A tragédia das 32 crianças da República Luminosa

O madrilenho Andrés Barba ganhou notoriedade nas letras espanholas quando lançou REPÚBLICA LUMINOSA por lá e venceu o Prêmio Herralde em 2017. O seu livro chegou ao Brasil este ano pela editora Todavia e quando comecei a ler, demorei um tempinho para entrar na vibe do autor. Li os três primeiros capítulos e fiquei desconfiado de que ele enrolaria muito para contar a história das 32 crianças que surgiram nas ruas de San Cristóbal e se refugiavam na floresta. Li os capítulos 4 e 5 e, ao fechar o livro para dar uma pausa, já estava totalmente ganho pela história e pelo autor. Não precisei nem chegar ao final da obra para ter certeza de que seria uma das três melhores coisas que li este ano.

A história é contada em primeira pessoa, da perspectiva de um homem, um profissional da gestão pública, que assume a pasta da Ação Social ou Desenvolvimento Social de San Cristóbal, uma cidade espanhola onde vivem muitos Ñeê, um povo característico ao que parece. Então 32 crianças começam a aparecer na cidade, sem origem muito definida, algumas são órfãs, outras fugiram de casa em outras cidades, mas ninguém sabe como é que começaram a se reunir.

O que se sabe é que estiveram em San Cristóbal, praticaram mendicância e pequenos roubos, incomodaram a princípio e depois viraram parte da paisagem, já que, como muitos excluídos em nossas ruas, fingimos que não estão lá. Mas é difícil não ver que são crianças. Como Barba escreve: “Por mais que as víssemos miseráveis, sujas e muitas vezes afetadas por doenças viróticas, já tínhamos nos imunizado contra a situação. Podíamos comprar uma orquídea delas ou um saquinho de limão sem nos alterarmos: aquelas crianças eram pobres e iletradas como a selva era verde, a terra era vermelha e o rio Eré carregava toneladas de lama.”

Sabemos também, desde o início, que uma tragédia vai acontecer com essas crianças. Não só com as 32, mas com algumas outras que vão se juntar ao bando também, o que só aumenta a tensão na cidade, atingindo em cheio as autoridades policiais e municipais.

E então você pensa em todas as coisas que você tem e elas não, e nas coisas que você faz e elas não podem fazer. Porque elas não têm uma casa. Nem comida. Nem cama. E, como não têm essas coisas, dormem com os olhos abertos para não sentir medo. E entram em você. E você é elas.

Andrés Barba conta a história de forma alinear. O narrador está à frente dos acontecimentos e vai revelando o coração dessa narrativa aos poucos, intercalando-o com fatos que se seguiram inclusive anos após a tragédia. Isso cria uma dimensão muito maior da tragédia e da barbárie, fazendo com que República Luminosa não seja um livro apenas sobre o que houve com as 32, e sim páginas repletas de reflexões filosóficas e investigações de cunho moral que só aumentam a tensão e o escopo do ocorrido. República Luminosa, dessa forma, parece ter muito mais história do que cabem em suas 160 páginas.

Foi como ler As Virgens Suicidas, de Jeffrey Eugenides, também. Tanto na estreia de Eugenides como neste de Barba, nunca temos a perspectiva de quem realmente é o centro das atenções. As irmãs Lisbon nunca tomam a palavra para contar a sua versão dos fatos, assim como as crianças também não falam conosco, nem com o narrador e nem deixam documento para termos um insight mais seguro sobre a história delas. Tudo o que é contado sobre elas parte de terceiros ou das elucubrações do próprio narrador, formando um quebra-cabeça muito interessante.

A história que Barba quer nos contar é boa. A forma como escolhe contá-la, é ótima. As reflexões que faz – sobre a história e sobre como nós, os leitores e os sancristobalenses respondemos a ela – é o verdadeiro ouro de República Luminosa. No meio do caos e do desespero, até as melhores intenções podem se traduzir em violência, física e social.

Mas as crianças não apareciam, as patrulhas policiais retornavam todos os dias ocultando a sua frustração, e cada vez que olhávamos para a selva parecia que aquela massa tinha se voltado contra nós para defender as crianças. Se não era uma fábula moral, tínhamos que reconhecer que era bem parecida com uma.

REPÚBLICA LUMINOSA
Andrés Barba
Tradução de Antônio Xerxenesky
Editora Todavia
160 páginas

Um velho e um menino. Quem assombra quem?

Um senhor de 70 e tantos anos. Um menino de 4. Um apartamento – a atual residência do menino que é também onde o velho morou em sua adolescência. Os dois precisam passar alguns dias juntos, praticamente sozinhos a maior parte do tempo, o avô e seu neto. O velho e seus fantasmas e a criança e todo seu futuro. ASSOMBRAÇÕES, do italiano Domenico Starnone, não é um livro sobre o choque de gerações. É muito, muito mais que isso.

O avô precisa ficar com Mario durante três dias. Sair de Milão, onde mora e trabalha como um ilustrador reconhecido, e voltar à Nápoles já é um martírio por si só para ele. Gosta do menino, mas não é do tipo que gosta de cuidar de crianças. A filha e o marido, dois matemáticos, estão tendo problemas conjugais e precisam participar de um congresso. Como é um avô um tanto ausente, se sente obrigado a aceitar ficar com o garoto, entrar em suas exaustivas brincadeiras e sua lógica infantil.

Você quis se transformar – diziam – num senhorzinho de fina sensibilidade e veja a que se reduziu.

