocorreu na trilogia Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi na década passada. Peter Parker está lá, mas o verdadeiro amigo da vizinhança é o afrodescendente e latino-americano Miles Gonzalo Morales, o novo Homem-Aranha de um universo dos quadrinhos desde 2011 pelas mãos do roteirista Brian Michael Bendis.

Foram todas decisões acertadíssimas pela Sony, em parceria com a Marvel, para transformar HOMEM-ARANHA: NO ARANHAVERSO (Spiderman: Into The Spider-Verse) no filme de super-herói mais estiloso e interessante que o estúdio já fez.

Desde que o primeiro trailer saiu, já deixando claro que o jovem estudante Morales seria o protagonista, e não o fotógrafo Peter Parker, ficou a sensação de que estavam enfim fazendo um filme de personagem de quadrinhos que realmente tinha a vibe dos quadrinhos. Assistir essa animação é se reencontrar nas páginas. Não apenas elementos da linguagem dos quadrinhos estão na tela a todo momento – recordatórios, onomatopeias, divisão da tela/página em quadros – como há uma textura que se repete em diversos momentos para imitar aquelas bolinhas de tinta no papel, visíveis se você olhar uma página de gibi com um microscópio.

O fato de Homem-Aranha: no Aranhaverso ser uma animação ajuda a comprarmos tudo o que ele propõe. Como não há uma figura humana de carne e osso e cenários reais, nossa suspensão de crença automaticamente já se ajusta à todas as possibilidades que uma animação pode ter, que são muito menos críveis em live action.

O humor funciona muito bem e não é forçado em momento algum. Há drama também, principalmente da parte de Miles Morales e de Peter. Miles precisa lidar com uma nova escola mais elitizada que não fica mais em sua área no Brooklyn, precisa lidar com o fato de que seu pai é um policial que não gosta do Homem-Aranha, e lidar com várias outras transformações que são levadas à décima potência quando é picado por uma aranha radioativa.

Peter Parker, que vem de outra realidade, não está na melhor forma física e anda meio decepcionado com essa coisa de ser um herói em Nova York. Em sua realidade, não queria filhos (o que se torna mais um de seus dramas ao lidar com Miles) e se divorciou de Mary Jane. Quando os personagens chegam a base do Peter Parker da “realidade normal”, Miles logo se encanta pelos uniformes e alta tecnologia do lugar. Peter não liga pra nada disso, mas se comove com uma fotografia de casamento com Mary Jane. Isso não é evidenciado em palavras, são as imagens que contam esse detalhe. Em meio a tantos filmes com atores reais que afogam emoções, achei essa uma das cenas mais maduras dos filmes de super-heróis dos últimos anos.

Há, inclusive, mortes. E elas não são gratuitas. O fato de estarmos em um contexto em que é possível – graças a uma máquina do Rei do Crime – “puxar” elementos e pessoas de dimensões paralelas não vira desculpa para restabelecer pessoas importantes que perderam a vida na realidade de Miles, ou em qualquer outra.

Em 1999, quando Matrix estreou, tive a impressão de que estava vendo o filme mais estiloso da minha vida. Naquela época, era mesmo. Vinte anos depois, me vejo na sala de cinema vendo o Homem-Aranha se balançar pelo Brooklyn e pensando que talvez seja o filme com estética mais estilosa que já minhas retinas já presenciaram. A Imageworks, divisão de animação da Sony, fez um excelente trabalho ao misturar 3D e 2D, fugindo da estética padrão da Disney, da Pixar e da Dreamworks. Os cortes são rápidos, os ângulos de câmera são inteligentemente invertidos a todo momento, aproveitando o fato das Aranhas no filme (são 6, ao todo) conseguirem andar pelas paredes, darem mortais no ar e ficarem presas no teto.

O filme não tenta explorar o fato de Miles Morales ser negro, latino e filho de um policial numa escola elitizada nova-iorquina. Assim, questões raciais e sociais envolvendo sua origem evadem o vitimismo, mas também não são exploradas para chamar a atenção para algum fato mais relevante. Miles é o que é e, se não precisa enfrentar algum tipo de preconceito, também não tem que provar nada para ninguém que tenha a ver com a cor de sua pele ou etnia.

O hip-hop é a trilha sonora do começo ao fima de Homem-Aranha: No Aranhaverso. É uma das melhores trilhas para filme de super-heróis que já montaram, visto o quanto os sons escolhidos se conectam com o protagonista, com a área em que o protagonista vive, com a cultura jovem americana atual e com toda a modernidade do visual do filme, que não raro mistura algo de cyberpunk com psicodelia. Até mesmo a música tema, “Sunflower”, cantada por Post Malone e Swae Lee, é usada de forma inteligente dentro do filme.

Em menos de 20 anos, o cabeça de teia foi encarnado nas telas por três atores diferentes, em três fases distintas. Os dois primeiros filmes de Sam Raimi foram ótimos para o personagem e para o gênero cinema de super-herói. Desde que o Marvel Studios pegou emprestado para integrá-lo ao seu universo cinematográfico, vimos uma significativa melhora nas histórias de Peter Parker.

Contudo, seria a mais mirabolante das situações – tirando Peter Parker do centro e colocando o afrodescendente Miles Morales como protagonista, unindo realidades paralelas (sempre uma faca de dois gumes para roteiristas ansiosos) e fazendo uma animação fora da estética padrão – que o Homem-Aranha encontraria sua melhor casa no Aranhaverso.

Não vamos reduzir ROMA à fotografia, ok?

ROMA é como Alfonso Cuarón falou: um filme sobre uma empregada doméstica no México em 1971, em preto e branco e que não força plot twists para animar a plateia. Filmado digitalmente em uma câmera Alexa, com o formato de 65 milímetros, fazendo qualquer cena doméstica, qualquer fato cotidiano e tomada mais íntima ter a grandeza de um épico de guerra. É por aí que opera a sensibilidade artística de Cuarón, que fez o filme baseado em sua infância, em sua família, no mixteco (um dos dialetos do país) e no México que viu desabrochar a duras penas. Ele foi diretor, roteirista, diretor de fotografia e editor da obra fazendo deste o filme mais pessoal de sua carreira.

