BlacKKKlansman é o retrato de uma nação

E se o primeiro negro da força policial de Colorado Springs, nos Estados Unidos de 1978, se infiltrasse na Ku Klux Klan, o mais notório grupo supremacista branco da América? A ideia é tão boa que poderia virar filme. E virou o ótimo INFILTRADO NA KLAN (BlacKKKlansman), do diretor Spike Lee. Mas é uma história real, baseada nas investigações de um detetive negro, Ron Stallworth, que escreveu um livro sobre o caso, mesmo após o chefe de seu departamento ter mandado destruir todos os documentos e provas de que a operação ocorreu.

Pois é, censura oficial ocorre mesmo em países liberais e com democracia sólida, afinal.

A trama é basicamente o seguinte: Stallworth (John David Washington) se candidata para um posto na polícia de Colorado Springs. O chefão do lugar está disposto a contratá-lo para mostrar o progressismo do departamento, não porque Ron lhe pareça qualificado para o trabalho. Ron sabe o mundo racista em que vive, mas não é politizado. Ele vê um anúncio da KKK no jornal local recrutando novos membros (apenas o primeiro dos absurdos dessa história) e resolve se candidatar. Quando resolvem conhecer o tal Stallworth pessoalmente, o detetive envia o parceiro Flip (Adam Driver) em seu lugar.

Assim se arquiteta o plano. Por telefone, Stallworth mantém contato com os membros da KKK até chegar a David Duke, o Grande Mago da organização baseado na Louisiana, que está usando cargos públicos como meio de permear sua ideologia na política e legislação estadunidense. Pessoalmente, Flip, descendente de judeus, enfrenta a escória da extrema direita em meio a tiros e discursos abertamente xenófobos, racistas e homicidas.

É sempre muito complicado quando um diretor faz de sua obra um panfleto. Ao invés da história conter os elementos que nos levam a reflexão, ele toma uma posição bem demarcada e advoga abertamente por uma “causa”. Spike Lee realmente conta uma boa história com BlacKKKlansman, mas ativista como é, faz questão de colocar várias cenas na história que servem muito mais para traçar um paralelo com os EUA da era Trump do que necessárias para contar a história do negro que se infiltrou no grupo dos gorros brancos.

Embora muita gente possa considerá-lo um filme menor por esse viés mais “partidário”, eu diria que é totalmente compreensível e que aumenta, como um microcosmo, a importância do filme. É uma delícia ver os supremacistas serem enganados daquela forma, mas é terrível ao mesmo tempo acompanharmos as cenas finais de BlacKKKlansman, com filmagens documentais de marchas supremacistas e atentados ocorridos nos últimos dois anos nos Estados Unidos. Há 40 anos ainda havia grupos de ódio prontos para exterminar negros, homossexuais e judeus caso isso fosse possível. Hoje em dia, eles ainda existem e saíram da toca, sentindo-se legitimados pela ideologia do novo ocupante da Casa Branca.

– Mas também, sabe, estou atrás de camaradagem na Klan.
– Que merda cê falou?
– Camaradagem?
– Não, a outra palavra.
– A Klan?
– Sem “Klan.” É “A Organização.” O Império Invisível conseguiu permanecer invisível por um motivo. Nunca use essa palavra. Entendeu?

Aliás, o David Duke que aparece no filme como o cabeça da KKK, também aparece, ainda hoje, como o cabeça da organização, fazendo discurso público aos americanos extremados em Charlottesville.

Se BlacKKKlansman é um bom filme com um fundo panfletário, podemos lembrar do controverso clássico O Nascimento de Uma Nação (1915), filme do começo do século 20 que trouxe uma série de inovações para o cinema e é considerado um épico americano. Contudo, é um filme panfletário também, uma propaganda da KKK. Qual a diferença entre eles, então? Bem, a KKK (e seu filme) divulga uma ideologia homicida. Já o filme de Spike Lee denuncia a existência ontem e hoje dessa ideologia homicida e faz um apelo pelo respeito aos cidadãos, qualquer que seja a cor, a religião ou opção sexual deles.

Como todos os filmes baseados em fatos reais, Infiltrado na Klan toma liberdades para fazer o filme se ajustar melhor à telona e não precisar ter 3 horas de duração. Uma das diferenças que vale a pena mencionar é que enquanto o Ron Stallworth interpretado por John Washington é realmente bem parecido com o Stallworth da vida real, o personagem de Adam Driver pode não ser. Primeiro porque ninguém sabe ainda quem foi o detetive branco que se infiltrou pessoalmente na KKK nesse caso. No livro, ele é Chuck, um codinome apenas, e não Flip. E o fato de Flip ser um judeu não praticante serve para aumentar a carga dramática, já que não há evidência de que Chuck era judeu.

22 de Julho, o mediano filme de Paul Greengrass sobre o atentado extremista de direita na Noruega em 2011, deixa claro que atualmente existem grupelhos radicais espalhados por todo o mundo. Enquanto alguns partem para as vias de fato e outros são para agitação ideológica, há aqueles que esperam impactar a sociedade de dentro das instituições. Eles não querem plantar bombas na casa do presidente para tomar o poder. Querem influenciar a opinião pública e aí sim serem eleitos para mudarem as leis e os rumos de suas nações. No final da década de 1970, a investigação que originou BlacKKKlansman também averiguou a mesma coisa: David Duke estava na política e havia, naquela célula em que Ron Stallworth se infiltrou, pelo menos dois membros do Exército.

É um interessantíssimo caso em Colorado Springs que só pudemos saber que existiu em 2014, quando o Ron da vida real se aposentou da força policial e escreveu seu livro. Spike Lee toma esse episódio da história de uma cidade e o transforma em retrato de seu país. De diversas formas é também retrato do que vem ocorrendo ao mundo.

O segredo como fantasma em A Maldição da Residência Hill

Estava um pouco cético quando comecei a assistir a A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting Of Hill House). Será que esse gênero de terror com casa mal assombrada ainda poderia render algo interessante? De todos os gêneros do terror, esse me parece um dos mais desgastados e só perde, talvez, para os zumbis.

