Sharp Objects e as palavras

As grandes metrópoles que nos deem licença. Por mais que seus becos, suas periferias pouco vigiadas e metrôs cheios de gente e de indiferença sejam ótimos subterfúgios para crimes e toda sorte de situação estranha, nada parece mais insólito do que as pequenas cidades. SHARP OBJECTS, minissérie da HBO que adapta Objetos Cortantes, o romance de Gillian Flynn, vem engrossar o caldo de cidadezinhas do interior com suas próprias idiossincrasias, aristocracias, senso de justiça e segredos lúgubres.

Amy Adams, com uma atuação acima da média, é a jornalista Camille Preaker, convidada pelo seu editor do jornal da grande St. Louis, na divisa do Missouri com Illinois, a passar uns dias em sua cidade natal, Wind Gap, no interior profundo, para investigar a morte de uma adolescente e o desaparecimento de uma segunda. A jornalista é meio ferrada na vida: passou anos se cortando para aliviar a dor mental e, agora que já consegue não se automutilar, bebe pra caramba para aliviar a ansiedade e o sofrimento. O problema é que ao voltar para Wind Gap e confrontar a mãe, o padrasto e o quarto vazio da irmã que morreu quando Camille ainda era pré-adolescente, muitas memórias e muita dor recaem sobre a jornalista que não vê a hora de cair fora dali.

Logo após chegar a Wind Gap e começar a acompanhar o caso – muito a contragosto das autoridades locais e de sua mãe, dona da indústria de carne suína que movimenta a economia local -, Camille reencontra sua irmã mais nova, a adolescente Amma Crellin, interpretada com uma vivacidade incrível por Eliza Scanlen.

– Quando ouve o que as pessoas dizem todos estão loucos ou são maus. Apenas a metade é verdade.
– Isso é o que me preocupa. Estamos vendo a metade errada.

Com apenas oito episódios de uma hora cada, ouvi comentários de que a série poderia enrolar para chegar a seu final. Não é o caso. O assassinato e o novo desaparecimento, que logo se confirma como mais um homicídio hediondo, nunca perdem espaço na série. Mas o que os roteiristas e o criador Marti Noxon fazem é dar espaço para que se desenvolva a relação de Camille com sua mãe, Adora Crellin (Patricia Clarkson, uma perfeita mulher do sul dos EUA) que nunca foi das melhores e continua não sendo, sua relação com os homens, sua relação com os lugares de Wind Gap, e sua relação consigo mesma.

Não são poucas as cenas em que acompanhamos Camille em seu Volvo 240 GL dos anos 80, quase sempre com o celular conectado ao sistema de som e rolando um bom Led Zeppelin (suspeito que boa parte do orçamento de Sharp Objects tenha sido queimada com o licenciamento das músicas do quarteto inglês). A princípio, essa cenas de Camille rodando pela cidade podem parecer enrolação, mas aos poucos se tornam um espaço para vir à tona lembranças, emoções e reflexões.

PALAVRAS E IMAGENS

Dois elementos visuais são incrivelmente marcantes e fugazes na série. O primeiro, impossível não notar, é a edição que coloca microssequências de alucinações ou de memórias de Camille no meio de uma cena linear da narrativa principal. Piscou, perdeu. Em diversos momentos voltei a cena e fui assistindo frame a frame para ver melhor todos os vultos e fantasmas que assombram a jornalista.

Todas essas lembranças que piscam na tela e todas aquelas relações que vão se desenvolvendo paralelamente à investigação dos crimes são importantes para o desfecho, acredite. A pasmaceira não é só efeito estético ou enrolação. É parte de uma criação sofisticada de plot.

O segundo elemento visual pode ter passado despercebido. Tratam-se de palavras que podem ser encontradas ao longo da série nos mais insuspeitos locais. Caçá-las nos enquadramentos é como procurar pelos easter eggs de jogos de vídeo-game. O diretor canadense Jean-Marc Vallée e os diretores de fotografia Yves Bélanger e Ronald Plante resolveram seguir a metodologia “esconder em plena vista”.

Essas imagens espalhadas pela série às vezes estão mesmo escritas onde aparecem. Outras vezes, é a mente de Camille as colocando lá. Um quadro onde se lia “Hope” muda para “Hurt“; “Scared” (com medo) na porta de um carro muda para “Sacred” (sagrado); o logo da Caterpillar vira “Catfight“; o sinal de “Open” (aberto) em uma loja vira “Omen” (presságio). De todo modo, servem como uma parte do design da série. As palavras nos dão pistas e nos dão sentido, assim como as palavras que estão marcadas no corpo da protagonista.

E as palavras ditas em alto e bom som também dão pistas. Embora a identidade do assassino só seja descoberta no último episódio, quando você menos espera, eu pude apostar todas as fichas em um dos personagens logo a partir do segundo episódio. Quem prestar atenção às palavras ditas – não nas que estão “escondidas” no ambiente – notará uma relação difícil de ignorar, uma escolha de termos que não é por acaso. O enredo cria várias circunstâncias que dificultam descobrirmos qual dos suspeitos é o bicho-papão de mocinhas, mas confiar nas palavras provou ser uma forma de foreshadowing (antecipação de uma revelação ou acontecimento) bem interessante.

Sharp Objects dá a Amy Adams um papel de destaque pelo qual ela pode ser lembrada e, de fato, ela parece perfeita na pela da jornalista. Eliza Scanlen é uma jovem que sai da série com um portfólio incrível para conseguir novos trabalhos. Ela mostra presença, confiança, doçura, atitude e habilidade com a patinação. Fica trás só de Adams.

Abaixo temos algumas das palavras que aparecem ao longo das cenas. Algumas estão lá mesmo, outras são substituídas, outras não estão, outras se disfarçam de frases totalmente dentro de seus contextos (como as da clínica). Mas nenhuma delas é inocente e todas querem nos dizer algo. Há muitas outras pela série.