Starnone quer contar essa história de limites em primeiro lugar. O avô é Daniele Mallarico sabe muita coisa da vida, mas está debilitado. Nem tudo é fácil para ele realizar. O garoto, por sua vez, sabe bastante para sua idade, mas longe de interpretar tudo como deve ser interpretado. Cada um em uma ponta da vida. Como ilustrador já velho de guerra (que não está em redes sociais e que vê cair o número de pedidos de trabalho), o avô se vê contestado por editor 40 anos mais jovem que lhe pediu para ilustrar um conto fantasmagórico de Henry James. Até seu neto coloca seu trabalho em xeque, dizendo que acha seus desenhos “escuros”. O velho então vê Mario desenhar e nota que ali há mais originalidade do que em seu trabalho. Isso o desnorteia. Ele comenta melancolicamente: “Tudo se esfarela em poucos segundos, as opiniões, as certezas. Talvez, pensei, meus desenhos não digam mais nada a uma criança.”

Se recuperando de um cirurgia, vendo vultos na escuridão, precisando terminar um trabalho, de volta à sua velha casa no sul da Itália e tendo que cuidar de um menino que ser sua aprovação em tudo. Aí estão os conflitos do protagonista, todos eles agindo nos poucos dias em que se passa a trama. Domenico Starnone sabe que é essa história que quer contar e, embora Assombrações seja um livro muito devotado a essa trama, é interessante notar como autor consegue fazer comentários sobre a Itália de ontem e de hoje que refletem a leitura sociopolítica do narrador. São breves comentários dentro das elucubrações do artista protagonista, mas bastante relevantes para que Starnone mostre que sua história, quase toda dentro de um apartamento em Nápoles, tem mais dimensões.

Assombrações também não esconde seus pontos de virada. É fácil identificar quando o artista, já cheio de problemas e desgostos mal-disfarçados, precisa encarar a figura do menino e os dias que passará com ele, tendo não exatamente que confrontar a juventude e a geração mais nova, mas sim conviver com ela, da forma mais natural possível, colocando a sua própria imagem em perspectiva da história de suas escolhas. A convivência chega a um ponto limítrofe no livro que beira a tragédia, mas também é fácil identificar quando a situação se transforma mais uma vez, fazendo com que Mallarico atinja uma espécie de suave iluminação.


“Aquele matemático brilhante, um homem poderoso, lhe inoculara uma energia nova, de modo que a cada dia ela se esforçava em parecer mais bonita e elegante do que na véspera. Em pouco tempo a universidade se tornara para Betta como um enorme recipiente cheio de uma substância licorosa, em que seu corpo frágil flutuava a todo instante, quase sem querer, na direção do corpanzil do recém-chegado – organismo, segundo Saverio, de coxas grossas e ventre pesado -, buscando tocá-lo, chocar-se com ele, e depois se esfregar, enredá-lo, arrastá-lo com ela para o fundo.”

As tais assombrações que dão nome ao livro também aparecem em diversas dimensões. O paralelo mais óbvio é com a assombração no livro de Henry James que o artista precisa ilustrar. Em seguida, seu passado. Mario também acaba se convertendo em um tipo de assombro ao velho. E por fim, ele próprio se assombra. É uma história simples, curta e íntima, mas com as camadas que vão se sobrepondo, como o autor havia construído em Laços, seu único outro livro publicado no Brasil pela Todavia (até agora).

A prosa de Starnone não é nada empolada, fazendo de seu livro uma obra bastante acessível e que pode ser lido tranquilamente por quem nunca leu o autor. Não é um livro tristonho, mas tampouco cheio de felicidades. Uma de suas melhores frases, aliás, é: “Uma das mentiras difíceis de morrer é que as histórias possam de fato terminar em alegria.”

Quarenta anos atrás os excepcionais, já em grande número, começaram a pressionar as portas estreitas das fábricas de arte e cultura. Até que agora (…) a excepcionalidade se tornara um desesperado vozerio de massa pelos infinitos canais de televisão e da internet, uma excelência difusa, mal paga, muitas vezes desempregada.

ASSOMBRAÇÕES
Domenico Starnone
Tradução de Maurício Santana Dias
Editora Todavia
177 páginas

Garotas Mortas e como encarar o feminicídio

Depois do imenso prazer que foi ler O Vento que Arrasa, o primeiro livro da argentina Selva Almada, ler GAROTAS MORTAS não poderia ter me dado uma experiência mais diferente.

O Vento é leve, mesmo quando investiga o fundo da alma daqueles homens que são seus personagens. Garotas Mortas, por um lado, é escrito com delicadeza. Apesar de ser a história de três feminicídios sem solução que ocorrem 30 anos atrás no interior da Argentina, Almada não os descreve com sensacionalismo. Essa é uma marca de sua escrita. No entanto, é impossível ler sobre como os crimes foram brutais (às vezes, sem sentido aparente) e não sentir desconforto. São muitos abusos, muitas mortes e muitas injustiças.

A autora fica na tríplice fronteira da memória, do jornalismo e da literatura. Parte da lembrança de ouvir sobre um dos assassinatos no rádio ainda garota. Outros dois se somam a essa recordação para serem explorados. Contudo, Selva Almada nos dá um verdadeiro panorama de como eram as coisas na Argentina profunda dos anos 80 e 90. Conversas de bairro sobre “certas garotas” e “certos homens”, sobre matrimônios em que abusos eram cometidos mas que ninguém metia a colher e todo tipo de segredos que guarda a intimidade das residências e a violência deixada à mostra em terrenos baldios, lagoas e charcos hermanos. Quem assistiu a série da HBO Sharp Objects, ou cresceu em cidades do interior ,terá uma imagem mental bem precisa do que a autora puxa de sua memória.