Muito já se falou da fotografia de Roma e ela precisa mesmo ser reconhecida. Perdi a conta de quantas cenas foram icônicas para mim. Teve a cena da “despedida” do médico na frente da casa com as crianças na calçada, a tomada dos praticantes de artes marciais, Cleo (Yalitza Aparicio) andando por um bairro sem calçadas, ruas ou esgotamento sanitário, a cena do incêndio, aquela no cinema, o plano sequência do parto, o abraço quente e que mistura alívio e desespero próximo do fim e que virou cartaz do filme. Que coisa linda tudo isso! A câmera se comporta como uma mera testemunha de tudo e sua movimentação, que parece meio canhestra a princípio, faz com que as perambulações dos personagens tenham que ser milimetricamente encenadas, e mesmo assim diretor e elenco fazem tudo soar natural.

Mas por favor não reduza Roma à sua fotografia. É como reduzir o clipe de “This Is America” às referências. O filme fala por si só, mesmo que pareça muito quieto. A tensão fica no ar, nas entrelinhas dos diálogos, em cada cômodo da casa onde a dinâmica familiar vai ruindo e depois se reconfigurando. Mais do que ver a tensão – e olha que Roma é um filme para não desgrudar os olhos – é preciso sentir como uma coisa leva a outra, como o drama de Cleo fica em segundo plano sufocado pelo que ocorre na casa da família. Se por mais de uma hora parece que os elementos da história soam meio aleatórios, eles vão fazer muito sentido e se unir na segunda metade.

É lindo de acompanhar.

Conforme assistia pela Netflix, diversas vezes me peguei pensando em filmes italianos dos anos 60, como os de Michelangelo Antonioni, mas principalmente os de Federico Felini. É claro que pode ter um pouco desse DNA em Cuarón, mas não soa como homenagem – o que é ótimo, nesse mundo onde parece que uma obra só consegue se fazer notar por certo público se tiver uma “referência” para pescar. Outra coisa que me peguei pensando constantemente é que era um dos melhores exemplos de Cinema que vi em 2018, do tipo que muita gente teria medo de fazer visto que não há mais um mercado de salas de cinema para produções como essa. É por isso que é tão importante que a Netflix esteja promovendo a obra e a colocando em mais de 100 países ao mesmo tempo.

Se eu tivesse que destacar uma cena, seria a dos praticantes de artes marciais, quando o mestre pede que todos juntem as mãos acima da cabeça, recolham uma das pernas formando um 4 e vejam se conseguem se equilibrar. A princípio parece uma cena longa demais e que seria cortada a seus momentos principais em um filme mais prático no roteiro e no trato com sua audiência. Mas Alfonso Cuarón quer dar tempo para sentirmos as coisas e tudo o que se revela nessa cena que aparentemente está sobrando. É importante que Cleo se veja desamparada por Fermín. Mas é mais importante ver do que ela foi capaz sozinha.

Uma vez, durante os anos de faculdade, um amigo (oi, César!) disse que gostava de deixar um dos filmes do Antonioni – acho que era o inglês Blow Up – Depois Daquele Beijo – passando na tevê, sem áudio, só para apreciar as imagens. Roma tem o mesmo poder, com a “vantagem” do formato 65 mm encher os olhos. Se Blow Up tem o jogo de tênis imaginário para coçar nossa mente, Roma tem uma poesia intrínseca e aponta para cima, para vermos mais um avião cruzando o céu do bairro, e pensarmos no que isso talvez queira nos dizer hoje.

A Casa que Jack Construiu com sangue, cinismo e arte

É bem conhecida entre os psicanalistas a história de que James Joyce, o escritor irlandês, escrevia para lidar com sua psicose. Seus livros são uma escalada de estilo e verborragia e experimentação, até chegar a Finnegans Wake e aquilo parecer um quadro de Jackson Pollock com frases e parágrafos. O argentino Ricardo Piglia até escreveu em Formas Breves que Joyce nunca admitiu que sua filha sofresse do mesmo mal, mas incentiva a garota a buscar na arte uma forma de lidar com a sua condição.

É bem verdade também que diversos autores – em qualquer uma das artes – gosta de compor obras que falem de si mesmos ou exponha seus pontos de vista, seus gostos, suas críticas à sociedade, etc. Lars von Trier, o cineasta dinamarquês, sempre deixou muito claro em seus filmes, nos melhores e nos piores, que é uma alma da contracultura e que tem o que dizer, e que nunca facilita com o que tem a dizer, até porque seus pontos de vista podem ser chocantes ou, se acertados, encenados em seus filmes de uma forma bastante espetaculosa, beirando o doentio.

Em A CASA QUE JACK CONSTRUIU (The House That Jack Built), Trier segue alguns dos pontos que já são comuns a sua filmografia: é a história de um serial killer americano na América do Norte, e assim aponta sua câmera inquisidora para os EUA para criticar aquela sociedade mais uma vez. O pessimismo, a falta de fé na bondade das pessoas, também está de volta, o que não é surpresa nenhuma. No entanto, sabemos que o diretor passou por alguns problemas mentais, como a depressão, e trabalhar foi uma forma de ele também lidar com o assunto. Dessa fase saíram pelo menos Melancolia e A Ninfomaníaca.

A Casa Que Jack Construiu é Lars von Trier se olhando no espelho e refletindo nele não um cineasta polêmico, mas um engenheiro serial killer com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC); se Trier se refugiou na arte, como Joyce e tantos outros, para ajudar a lidar com o problema, Jack (Matt Dillon), o protagonista, assassina para criar arte e essa arte (do assassinato) o ajuda a ter prazer na vida. Essa relação que Trier estabelece entre ele próprio e seu matador fica claro por meio dos diálogos. Há até uma conversa especificamente para falar de como artistas com problemas mentais usam a arte para se manterem mais firmes no mundo.

Há aí também um cinismo bem proposital: o cineasta sabe que pelo menos parte do público vai entender que ele está se refletindo na tela e exagerando, e então vamos olhar de volta para ele com caras abissais de quem pode querer confundir o personagem com o autor.

Cinismo é parte importante da história desse filme também, tanto para mostrar como as pessoas (americanos) são burros ou manipuladores. A primeira vítima, interpretada por Uma Thurman, simplesmente trata o protagonista como um serial killer, sem saber que ele realmente o é. Mas o espectador já sabe disso, o que dá um ar de comédia à cena. Em outros momentos, Jack vai assumir que é um assassino só para que o absurdo da afirmação faça com que ele pareça tudo, menos o que ele realmente é.