Mas a série original da Netflix prova que o subgênero ainda pode ter fôlego. É aquela velha história: tudo depende de uma boa história para contar e ter o que dizer com ela. A favor da série contam também mais três fatores, os mais determinantes de todos: bons personagens pelos quais você aprende a se importar, bons atores adultos e mirins para dar vida a essas almas torturadas e um diretor que está à frente do projeto do começo ao fim.

Até o quarto episódio eu vi A Maldição da Residência Hill com curiosidade. A partir do quinto eu comecei a realmente ver como a estrutura daquilo tudo se desenhava. O sexto capítulo é maravilhoso, com todos aqueles longos planos sequência e detalhes minuciosos, uma prova da qualidade de todos os envolvidos, da sala de roteiristas à direção de arte, dos atores e do diretor Mike Flanagan à equipe de filmagem que precisou ensaiar todas as etapas do episódio 6 durante mais de um mês antes de sua realização. Fiquei pensando seriamente que a série teria chegado ao seu ápice nesse episódio. Afinal, depois daquela demonstração de verve narrativa, de interpretação e de arquitetura de uma cena em uma série de TV, haveria como se superar?

De fato, em termos de formato, não há como superar o sexto capítulo. Porém, o sétimo confirmou algo que eu vinha sentindo há algum tempo. A série não faz você pular de susto, mas também não fica escondendo que é um terror. Elementos sobrenaturais estão presentes desde o primeiro episódio, sempre em doses suficientes para que se instale uma tensão, e não para te desviar do drama familiar, que é o que realmente importa. Ao terminar o sétimo episódio, senti o ambiente ao meu redor gelado. Não estava arrepiado, mas minha coluna estava rígida. Eu fiquei tenso de verdade.

Aliás, a Residência Hill é rica em fantasmas. A velha e doente Hazel, a insana Poppy, o homem do relógio, Abigail, a mulher do pescoço torto e o homem alto são apenas aqueles que a série escolheu para conduzir a história da primeira temporada. Existem diversos outros que aparecem por brevíssimos momentos, escondidos em cantos escuros dos enquadramentos. Não são exatamente fáceis de ver, mas uma vez que os descobrimos lá, é mais fácil entender a “reunião” deles no último capítulo – além de dar um ar de ainda mais tensão no espectador.

O sobrenatural existe na Residência Hill, como manifestação de forças além de nossa compreensão e como sintomas de culpa e medo. O contraste entre os irmãos Steve e Luke é ótimo. De um lado, um cara que ganhou a vida falando de assombrações e ele mesmo nunca viu uma e nem acredita nessas coisas. É cético mesmo quando a irmã morta aparece na frente dele. E ele tem razão em não sucumbir à histeria. Luke tem uma ligação de gêmeo com Nellie, a irmã que falece. Ele quer ficar bem, quer ficar sóbrio (das drogas e da superstição), mas acredita na manifestação sobrenatural lá no fundo do seu eu. Steve e Luke somos todos nós, afinal, quando o desconhecido se apresenta. São fantasmas ou vestígios de alguma doença mental?

Doença mental é outro aspecto evocado a todo momento em A Maldição da Residência Hill – e não é evocado apenas para despistar as ocorrências sobrenaturais. Mike Flanagan, o criador, realmente deixa o tema fluir, como no episódio 3, focado em Theo, a psicóloga, que ilustra com muita habilidade como uma criança pode processar um abuso e transformá-lo em algo metafísico. A irmã Shriley representa sobriedade e controles brutais, mas desde cedo é possível perceber que algo não está exatamente certo com ela. E a assombração relacionada a ela é outro exemplo de manifestação gerada por uma culpa ocultada por seu orgulho e vergonha.

É um bom terror pela tensão e por ser, acima de qualquer coisa, a história de uma família. De forma completamente alinear vamos juntando pedaços de histórias e entendendo quem é o que e quem fez o que e quando. Isso vale para os irmãos, para os pais, para alguns dos fantasmas e para a própria casa mal assombrada. É um labirinto pelo qual Flanagan nos conduz. Em seu final, é preciso estarmos atentos para perceber que a mãe Olivia – vivida pela ótima Carla Gugino – é a chave de tudo que nos intriga mais. Ou melhor, a maternidade e o peso de suas responsabilidades pode ser tanto uma benção como uma maldição (um tema que é bem comum em várias histórias de terror, como O Bebê Rosemary e Alien, o 8º Passageiro, entre tantos outros).

No oitavo episódio há um diálogo excelente entre Theo e Shirley após alguns eventos traumáticos. Theo tenta explicar à irmã o que é ser tomada pelo mais escuro vazio e sentir o mais absoluto nada. Isso ressoa na ideia em uma das ideias de terror mais profundas analisadas por Eugene Thacker em In The Dust Of This Planet. É interessante que A Maldição da Residência Hill acabe tentando por em palavras algo que é impossível de ser ilustrado, mas que está em sua história.

Várias dimensões do terror colidem na série. Os mortos assombram a família Crain. A doença mental também. Mas a metáfora usada que é a grande sacada dessa história são os segredos que a família guarda e que acabam virando fantasmas em suas vidas. Quase todos eles têm algo a esconder. E o que permanece oculto é o que castiga suas vidas. No caso de Steve, o cético, isso se manifesta como fim de um casamento. Para Shirley, que se preocupa em ser a fortaleza moral da família, seu segredo se manifesta como uma alucinação. Em alguns casos, como no dos gêmeos Luke e Nellie, há uma somatória de sobrenatural, segredo e doença mental.

Fantasmas escondidos nos enquadramentos, segredos e uma casa enorme com um quarto fechado. Uma série que te resume todo o drama logo no primeiro episódio, mas que precisa percorrer os outros nove para te dar um panorama mais completo. Roteiro e montagem, assim como aspectos da direção de arte, se comportam como um labirinto. O mesmo que está na abertura de Maldição da Residência Hill. Tudo isso sem pesar demais a mão e sem soar hermético, mas exige que você tenha atenção aos detalhes.

Sabrina contra o patriarcado e o “problema” da fé

Quem diria que um seriado adolescente como O MUNDO SOMBRIO DE SABRINA (Chilling Adventures of Sabrina) colocaria o dedo ardendo com as chamas do abismo na ferida aberta das religiões?