Nunca ninguém falou que você podia ser estuprada pelo marido, pelo pai, pelo irmão, pelo vizinho, pelo professor. Por um homem em quem você tem toda a confiança.

Como uma jornalista pouco ortodoxa, Selva Almada também vai em busca da reconstituição do assassinato de Andrea Danne, María Luisa Quevedo e Sarita Mundín. Espalha pelos onze capítulos detalhes do que ocorreu, como morreram ou como acreditam que morreram, quem seriam os suspeitos e de como era a relação dessas mulheres com os suspeitos e com o mundo ao seu redor. Fala com familiares e pessoas que estiveram envolvidas no caso. Ela não nos dá aspas que veríamos em páginas de jornais. O interesse dela não está em solucionar os crimes, e sim em nos mostrar a experiência de perceber que estamos em um mundo em que a mulher vive muito perto de ser uma vítima. Como ela mesma conclui rapidamente: “Eu não sabia que uma mulher podia ser morta pelo simples fato de ser mulher”.

Almada não fala em machismo ou em patriarcado. Não fala em submissão da mulher pelo homem. Não fala da dominação sexual. Ela não dá certos nomes a certas situações porque não precisa. Tudo isso é parte da equação e basta ler para entender, mesmo que você não ligue os fatos relatados a um termo como machismo, por exemplo. Eu mesmo só me dei conta de que a escritora não fala em machismo enquanto escrevia este texto.

E aí entra outro fator que faz de Garota Mortas um livro relevante. Almada usa técnicas da ficção para contar sua história. Não há travessões para anunciar a fala de um personagem de suas memórias ou de uma fonte em suas conversas. O discurso indireto livre abunda. O Vento que Arrasa, só para efeito de comparação, era muito mais bem delineado, com todas as falas e pensamentos muito bem distinguíveis no texto. Isso mostra como Selva Almada é uma escritora de recursos, como no trecho abaixo:

Ela não perdia a calma nem desmanchava o sorriso, mas eu sabia que no fundo estava tão assustada quanto eu. Não, obrigada, tenho namorado. E daí? Eu não sou ciumento. Teu namorado deve ser um moleque, o que ele pode te ensinar da vida? Uma menininha como você precisa de um cara maduro como eu. Proteção. Segurança econômica. Experiência. As frases chegavam até mim entrecortadas. Lá fora já era noite e não se enxergavam nem as lavouras à beira da estrada.

Ao utilizar a prosa criativa (e utilizar bem!) em uma obra de não-ficção, dá até para dizer que Garotas Mortas é um exemplo de jornalismo literário. Embora os três casos que são o mote do livro sejam bem interessantes em suas brutalidades e indefinições, os relatos pessoais de Selva Almada contribuem para entendermos ainda melhor toda a situação das mulheres dos anos 80 até hoje, do cenário político e social argentino (que acaba influenciando em tudo de certa forma) e da própria autora tentando não exatamente descobrir o que aconteceu com Andrea, María Luisa Quevedo e Sarita Mundín, mas o que é que fica dessas três vidas que acabaram tão cedo, tão sem sentido, e que são apenas exemplos de tantas outros assassinatos de garotas que ocorreram e ainda ocorrem e são tratados como mais um homicídio, sem que se importem com todas as contingências que fazem do feminicídio uma situação singular.

O livro chegou ao Brasil pela Todavia justamente quando esperamos que investigações cheguem a algum lugar no caso Marielle Franco. A ex-vereadora do Rio de Janeiro, homossexual e negra, com uma atuação política bastante crítica e incômoda para tantos bambambans da cidade, é um caso um tanto diferente daqueles tratados por Almada, pois é razoável supor que Marielle foi morta por motivos políticos. Ainda assim, tanto o livro quanto o caso lidam com o que há de mais fundamental nesse cenário: a mulher como alvo, ou a visão de uma sociedade machista sobre o que se sentem no direito de fazer a uma mulher.

Como ninguém diz isso claramente, Selva usa sua própria voz para dizer o que é que precisa mudar e qual é a intenção de relatos como o de seu livro:

Eu acho que o que nós precisamos é reconstruir o jeito como o mundo olhava para elas. Se conseguirmos saber como elas eram vistas, como eram olhadas, vamos saber qual era o olhar que elas tinham sobre o mundo, entende?

Acredito que o livro consegue muito bem traçar como essas mulheres eram olhadas e percebidas. Não é muito diferente do que vemos hoje. Falta agora principalmente nós, homens, pensarmos menos como “mais um homicídio” e tentar entender como elas viam o mundo e se sentiam nele.

GAROTAS MORTAS
Selva Almada
Tradução de Sergio Molina
Editora Todavia
128 páginas

Eugene Thacker e como Pensar o Impensável

Eugene Thacker, filósofo e professor da universidade The New School de Nova York, teve reconhecimento com o lançamento de IN THE DUST OF THIS PLANET, primeiro livro de uma trilogia que tenta filosofar a partir de temas sombrios e ocultos ligados ao terror. A base de sua argumentação parte de filmes e livros de terror, de religiões pagãs e chamadas satânicas. Mas como ele próprio deixar claro, seu objetivo não é fazer uma filosofia do terror, e sim explorar o Terror da Filosofia.