Falling
Faith
Sacred
Bitch
Yelp

Não há série como The Handmaid’s Tale na TV

Entre 2017 e 2018, poucas séries foram tão impactantes e trouxeram temas tão importantes à tona quanto THE HANDMAID’S TALE, baseado no livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Por mais complexidade e elegância que Westworld tenha trazido à TV e por mais que Games of Thrones esteja chegando ao fim e excitando os espectadores com suas intrigas palacianas, a história de June/Offred (Elisabeth Moss) em Gillead é aquela que te faz olhar ao seu redor, no incrível agora, e ver como diversos temas, violências objetivas e subjetivas retratadas no mundo distópico da série estão ao nosso redor.

Afinal, quem nunca viu um homem citando versículos bíblicos para controlar e determinar o comportamento de uma mulher? Quem não vive em uma sociedade em que homens e mulheres são tratados de forma diferente e geralmente colocando as mulheres em posições de submissão?
A segunda temporada de The Handmaid’s Tale continua aprofundando os mecanismos perversos usados pela nação teocrata de Gillead, que substituiu os Estados Unidos, para tomar o controle da situação, colocando a palavra da Bíblia acima da razão, ou misturando as duas coisas.

Na realidade em que se passa a história, a taxa de natalidade caiu, o que levou a um golpe de estado em que um novo regime foi instaurado: mulheres ainda capazes de engravidar são aias (serviçais) que além de fazer as compras da semana, são estupradas e servem de parideiras para homens poderosos do governo de Gillead. Os filhos resultantes dessa violência são tratados como filhos dos casais poderosos, enquanto a aia, que deu a luz, é passada a outro chefão do pedaço, repetindo um ciclo desesperador. O que vai ficando claro é que o problema na taxa de natalidade pode não estar na ovulação das mulheres, como o novo governo teocrata acredita, mas sim nos homens.

Photo by: George Kraychyk/Hulu

É BRUTAL

Se a primeira temporada foi pesada, a segunda conseguiu ser tão brutal quanto. Não há um episódio em que algo revoltante não ocorra. Quando os roteiristas dão um jeito de tornar a vida de June/Offred mais suportável, logo depois algo ocorre para termos certeza de que não há lado bom em Gillead.

A segunda temporada aprofunda a personagem de Serena Waterford (interpretada pela australiana Yvonne Strahovski). Chegamos mesmo a sentir pena e a entender o lado dela, mas a humanidade dela esbarra em seus próprios desejos e em sua crença política e religiosa. Leva quase toda a temporada para que June, após sofrer todo o tipo de violência física, mental e sexual, consiga mostrar como Gillead, o estado que ela ajudou a criar, é nocivo para as mulheres. E embora a gente torça para que o castigo da personagem venha de June, é o próprio marido e o sistema de Gillead que lhe dá uma pequena amostra de como opera uma ditadura cristã.

– Nós acreditamos que nossos filhos e nossas filhas… deveriam aprender a ler.
– Essa é uma proposta radical, Sra. Waterford.

Emily, a personagem de Alexis Blendel (vencedora de um Emmy pelo papel na primeira temporada), ganhou sobrevida. Por meio dela, conhecemos os tóxicos campos de trabalho forçado que haviam sido apenas sugeridos na temporada anterior. Tão esmagada pelo sistema quanto June, acompanhamos o desabrochar de seu instinto assassino.

A segunda temporada deixa claro também como de todas as séries recentes, nenhuma expressou uma qualidade estética tão marcante. Vermelho para as aias; verde-azulado para as esposas de generais; cinza para as martas; preto para os homens e figuras de autoridade; e há ainda aquele leve filtro esverdeado que contamina todas as cenas no presente de Gillead. Os olhos verde-água de Elisabeth Moss e Bledel, filmados no contra-luz, reforçam ainda mais a preciosidade estética da fotografia da série.

Assim, na mente de quem vê a série, um vestido vermelho deixa de ser só o vestuário das aias e se torna um símbolo de papel social, de submissão, de resistência ao verde das mulheres de generais. No entanto, ao mesmo tempo em que o verde é a cor “oposta” ao vermelho na roda das cores, ele é também a sua cor complementar. E a segunda temporada da série gasta a paciência de June (vermelha) tentando mostrar a Serena (verde) que ambas são mulheres e que, apesar da diferença na hierarquia, a luta de uma é a luta da outra também.

Se Game of Thrones repete a fórmula de Família Soprano (você não sabe quem vai morrer, mas sabe que muitos personagens importantes vão dessa pra melhor), The Handmaid’s Tale prefere matar seus personagens um pouquinho por episódio. Assim vamos entendendo o que essa forma misógina de pensar faz com a cabeça de uma mulher, até ser totalmente justificado que Emily tenha sede de vingança e impulsos homicidas em sua falta de esperança de que algo mude. Episódio por episódio, vemos como o mundo pode ser não mais cruel, mas cruel em tantas formas diferentes, como se perder a família e ter seus direitos anulados já não fosse o suficiente.

Photo by: Take Five/Hulu

É POLÍTICA

The Handmaid’s Tale levanta assuntos importantes. Até mesmo uma piada por meio de um trechinho de um episódio de Friends no segundo capítulo tem função política ali, fazendo uma crítica ao modo como as mulheres são encaradas. Em um mundo em que os EUA elegem um presidente que certamente tem um comportamento repreensível quanto às mulheres, justamente no momento histórico em que mulheres de várias áreas reivindicam o cumprimento de seus direitos, não é algo para se ignorar.