Embora seja baseada na personagem dos quadrinhos da Archie Comics, como aquela outra Sabrina Aprendiz de Feiticeira dos anos 90, esta nova Sabrina Spellman se baseia numa renovação mais encapirotada da garota. Além do nome, das duas tias (Zelda e Hilda) e do gato preto Salem, o clima, as aventuras e as magias são totalmente diferentes. A nova Sabrina da Netflix vai à floresta durante a noite para escrever seu nome – com seu próprio sangue – no Livro da Besta, conjura espíritos e cruza linhas entre a vida e a morte que a Aprendiz de Feiticeira jamais sonhou existir.

Sabrina é interpretada por Kiernan Shipka (quem acompanhou Mad Men viu essa menina crescer) que é uma fofa. Sua família é devotada à magia, falam de necromancia e citam o Demonomicon na mesa do café da manhã. Ela se lava com água e sabão como um tipo de banimento para afastar uma possível maldição e faz projeção astral. Embora exista algo de Harry Potter na série (a protagonista perdeu os dois pais e é tratada pelo próprio Satã como uma espécie de Escolhida em formação que precisa frequentar uma escola de bruxaria), existem características que fazem a personagem se destacar.

Para começar, Sabrina Spellman é uma bruxa que veio para contestar o status quo – no mundo mágico e profano. Ela tem uma amiga negra, uma amiga com disforia de gênero (que não se identifica com seu corpo biológico) e um primo feiticeiro abertamente gay e que não é representado em momento algum de forma caricata. Juntos, questionam o patriarcado na escola, em suas vidas particulares e em suas religiões. Há um diálogo logo nos primeiros episódios em que a tia Zelda pergunta se o namorado de Sabrina à deflorou, pois as bruxas devem comparecer ao seu peculiar batismo com a virgindade preservada para o Senhor das Trevas. A garota retruca: “Por que ele tem que decidir o que faço com meu corpo?”

Os dogmas e as fés cegas são colocadas em xeque também. Se a sua igreja cristã ainda mantém regras rígidas e vetustas a serem seguidas, o coven da Igreja da Noite do Mundo Sombrio de Sabrina também tem suas regrinhas doutrinárias e moralistas que parecem incidir com especial peso sobre as mulheres. Mas Sabrina contesta essas regras, um misto da petulância adolescente e crítica social/religiosa.

– Mas eu quero as duas coisas. Quero liberdade e poder.
– (risos) Ele nunca te dará isso. O senhor das trevas. A ideia de você ou qualquer uma de nós ter isso o aterroriza.
– Por quê?
– Ele é homem, não é?

Essa inversão de polos é realmente interessante. Embora a religião das bruxas seja um pouco estereotipada, há uma parte dela bastante chocante para quem assiste esperando emoções mais amenas para o público jovem. Há canibalismo, há decapitações, há assassinato, há tia Zelda dizendo “Satã seja Louvado”, há uma enorme estátua de Baphomet bem no meio do pátio da escola. Pais conservadores e cidadãos de bem, escondam seus filhos! Ainda assim, essa religião das bruxas é representada como uma contraparte das religiões monoteístas mainstream.

Existe um momento, logo no terceiro episódio do seriado, em que parece que toda a parte mais encapetada vai se resolver na moral cristã, o que tornaria o sombrio mundo de Sabrina muito menos diabólico. Mas como é um seriado dos mesmos produtores de Riverdale, temos alguns subterfúgios mal planejados e desenvolvidos às pressas para colocar o roteiro no trilho que desejam (não dá pra exigir o mesmo nível sofisticação de Better Call Saul em tudo que a Netflix lança, afinal). Porém, há pelo menos quatro situações em que Sabrina escolhe o caminho das bruxas e da magia negra – e não o do cristianismo – para resolver seus problemas.

CHILLING ADVENTURES OF SABRINA

Em um deles, ela precisa fazer um exorcismo, mas exorcismo é coisa de padre católico, bruxas não são ordenadas para isso. Achei realmente que ela recorreria a um sacerdote, mas encontraram uma forma de realizar o ritual (a série é cheia de rituais, aliás) apenas com bruxas. E bruxas mulheres invocando outras bruxas mulheres, reais ou fictícias. Uma das cenas mais emocionantes da série do ponto de vista de contestação do patriarcado.

As tias de Sabrina, Hilda (Lucy Davis) e Zelda (Miranda Otto) me lembraram demais o temperamento de Caim e Abel em Sandman, do Neil Gaiman. Elas são parte essencial da atração, seja para a comédia funcionar, principalmente com Hilda, ou para o dogma da Igreja da Noite se fazer presente e atuante na casa da família Spellman – função que cabe a Zelda. Já a Sra. Wardwell (Michelle Gomez) desempenha um papel extremamente ambíguo que é muito bem-vindo, embora pareça conveniente demais em boa parte da trama.

Em Sabrina, a protagonista é impetuosa e acha que tudo vai se curvar à sua vontade. E em boa parte das vezes, ela acha a forma de fazer valer seu desejo e o que julga certo, mesmo que para isso tenha que usar métodos do lado sombrio da força. Contudo, ela é uma heroína que falha e que precisa aprender com os erros. E mesmo seu maior erro de cálculo humano e mágico na primeira temporada abre a porta para a transformação que Sabrina precisa para preparar o terreno narrativo do segundo ano. Ao que tudo indica, a luta contra o patriarcado vai voltar com ainda mais força e propósito.

Não é um seriado perfeito. Ao mesmo tempo que o roteiro tenta encontrar saídas mais adequadas ao tal “mundo sombrio” de Sabrina, às vezes toma atalhos incômodos. Contudo, mesmo que seus personagens religiosos sejam de uma igreja satânica, a demonstração da moral religiosa e da fé que molda pessoas e dá sentido a tantas existências é o há de mais acertado na série. Afinal, a dualidade entre obediência à liturgia e seguir a vontade individual existe em todas as comunidades religiosas. De forma espelhada – ou invertida, como é mais o estilo do diabo – O Mundo Sombrio de Sabrina fala a qualquer um que sentiu o peso da ideologia (da cruz, da lua, da estrela, da Nova Era, do pentagrama) e, por isso, o programa serve à sua mesa os problemas da fé na modernidade.