A filosofia lida com o racional, com os fenômenos que os seres humanos podem e estão esquipados para investigar, entender e interpretar. Contudo, Thacker cria um paradoxo em sua obra e tenta racionalizar sobre aquilo que não há razão de ser ou, pelo menos, é impossível para os seres humanos compreenderem. Esse é o “terror da filosofia”: entender o que não está ao alcance da capacidade humana apreender ou mesmo conhecer.

…O que nós preguiçosamente chamamos de “sobrenatural” é simplesmente um outro tipo de natureza, mas um tipo que está além da compreensão humana…

O prólogo de In The Dust Of This Planet é um ensaio por si só, com um ponto de vista interessantíssimo. O autor diferencia o mundo-para-nós (world-for-us), que é o mundo em que os humanos agem e conseguem apreender e interpretar, do mundo-em-si-mesmo (world-in-itself) que é o mundo sem a racionalidade humana, indiferente a ela. O mundo-em-si-mesmo é o que é, sem a agência dos homens, e não deve ser pensado como algo que aí está para servir à humanidade. E por fim temos o obscuro mundo-sem-nós (world-without-us), que seria a faceta mais autônoma do planeta, cuja existência não se importa com a presença humana e ainda pode guardar elementos e fenômenos que estão além do conhecimento da humanidade, totalmente ocultos para ela. Esses fenômenos até podem se manifestar à humanidade, mas nós não estaremos prontos ou equipados para entendê-las completamente.

Para Thacker, esses fenômenos ocultos do mundo-sem-nós se manifestam nas obras de terror de diversas formas, como demônios, como o vazio mais perfeito, como a manifestação sobrenatural que arrepia nossa espinha por estarmos diante de algo que não sabemos de que é feito, o que significa e o que pode fazer conosco. Embora a gente sinta medo e se assuste com o que vemos em obras de terror, Thacker diz que o impensável vai além desses sentimentos. O impensável é o desconhecido.

Quando resolve abordar as práticas mágicas, diz: “Enquanto a filosofia oculta tradicional é um conhecimento oculto do mundo aberto, a filosofia oculta hoje é um conhecimento aberto do mundo oculto.” E completa com: “
A nova filosofia oculta é anti-humanista, tendo como método a revelação do não-humano como um limite para o pensamento…”

ABSTRAÇÃO E ARTE

Ele começa discutindo o que é o termo “black” em “black metal”, para dar conta de como “negro” é um adjetivo amplamente usado em nossa cultura para designar o que está além ou escondido dos seres humanos. Depois passa a refletir sobre filmes e livros de terror – com citações e análises muito interessantes de Stephen King, J. G. Ballard, H. P. Lovecraft, A Divina Comédia de Dante e as versões de Fausto de Goethe e Marlowe, o mangá Uzumaki de Junji Ito, entre outros – e como o desconhecido entra em nosso mundo e é representado, seja por demônios, por neblinas, por fluidos, por magia e etc para dar conta do que é o impensável.

O autor não fica preso a essas obras como se estivesse fazendo uma análise de cinema e literatura. Ele parte dos elementos que se apresentam nessas obras para realmente filosofar e tentar encontrar uma forma de nos fazer enxergar o que não é possível entendermos e que acaba traduzido em seres místicos, religiões obscuras e existências lovecraftianas nas artes.

Eugene Thacker tem uma escrita simples, fluida e bem objetiva. A todo momento ele recupera e resume conceitos já explorados para garantir que o leitor continue acompanhando seu pensamento. É realmente uma obra original. Se ler não é o problema, a dificuldade de In This Dust Of This Planet está em abstrair. O desconhecido, por definição, é algo que só podemos começar a imaginar (ou nem isso), mas como somos incapazes de entendê-lo – por ser impensável, oras – é preciso sempre ter em mente o nada, o zero absoluto, a escuridão mais densa… enfim, palavras para definir isso é nossa tentativa de dar sentido a algo que está além do sentido. Percebe como é preciso exercitar o pensamento abstrato para acompanhar o autor?

…esse confronto com o mundo inumano pode se manifestar como os vários demônios, fantasmas e criaturas maléficas que povoam o quadro mitológico e cosmológico de diferentes tradições religiosas. Podemos até acrescentar que esse confronto com o divino como algo terrível é também um tema central do romance gótico do século 18.

Kant, Kierkegaard, Aristóteles, Schopenhauer, Nietzsch, Agostinho e Aquino são filósofos que Thacker recupera para discutir suas teses. Me chamou a atenção como até mesmo filósofos ocultistas, como Aggripa, e teólogos, como Rudolf Otto, ele também evoca para dar a dimensão desse terror da filosofia. É realmente uma obra instrutiva e que te ajuda a filosofar com o que Thacker chega a chamar de não-filosofia. A ideia da obra é realmente mostrar, por meio da produção cultural humana, os limites do pensamento e colocar na equação o mundo-em-si-mesmo e o mundo-sem-nós, o que nos obriga a pensar na(s) existência(s) como coisas em si mesmas, não em termos humanos. Filosofar sobre isso e dessa forma acaba, de fato, levando a filosofia ao seu próprio limite.

Não é preciso ter um conhecimento amplo de filosofia clássica, contemporânea, niilista ou Idealismo Alemão. Também não precisa ser um fã de King, Lovecraft, filmes de terror e praticante de magia da mão esquerda para compreender In The Dust Of This Planet. Mas se tiver afinidade ou curiosidade com esses temas citados, o livro fica ainda mais delicioso e realmente joga muitas trevas na luz do que achávamos que sabíamos.