O Brasil não escapa a este cenário. Quando as mulheres mais querem ter voz, é quando mais tentam abafá-las, e com a ajuda de uma boa parcela da população que, neste momento, às vésperas da eleição, temos um candidato a presidente misógino, defensor de um “Brasil grande novo” com “Deus acima de todos”, com maior intenção de votos no primeiro turno. Felizmente, a rejeição a este candidato por parte das mulheres é grande. De outro modo, vejo amigos cristãos declarando votos em candidatos que abertamente defendem a liberação de armas, como se Jesus, em algum trecho do livro sagrado para eles próprios, defendesse essa ideia. Sei que meus amigos não defendem a liberação de armas, mas como Serena na série, fingem que esse assunto não está no pacote do candidato. E assim vai-se moldando o futuro e como escolhemos ver apenas o que nos interessa.

Se June reage, não é apenas à Gillead, é ao nosso planeta em 2018 mesmo. Se Serena é uma mulher cínica, que finge não ver o que ocorre bem debaixo de seu nariz, é porque reflete tantas mulheres que conscientemente escolheram acreditar em alguma “verdade superior”; e/ou reflete as mulheres que não entenderam que só porque um abuso ainda não foi cometido contra ela não quer dizer que não possa acontecer caso os direitos de todas as mulheres não sejam garantidos.

Poucas são as séries que se mantêm incrivelmente relevantes até o final, mantendo o mesmo fôlego. Das mais recentes, Breaking Bad é a única que me vem a mente. Mas mesmo a série de Vince Gilligan, cujos méritos já foram bastante explorados ao longo da última década, não levou ao audiovisual uma conotação política tão aguda e urgente. É por isso que, a julgar pelas duas primeiras temporadas, falo com tranquilidade que hoje não há série tão importante quanto The Handmaid’s Tale na televisão. Não há programa que cause maior perplexidade em sua audiência.

Os Homens Difíceis que mudaram a TV

Indicaram HOMENS DIFÍCEIS, de Brett Martin, em um podcast. Me interessei, pois há tempos queria ler algo que contasse como foi que a televisão dos Estados Unidos deu um salto de qualidade. O preço na Amazon estava excelente e em 30 segundos o livro estava no meu Kindle.

Eu queria um livro sobre a mudança na qualidade da TV e acabei lendo um que conta como isso ocorreu do ponto de vista dos roteiros. Eu, como jornalista que atua em publicidade, interessado em storytelling em todas as mídias e também um roteirista, não poderia me identificar mais com essa abordagem.

Família Soprano se torna arte na medida em que se propõe como mais do que uma história de mafiosos e se apresenta como um tratado sobre a família americana. […] É também dessa maneira que The Wire deve ser avaliado… Como veículo para declarações sobre a cidadania americana e inclusive sobre a experiência americana.”

O livro conta como a HBO encabeçou essa mudança, primeiro para ela mesma, e depois, para toda a rede de produção de conteúdo original televisivo, ao apostar no roteiro de David Chase para Família Soprano. De alguma forma, sabiam que o material era bom, mas bom de uma forma que ninguém tinha muita certeza se o público poderia se interessar por aquilo, contado daquela forma. Deu certo e, então, várias outras séries, da HBO e de outros canais, tentaram seguir não o mesmo receituário, mas o mesmo salto de fé em algo com potencial, mas que talvez fosse uma ideia que todos enxergavam como uma proposta artística para o cinema, e não para a TV.

Além de Família Soprano, que é a série mais extenuadamente analisada por Martin ao longo de todo o livro, conta-se detalhes preciosos de The Wire, A Sete Palmos, Deadwood, The Shield, Mad Men e Breaking Bad. Outras séries, como True Blood, Girls e Damages, também são destacadas, mas com menor ênfase. E junto com todas elas, Martin traz um histórico e análises do modus operandi de seus responsáveis, os showrunners.

Se quer entender o que é um showrunner e como eles foram importantíssimos para essas séries nesse novo contexto, Homens Difíceis não deixa dúvidas de como trabalhavam, o que era esperado deles e como cada um tinha alguma característica capazes de meter medo em todo mundo. David Chase era rabugento e difícil de dobrar. Queria dirigir filmes originalmente. David Simons (showrunner de The Wire), era obstinado, extremamente preocupado com os detalhes e com a coerência de tudo que colocaria na tela. David Milch (Deadwood), além de um vício em álcool e heroína, simplesmente parou de fazer roteiros em certo momento e começou a criar cenas e diálogos para suas produções no set, com câmera e atores esperando para saber o que fazer. Ninguém nunca sabia o que ia acontecer. Matthew Weiner [Mad Men] era o artistão da parada e queria ser o auteur por excelência em seu feudo. Todos lideravam suas equipes como déspotas.

Segundo Brett, o único que foge à regra é Vince Gilligan. O criador de Breaking Bad não ficou putinho quando sua ideia foi rejeitada por uma penca de canais e sabia criar um ambiente de trabalho interessante. Ele se via como mais uma peça na engrenagem, não como o único merecedor dos créditos pelo programa.

A sala de roteirista é outro elemento famoso dessas produções. O livro detalha como elas foram formadas, como funcionam e como uma equipe de escritores era capaz de escrever um arco inteiro de 10 ou 13 episódios sem se perder ou, pelo menos, de forma que todos levassem à frente a mesma narrativa. Há muitas histórias de bastidores em Homens Difíceis, mas as que ajudam a esmiuçar a dinâmica nas salas de roteiristas são algumas das mais interessantes.

Homens difíceis – como seus showrunners -, complexos e bastante controversos são elementos que dão a tônica nas séries analisadas e que mostraram que a TV pode contar histórias de qualidade, com técnicas de filmagem provenientes do cinema, correndo riscos criativos, deixando o público puto, estarrecido e, se desse na telha do showrunner, até mesmo a ver navios – como o final de Família Soprano. Dessa forma, elevaram o que se faz na TV ao estado de arte, algo que até 1999 era impensável. E assim, atraíram atores e atrizes do cinema para o formato. A primeira grande estrela do cinema a topar ir para a TV foi Glenn Close [em Damages]. Esse período o autor chama de Terceira Era de Ouro.