A princípio, Sabrina seria um seriado irmão de Riverdale. Além do mesmo produtor, a mesma equipe que trabalhou atrás das câmeras em um, assumiu as filmagens do outro. Mas ao ser adquirido pela Netflix, o cordão umbilical entre as duas foi cortado. Embora um crossover não esteja confirmado, a primeira temporada de Sabrina já deixa claro que está no mesmo universo de Riverdale.

MANDY e a arte do terror trash (com Nicolas Cage)

A primeira imagem de MANDY é uma epígrafe em que alguém pede para que seja enterrado com fones de ouvido e falantes de som, para que assim possa curtir o rock’n’roll mesmo na morte. Como um filme, mesmo que estrelado por Nicolas Cage, pode dar errado se já entramos nele com essa imagem de um cadáver roqueiro? E enquanto os créditos de abertura rolam, toca a melancólica “Starless”, da banda progressiva King Crimson. Uma escolha rara dessas não tem como ser mero acaso.

O filme é uma aula de como recuperar o terror trash dos anos 80 como arte. Pense em filmes como A Morte do Demônio, O Massacre da Serra Elétrica e Fome Animal. Filmes nichados como esses viraram cult misturando medo, gore, produção mambembe e humor involuntário. Mandy

Primeiro, as cores. Todas saturadíssimas. Às vezes, azul e vermelho se sobrepõem. Às vezes, temos alto contraste entre o vermelho e o negro da noite. Não é a toa que o protagonista se chama Red e Mandy, sua esposa, usa uma camiseta do Black Sabbath. A textura é marcante também. Cada frame tem uma granulação digital linda que não fica aparente o tempo todo. Mas quando ela se destaca, em especial em uma cena com a cara de sofrimento de Nicolas Cage, é preciosa.

A personagem Mandy, vivida por Andrea Riseborough, tem pouco tempo de tela, mas o suficiente para você ver que é uma baita atriz em um filme trash. O vilão Jeremiah Sand, interpretado pelo inglês Linus Roache, é um dos melhores em filmes de terror recentes. Um líder cultista que parece um misto entre Aleister Crowley e Charles Manson, com um acorde de Alice Cooper.

Sabe qual foi o maior erro de Jesus? Ele não ofereceu um sacrifício ao invés de se oferecer. E a cruz é um lembrete constante disso.

Já o suposto protagonista, Nicolas Cage, não deve ter nem 10 falas no filme todo e sua atuação canastrona cai como uma luva ao filme, se equilibrando perfeitamente naquela tênue linha entre o grotesco, o ruim e a pura arte de atuar em uma produção de baixo orçamento. Cage consegue calibrar sua atuação para ser intensa e exagerada como Mandy precisa. Estamos diante de um grande ator que fez muitos projetos ruins ou de um ator ruim que conseguiu colocar sua limitação a serviço da gloriosa estética trash?

O diretor ítalo-canadense Panos Cosmatos (que fez Beyond The Black Rainbow) foi genial ao conseguir Cage para o papel. Conhecido por não fazer filmes bons, entra de cabeça em Mandy. Se ele é bom ou não, não há porque discutir agora. O fato é que ele acerta em cheio. Seus gritos, choros, expressões de maníaco e de fúria são as melhores que uma homenagem dessas poderia produzir.

Mandy é tão trash quanto qualquer outro filme trash dos anos 80 foi. O que o diferencia, porém, é a tremenda verve com que o diretor Panos Cosmatos o dirige, respeitando os tropos do estilo (tem sangue espirrando na cara, tem machadada, tem motoqueiros demoníacos, tem um religiosismo estranho e tem até uma luta de motosserras) e com um controle imenso das imagens que produz. Mandy não é o filme que de tão ruim dá a volta e fica bom. É justamente o contrário: o trash elevado à categoria de arte.

– O que você vai caçar?
– Evangélicos.
– Não sabia que era temporada deles, cara.

A trilha sonora é do islandês Jónhann Jónhannsson, que faleceu este ano. O filme só estreou nos cinemas em setembro, mas em janeiro foi exibido em Sundance. É uma das últimas trilhas de Jóhannsson, que mistura guitarras e baixos de heavy metal aos sons de drone e sintetizadores.

Como todo filme cult, ou em processo de se tornar um cult, Mandy pode não cair no gosto de todo mundo. É bem violento e uma cena em especial é terrivelmente cruel. Contudo, nada gratuito como aquela famosa cena de estupro demoníaco em Evil Dead 2. Se seu olhar gosta de filmes com estilo e sua alma é atraída pela perversidade de quem mexe com o desconhecido e já está à beira da loucura, Mandy vai satisfazer sua sede de catarse de punição moralista.

APOSTASIA e o problema do dogma

Apostasia é o ato de renunciar a uma crença, a uma religião, à fé em alguma coisa. APOSTASIA (Apostasy, 2017) É também um dos filmes com temática religiosa mais interessantes que vi este ano, ao lado de First Reformed e Desobediência.

Apostasia é uma interessante reflexão sobre a religião e seu papel cultural determinante na vida de uma família. Nessa família, Ivanna (Siobhan Finneran), a mãe, é a guardiã dos valores tradicionais dos Testemunhas de Jeová. Segue as regras, por mais que elas a atinjam e pareçam injustas. A filha mais velha, Luisa (Sacha Parkinson), está na faculdade e tenta manter as aparências na comunidade religiosa e no âmbito familiar. Mas se permitiu observar o conjunto de regras de sua congregação de fora e pensar criticamente sobre elas, enxergando assim suas inconsistências.

Mas, ei, estamos falando de uma religião e, como qualquer dogma, trata seus ditames como indiscutíveis. A errada, assim, sempre será Luisa. E como nenhuma pessoa da Trindade cristã vai descer dos céus para mediar esse embate, Luisa é quem tem algo a perder. Ela não quer se desfazer da religião em que foi criada, mas sua vida, e até suas crenças mais profundas, já não se adaptam às regras. E aí há uma crítica muito válida: o problema não é acreditar na existência de Deus ou no Novo Mundo da liturgia dos Testemunhas de Jeová. São as regras ditadas e controladas pelos anciões (pastores) que constituem o verdeiro entrave. Algo ali não reflete o texto bíblico fundamental. E temos a irmã mais jovem, a doce Alex (Molly Wright).