Lars von Trier pode até parecer que quer emular um Tarantino aqui e ali, principalmente na forma como a tensão às vezes leva à comédia (de risos nervosos), mas sua assinatura é única. Pode não mostrar uma criança levando um tiro na cabeça, mas mostra seu corpo congelado e manipulado para permanecer entalhado e sorridente. Um corpo arrastado pelo asfalto deixa um rastro de sangue e um corpo sem face. E por aí vai. Trazer o que há de mais obscuro num psicopata serve tanto para retratar o engenheiro/artista Jack quanto para tecer comentários sociais e, por fim e principalmente, chocar.

Erudição é o ponto final para discutirmos aqui. O cineasta europeu vai da arquitetura às pinturas para comparar a arte de seu Jack com a arte ao longo dos séculos. O final é bastante surpreendente e não devo comentar nada aqui, apenas que ao longo do filme, dividido em Incidentes (que operam como capítulos, algo bem comum aos roteiros de Trier), Jack conversa com Verge (Bruno Ganz), que é Virgílio, provavelmente o mesmo Virgílio que guia Dante pelo Inferno na Divina Comédia. Se você sabe pelo menos como o Inferno é retratado no livro mais famoso de Dante Alighieri, ficará mais fácil entender onde Trier quer chegar com o ato final de seu filme.

Melancolia segue sendo seu melhor filme após Dogville. A Casa Que Jack Construiu é excelente em conseguir o que o diretor mais quer: público dividido, gente com nojo da humanidade, rostos retorcidos com a feiura daquilo que ele foi capaz de conceber como obra de arte e pessoas que vão olhar para o filme, ver o reflexo exagerado do diretor, e pensar que a mente que o concebeu deve ser tão doente quanto a do psicopata.

A psicologia em SACRIFICE, de Derren Brown

Quando assisti a Miracle, um dos mais recentes espetáculos do mentalista inglês Derren Brown, fiquei impressionado não com a habilidade de ilusionista do homem,mas como ele foi capaz de “enganar” o cérebro das pessoas explicando tudo o que fazia, mas criando um teatro para fazê-las crer que tudo estava acontecendo mesmo. No fim, ele prova que as pessoas (grande parte delas, pelo menos) acreditam no que querem ou escolhem acreditar.

Brown sempre repete o mantra “as histórias que contamos a nós mesmos”. Seus espetáculos, como Miracle e o novo SACRIFICE (ambos disponíveis na Netflix), nos mostram como esse tipo de mantra funciona em nossas vidas. Em Miracle, ele diz com todas as letras que é um ateu e que não haveria possibilidade de Deus agir por meio dele, mas mesmo anunciando isso, ele cria um teatro religioso análogo ao dos pastores evangélicos americanos e repete – ele, um homem sem fé – os mesmos milagres que os tais pastores que dizem estar imbuídos do poder do Espírito Santo. Derren deixa implícito como tudo é sugestão, hipnose, ilusão e técnicas psicológicas, mas que muita gente tira proveito disso para se passar por instrumento de Deus – e nós nos deixamos levar por essa falácia, pois não compreendemos como aquilo que ele faz seria humanamente possível.Porém, um ateu acabou de realizar os tais milagres (truques) bem na frente de centenas de pessoas.

Em Sacrifice, Derren Brown cria uma espécie de reality show para mais uma vez mostrar como muitas de nossas limitações e também a forma como enxergamos o mundo estão presas às histórias que contamos a nós mesmos. Após uma seleção de pessoas, ele define que Phil, um morador da Florida,será sua “cobaia”. Phil é casado e pai. Logo percebem que o homem é da opinião de que a permanência de mexicanos e latinos nos Estados Unidos é um erro, pois eles roubam os empregos dos americanos, entre outros motivos.

Mas dessa vez o show de Brown é um experimento de comportamento. A intenção do ilusionista é fazer com que sua cobaia seja capaz de pular na frente de uma bala para salvar um desconhecido. Para isso, implanta um chip na nuca de Phil e diz que o aparelho está ligado a um aplicativo que foi instalado em seu celular. O intuito seria aprimorar Phil. Na realidade, Brown quer que Phil acredite que será capaz de novos feitos justamente porque tem um chip em seu corpo e faz os treinamentos mentais com o app. Brown conta uma história à sua cobaia.

A cobaia precisa crer nessa história para crer em si mesmo. Embora Sacrifice seja um produto para televisão e use muitos artifícios para criar tensão no expectador, pode ficar a impressão de que tudo o que Brown faz com Phil é combinado. Mas a psicologia pode explicar. Recorri aos conhecimentos em Análise do Comportamento da minha namorada, Juliana, para poder contar quais são as prováveis técnicas usadas por Brown neste caso.

CONDICIONAR É PRECISO

De frente para Phil, Derren Brown começa a envolver sua cobaia em uma narrativa sobre o que fazer com o corpo para não sentir dor. Isso envolve falar certas palavras para encorajá-lo e ensiná-lo alguns truques, como dar três soquinhos na cabeça. No caso, Derren quer que Phil sinta sua mão anestesiada a ponto de poder perpassá-la com uma agulha e o homem não sentir nada. Phil já está usando o aplicativo, já tem o chip implantado e já sabe reconhecer um sinal sonoro do app que indica que “é hora de ter coragem” ou então “é hora de acreditar”. Como já sabemos, o chip não funciona. O app é só parte do teatro para que ele acredite estar sendo treinado para novos feitos. O som é um gatilho para lembrá-lo disso tudo. Os socos na cabeça é uma ritualística. E dá certo. A agulha atravessa a pele da mão de Phil e ele não sente nada.

Em Análise do Comportamento, podemos dizer que Brown está realizando um Treino Discriminativo. Ele introduz estímulos para que Phil comece a discriminá-los, ou seja, reagir a cada um deles diferentemente do que normalmente reagiria. Derren coloca Phil em certas situações – como na beira de um precipício para um lago – para disparar esses estímulos e ver se Phil é tomado pelo ímpeto de fazer o que o ilusionista quer que ele faça, mesmo que vá contra sua vontade. Phil não gosta de água ou de altura, então pular seria ir contra sua “programação”. Ele tenta. Ouve o sinal sonoro do app, dá os socos na cabeça, fica de cara como abismo, mas não pula. Por quê não? “Porque a história de aprendizagem de uma pessoa é longa e forte o bastante para impedir que certos pareamentos de estímulos façam-na ter comportamentos dessa magnitude”, diz Juliana.