BURACO NEGRO E O POP

Como disse, o pensamento abstrato é importante para chegar ao coração do que Eugene Thacker quer nos dizer com Impensável. Ele não faz essa analogia no livro, mas foi a que criei para eu mesmo conseguir visualizar melhor a questão. Então, imagine um buraco negro no espaço: embora seja invisível, sabemos que ele existe, que ele suga toda a matéria e até a luz para dentro de si. É um enorme poço gravitacional e está lá, como uma existência que não sabemos bem o que representa, pois se passarmos por ele não sabemos o que há do outro lado. Simplesmente não sabemos. Não há evidências. Não sabemos ao certo nem quando os menores e nem quando os maiores (os supermassives) foram feitos. É algo que não tem moral e nem vontade, como o world-without-us de Thacker. Ele engole tudo, sem distinção, sem se importar, sem culpa ou remorso. Pode até ser que do outro lado exista algo maravilhoso, mas somente a ideia de ficar cara-a-cara com um buraco negro é aterrorizante. Sentimos medo, medo do que não sabemos o que é, para onde vai, o que é capaz de fazer conosco e com qualquer outra coisa. Um enigma. Além da escuridão de sua invisibilidade, o restante é impensável.

In The Dust Of This Planet foi lançado em 2011. Ganhou ainda mais reconhecimento quando Jay-Z apareceu ao lado de Beyoncé usando uma jaqueta com o nome do livro no clipe de “Run”. O título virou artigo de moda, desdobramento bem incomuns para obras filosóficas niilistas. Nic Pizzolato, roteirista de True Detective, também admitiu ter se influenciado pelo livro para a primeira temporada da série, o que só aumentou o alcance do texto. Há duas continuações, ambas de 2015, e que pretendo ler também.

O divino é sombrio porque não temos conceito para ele.

No momento, não faço ideia de como Thacker aborda o assunto dos limites do pensamento e da não-filosofia nas continuações da sua série Horror of Philosophy, mas acredito que siga na trilha de investigar abstratamente como seria um mundo em que nem tudo precisa de “uma razão para ser” (princípio básico de filosofia), embora ansiemos por dar significado a tudo, pois é terrível não sabermos, não é? Mas em um mundo como o nosso, em que os terrores políticos e principalmente climáticos parecem ameaçar continuamente a vida no planeta, acredito que há muito mais para pensarmos sobre o mundo-em-si-mesmo e o mundo-sem-nós, mesmo que para chegar ao mundo-sem-nós tenhamos que estar todos mortos e, por isso, sem ninguém para de fato pensar este mundo-sem-nós que, no final das contas, será um mundo sem pensamento algum.

Parece muito niilista para você? E é mesmo. Mas Thacker não pratica o niilismo do tipo “está tudo ferrado agora”. Mesmo que nada tenha sentido, mesmo que nada tenha a resposta que buscamos ou que achamos que precisamos, ele parece querer dizer que vale a pena viver. Afinal, até mesmo a falta de fé de que existam respostas é fé em alguma coisa.

IN THE DUST OF THIS PLANET
Eugene Thacker
Editora Zero Books
170 páginas

O ousado A Vegetariana

Fiquei sozinho na escuridão da cozinha, encarando a porta do quarto que engoliu minha esposa vestida de branco.

A VEGETARIANA, livro da sul-coreana Han Kang, ganhou uma nova edição no Brasil. Dessa vez pela Todavia, com tradução caprichada e direto da versão original. Um dos motivos alegados pela editora para acrescentar o livro ao seu catálogo é que poderia ser uma introdução à literatura coreana. Não tenho dúvidas de que para a maior parte dos brasileiros será mesmo a primeira vez que se deparam com a literatura de lá. Foi a minha primeira vez também.

Outro motivo é que A Vegetariana tem sido considerado um dos livros mais importantes da ficção contemporânea. Não tenho o cacife e a leitura suficiente para tal afirmação, mas posso dizer que o impacto é enorme. Han Kang escreve de forma clara e cria imagens fortes e vivas na cabeça do leitor. Enquanto lia, um filme noir rodava em minha mente, geralmente em preto e branco, mas com cores surgindo em momentos muito específicos quando um pedaço de carne é apresentado, ou quando um pulso é cortado, quando flores são desenhadas sobre corpos, quando uma mulher se refugia imóvel entre as árvores de um bosque.

Han Kang, a autora sul-coreana

A Vegetariana é contado em três atos e em quatro pontos de vista diferentes. Yeonghye, uma esposa comum, que não é mãe e casada com um cara tediosamente comum, deixa de comer carne. Se recusa até a prepará-la. Não é uma defesa ideológica aos direitos dos animais. Tampouco é saúde do corpo que interessa à personagem. A mudança ocorre de uma hora para outra, motivada, segundo ela, por sonhos.

O marido se incomoda. Primeiro acha que é uma moda de dieta vegetariana. Depois acha que é loucura mesmo. Convoca toda a família de Yonghye para ajudá-lo a dissuadir a mulher dessa bobagem de vegetarianismo. “Como podia ser tão teimosa e ignorar completamente a opinião de seu marido?”, ele pensa.

O primeiro ato é importantíssimo e o melhor do livro. Temos alguns flashes do que pode estar ocorrendo com a mulher. É a única porção da história em que nossa protagonista tem voz, mesmo que seu relato seja meio misterioso e não confiável. De resto, ela é toda sufocada pelas vozes, vontades e interpretações dos outros. Vamos ter machismo, o tradicionalismo cultural coreano que logo taxa o que ocorre com Yeonghye como rebelião e algo totalmente inaceitável.