Os Testemunhas de Jeová são proibidos pela religião de fazer transfusão de sangue – ou então, mais recentemente, são permitidas transfusões em quantidades e frequências muito menores do que as recomendadas pela medicina. Esse é um assunto delicado dentro e fora de seus salões, mas não faltam relatos de crentes que preferem morrer ou ver um familiar morrer do que sobreviver descumprindo uma regra básica de sua igreja. Alex é anêmica e sofreu uma transfusão em uma situação que ninguém podia controlar. Ela meio que se martiriza por isso. Ela tenta ser a Testemunha de Jeová exemplar, mas esse detalhe a deixa em dúvida de seu valor para Jeová.

Essa família será desfeita e as crenças serão colocadas sobre a mesa e em debate. Apostasia tenta ilustrar as contradições mais básicas dessa crença. Vale a pena se apegar a um dogma tão firmemente e deixar que isso mate uma filha e afaste a outra para sempre?

Embora seja o primeiro filme do diretor Daniel Kokotajlo, ele não trata suas personagens como estúpidas. Luisa, a filha que deixa de acreditar, ainda quer fazer parte, mas entende que se dobrar às regras não fará bem a ninguém, sobretudo se você é uma mulher. Alex, a filha mais nova, entende a crítica aberta que a irmã representa e tenta, mesmo assim, seguir sua religiosidade. Não há mocinhas e bandidas em Apostasia, mas Alex é a maior vítima da religião e onde se concentra tanto a crítica do filme no suposto obscurantismo dos Testemunhas de Jeová (quanto a regra que não permite tratamentos de saúde que poderiam salvar vidas) como também a prova de fé pela qual a mãe passará.

Sabe, essas coisas todas sobre sangue… na Bíblia, o Corpo Governante simplesmente inventa e depois muda sempre que querem. Mas as pessoas morrem.

Ivanna não vai abandonar a fé, o salão e os anciões. Não quer abandonar a filha mais velha também. Tenta prospectar uma interpretação mais flexível e “humana”, como ela mesmo pede, para as regras. Mas fundamentalistas são fundamentalistas. A fé, no fim, pode te salvar. Mas quem é que sabe se a história será mesmo como pregam os panfletos dos Testemunhas de Jeová?

Kokotajlo foi criado ele mesmo como Testemunha de Jeová, mas abandonou a igreja e mostra alívio com isso. Havia um controle de pensamento e de acesso à cultura que parece acachapante quando lhe é dado, em algum momento, a oportunidade de conhecer novas abordagens e escolher entre elas ou encará-las criticamente.

Apesar de confrontar a religião, Apostasia não é, em momento algum, panfletário. Mas ele deixa bem claro o seu ponto. A fé não precisa necessariamente ser descartada. Contudo, existe uma fronteira (constantemente embaçada por padres, pastores, anciões, etc) entre uma vida espiritual e as leis de uma instituição. Pregam que as “leis” da espiritualidade (a fé) se sobrepõem às regras da instituição, mas o que geralmente ocorre é o inverso: ou se obedece as regras da igreja ou então nossa fé o rejeitará. A apostasia, dessa forma, não toma a forma da recusa da fé em Jeová, no Armagedom, no Novo Mundo, e sim uma recusa da lei criada pelos homens.

Aliás, essa história tem foco sobre três mulheres. Dizer que são as leis dos homens que realmente valem nesse terreno não é só jeito de falar.

Falando do clipe: LSD – “Thunderclouds”

Não sou fã da SIA e nem de Diplo, embora existam músicas boas no catálogo dos dois. Agora juntos e turbinados pelo Labrinth, que eu não conhecia, o LSD tem uma proposta comercial, colorida e pop.

“Thunderclouds” é uma música que já ficou famosa por figurar no comercial do Galaxy S9. É uma canção bem simples, mas extremamente cativante. O clipe que fizeram para ela é incrível e a melhor tradução do que o LSD pode ser como um powertrio do pop.

Diplo é o piloto de um carro estiloso e voador. A imagem do olho na porta já deixa claro que essa turma é da magia. SIA é uma artista que não gosta de dar as caras, então é representada por uma marionete. A bailarina Maddie Ziegler, que representa SIA em seus clipes desde tenra idade, é a jovem de olhos curiosos que tem muito a aprender. Labrinth é o magão do pedaço que vai tentar conduzir essa jovem, e a turma toda por tabela, pelas adversidades. Mas SIA só se completa e se apresenta ao mundo quando se fundo a Maddie, criando uma metalinguagem muito interessante não só para o significado do vídeo, mas para a carreira da cantora australiana também.

O canal Explica Pop fez uma ótima interpretação do clipe.

Maddie, após se fusionar com SIA, dança aquele contemporâneo bem orquestrado com sua atuação que sempre deixa o público de boca aberta. Labrinth se mostra um excelente cantor, segurando no peito as notas mais altas. E SIA usa aquele vocal range de uma forma bem característica, transformando até certas palavras mais em sons do que em palavras mesmo.

Clipes com muito CGI e tela azul geralmente soam artificiais e frios, mas “Thunderclouds” conseguiu superar as duas barreiras. Embora seja 80% computação gráfica, é lindo de ver em sua proporção superwide e dá pra comprar fácil essa ambientação fantástica. Já devo ter visto umas 10 vezes o clipe e ainda o acho uma das melhores coisas que o pop produziu em 2018.

Bojack Horseman: 5ª temporada é um pedido de ajuda

Nem sempre as temporadas mais bem estruturadas são as melhores. Acho que a quinta temporada de BOJACK HORSEMAN não supera a terceira em termos de como pode ser sombria e despirocada, mas é a temporada que, até agora, me parece a mais madura.

O seriado sempre teve a metalinguagem em seu DNA. Uma série na TV sobre um ex-astro de seriados da TV vivendo em Hollywoo(d) e tentando viver a vida de forma hedonista recheada de autossabotagem. Uma ironia meio surreal, como só desenhos conseguem fazer, da vida real de astros em Los Angeles e seus problemas. Piadas com atores reais são recorrentes.