É importante lembrar que Brown faz um produto de entretenimento, não uma pesquisa acadêmica com Sacrifice. É possível que ele tenha utilizado métodos realmente existentes na psicologia comportamental (que descrevemos neste texto), é preciso notar também que pode ser um método eticamente duvidoso para os padrões da Análise do Comportamento.

EMPATIA

Em outra situação muito bonita do programa, Phil é colocado cara a cara com um mexicano em uma sala. Ficam sozinhos e em silêncio, um olhando para o outro. Derren Brown conhece os preconceitos de Phil e tenta quebrá-los. Phil percebe que o mexicano é igual a ele, não é uma ameaça ali. Chora e pede um abraço do rapaz. Não sabemos se isso desmonta seu preconceito contra imigrantes, mas fica claro que passou a enxergar as coisas de forma diferente. O abraço até parece uma culpa (de Phil) sendo jogada para fora.

Antes, porém, Brown analisou o genoma de sua cobaia e apresentou de quais regiões do mundo vêm os genes de Phil. E uma pequena porcentagem é da América Latina. Quem diria, logo ele, um cara que vê os mexicanos como um problema, tem dentro dele uma herança desse povo também.

A revelação genética amaciou Phil. Essa nova informação em sua história (devida e no experimento) fez com que ele chegasse a se sentar de frente para o mexicano tendo que encarar não apenas seu preconceito refletido em si mesmo.

De acordo com Juliana, que me explicou as técnicas psicológicas que podem estar envolvidas aí, Phil tem uma história de aprendizagem muito longa e tem muitas autorregras que não descrevem a realidade, como a crença de que imigrantes roubam os empregos dos estadunidenses. Ao apresentar o mapa do genoma de Phil, Derren colocou mais um elemento para que o homem criasse para si mesmo “uma nova história” e outras regras mais condizentes com a realidade(mais afastadas do preconceito).

Por causa das autorregras que “regiam” o pensamento e comportamento de Phil, ele tinha um padrão de comportamento quando era confrontado com certas questões ou situações, como é o caso dos imigrantes. Todos os estímulos apresentados até aqui, desde a informação do genoma até os soquinhos na cabeça para lhe dar força em uma situação difícil, são parte de uma espécie de treinamento para que Phil aprenda a se comportar de outra forma, quebrando o padrão produzido por seu histórico de aprendizagem.

SENSIBILIZAR DE NOVO

Phil, como você já percebeu lendo até aqui ou assistindo, está condicionado por sua história de aprendizagem, que o levou a criar suas autorregras. O experimento faz com que ele seja dessensibilizado, para que certos pareamentos aversivos se dissolvam. Ou melhor: o experimento buscar quebrar o pareamento entre o estímulo aversivo(presença de latinos) e a resposta emocional (preconceito, ódio). Neste caso, dessensibilizar significa sensibilizar de novo, ressignificando, por exemplo, seu entendimento sobre o que é um mexicano. “Essas quebras de pareamento e o reforço positivo (entender o mexicano, abraça-lo, enxerga-lo como igual) lhe contam uma nova história e aumentam a probabilidade de se comportar com mais empatia no futuro”, me diz Juliana.

No final, o ilusionista cria uma situação que envolve atores e uma equipe de filmagem escondida para fazer com que Phil de fato acredite estar em uma situação extrema e tenha que tomar uma decisão que envolva ficar entre uma arma e um imigrante por livre e espontânea vontade.

É interessante notar que na cena final de Sacrifice, Brown espalha estímulos pelo cenário. O carro em que Phil está reproduz o mesmo sinal sonoro que ele ouviu no aplicativo em situações chave anteriormente. O local da ação contém um catavento vermelho, que lembra muito a espiral vermelha ícone do app. Mas será que o preconceito foi desmontado a ponto de Phil acharque é seu dever defender um imigrante em seu país?

Quem já assistiu, sabe o que acontece. Quem não viu, precisa assistir para saber como a metodologia do mentalista e ilusionista podem ser encaradas à luz das técnicas psicológicas da Análise do Comportamento – dessensibilização e treino discriminativo. Lembrando que Brown embora sempre explique ao público o que está fazendo e o que espera conseguir de Phil, ele não entra em detalhes sobre a teoria que dá base ao seu experimento. As técnicas de Análise do Comportamento explicam, mas ele pode ter seguido outra linha teórica.

Apesar de todo o espetáculo montado por Brown para encantar a plateia, seja dentro de um teatro ou pelo streaming da Netflix, o que acho incrível nele é como ele monta seu discurso ao seu público (ou sua cobaia). Ele diz o que está fazendo e tem um objetivo com isso, que pode ser desmascarar charlatões que querem nosso dinheiro e nossa mente (como gurus, religiosos, pessoas malintencionadas querendo se aproveitar da fé das pessoas) ou até mesmo nos fazer enxergar alguns dos entraves psicológicos que estabelecemos a nós mesmos, acreditamos nesses entraves e assim nos limitamos. O importante não é a ilusão ou a graça do truque de Derren Brown, mas sim o que ele revela de real sobre nós a partir da ilusão.


Aquaman entrega herói bad ass, mas fica devendo

O único filme da DC/Warner em 2018 após as falhas em Liga da Justiça é AQUAMAN. O filme é colorido e espetaculoso como prometido nos trailers, mas deixa muito a desejar para quem esperava uma redenção do estúdio. O filme, dirigido por James Wan e estrelado por Jason Momoa, até está bem intencionado e direcionado, mas a DC ainda precisa ajustar muitas coisas antes de entregar um bom filme que saiba o que quer ser.