“Sem finais” acabou significando “sem finais ruins”, nada de catarses baratas.”

Como já estamos vivenciando uma continuidade dessa Terceira Era de Ouro, é interessante ver como o mercado existia, apenas com redes de televisão abertas e fechadas, e hoje temos Netflix, Hulu, Amazon, e tantas outras plataformas, todas apostando em material original. Homens difíceis ainda existem, mas atualmente há muito foco em papeis e protagonistas femininas, em histórias que vão muito além de mostrar mulheres difíceis, fortes e/ou controversas. Há todo um contexto construído ao redor disso que amplia o discurso dessas séries, seja Orange Is The New Black ou The Handmaid’s Tale, que talvez seja a melhor série produzida ultimamente. Até mesmo Game of Thrones está em dia com essa mudança.

Daqui alguns anos, quando um livro parecido com Homens Difíceis existir e contar esse novo modelo da TV, vai ser interessante observar como o contexto mudou e elegeu a mulher sua protagonista. E pode apostar que não haverá como não lembrar do quarteto de Sex And The City como um prenúncio disso tudo.

Strange Angel, Ciência e Magia Sexual

Se você é um interessado em magia e não é um babaca, provavelmente tem algum interesse em ciência também. Jack Parsons, uma figuraça do século 20, teve um curioso papel na ciência de foguetes dos Estados Unidos e na Thelema, a religião ou filosofia oculta criada por Aleister Crowley e que tinha uma célula de seguidores em Los Angeles nas décadas de 30 e 40. De homem da ciência, com uma inabalável fé na possibilidade de colocar o homem na órbita da Terra, passou a ser um reconhecido thelemita e acabou inclusive associado ao criador da Cientologia.

É essa trajetória que o seriado STRANGE ANGEL, da CBS, busca retratar baseando-se no livro de mesmo nome que é a biografia de Parsons. O seriado é muito interessante para qualquer tipo de público adulto, mas para quem tem algum interesse ou conhecimento mesmo que superficial em magicka, Strange Angel adquire um paladar mais doce e curioso.

Contudo, não vá esperando que a série seja uma introdução didática em Thelema. O roteiro é bem construído o suficiente para colocar os temas da religião em pauta, frases bem conhecida d’O Livro da Lei, símbolos, fotos e termos que estudantes ou praticantes de magia notarão com prazer, mas nada panfletário e nenhum ritual ali é mostrado de forma redundante. Mark Heyman, o showrunner, tomou o cuidado de alicerçar tudo no drama de Jack Parsons com sua esposa, com seu amigo Richard e com a comunidade científica, com seu novo e impetuoso vizinho Ernst Donovan e com sua vontade de fazer um foguete funcionar e revolucionar a ciência.

Uma das características mais conhecidas da Thelema é a sua prática fundamentada em magia sexual, o que talvez leve a crer que o seriado apostaria muito em cenas quentes – o que não ocorre com a frequência que poderia se esperar. Mas devo dizer que apesar de raras, todas as cenas de rituais são belamente filmadas, sobretudo a que ajuda a fechar o 10º episódio. Mas não espere nada muito explícito.

Mas antes de seguir o caminho da magia, Parsons, vivido pelo ator Jack Reynor, é um aspirante a cientista e Strange Angel gasta bastante tempo com a ciência. Na década de 30, a ciência de foguetes era coisa de ficção e ninguém tinha ideia de como torná-la realidade. Parsons não era acadêmico o suficiente para merecer credibilidade. O seriado também nos faz pensar em quais eram as dificuldades de se construir um foguete e, pelo menos eu, não fazia ideia de que o tipo de combustível era tão determinante nessa história. Você se pega, no meio do seriado, entendendo qual é o desafio teórico e técnico e como a eclosão da Segunda Guerra ajuda a impulsionar Parsons e seu time de desenvolvedores.

AMOR SOB VONTADE

Vale lembrar que, alguns séculos atrás, ciência e magia eram campos de estudos sobrepostos que levavam o homem a conhecer e entender os mecanismos da natureza. A racionalização extrema ainda não havia separado as duas áreas. Hoje vivemos uma época em que diversos pesquisadores já entendem os limites da ciência e qual é o papel de saltos de fé que talvez uma teoria física não seja capaz de mover corações humanos, mas a ressignificação mitológica ou religiosa, sim. Strange Angel aproveita esse momento e também costura o fazer científico com a magia. Não chega a misturar as duas coisas, mas deixa implícito como cada uma alimenta o conhecimento humano a seu modo.

René Descartes relatou que, uma noite, teve uma visão de três fantasmas e isso mudou o seu jeito de pensar. Ele era um matemático francês que você provavelmente conheça das aulas de Filosofia e da máxima “Penso, logo existo”. Essa mudança acabou mudando a forma como a ciência era encarada. Ironicamente, o que começou com a interferência de seres sobrenaturais levou ao início de um mundo [e uma ciência] mais racional. E a crença no racionalismo, levada a cabo pelo projeto do Iluminismo, falhou, como sabemos. O avanço científico e da razão transformou nosso mundo, e nem sempre de maneiras boas. Ou melhor: se o propulsor a jato era o sonho de levar o homem à Lua, foi desenvolvido com a missão de criar mísseis e caças mais potentes, chegando a ser o tipo de propulsor de armas nucleares.

A divagação do parágrafo anterior não está, ainda, na primeira temporada da série que terminou na semana passada. Mas serve como uma contextualização. Também não quero dar a impressão de que a série prega a junção dos dois campos, porque não é isso o que ela faz. Os primeiros 10 episódios costuram, isso sim, na figura de Parsons, como a magia thelemita o ajudou a ver com mais clareza – ou o induziu a isso – o que precisava fazer e no que insistir para realizar seu sonho, sua vontade. O episódio final é soberbo em como justapõe uma conquista de Parsons e um ponto de mudança enorme para sua esposa, Susan, interpretada pela atriz Bella Heathcote.