Na quinta temporada, BoJack consegue finalmente um emprego em Philbert, uma nova série de TV policial. Aí a metalinguagem se completa: um seriado falando sobre um seriado e como ele é feito, com todas as inseguranças e incertezas, questões de ego e dificuldades criativas entre roteiristas, produtores e atores. Isso é muito bem feito ao longo da temporada, pois há piadas e ironias com todo o processo de criação de uma série. Nada escapa aos olhos do roteiro: desde os problemas para financiar uma produção e como se comporta o mundo de CEOs do entretenimento até o flagrante machismo e como ele acaba sustentado pelas atrizes que, embora expostas a isso, se apegam ao fato de terem um papel que pague as contas.

Mas para quem vinha acompanhando BoJack, vê-lo trabalhando é uma novidade. Por quatro temporadas tudo o que ele fez foi covardice e autossabotagem, agindo com cinismo e niilismo. É um homem/cavalo empático, mas abre mão da empatia em favor de seu egoísmo e idiossincrasias. Dessa vez, embora continue com suas bojackices, ele se propõe a fazer algo e vai até o fim. É ao final desse processo que a série deixa ele mais solto para ser a existência caótica de sempre. Mas senti um respiro nesta temporada. É o mesmo BoJack, mas menos previsível.

O Sr. Peanutbutter (ou Manteiga de Amendoim) passa por algo parecido. É o mesmo cachorro de sempre, mas pela primeira vez senti um aprofundamento de sua consciência sobre o que fez e o que ainda faz. Tem todo o imbróglio com sua nova namorada e aquele maravilhoso episódio das festas de Halloween (“Mr. Peanutbutter’s Boos”) que, pelo menos para mim, colocou uma nova camada sobre a personalidade dele, melancolicamente, acabou fazendo com que pelo menos eu me identificasse em algum grau e enxergasse meus próprios erros.

Eu passei pelo mesmo quando o meu pai morreu e estou passando pelo mesmo agora. É tipo aquela série Becker, com o Ted Danson. Eu vi a série inteira achando que ia melhorar, mas não melhorou. Tinha tudo pra dar certo, mas fizeram dar errado. Quando cancelaram, fiquei muito chateado. Não por gostar da série, mas por saber que podia ser bem melhor.

Mas já era, e perder os pais é assim.

A Princesa Carolyn é outra que desde a quarta temporada tem tido um arco bem interessante e que chega ao completo destaque agora. Workaholic pra caramba, ela tenta manter a carreira em dia e lida com a vontade de exercer a maternidade. Ganha um episódio só seu praticamente (“The Amelia Earhart Story”) e vemos, sem sombra nenhuma de dúvidas, como ela já é uma mãe para todos aqueles adultos que ficam no pé dela e não sabem lidar com aspectos de sua vida. Mas isso não é ser mãe. Isso são os outros não sendo adultos ou bem resolvidos ou confiantes o suficiente.

E aí temos o “Free Churro”. O longo monólogo de BoJack ao lado do caixão da mãe. 20 minutos de câmera congelada no Cavalo-Homem. A gente acha que vai ser de partir de o coração, e é mesmo, mas no meio o personagem não consegue nem na morte da mãe deixar de fazer bojackice. A gente entende a mágoa dele que leva ao cinismo e percebe que o cinismo dá lugar ao buraco que ficou ali no lugar do peito durante a vida dele. E aí o roteiro dá aquela virada nos últimos segundos, só para nos lembrar que estamos no mundo do desenho animado BoJack Horseman. Se cabe algo derivado dos Grandes Dramas da TV, cabe algo de surreal das sitcoms mais manjadas.

Não achei a quinta temporada tão pesada quanto à quarta, mas não é porque o roteiro não lide com questões difíceis e deprês. É que os episódios estão melhor estruturados para contrapor uma sensação à outra. Ou então uma situação, por pior que seja, é enquadrada com um humor retardado de desenho animado. Mas há cenas que tratam de coisas seríssimas que acabam fugindo a essa regra. Uma delas é a da nudez frontal de BoJack na série que está gravando. Outra é a da briga com sua parceira de cena, Gina Cazador, que prefere deixar o cavalo escroto se safar para não virar mais uma vítima aos olhos do público e da indústria do entretenimento.

Os personagens apresentam desenvolvimento, mas não resolução. A imagem de Diane dirigindo ao final é icônica, emoldurada pela canção “Under The Pressure” do The War On Drugs. Peanutbutter deixa sua personalidade falar mais alto que sua razão e que seu coração. BoJack acaba aceitando seu problema de saúde mental, mas conhecendo a figura, já podemos prever como seu cinismo tratará seu corpo e sua mente na sexta temporada.

A crítica ao entretenimento americano, aos seus personagens da vida real e aos seus meios de produção, está mais aguda do que nunca, já que a metalinguagem atinge seu ponto máximo. Diria que é uma crítica ao “way of life” americano também, mas isso quase todas as séries dramáticas conseguem ser também. Agora penso que cada passo em falso de BoJack é um pedido de ajuda e que nós, se nos identificarmos um pouco que seja com ele, também precisamos de ajuda.

Bojack. I see you!

Noite de Lobos: mistérios e famílias

O maior problema de NOITE DE LOBOS (Hold The Dark) é não se desenvolver tão bem quanto poderia. Final aberto para interpretações e que se desvia de clímax moralista geralmente são ingredientes que fazem o público sair perplexo do cinema, talvez acreditando que nada mais importa, que tudo está condenado, que somos incapazes de mudar o absurdo da vida. Um filme que acerta em cheio nisso, por exemplo, é Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Cohen. Noite de Lobos poderia acertar mais, caso as duas horas que viessem antes do final fossem melhor construídas.

Medora Sloane (Riley Keough) perde o filho logo na primeira cena. Vive em uma vila no interiorzão do Alasca. O marido está na guerra do Iraque. Ela contrata o escritor e pesquisador de lobos Russell Core (Jeffrey Wright) para vingar o filho. O homem aceita mais por empatia ao luto da mãe do que por convicções profissionais. Mas era tudo uma armação e há intrigas antigas e macabras correndo pela vila e pelo sangue da família Sloane.