1. VISUAL

Aquaman tenta traduzir as HQs de Geoff Johns e Ivan Reis para as telas e pega emprestado a estética de alguns outros filmões. Avatar, de James Cameron, é o primeiro a ser lembrado, já que Atlântida é um mundo fantasioso, repleto de criaturas, cores e luzes. Outro que logo vem à mente é a franquia Star Wars. A imensidão das profundezas do oceano de Atlântida, com suas criaturas grandes e pequenas, suas construções e pontes, é análoga à imensidão do espaço na galáxia muito distante, com suas naves grandes e pequenas, seus planetas e seus cruzadores imperiais. É um desbunde imagético que lembra pouco a estética de Batman V. Superman e outros filmes que tinham a assinatura de Zack Snyder.

Contudo, é um filme feito para ser visto imediatamente. Em pouquíssimos anos – uns 4 mais ou menos – grande parte do visual de Aquaman parecerá extremamente datado. A primeira vez em que Atlanna (Nicole Kidman) salta ao mar é CGI puro e facilmente identificável, o que fica bem estranho na telona. Os cabelos digitais esvoaçantes dos personagens embaixo d’água, embora agora pareçam uma conquista visual, serão extremamente vexatórios mais pra frente.

2. MOMOA RULES

A princípio, Jason Momoa com todos os seus músculos e tatuagens, barba e cabeleira não tem nada a ver com o Aquaman que conhecíamos. Mas digamos que a repaginada do personagem para o cinema (mais uma obra de Snyder) funciona bem. Momoa convence como um ser de capacidades extraordinárias e tem carisma para carregar os atributos mais humanos de seu Arthur Curry. Um herói bad ass no caminho certo, mas sozinho não carrega o filme todo.

3. PAI E FILHO

A relação de Arthur e seu pai mortal, o faroleiro que conquistou a rainha Atlanna, funciona muito bem. Em uma cena de perigo, torci para que o homem não morresse e que Aquaman não se tornasse mais um herói amargurado pela perda da figura masculina. Os dois são parceiros, bebem juntos, se importam um com o outro e têm uma relação saudável. Dividem a mesma saudade e isso está bem representado, sem pesar em melodramas desnecessários.

4. MERA E ORM

Amber Heard está bem caracterizada como a princesa Mera, uma pena sua relação com o herói ser tão fria. Momoa e Heard não conseguem nem a química mais básica vista em, por exemplo, Visão e Feiticeira Escarlate. O príncipe Orm, meio-irmão do protagonista, está bem caracterizado também. Patrick Wilson loirão e usando roupas e armaduras reais sabe que o negócio é ser um vilão de visual brega e parece confortável com isso. Ele está OK e não rouba a cena, embora pareça que a intenção fosse criar uma disputa parecida com a de Thor e Loki.

5. ROTEIRO BÁSICO E APRESSADO

Sim, Aquaman aposta na manjadíssima jornada do herói. Arthur tenta se esquivar o quanto pode de sua missão (a recusa do herói), tem um mestre, uma parceira que o acompanha na jornada, adquire habilidades, prova seu valor e recebe uma recompensa, tudo by the book. Os roteiristas colocaram tanta coisa nessa história que a aventura precisa ser acelerada de um modo que realmente atropela muitas coisas na superfície e nas profundezas.

Enquanto Aquaman e Mera vão do Maine ao Saara e à Sicília, Orm viaja por vários reinos submersos reunindo exércitos e dando forma ao seu golpe de Estado. No fim das contas, não há muita coisa para se ver em termos de história. Com tantos lugares para visitarem e tantos inimigos cheios de armaduras para enfrentar, o lado dramático acaba sendo resumido. Pelo menos, não é um filme de 2h20 dedicado a mostrar o Aquaman crescendo e adquirindo poderes. Quando ele surge, já é um ser poderoso.

6. ÉPICO? FANTASIA? SCI-FI? COMÉDIA?

Zack e Deborah Snyder ainda estão creditados como produtores executivos do longa, mas o tom sisudo e duro de seus filmes se foi. O problema é que James Wan e o resto da equipe não conseguem decidir que tipo de filme é Aquaman. É uma fantasia, sem sombra de dúvida, que flerta com a ficção científica de vez em sempre. Atlântida é tanto um lugar de magia (e modos meio medievais) quanto de máquinas mais avançadas que as da superfície. Pela escala da missão de Aquaman e várias cenas grandiosas, tenta ser um épico, mas não mantém essa pegada por todo o tempo. Tenta ser comédia também, e até consegue, mas claramente não é o forte do filme.

7. SALADA MUSICAL

Fazia muito tempo que não via um filme com uma trilha sonora tão variada e tão desconjuntada. A princípio, as músicas pop parecem querer criar alguma relação com os personagens, enquanto a trilha original de Rupert-Gregson Williams se esforça para sintetizar a fantasia high tech do visual. Com o tempo, fica claro que Aquaman atira para todos os lados e todas as tendências. Em uma cena em que Arthur e Mera saem do mar e chegam a uma praia, a música torna a cena um comercial de xampu.

8. EXPLOSÕES

É incrível como James Wan e os roteiristas se repetem nas soluções de cena. Em diversos momentos, os personagens estão tranquilos em seus afazeres quando DE REPENTE alguém os ataca e a pancadaria começa. Esse DE REPENTE, em 70% dos casos de Aquaman, é uma explosão. Não é brincadeira: se Atlanna e seu marido estão curtindo a vida conjugal e algo precisa mudar, começa com uma parede explodindo. Se Orm precisa convencer Nereus a ficar do seu lado na guerra, uma explosão é o que interrompe a diplomacia e inicia o conflito. Se Mera e Vulko (Willem Dafoe) estão escondidos, é uma explosão que mostra que foram descobertos…

9. CÂMERA INSANA

Desde a primeira vez que assisti à Invocação do Mal, também dirigido por James Wan, fiquei embasbacado com a movimentação de câmera do diretor. Aquaman também se beneficia disso, principalmente nas cenas de ação. A primeira luta, com Nicole Kidman, é ótima, com ângulos extremamente criativos. Outra cena que se aproveita disso é a perseguição na Sicília, que todo mundo já viu no trailer estendido. Quando a batalha é muito gigante e épica, aí a filmagem fica mais comum mesmo.