Jack Parsons tem duas biografias. Sex and Rockets, de John Carter, e Strange Angel, de George Pendle. É nesta última que a série da CBS se baseia. Coisas que aconteceram no espaço de alguns anos na vida de Parsons são rearranjados para ocorrerem concomitantemente durante os episódios da série. O envolvimento do homem com o marxismo, por exemplo, não faz parte da série. Nomes também foram alterados. A esposa de Jack é Helen, não Susan. A irmã de Susan, que teria importância mais para a frente nessa trama, é Sara, mas na série mudaram para Patty. O Magus da loja thelemita Ágape chamava-se Wilfred, e no programa foi transformado em Alfred.

Ernst Donovan, o vizinho interpretado pelo talentoso Rupert Friend que recruta Jack para a religião de Crowley, nunca existiu na vida real, mas foi uma criação interessante para mexer as peças. Qualquer um que tenha lida o Lieber Null do magista Peter J. Carroll e que tenha prestado atenção ao que o autor diz sobre a risada de uma mago verá que Donovan foi muito bem concebido. Outra ponte que o personagem de Friend faz com a Thelema tem a ver com a disposição de não só não se importar com relações entre pessoas do mesmo sexo, mas saber que elas são necessárias também dentro do caminho mágico estabelecido por essa doutrina.

Elizabeth Lippman/CBS ©2018 CBS Interactive

AD ASTRA PER ASPERA

Strange Angel não é um sucesso de público, mas é uma série muito bem feita e que tratou com muito carinho seu primeiro arco, desenvolvendo muito bem seus personagens até um ponto de transformação e até mesmo a ciência de foguetes dá um passo além. Não sabemos onde vai o seriado, mas sabemos como termina a história de Parsons.

Seguindo a biografia, na próxima temporada, talvez vejamos como Jack e seus amigos cientistas fundam a ou as empresas de propulsores a jato e como ele se torna o líder da loja Ágape e como seus rituais de magia sexual, tão característicos da Thelema, vão ser sua ruína na própria empresa. Talvez L. Ron Hubbard, escritor de ficção-científica e criador da Cientologia, dê as caras e a relação com a esposa e a cunhada mude gradualmente.

Mark Heyman concebeu Strange Angel como uma história em 5 arcos, ou cinco temporadas. Mas talvez o show não chegue tão longe. Tomando alguns atalhos, consigo pensar em 4 ou até 3 temporadas como suficientes para chegar ao final da história de Parsons e, quem sabe, preparar um spin off que conecte à Cientologia.

Foi no fim da década de 1990 que as redes de TV americanas, principalmente as de cabo, perceberam que poderiam fazer boa televisão com histórias sofisticadas. Família Soprano foi a grande revelação. De lá para cá, várias embarcaram nessa. A CBS All Access, sua divisão de streaming, começou com dois seriados novos, The Good Fight e Star Trek: Discovery, mas ambos derivados de ideias já conhecidas. Strange Angel, originalmente na AMC, é a primeira série totalmente original do canal. Jordan Peele [diretor de Corra], inclusive, está ressuscitando The Twilight Zone (Além da Imaginação) para a rede. Strange Angel é a tentativa do canal de ter o seu grande e reconhecido conteúdo original.

Eu gostei bastante da primeira temporada e vou fazer esse ritual do Rupert Friend aí para garantir que a CBS renove para a segunda temporada. 🙂

Não deixe First Reformed passar batido

FIRST REFORMED [No Coração da Escuridão, 2017] é o tipo de drama que te deixa alarmado. No melhor estilo de filmes e séries com finais abertos, ficamos no impasse de querer saber o que acontece dali pra frente e buscando, desesperadamente em nosso íntimo, uma resolução moral para o que acabamos de ver. Mas não é moral o objetivo do diretor e roteirista Paul Schrader. Ou melhor, até é, pois o filme todo joga habilmente com questões e noções morais, mas o ato final vai ficar rodando em sua mente, igual a câmera de Schrader, por muito tempo.

Ethan Hawke [que vimos envelhecer na pele do Jesse da série de filmes iniciada com Antes do Amanhecer] é um reverendo com uma vida pregressa desgraçada. No momento em que o filme começa, seu corpo também está em uma situação miserável e ficando pior a cada cena. Um dos temas abordados no filme, que se torna motivação do personagem, é a degradação ambiental causada pelo homem. Outro tema não é a falta de fé em si, mas a dúvida sobre o que um suposto Deus reservou para nós e como é possível que nós, limitados seres humanos, saibamos como agir. Esperamos seus desígnios ou agimos? E se escolhermos agir, qual o tamanho de nosso sacrifício?

Não é um filme religioso, mas o roteiro de Schrader é esperto o suficiente para colocar na mesa – e na tela – as argumentações religiosas sobre o que trata. Para cada questionamento que usa um versículo bíblico para ganhar peso, há uma suposta resposta que parece estar contida em outro versículo do livro. Levantando questões sobre tempos extremos e ações extremas do nosso hoje mais imediato, First Reformed oferece material para deixar todo mundo pensando e instigado, procurando primeiro as saídas para os personagens, depois para si mesmo, fora do filme, em nossa vida cotidiana. Mesmo ateus – ou principalmente eles – devem encontrar um campo fértil para discussão e reflexão.

“- Deus consegue nos perdoar pelo que fizemos com este mundo?
– Não sei. Quem conhece a mente de Deus?”