Isso é o que mais irrita em Noite de Lobos. Os elementos espalhados pela narrativa dariam um ótimo filme: lendas do Alasca, metáforas familiares, rituais e magia, talvez problemas psicológicos. Mas o diretor Jeremy Saulnier e o roteirista Macon Blair jogam tudo para o alto e não apenas não conectam os elementos de forma convincente como parece que a produção inventa cenas que, fundamentalmente, não servem para muita coisa a não ser colocar mais um corpo no caixão.

O filme tenta fazer com que tenhamos compaixão por todos eles. O protagonista é um cara esperto, mas meio sem sal. Alexander Skarsgård, de poucas palavras, é mais frio que o Alasca inteiro interpretando Vernom Sloane. Temos inclusive um tiroteio lá pela metade do filme, uma cena violenta e enorme, que dá um destaque desmedido a um personagem secundário que não acrescenta quase nada à trama ou ao nosso entendimento daquele mundo e daquele contexto misterioso.

A fotografia tenta fazer jus ao nome do filme em inglês e investe em cenas escuras em 70% do tempo. É uma tentativa de conseguir expressar a escuridão dos personagens e dessa história macabra. Porém, no final das contas, pode parecer que a fotografia quer jogar sombras sobre as muletas do roteiro para manter o mistério da trama.

Talvez não sejam muletas de roteiro e todos os elementos ali façam sentido (as máscaras, o demônio-lobo, o sangue da família, a morte da criança, o símbolo escrito em sangue no caixão). Nesse caso, o filme pode achar que está sendo maduro o suficiente para apontar caminhos e o espectador que se vire para pesquisar a cultura indígena do Alasca e descobrir sozinho as ligações.

Temos duas certezas, afinal. 1) A mãe, Medora, é talvez a personagem mais interessante e a que melhor temos sede de entender. Curiosamente, de todos os personagens, é a que tem menos tempo de tela. 2) Trata-se de uma história sobre família e os diversos processos que nos conectam aos nossos entes queridos. Tudo que ocorre, ocorre senão para que Core possa se religar à sua filha. Se tem alguém que é “salvo”, é Core. O que realmente importa ao filme não tem nada a ver com a mística que Saulnier tenta filmar, e sim com as famílias, suas (des)conexões e suas gerações. Por isso, por mais pessimista que possa parecer o final, há algo nisso tudo que deu certo.

Não é um significado final ruim, de forma alguma, e até expande a proposta do diretor. Mas há tropeços demais de desenvolvimento que fazem a conclusão soar deslocada.

O Alasca é uma locação e tanto para este filme, no entanto. Tem a questão das grandes distâncias, das dificuldades e escassez de recursos que torna tão difícil a sobrevivência de uma família de lobos quanto a de humanos. Ao mesmo tempo, ir ao Alasca caçar um lobo é a desculpa de Core para, quem sabe, dar uma olhada na filha.

Originalmente, Noite de Lobos iria ser distribuído pela A24, mesma empresa que lançou A Bruxa e Hereditário. Mas pouco antes de começarem a filmar, a Netflix comprou os direitos de distribuição. Porém, antes que estivesse na Netflix, estreou no Festival de Toronto. O roteiro é baseado no livro de William Giraldi de mesmo nome. Em janeiro deveremos ver o novo trabalho de Saulnier: ele é o responsável pela direção dos dois primeiros episódios da terceira temporada de True Detective.

Falando do clipe: Rubel – “Colégio”

“Colégio” é a música que abre Casas, o novo álbum do Rubel, um jovem carioca que ainda precisa ser descoberto pelo grande público. Eu o conheci este ano, quando Casas foi lançado e ao mesmo tempo resenhado pelo Gabriel Sacramento no Escuta Essa Review e me indicado pelo Guilherme Hazin, que estudou no mesmo colégio de Rubel e participou de dois podcasts do EER. Casas nunca mais saiu do meu Spotify e “Colégio” é a minha faixa preferida.

É extremamente poética. Uma bossa para um artista que faz rap (mas não só). É delicada, carregada de sentimento. E ainda por cima é completada por “Cachorro”, a faixa seguinte, que não ganhou clipe, mas está na minha playlist para o Moby, meu cão.

O clipe de “Colégio” é uma maravilha. O banheiro da escola vira muito mais que um espaço de confissões. É na privacidade sufocante dele que acontece o amor que não pode estar no pátio, o medo e a insegurança que não convém deixar às claras, a ansiedade, a raiva, a felicidade, a cola da prova, os entorpecentes, e por aí vai. Um pequeno universo de refúgio para o que não aparece quando esses mesmos alunos estão em sala de aula.

Essa conotação de espaço íntimo e/ou sufocante do banheiro da escola é reforçada pelo formato em que Rubel decidiu filmar a produção. Ele ignorou o widescreen e optou pela proporção 4:3, deixando as cenas mais estreitas.

Como o próprio Rubel diz: “Esse clipe partiu de uma pesquisa que fizemos com mais de 100 adolescentes de escolas públicas e privadas, de todo o Brasil. Em quase todas as conversas surgiam a mesma resposta: eles e elas queriam ser vistos e ouvidos. Eles e elas não sabiam com quem conversar. Nem com os pais, nem com professores e nem mesmo com outros alunos. Esses assuntos precisam sair do banheiro.”

A mesma sensibilidade que ouvimos na música está no clipe, mesmo que o vídeo ilustre situações preocupantes, ele é capaz de evocar a nossa empatia por cada um desses estudantes.

Maniac acerta na psicodelia narrativa

MANIAC, nova série original da Netflix, se beneficia de alguns fatores que não podemos deixar de lado. Em primeiro lugar, a visão do criador, roteirista e produtor Patrick Somerville parece ter recebido um tipo muito especial de carta branca. Enquanto muitas séries da Netflix são feitas pensando em nichos de público, me peguei vendo cada episódio e tentando adivinhar qual teria sido o público-alvo na mente de Somerville quando apresentou o projeto.

Em segundo lugar, o talentoso Cary Joji Fukunaga dirigiu todos os 10 episódios. Séries geralmente entregam roteiros a diretores diferentes para que o ritmo das gravações seja agilizado. Assim, cabe aos produtores manterem o padrão de qualidade e identidade visual do programa. Como Fukunaga (que também dirigiu os 8 episódios da primeira temporada de True Detective) também é produtor executivo de Maniac, sua direção é menos um ato de transposição do roteiro e mais um tipo de assinatura estilística mesmo.