Percebeu que a letargia proporcionada pelo sono apagava a dor e a humilhação. E que, nas manhãs seguintes, na mesa do café, continha o impulso de espetar os palitos nos próprios olhos ou de jogar a água quente da chaleira na cabeça. 

A grande sacada de Han Kang, a meu ver, é conseguir quebrar a história desse misterioso e repentino vegetarianismo em diferentes frentes temáticas, misturando-o com diversas outras questões que são tanto locais ali na Coréia e no Oriente (hábitos alimentares, familiares, apego às tradições) com outras muito universais (empatia e a falta dela, saúde mental, erotismo, amor, traição, casamento, taras, sexualidade, punição e perdão).

Embora dois terços do livro seja contado do ponto de vista de homens escrotos, a escritora entrega uma humanidade assustadora a eles. Mas não humanidade no sentido mais elevado, aquele em que entendemos as motivações e até achamos que tenham alguma razão. É, sobretudo, humanidade no sentido de sabermos como, lá no íntimo, certas pessoas podem ser incrivelmente perversas e nem se darem conta disso.

O filtro da literatura nos revela esse lado dos personagens ao nos colocar no ponto de vista deles. São todos vítimas de uma mudança repentina que não compreendem, são todos vítimas de suas próprias questões internas e problemas mal resolvidos. Mas são todos vítimas de acordo apenas com certo ponto de vista. São todos predadores também e fazem de Yeonghye a maior vítima.

Vendo-a aceitar sem resistência todo aquele processo, considerou-a um ser sagrado, nem humano nem animal, ou talvez um ser entre o vegetal, o animal e o humano, tudo ao mesmo tempo.

A história deriva do conto O Fruto da Minha Mulher, que Kang escreveu uma década antes de publicar A Vegetariana, sobre uma mulher que vai gradativamente se transformando em planta. O marido até a coloca em um vaso e passa a regá-la. Aspectos desse conto estão mantidos no romance, porém causas e significados são mais amplos no livro e cutucam feridas bem abertas. Da degradação de uma mulher, seja no conto ou seja no romance, fica bem evidente o grito de denúncia abafado da mulher.

A autora estudou Literatura na universidade e dá aulas de escrita criativa. A Vegetariana foi seu maior sucesso até agora. Originalmente publicado em 2007 e o primeiro a ser traduzido para o inglês (em 2015), venceu o Man Booker Prize em 2016, o que só deu mais força ao livro. O falatório não é hype de premiação apenas. Han Kang revela pessoas e contextos de forma ousada. A narrativa muda, conforme as três partes do livro se sucedem, e ampliam o espectro do significado da recusa da carne. De um conto meio misterioso e que parece que vai virar um terror mudamos para uma abordagem que mistura arte e sexo, e então chegamos às questões de saúde. Nunca deixa de ser interessante, sempre uma obsessão para vermos até onde é levada.

Um romance curto e poderoso. A verdadeira rebelião da vegetariana não é contra a proteína de origem animal. É contra as violências que a liberdade individual constantemente sofre.

A VEGETARIANA
Han Kang
Tradução: Jae Hyung Woo
Editora Todavia
176 páginas

Quanto há de Nick Cave em The Sick Bag Song?

Nick Cave pinta o cabelo de preto até parecer as asas de um corvo. O veículo que transporta os Bad Seeds fica parado na estrada enquanto um corpo é removido. Ao passar pelo local do acidente, Nick vê o corpo decapitado pela janela. Quando chega ao hotel e percebe que tem gente esperando para vê-lo assim que descer da van, chama os fãs de caçadores de autógrafos.

São coisas assim que ficamos sabendo sobre Nick Cave, o cantor australiano, ao ler THE SICK BAG SONG, livro escrito a partir de notas, letras, pensamentos e narrações que o compositor fez durante naqueles saquinhos de enjoo fornecidos pelas empresas aéreas. Foi tudo escrito ao longo de poucos dias na turnê do álbum Push The Sky Away (2013) em 2014, entre show no Canadá e nos Estados Unidos.

O livro chega ao Brasil pela editora Terreno Estranho, com tradução do jornalista e escritor Carlos Messias, no momento mais oportuno: na semana em que Nick Cave and The Bad Seeds se apresentam em São Paulo (cidade em que o cantor morou no início dos anos 90) mais de 25 anos depois da último show. A edição de luxo do livro tem capa dura azul, respeita a simplicidade do design da edição original e traz páginas coloridas com a reprodução fotográfica dos sacos de enjoo em que o músico esboçou suas ideias. Essa versão é limitada há 400 exemplares numerados. Uma versão em brochura mais em conta será lançada em breve também.

Num estúdio em Malibu, Johnny Cash se sentou e tocou uma canção.
Ele estava parcialmente cego e mal conseguia caminhar.
Eu estava lá.
Eu vi um homem doente pegar seu instrumento e ficar bem.
Com pesar, também vi o contrário. Palhetar, palhetar, palhetar.Eu vi mais de um homem, em bom estado, pegar seu instrumento
E se adoentar.

Em The Sick Bag Song, Cave fala de uma visita a Bryan Ferry e sua esposa em Denver e de como Bryan não consegue mais compor há 3 anos. Fala de como ele e a banda ficam doentes na turnê. Explica como os saquinhos de enjoo da United Airlines são plastificados e ruins de escrever por cima. Aparentemente, ele gosta de dragões também. Os chineses. E até encontra uma dragonesa em uma de suas paradas.