O reverendo Ernst Toller, logo no início do filme, atende um ambientalista de alma e mente perturbada e coloca em jogo as noções de esperança e coragem contra o desespero da vida. O filme todo vai se equilibrando em torno dessas três palavras e o que representam. Aos poucos, vemos que a distinção entre elas é mais complicada do que parece. A coragem para mudar algo é também um ato de esperança no futuro, mas pode se manifestar de uma forma desesperada. Qual a saída? Quem indica o caminho?

First Reformed é notável não só em termos de enredo e roteiro. Schrader usa o formato de tela 3:4 e raramente usa movimentos de câmera. E geralmente esse movimento ocorre quando o reverendo de Ethan Hawke está na presença de Mary, personagem de Amanda Seyfried. Há anos acostumados com um corte wide de cinema, o formato 3:4 dá uma levemente incômoda sensação de não deixar muito espaço para respirar.

Ethan Hawke, como ator, melhora com o passar do tempo. Entrega uma atuação exata, sem excesso e que tira do background do personagem a medida certa para imaginar as semanas decisivas de sua vida ao longo do filme. Schrader, um dinossauro de Hollywood – é dele o roteiro de Taxi Driver e a direção de Gigolô Americano, por exemplo – coloca em menos de duas horas uma boa quantidade de temas e de retóricas na tela. First Reformed acaba ganhando peso e construindo um contexto complexo, mas bastante claro e lúcido, em torno de si. Ingmar Bergman, um dos diretores referência de Schrader, inclusive está presente, pois é difícil não ver os dilemas do reverendo Toller e não lembrar de Luz de Inverno, do sueco.

“Então, devemos poluir para que Deus possa restaurar? Devemos pecar para que Deus possa perdoar?”

Não é um filme de ação e nem de aventura. Não há grandes acontecimentos, mas os que estão na tela ressoam. É um drama que não banaliza a violência, mas quando ela dá as caras, mesmo que indiretamente, pesa um tonelada.

O final é algo a ser discutido. Não perca seu tempo procurando respostas na internet ou criando teorias. É capaz de você nem gostar do final, oras. Há quem considere que o final de First Reformed, que se resolve mais dentro da cabeça do personagem e daí só temos seus atos para tentar compreender, é um recusa de Schrader a decidir que caminho seguir, sua própria falta de coragem em dizer quem vence: a esperança ou o desespero. Na minha opinião, é este final que garante que as questões levantadas também continuarão conosco. Quem é que almoçou com Deus e sabe de seus desígnios, afinal? Coragem, esperança e desespero seguem de mãos dadas.

 

Wild Wild Country e a xenofobia nos EUA

Depois de tanta insistência do meu professor de música e guitarra, assisti a WILD WILD COUNTRY. Um documentário em seis partes sobre a seita/culto/religião/organização criminosa liderada pelo guru indiano famoso no mundo todo como Osho. Mas na década de 1980, quando saiu da Índia e fundou uma cidade no Oregon/EUA, chamada Rajneeshpuram, seu nome era Bhagwan Shree Rajneesh.

A história é mirabolante e foi, em certa medida, inspiração para a história do game Far Cry 5. Eu havia jogado e já conhecia a história de Jonestown, um culto cristão liderado por um norte-americano na América Central que acabou em tragédia, e resolvi saber o que Osho aprontou por lá que muita gente até hoje parece não saber, dada a quantidade de pessoas que ainda o lê e o cita e, de certa forma, segue sua doutrina espiritual.

Não vou entregar todos os detalhes da história, já que a série pode ser vista na Netflix e está muito bem editada e contextualizada, mas cabe dizer que quando seguidores de um guru místico chegam ao interior do Oregon e compram as terras onde vão construir sua sociedade alternativa, todos vestindo vermelho, com sexo livre, meditações que não são o que geralmente enxergamos como meditação, e claramente não cristãos numa terra de cristãos, é claro que isso só pode incomodar todos que estão ao redor.

Os irmãos Mark e Jay Duplass, diretores de Wild Wild Country, não usam narrador e nenhum tipo de apresentador que conduza os acontecimentos e raciocínios. A montagem se basta nas declarações de seus personagens e nas imagens novas e antigas reunidas para reorganizar a narrativa. Dessa forma, sem um mediador que não seja nossa própria consciência e nosso senso crítico, a série em momento algum questiona a xenofobia do povo americano, mas ela está lá, representada pelo teor das declarações, novas e históricas, de quem fez parte daquele episódio. Contudo, desde o começo, os seguidores do guru são retratados como vilões da história. Afinal, foram eles que chegaram ao interior do Oregon e viraram a região de cabeça para baixo e, se não estão mais lá 30 anos depois, é porque algum “mal” fizeram, certo? Dessa forma, quando os membros do culto acusam os americanos de serem preconceituosos, somos levados a relevar a xenofobia ou considerá-la um mal menor, porque fica a impressão, desde o início da série, de que esses praticantes de uma “religião estranha” farão coisas ainda piores com o desenrolar dos episódios.

(AP Photo/Jack Smith)

Até o fim do episódio 2 fica claro que os sannyasins causaram reboliço e usaram práticas políticas, econômicas e administrativas para se fazerem valer numa região rural dos EUA, e fica claro como isso causa incômodo, mas não estavam exatamente quebrando a lei – não que alguém soubesse até então, pelo menos. A partir do episódio 3, no entanto, é que começa a ficar claro como o grupo de seguidores de Bhagwan poderia ser sujo: utilização de armas em um grupo teoricamente religioso e pacifista, uma prática transcendental que ficava ali no limite entre sexo livre e abuso, bioterrorismo, além de usarem brechas na legislação americana para conseguirem green cards para estrangeiros por meio de casamentos arranjados. Até mesmo uma polícia própria criaram, com acesso a armas e ao banco de dados da polícia americana. Houve também o surreal episódio em que buscaram sem-tetos em vários pontos do país e os abrigaram em sua Rajneeshpuram para dar corpo a uma forma de manipulação eleitoral [dentro da lei, sim, mas moralmente condenável], sem falar que muitos deles foram forçados a sair da comunidade e devolvidos às sarjetas pouco tempo depois. Chegaram quase a cometer assassinatos. De fato, a xenofobia americana é pequena perto de tudo o que foram capazes de fazer – e de cogitarem fazer -, mas ela existiu até o fim.