10. FUROS

A construção de um universo da DC realmente foi abandonada e nem lógica interna mais conta. Em Liga da Justiça Mera já havia aparecido, certo? Pois quando ela dá as caras para Arthur Curry pela primeira vez em Aquaman, ela cita o Lobo das Estepes (que Aquaman ajudou a derrotar em eventos passados, correto?) mas parece que o protagonista nunca a tinha visto antes. Ainda no começo do filme, alguns motoqueiros tiram selfies com o herói, pois o reconheceram como o “garoto-peixe” (uma das melhores cenas do filme). Na cena pós-créditos, dias depois da cena das selfies, há um cartaz com a silhueta de um rosto e uma frase perguntando quem é o Aquaman. Como assim o governo e os jornais não sabem, mas os motoqueiros sim?

11. BREGA E BOBO

Muito se fala de Aquaman soar meio brega e infantilizado. De fato é, mas se pensarmos que é um filme que quer encantar aos meninos e meninas de 8 e 10 anos também, e não somente aos marmanjões, tá tudo bem. Mas a cena que sintetiza o que é brega e bobo em Aquaman é o polvo baterista.

Por fim, o filme não se prende à seriedade e violência outros filmes da DC e, com já era claro desde os primeiros trailers, não tenta ter o realismo dos filmes de Christopher Nolan. Aquaman tenta seguir muito mais a Marvel Studios agora, com histórias mais leves, violência sem sangue e um heroísmo mais declarado. Mas enquanto a Marvel já sabe equilibrar bem humor, drama e ação sem perder o foco, Wan não conseguiu acertar um tom. Parece estar no caminho para refazer o universo da DC no cinema, mas cuidar e costurar melhor as partes que constituem o filme.

Os pênaltis de Bohemian Rhapsody

BOHEMIAN RHAPSODY está longe de ser uma biografia do Queen ou de Freddie Mercury, seu protagonista. Contudo, a trajetória do grupo inglês é tão interessante e suas músicas tão boas que é fácil sair do cinema deslumbrado. Afinal, o filme foi calculado para ter um roteiro que reduz a trajetória da banda a uma fórmula de ascensão, problematização da fama e dos relacionamentos pessoais, derrocada e enfim, redenção.
Apesar de parecer muito redondinho e inspirador, é preciso não cair nas armadilhas da sétima arte. Listei seis tópicos para discutir os pênaltis do filme, suas decisões narrativas e artísticas.

1. DOCUMENTÁRIO

Neste filme, ninguém canta nada, ninguém não toca nada – mas todos interpretam muito. Se já foi legal e emocionante para muita gente ver a dublagem, imagina um documentário! Em vários momentos eu fui tirado da imersão do cinema ao ver os atores e desejar ardentemente que fosse um vídeo de arquivo da banda original no lugar. Todos os atores que interpretaram Freddie Mercury (Rami Malek), Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzelo) estão ótimos, mas uma cena documental teria o poder de dobrar a emoção.

2. HÉTERO, BI OU GAY?

O filme suaviza tanto, mas tanto a homossexualidade de Freddie Mercury que fica parecendo que ele foi bissexual durante toda a vida. Na verdade, o filme deixa claro que ele era gay (e não havia se dado conta, quando até sua esposa já sabia), mas Bohemian Rhapsody força tanto a relação dele com Mary (Lucy Boynton) que muita gente saiu do cinema achando que o cantor realmente era bi, mesmo após a separação. E quem achou ruim as cenas de beijo gay, faça-me o favor de parar de ser preconceituoso e mimizento. Até nisso o filme suavizou. As únicas cenas em que o ator aparece de forma mais sexy ou exposto são as contracenadas com Lucy. Durante as festanças em que Freddie teria ficado com vários homens, como diz seu ex-empresário, não temos no filme nem festas e nem uma cena que ilustrar isso. Ou seja: o filme DIZ que tais eventos ocorreram, mas se acovarda na hora de usar imagens para contar essa parte da história.

3. POUT-POURRI

Bohemian Rhapsody é um grande amontoado de momentos da banda. Não acredito que fosse necessário contar a história de cada música de sucesso ou de cada álbum – e de fato o filme não segue esse caminho, mas passa rapidamente por cada fase do Queen, reduzindo demais diversos contextos. É um pout-pourri. O máximo da forçação de barra foi colocar a apresentação no primeiro Rock In Rio, que ocorreu em 1985, como se tivesse acontecido em algum ponto entre 1976 e 1979. Um grande sacrifício da cronologia histórica, servindo apenas como desculpa para falar da relação de Mercury com Mary. Pelo menos a histórica apresentação de “Love of My Life” (cantada por centenas de milhares no Brasil) foi valorizada.

4. CHAPA BRANCA

O filme tem aprovação de Brian May (guitarrista da banda) e Roger Taylor (baterista), que ganharam créditos como produtores do longa. Isso explica porque é um filme tão chapa branca, que coloca o empresário como vilão, em parte responsável pelos desvios de Freddie. De outra forma, todos os membros da banda são representados como caras legais, que nunca disseram uma palavra atravessada aos outros, que nunca causaram uma briga, que nunca tiveram grandes egos. O ególatra, o estrelinha, o problema é Freddie, o cara que morreu e que não está aqui para aprovar o material e contar sua versão dos fatos. Pelo menos não esconderam a origem iraniana da família do cantor, um detalhe biográfico que muita gente que foi ver o filme não fazia nem ideia.

5. BIOGRAFIA

Assistir a Bohemian Rhapsody acende a vontade de ler a biografia da banda para saber exatamente o que aconteceu e quando aconteceu. O filme realmente recupera a memória e a importância do Queen, mas não o faz com rigor. É bem generalista e toma as liberdades de sempre para contar sua história, ajustando os fatos numa ordem que sirva à ficcionalização. Portanto, não confie no filme cegamente. Busque mais fontes, pois opções não faltam: tem A Verdadeira História do Queen de Mark Blake, Freddie Mercury – A Biografia Definitiva de Lesley-Ann Jones e Queen nos Bastidores, de Peter Hince e Maria Elizabeth H. Neilson.