Nick é um erudito versado em mitologia grega. Antes de entrar no palco, a banda busca o nome das musas: Calíope, Euterpe, Erato, Clio, Melpômene, Polimnia, Terpsícore, Tália e Urânia. Cada uma tem uma função e é evocada para ajudar em um tipo específico de música. É interessante ver como ele categoriza suas próprias músicas: “From Here To Eternity” definitiva é uma música antiga. Será que ele considera “Stagger Lee” uma canção engraçada? “Jesus Alone” seria super trágica ou religiosa?

Não é um livro em que Nick Cave está preocupado em contar como é uma turnê dos Bad Seeds, revelando detalhes de backstage, histórias engraçadas ou trágicas, conversas ou a personalidade cada um ao seu redor. Não é um diário de turnê, mas, ao mesmo tempo, é sim. Veja por este lado: Nick escreve da forma mais pessoal que pode, mais para si mesmo do que para o leitor, o que se aproxima muito do que seria um diário real dele feito para ele mesmo.

Era o Dia do Canadá e eu era um único pulmão berrante
E insuficiente.
Minha dragonesa não tinha sobrevivido àquela noite.
Ela tinha morrido.
Eu sentei lá e escutei seu último e vagaroso suspiro
Borbulhar feito uma canção da ferida em seu interior.

O livro é como o documentário 20.000 Dias Na Terra, em que não se busca contar a história de Cave e da banda, não se busca explorar linearmente como se deu a carreira. É uma baita experiência, mas não no sentido mais tradicional do documentário, do tipo que tentaria te revelar coisas por meio de explorações de informações, biografias, e etc.

Até as surreais conversas de divulgação do próprio livro fazem parte de suas páginas. E nem perca tempo tentando adivinhar o que pode ter influenciado a escrita de Cave em The Sick Bag Song. Ele dá a resposta e nem que você fosse um observador muito arguto conseguiria reunir a miríade de obras e nomes em que Nick encontra alguma correlação ou inspiração.

Também não é um livro como A Morte de Bunny Munro. Não é um romance, embora Cave misture muita imaginação ao que escreve. Um fato real pode se transmutar em fantasia. A garota da minissaia está lá todas as vezes realmente ou é apenas devaneio? Embora seja um livro de prosa, ele faz questão de quebrar as frases em versos com frequência.


Mitologia borbulha em mim feito plástico derretido.

Alguns temas são recorrentes nos saquinhos de enjoo. O menino nos trilhos de trem que caiu do precipício. Decapitações. Fumar em escadas e depois de cada show ou enquanto espera por algo. A minissaia. A esposa que aparece e desaparece e que não atende a porra do telefone!

Não posso deixar passar que grandes influências musicais de Cave encontraram um jeito de fazer parte da história. Leonard Cohen está ali. Bob Dylan também. Johnny Cash aparece cedo também.

Não é um livro que se preste à explicações, mas acredito que como apenas fãs – novos ou antigos – vão ler The Sick Bag Song, diria que é fácil encontrar uma extensão de sua obra musical. Quanto de Nick Cave há no livro? Ora, muito. Suas obsessões, suas histórias, suas vivências, seus amores e os nomes que são importantes para ele são citados ao menos uma vez. Não vai ajudar a interpretar todo o seu extenso catálogo de letras e músicas, pois é um produto em que ele se manifesta de forma única como não tínhamos visto ainda.

THE SICK BAG SONG
Nick Cave
Tradução: Carlos Messias
Editora Terreno Estranho
180 páginas

Mona Lisa Overdrive e a conclusão da Trilogia do Sprawl

– Estresse – respondeu, se perguntando como ela sabia daquelas coisas. – Onde está o Gentry?

– Eu o coloquei na cama.

– Por quê?

– Ele saiu do ar. Quando viu aquela coisa…

– Que coisa?

Com a leitura de MONA LISA OVERDRIVE, concluo a Trilogia do Sprawl de William Gibson. Valeu a pena reler Neuromancer na nova tradução da editora Aleph e seguir com suas continuações. Se o primeiro livro é um desafio maior de imaginação, tanto Count Zero quanto Mona Lisa já ficam bem mais fáceis de entender o que o autor está querendo desenhar com suas palavras. Como fazia muito tempo que não mergulhava em mil páginas de ficção científica, já tinha esquecido o quanto pode ser difícil contar ao leitor como é um futuro cheio de inovações que ainda não foram inventadas.

No primeiro livro, seguimos a história pelo ponto de vista de Case. No segundo, Gibson quebrou a narrativa em três pontos de vista. No último volume, o autor nos coloca na cola de quatro personagens que, como se não bastasse o protagonismo de cada um, acabam cruzando com outros personagens que também saltam ao primeiro plano da narrativa. Cada história começa em um ponto diferente do planeta e conforme o final se aproxima, as barreiras entre eles desmoronam e os capítulos quase que não narram mais o ponto de vista de um ou de outro, concentrando-se melhor na situação criada.

Para começar, temos Kumiko, filha de um figurão da Yakuza que vai a Londres para ficar protegida enquanto seu pai toma as rédeas da situação no Japão. Em algum lugar do Sprawl (a megacidade que vai de Boston à Atlanta nos EUA), em uma fábrica abandonada, um tal de Kid Afrika cobra de Henry Slick um favor e deixa com ele um cara preso a um aparelho de realidade virtual fazendo sabe deus o que dentro do ciberespaço. Com ele fica Cherry, uma tec-med, para garantir que o rapaz não morra.