Como os mandantes de Rajneeshpuram usaram habilmente a lei americana para defender a comunidade, a xenofobia não era um argumento válido para contestar a presença do guru e seus seguidores perante as autoridades. Daí, população e autoridades recorrem também à legislação para pegá-los da forma como for possível.

Wild Wild Country mostra um EUA que confia nas instituições. Demorou um pouco, mas as autoridades legais conseguiram cercar a sociedade alternativa de Bhagwan. Mostra também que os americanos, de certa forma, ali naquele contexto, nunca tentaram entender o que estava havendo com seus vizinhos. Mas Wild Wild Country também mostra que uma organização religiosa, por mais iluminação que pareça levar a seus seguidores, também pode ser corrupta. Ou pior, pode ter sido fundada em corrupção. Logo no início da série documental ficamos sabendo que Bhagwan/Osho ama Rolls Royces e tinha dezenas deles mesmo não saindo de seus aposentos em Rajneeshpuram. E quando uma turma de endinheirados de Hollywood chega à comunidade (incluindo Françoise Ruddy, ex-mulher do produtor de O Poderoso Chefão], o guru é seduzido pelos Rolex e drogas trazidos por eles. Um líder espiritual intocável, que se tornara um rock star e, enfim, era só mais um homem entre os homens.

A série se concentra em falas de pessoas que trabalharam no Rajneeshpuram e tiveram cargos importantes ali, além de moradores daquela região do Oregon e autoridades. Osho, logo depois que chegou aos EUA, fez voto de silêncio. Conversava apenas a portas fechadas com um séquito muito particular de seguidores, em especial Ma Anan Sheela, sua porta-voz e, digamos assim, primeira ministra. Não há como saber se ele estava ciente do que acontecia na comunidade fundada apenas para acomodar a ele e sua religião. A série não consegue deixar claro se ele sabia das práticas abusivas de poder dentro e fora daqueles limites que estavam sendo praticados. Quando Sheela resolve deixar o local, é quando Osho sente-se traído e quebra o voto de silêncio. Então, diz a todos que foi manipulado.

Daí, companheiros, caímos nessa de ficar num fogo cruzado: não há provas que liguem as ações tomadas pelo grupo religioso ao seu líder diretamente, não há como saber o que ou o quanto daquelas ações foram ideias e vontades dele, o quanto ele sabia ou o quanto não sabia, pois passou a administração para seus seguidores. No entanto, coisas muito erradas aconteciam ali e para fora dos limites de Rajneeshpuram. Ele, como líder, deveria estar a par e, mesmo que não estivesse, é preciso ter a grandeza de espírito para se responsabilizar por tudo. Se já era difícil levá-lo a sério ao saber de todo o seu materialismo, o mito do “líder” espiritual se desfaz quando ele deixa a sua comunidade nas mãos das autoridades policiais do Estado americano e parte em um jatinho particular, com meia dúzia de escolhidos, tentando fugir dali e da polícia. Uma atitude típica de um iluminado.

A série não responde todas as perguntas que o espectador pode ter, pois o caso é bem complexo e foi judicialmente resolvido com acordos, o que deixou de exigir uma investigação realmente profunda para que provas e confirmações fossem obtidas. Muita coisa, então, fica só na boca de quem diz. Para a Justiça dos EUA e seus agentes, a solução é a melhor possível: livram-se da comunidade e de seus líderes, dispersando os seguidores sem precisar investir recursos e tempo em uma investigação que poderia levar anos até chegar ao fim.

O ocorrido foi nos anos 80, numa área rural e habitada por um povo conhecido como redneck, que não deixa de ser uma categorização preconceituosa também. Talvez seja interessante pensar que, 30 anos atrás, é muito mais improvável que o povo americano aceitasse um grupo tão diferente de seus costumes e crenças do que hoje. Mas o documentário veio em 2018, na era Trump, na era de um presidente que não gosta de imigrantes e acabou fazendo com que uma laia racista acordasse em seu país e mostrasse a cara de novo. O preconceito americano, que não é relativizado ou contestado pela série [mas está ali, cristalizado em certos comentários e raciocínios], é nocivo, mas era algo a se esperar. Afinal, o mesmo ocorre em outras partes do mundo que recebem estrangeiros e refugiados, como na Dinamarca, na França e na Alemanha. Mas é de um pequeno e progressivamente perigoso grupo de religiosos que vem as manobras mais impensáveis dessa história.

Bhagwan saiu da índia, onde fundou o movimento sannyasin e se tornou um popstar da iluminação new age, por conflitos com o governo local. Após um acordo com a Justiça dos EUA, voltou para a Índia. Chamuscado por tudo o que ocorrera, mas ainda ostentando um estilo de vida de iluminado intocável, mudou de nome para Osho. Assim, criou uma nova identidade. Quando se lembra do incidente no Oregon, lembramos do Bhagwan. Os livros reeditados e as frases, que às vezes ainda vemos nas legendas de Instagram, são de Osho. Wild Wild Country conta uma história real, daquelas mais estranhas que a ficção, e liga um nome ao outro.

Você pode gostar das sentenças de Osho, afinal o papel aceita tudo. Mas de santo, não tem nada.

Em tempo: seguidores de Osho e comunidades que continuam suas práticas de meditação e de convivência continuam existindo em vários lugares do mundo. Eles possuem uma fundação, uma série de aplicativos para divulgar as práticas e a ideologia [tem que pagar para usar] e inclusive possuem um site oficial, o Osho Times, que após a estreia da série dos irmãos Duplass publicou um editorial para tentar rebater o teor do documentário.