6. RADIO GAGA & UNDER PRESSURE

Difícil escolher o melhor momento, visto que cada um pode sentir e ter maior ou menor conexão com uma ou outra canção da banda. Mas diria que em termos de apresentação musical, o momento de “Radio Gaga” no Live Aid em 1985 foi o que mais me tocou (e ainda que estivesse muito bem filmado e interpretado por todos os atores, senti falta de cenas reais do show). A última cena de Freddie com seu pai, antes de ir ao Live Aid, também foi bem bonita. “Under Pressure” marcou presença apenas como música de fundo, mas bem que poderia ter ganho seu momento, afinal foi o segundo hit da banda que chegou ao topo da parada inglesa. Além disso, voltando ao primeiro item desta lista, um documentário sobre a banda não perderia a chance de mostrar a colaboração do Queen com David Bowie.

BlacKKKlansman é o retrato de uma nação

E se o primeiro negro da força policial de Colorado Springs, nos Estados Unidos de 1978, se infiltrasse na Ku Klux Klan, o mais notório grupo supremacista branco da América? A ideia é tão boa que poderia virar filme. E virou o ótimo INFILTRADO NA KLAN (BlacKKKlansman), do diretor Spike Lee. Mas é uma história real, baseada nas investigações de um detetive negro, Ron Stallworth, que escreveu um livro sobre o caso, mesmo após o chefe de seu departamento ter mandado destruir todos os documentos e provas de que a operação ocorreu.

Pois é, censura oficial ocorre mesmo em países liberais e com democracia sólida, afinal.

A trama é basicamente o seguinte: Stallworth (John David Washington) se candidata para um posto na polícia de Colorado Springs. O chefão do lugar está disposto a contratá-lo para mostrar o progressismo do departamento, não porque Ron lhe pareça qualificado para o trabalho. Ron sabe o mundo racista em que vive, mas não é politizado. Ele vê um anúncio da KKK no jornal local recrutando novos membros (apenas o primeiro dos absurdos dessa história) e resolve se candidatar. Quando resolvem conhecer o tal Stallworth pessoalmente, o detetive envia o parceiro Flip (Adam Driver) em seu lugar.

Assim se arquiteta o plano. Por telefone, Stallworth mantém contato com os membros da KKK até chegar a David Duke, o Grande Mago da organização baseado na Louisiana, que está usando cargos públicos como meio de permear sua ideologia na política e legislação estadunidense. Pessoalmente, Flip, descendente de judeus, enfrenta a escória da extrema direita em meio a tiros e discursos abertamente xenófobos, racistas e homicidas.

É sempre muito complicado quando um diretor faz de sua obra um panfleto. Ao invés da história conter os elementos que nos levam a reflexão, ele toma uma posição bem demarcada e advoga abertamente por uma “causa”. Spike Lee realmente conta uma boa história com BlacKKKlansman, mas ativista como é, faz questão de colocar várias cenas na história que servem muito mais para traçar um paralelo com os EUA da era Trump do que necessárias para contar a história do negro que se infiltrou no grupo dos gorros brancos.

Embora muita gente possa considerá-lo um filme menor por esse viés mais “partidário”, eu diria que é totalmente compreensível e que aumenta, como um microcosmo, a importância do filme. É uma delícia ver os supremacistas serem enganados daquela forma, mas é terrível ao mesmo tempo acompanharmos as cenas finais de BlacKKKlansman, com filmagens documentais de marchas supremacistas e atentados ocorridos nos últimos dois anos nos Estados Unidos. Há 40 anos ainda havia grupos de ódio prontos para exterminar negros, homossexuais e judeus caso isso fosse possível. Hoje em dia, eles ainda existem e saíram da toca, sentindo-se legitimados pela ideologia do novo ocupante da Casa Branca.

– Mas também, sabe, estou atrás de camaradagem na Klan.
– Que merda cê falou?
– Camaradagem?
– Não, a outra palavra.
– A Klan?
– Sem “Klan.” É “A Organização.” O Império Invisível conseguiu permanecer invisível por um motivo. Nunca use essa palavra. Entendeu?

Aliás, o David Duke que aparece no filme como o cabeça da KKK, também aparece, ainda hoje, como o cabeça da organização, fazendo discurso público aos americanos extremados em Charlottesville.

Se BlacKKKlansman é um bom filme com um fundo panfletário, podemos lembrar do controverso clássico O Nascimento de Uma Nação (1915), filme do começo do século 20 que trouxe uma série de inovações para o cinema e é considerado um épico americano. Contudo, é um filme panfletário também, uma propaganda da KKK. Qual a diferença entre eles, então? Bem, a KKK (e seu filme) divulga uma ideologia homicida. Já o filme de Spike Lee denuncia a existência ontem e hoje dessa ideologia homicida e faz um apelo pelo respeito aos cidadãos, qualquer que seja a cor, a religião ou opção sexual deles.

Como todos os filmes baseados em fatos reais, Infiltrado na Klan toma liberdades para fazer o filme se ajustar melhor à telona e não precisar ter 3 horas de duração. Uma das diferenças que vale a pena mencionar é que enquanto o Ron Stallworth interpretado por John Washington é realmente bem parecido com o Stallworth da vida real, o personagem de Adam Driver pode não ser. Primeiro porque ninguém sabe ainda quem foi o detetive branco que se infiltrou pessoalmente na KKK nesse caso. No livro, ele é Chuck, um codinome apenas, e não Flip. E o fato de Flip ser um judeu não praticante serve para aumentar a carga dramática, já que não há evidência de que Chuck era judeu.

22 de Julho, o mediano filme de Paul Greengrass sobre o atentado extremista de direita na Noruega em 2011, deixa claro que atualmente existem grupelhos radicais espalhados por todo o mundo. Enquanto alguns partem para as vias de fato e outros são para agitação ideológica, há aqueles que esperam impactar a sociedade de dentro das instituições. Eles não querem plantar bombas na casa do presidente para tomar o poder. Querem influenciar a opinião pública e aí sim serem eleitos para mudarem as leis e os rumos de suas nações. No final da década de 1970, a investigação que originou BlacKKKlansman também averiguou a mesma coisa: David Duke estava na política e havia, naquela célula em que Ron Stallworth se infiltrou, pelo menos dois membros do Exército.

É um interessantíssimo caso em Colorado Springs que só pudemos saber que existiu em 2014, quando o Ron da vida real se aposentou da força policial e escreveu seu livro. Spike Lee toma esse episódio da história de uma cidade e o transforma em retrato de seu país. De diversas formas é também retrato do que vem ocorrendo ao mundo.