(Quem viu True Detective lembra de um plano sequência espetacular e tenso que Fukunaga concebeu no episódio 4. Em Maniac, ele faz outro plano sequência cheio de cor, movimento, coreografia e graça no episódio 9. Imperdível!)

Isso garantiu uma cara muito própria e original à Maniac. Essa primeira temporada se passa em uma Nova York de hoje, mas com elementos do futuro embalados na estética oitentista. É retrofuturismo e não demora nada para percebermos que é cyberpunk também (uma subdivisão da ficção científica que curiosamente tem sido bem debatido neste site aqui, aqui e até aqui).

ENREDOS DENTRO DO ENREDO

Maniac acompanha uma parte transformadora da vida de Annie Landsberg (Emma Stone) e Owen Milgram (Jonah Hill). Annie perdeu a irmã mais nova em um acidente e não conseguiu se livrar do trauma. Além disso, está viciada em um remédio que nem chegou ao mercado ainda. Owen sofre de esquizofrenia, é o filho menos notável de uma família e precisa testemunhar a favor de um irmão que pode não ser um santo na história. Eles se inscrevem em um experimento farmacêutico que mistura psicanálise, behaviorismo, psiquiatria, neurologia, inteligência artificial e que promete trazer à tona o trauma mais expressivo de cada indivíduo, limpar suas barreiras mentais e então confrontá-los com o problema, levando-os à cura.

Embora essa seja a linha mestra da série, há diversos outros enredos  paralelos e narrativas dentro das narrativas se desenvolvendo de uma forma bem psicodélica. Não é exatamente difícil acompanhar a série, mas seus personagens, durante as fantasias/sonhos que vivenciam no experimento, vão de um excêntrico ritual espírita à uma floresta povoada por elfos, de uma vida suburbana americana à uma vida como mafiosos. É uma loucura que quebra a expectativa do espectador. Contudo, com a mão firme e segura de Somerville e Fukunaga, todas essas experiências narrativas nunca se desviam do que a série pretende contar, seja no plano mais superficial ou em seu substrato mais profundo de significado.

– E daí se viu coisas que não estavam lá. As pessoas veem alienígenas, ouvem vozes, veem fantasmas.
– Isso é diferente. Minha mente… não funciona direito.
– A de ninguém funciona.

Todos os enredos – que na verdade são um só – estão recheados de humor negro. Nada que te faça gargalhar, mas está lá aquele tom cômico que não deixa a tristeza dos personagens pesar demais. Certas sequências são um pouco exageradas de propósito, fazendo a série ter um ar meio galhofa mesmo. E a violência não é onipresente, mas quando acontece deixa sangue espalhado pelos rostos, roupas, paredes e banheiras do cenário.

Além de escritor de dois romances e principal roteirista de Maniac, Patrick Somerville fora roteirista de alguns episódios da ótima The Leftovers. Ou seja, ele já está acostumado a escrever para séries viajadas, mas que devem ser firmes no seus significados. Além disso, trouxe da série da HBO para a Netflix o ator Justin Theroux.

EMMA & HILL

Emma Stone começou a carreira cinematográfica em Superbad (2007), filme adolescente que também deu reconhecimento à Jonah Hill. Nesse filme, os dois atores interpretavam jovens que não sabiam muito bem como fazer o que queriam e, ao final da história, isso era o que mais nos conquistava em ambos. Hoje, os dois são reconhecidos grandes atores de cinema. Maniac é, sem dúvida alguma, um dos melhores trabalhos de atuação dos dois.

A Maniac da Netflix é baseada numa série norueguesa de mesmo nome, mas a produção americana mudou vários elementos da original. Para começar, a série escandinava tinha apenas um protagonista masculino. Quando conseguiram contratar Emma Stone, encontraram um jeito de Annie e Owen terem peso igual na narrativa e, mais do que isso, complementares.

Um paralelo interessante é que em Superbad, por mais que houvesse um interesse romântico rondando os personagens de Stone e Hill, eles terminavam o filme como amigos, sem consumar nada. Em Maniac, o arco de ambos confia muito mais numa amizade que os ajuda a superar e entender seus dilemas do que em interesses amorosos.

CONEXÕES

Além dos paralelos com Superbad e com a série norueguesa, Maniac tira proveito de diversas outras obras. Há um computador e uma inteligência artificial que foi programado a partir da personalidade de uma mulher, mãe de um dos cientistas que criou o teste farmacêutico a que Owen e Annie são submetidos. No anime Neon Genesis Evangelion, lá de 1995, um supercomputador também incorporou a “alma” e a personalidade da mãe de uma das cientistas que operava a máquina.

Toda a conexão das cobaias e seus sonhos (ou reflexos) remetem aos simstims de William Gibson, que antecipou a realidade virtual como um ambiente de ciberespaço. O próprio retrofuturismo da série é muito palpável hoje quando lemos Neuromancer (1983), sem falar que todo o teste, em território americano, é conduzido por uma equipe japonesa, o tipo de presença nipônica que inunda o mundo da Trilogia do Sprawl também.

Na série temos ainda os mcmurphies, que nunca são explicados, mas fica aquele ar de “deve ser problema”. McMurphy é o sobrenome do personagem de Jack Nicholson no clássico Um Estranho no Ninho (1975), que acaba lobotomizado no fim do filme. Isso dá uma boa pista do que Dra. Azumi e Dr. Mantleray querem dizer com o termo.

NETFLIX ACERTA

Já há algum tempo a Netflix recebe críticas por lançar diversas novas séries e não cuidar do padrão de qualidade de suas produções originais. Para cada Orange Is The New Black, Bojack Horseman ou House of Cards, há outras séries que apostam em determinados nichos de público e ficam devendo muito em roteiro e originalidade.

Embora Maniac me pareça arriscada, ela é uma série que, pelo menos nesta primeira temporada, se mantém desafiante, arrojada e, por mais psicodelica que pareça, atada a seu storytelling. Somerville, Fukunaga, Emma Stone e Jonah Hill entregaram uma das melhores novas ideias de 2018.