Lucky se vai

“Quando eu era garoto e morava no Kentucky, eu tinha uma arma de pressão. Ela não atirava bem, então um dia saí para atirar em coisas, árvores, folhas… E havia um pássara num árvore cantando a plenos pulmões. E… eu apontei minha arma só para assustá-lo, puxei o gatilho… E o canto parou.

Foi o momento mais triste da minha vida. O silêncio que ficou no mundo foi arrasador.”

LUCKY é uma dessas pequenas preciosidades da vida. Falo do homem e do filme.

Quando se é velho, há como se sentir ainda mais velho? Se partirmos do princípio de que sempre dá para piorar, então sim, você chega à terceira idade e sua escalada continua, com os problemas que geralmente acompanham, surgem ou se agravam nessa fase da vida. Lucky, aos 90, segue sua rotina. Come no mesmo lugar. Bebe no mesmo balcão. Fala com as mesmas pessoas. Exerce os mesmos preconceitos. Joga os mesmos jogos. Faz os mesmos exercícios. E continuará a fumar o mesmo cigarro mesmo que isso o mate. Mas a realidade “é uma coisa”, como ele logo vai ficar consciente, como alguém que nunca parou para pensar no assunto.

Lucky, o filme, marca a primeira vez que o ator John Carroll Lynch senta-se atrás da câmera de cinema no cargo de direção. E é realmente um filme de atores, para atores, para idiossincrasias e reações. Um filme de encontros que, um após o outro, por mais mundanos que pareçam, acabam mudando Lucky. O filme é bem sutil e acho que nem Lucky, o homem, sabe que mudou, aparentemente, mas ele não é o mesmo ao final do filme.

Harry Dean Stanton interpreta Lucky, um personagem escrito especialmente para ele, seu físico e sua voz. Veste a carcaça de homem frágil, durão e simpático. É a performance derradeira de Stanton, que se foi deste mundo semanas antes da produção estrear.

Lucky é sensível e bastante parecido com o Uma História Real, o filme de David Lynch que acompanhou a viagem de 260 milhas de um senhor em um trator pelos EUA e as pessoas que encontrou pelo caminho. Aliás, o próprio David Lynch está em Lukcy, interpretando seu amigo Howard, um homem que acaba de perder seu jabuti e, como Lucky, fica de frente com a mortalidade de um modo muito particular.

No mundo do cinema há personagens que só chegam lá depois de salvar o mundo; há aqueles que precisam enfrentar seu nêmesis; outros precisam morrer e voltar do além para aprender algo. Lucky não. Confrontando a própria morte, o veterano de guerra encontra sua iluminação [ou entendimento] sem precisar abrir mão de seu ateísmo. Empatia é chave. O jabuti é chave. Assim, fica claro que Lucky, o homem, não busca redenção. E Lucky, o filme, não tenta forçar coisa alguma.

Gemini e o neo-noir

Gemini é um filme que pouca gente viu e que vi pouca gente falando. Eu mesmo assisti por esbarrar com ele pela internet, não por indicação de alguém.

Com Zoë Kravitz interpretando uma atriz de cinema [Heather] e Lola Kirke sua assistente pessoal, Jill, do tipo que cuida da agenda da estrela, lida com as questões difíceis de sua carreira e dá a cara a tapa no lugar da amiga/chefe. O filme é sobre a cultura da celebridade. A partir de um assassinato, parece que vai se transformar em um thriller policial, mas ocorre o oposto disso. É a própria amiga que tenta juntar as peças do quebra-cabeça para saber o que aconteceu, mas faz isso tudo de forma muito desastrada, o contrário do rigor metodológico e científico de um detetive de Los Angeles. Esse é o charme do filme: acompanhamos a personagem que se arrisca e, mesmo sem metodologia, é capaz de juntar as peças e intuir o que pode ter ocorrido na verdade.

É um filme de baixo orçamento, mas muito estiloso, seja na caracterização de seus personagens ou na iluminação. Lembra muito o cinema do americano Jim Jarmusch (principalmente em Os Limites do Controle] e do dinamarquês Nicolas Widing Refn [com Demônio de Neon ou Drive]. A L.A. construída pelo diretor e pelo diretor de fotografia é muito diferente daquela megalópole que acostumamos a ver na maioria dos filmes. Em Gemini, ela é muito mais [neo] noir e vazia, não chega a ser ameaçadora, mas você sente que há algum perigo lá fora.

Jill, se ela não se matou, quem a matou?

A música não é nada menos que incrível. Lenta e muito sensível à estética noir e colorida do filme, mas que valoriza os ambientes escuros, sem jogar luzes demais na cara dos personagens. Mistura batidas de lo-fi hip hop com música eletrônica minimalista, coloca sintetizadores pastosos e solos de sax para dar aquele gostinho de jazz que ajuda a dar a cara do mistério urbano que acompanhamos ao longo do filme. A trilha original é de Keegan DeWitt, um compositor que não conhecia até então. Ele faz trilhas de filmes desde 2005, mas até agora colaborou apenas com filmes menos chamativos. Não posso comentar sua obra toda e nem parte dela, mas o que fez em Gemini realmente é diferenciado. Quando sua música toca, L.A. instantaneamente vira um lugar de sonhos, aquela região da existência em que incerteza e suspense dão as mãos e te conduzem por lugares conhecidos, mas que se tornam suspeitos.

Keegan é do Oregon, estado natal do diretor do filme, Aaron Katz. Todos os cinco filmes de Katz tiveram trilhas assinadas pelo compositor. Outro filme bastante reconhecido do diretor, e rodado em Portland, Oregon, é Cold Weather. Fica aí a disca para conhecer o cineasta e o compositor.