O segredo como fantasma em A Maldição da Residência Hill

Estava um pouco cético quando comecei a assistir a A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting Of Hill House). Será que esse gênero de terror com casa mal assombrada ainda poderia render algo interessante? De todos os gêneros do terror, esse me parece um dos mais desgastados e só perde, talvez, para os zumbis.

Mas a série original da Netflix prova que o subgênero ainda pode ter fôlego. É aquela velha história: tudo depende de uma boa história para contar e ter o que dizer com ela. A favor da série contam também mais três fatores, os mais determinantes de todos: bons personagens pelos quais você aprende a se importar, bons atores adultos e mirins para dar vida a essas almas torturadas e um diretor que está à frente do projeto do começo ao fim.

Até o quarto episódio eu vi A Maldição da Residência Hill com curiosidade. A partir do quinto eu comecei a realmente ver como a estrutura daquilo tudo se desenhava. O sexto capítulo é maravilhoso, com todos aqueles longos planos sequência e detalhes minuciosos, uma prova da qualidade de todos os envolvidos, da sala de roteiristas à direção de arte, dos atores e do diretor Mike Flanagan à equipe de filmagem que precisou ensaiar todas as etapas do episódio 6 durante mais de um mês antes de sua realização. Fiquei pensando seriamente que a série teria chegado ao seu ápice nesse episódio. Afinal, depois daquela demonstração de verve narrativa, de interpretação e de arquitetura de uma cena em uma série de TV, haveria como se superar?

De fato, em termos de formato, não há como superar o sexto capítulo. Porém, o sétimo confirmou algo que eu vinha sentindo há algum tempo. A série não faz você pular de susto, mas também não fica escondendo que é um terror. Elementos sobrenaturais estão presentes desde o primeiro episódio, sempre em doses suficientes para que se instale uma tensão, e não para te desviar do drama familiar, que é o que realmente importa. Ao terminar o sétimo episódio, senti o ambiente ao meu redor gelado. Não estava arrepiado, mas minha coluna estava rígida. Eu fiquei tenso de verdade.

Aliás, a Residência Hill é rica em fantasmas. A velha e doente Hazel, a insana Poppy, o homem do relógio, Abigail, a mulher do pescoço torto e o homem alto são apenas aqueles que a série escolheu para conduzir a história da primeira temporada. Existem diversos outros que aparecem por brevíssimos momentos, escondidos em cantos escuros dos enquadramentos. Não são exatamente fáceis de ver, mas uma vez que os descobrimos lá, é mais fácil entender a “reunião” deles no último capítulo – além de dar um ar de ainda mais tensão no espectador.

O sobrenatural existe na Residência Hill, como manifestação de forças além de nossa compreensão e como sintomas de culpa e medo. O contraste entre os irmãos Steve e Luke é ótimo. De um lado, um cara que ganhou a vida falando de assombrações e ele mesmo nunca viu uma e nem acredita nessas coisas. É cético mesmo quando a irmã morta aparece na frente dele. E ele tem razão em não sucumbir à histeria. Luke tem uma ligação de gêmeo com Nellie, a irmã que falece. Ele quer ficar bem, quer ficar sóbrio (das drogas e da superstição), mas acredita na manifestação sobrenatural lá no fundo do seu eu. Steve e Luke somos todos nós, afinal, quando o desconhecido se apresenta. São fantasmas ou vestígios de alguma doença mental?

Doença mental é outro aspecto evocado a todo momento em A Maldição da Residência Hill – e não é evocado apenas para despistar as ocorrências sobrenaturais. Mike Flanagan, o criador, realmente deixa o tema fluir, como no episódio 3, focado em Theo, a psicóloga, que ilustra com muita habilidade como uma criança pode processar um abuso e transformá-lo em algo metafísico. A irmã Shriley representa sobriedade e controles brutais, mas desde cedo é possível perceber que algo não está exatamente certo com ela. E a assombração relacionada a ela é outro exemplo de manifestação gerada por uma culpa ocultada por seu orgulho e vergonha.

É um bom terror pela tensão e por ser, acima de qualquer coisa, a história de uma família. De forma completamente alinear vamos juntando pedaços de histórias e entendendo quem é o que e quem fez o que e quando. Isso vale para os irmãos, para os pais, para alguns dos fantasmas e para a própria casa mal assombrada. É um labirinto pelo qual Flanagan nos conduz. Em seu final, é preciso estarmos atentos para perceber que a mãe Olivia – vivida pela ótima Carla Gugino – é a chave de tudo que nos intriga mais. Ou melhor, a maternidade e o peso de suas responsabilidades pode ser tanto uma benção como uma maldição (um tema que é bem comum em várias histórias de terror, como O Bebê Rosemary e Alien, o 8º Passageiro, entre tantos outros).

No oitavo episódio há um diálogo excelente entre Theo e Shirley após alguns eventos traumáticos. Theo tenta explicar à irmã o que é ser tomada pelo mais escuro vazio e sentir o mais absoluto nada. Isso ressoa na ideia em uma das ideias de terror mais profundas analisadas por Eugene Thacker em In The Dust Of This Planet. É interessante que A Maldição da Residência Hill acabe tentando por em palavras algo que é impossível de ser ilustrado, mas que está em sua história.

Várias dimensões do terror colidem na série. Os mortos assombram a família Crain. A doença mental também. Mas a metáfora usada que é a grande sacada dessa história são os segredos que a família guarda e que acabam virando fantasmas em suas vidas. Quase todos eles têm algo a esconder. E o que permanece oculto é o que castiga suas vidas. No caso de Steve, o cético, isso se manifesta como fim de um casamento. Para Shirley, que se preocupa em ser a fortaleza moral da família, seu segredo se manifesta como uma alucinação. Em alguns casos, como no dos gêmeos Luke e Nellie, há uma somatória de sobrenatural, segredo e doença mental.

Fantasmas escondidos nos enquadramentos, segredos e uma casa enorme com um quarto fechado. Uma série que te resume todo o drama logo no primeiro episódio, mas que precisa percorrer os outros nove para te dar um panorama mais completo. Roteiro e montagem, assim como aspectos da direção de arte, se comportam como um labirinto. O mesmo que está na abertura de Maldição da Residência Hill. Tudo isso sem pesar demais a mão e sem soar hermético, mas exige que você tenha atenção aos detalhes.