Angie Mitchell, uma personagem importante de Count Zero, agora é uma estrela planetária da Sense/Net. Um tipo de celebridade de uma nova mídia de realidade virtual. Alguém está atrás dela com más intenções e as entidades vodus digitais que a contatavam, silenciaram. Após um abuso de drogas, Angie está prestes a voltar aos holofotes. E por fim temos Mona, uma prostituta do meio-oeste americano apaixonada por Angie e que mistura inocência com uma falta de perspectiva de vida de dar dó.

Ele tinha esta ideia de que a IA tinha sumido, de certa forma; não sumido mesmo, mas sumido dentro de tudo, da matrix inteira. Como se não estivesse mais no ciberespaço, mas apenas estivesse. E se não quisesse que você a visse, que não soubesse que estava lá, bem, você não teria como, e nem pensar em provar para qualquer um, mesmo que você soubesse… E eu definitivamente não queria saber.

Quando Gibson iniciou sua narrativa cyberpunk profunda, não sabia que escreveria uma continuação. Mas já que levou o projeto à frente, fez questão de conectar todas as obras. A história de Mona Lisa ocorre sete anos após os eventos de Count Zero. Se o segundo livro podia ser lido e compreendido mesmo sem a leitura de Neuromancer, Mona Lisa Overdrive precisa da leitura de seus precursores para fazer sentido. Nele, temos pistas quase concretas do que houve com Case, vemos no que foi dar a existência do Finlandês, temos o destino final de Bobby “Count Zero” Newmark e Molly, 10 anos depois de sua aventura no primeiro livro, reaparece tão razorgirl e fodida na vida quanto antes.

Gibson não se desvia da narrativa por um minuto sequer. Toda a compreensão maior do planeta e da sociedade que construiu se dá por reflexões e diálogos de personagens. Vamos juntando as peças e entendendo quem é que está no poder – ou o que está, neste mundo de inteligências artificiais e megacorporações – quem é desfavorecido e quem está no meio, sobrevivendo num misto de legalidade e ilegalidade. O interessante é que o autor não faz julgamento de valor em momento algum. Em sua prosa, as coisas são como são e ele as trata com naturalidade, sem forçar compaixão ou ojeriza por um ou outro. Se o leitor quiser tomar o lado de uma privilegiada, como Kumiko, ou de uma underdog, como Mona, isso se dá pela trajetória e pela personalidade de cada uma.

Em Mona Lisa Overdrive compreendemos o que é 3Jane e o porquê do número na frente do nome. Aliás, a Tessier-Ashpool é o nome/empresa/conglomerado/família que liga toda a trilogia e suas tramas fundamentais, da mesma forma que a corporação Weyland-Yutani está sempre presente na trama da série cinematográfica Alien. As IAs, tão caras ao cyberpunk em todos os seus formatos (literatura, quadrinhos, cinema, anime, seriados), são mostradas como consciências cada vez mais amplas. “– Há mundos dentro dos mundos – disse ele. – Macrocosmo, microcosmo. Esta noite, carregamos um universo inteiro através de uma ponte e o que está acima é como o que está abaixo…”

IAs não são seres vivos biológicos, mas seres vivos sencientes de uma nova natureza usando um novo meio-ambiente (ciberespaço) para se manifestar no mundo concreto. E alguns humanos, como Angie, têm conexão direta com eles, sem precisar de nenhum aparelho externo ao corpo para isso. Gibson não tinha as palavras wi-fi ou bluetooth em 1988, quando a conclusão da trilogia foi publicada, mas é justamente esse tipo de conexão que Angie apresenta.

Seu pai, há muito tempo, no Arizona, tinha dito a ela que não se conectasse. Você não precisa, dissera. E ela, de fato, não precisava, porque sonhava com o ciberespaço, como se as linhas de neon da matrix esperassem por ela atrás de suas pálpebras.

Um traço marcante da sociedade de Neuromancer era o quanto as pessoa eram movidas por drogas. Era a forma de aliviar a angústia, a dor e de suportar a realidade. Em Count Zero essa característica esteve um pouco ausente, mas em Mona Lisa Overdrive ela volta e é decisiva, já que o overdrive do título só não é uma overdose por pouco. Uma das cenas mais bem escritas do livro, quase em seu final, acompanha o ponto de vista de Mona, sob efeito pesado de wiz, tentando ajudar outros personagens no meio de um tiroteio.

Foi interessante maratonar a trilogia de William Gibson e sentir novamente como é a pegada literária da ficção científica, um gênero que era mais forte em mim na adolescência, antes de ler Nabokov e migrar totalmente. Mas como é sempre bom variar as leituras, saber o que já se fez e o que se faz em diversos gêneros de escrita, considero uma experiência válida e divertida também. Já vimos MatrixBlade Runner e Blade Runner 2049. Ouvimos o disco do Cadu Tenório, influenciado pela obra. Só este ano a Netflix colocou no ar duas séries com influência cyberpunk (Altered Carbon e a ótima Maniac). Fico no aguardo do game Cyberpunk 2077, ávido para saber o quanto de William Gibson foi transposto e adaptado para a Night City do jogo.

Leia aqui sobre a releitura de Neuromancer

E aqui sobre a continuação, Count Zero

MONA LISA OVERDRIVE
William Gibson
Tradução: Carlos Irineu
Editora Aleph
320 páginas

“Count Zero”, a sequência de Neuromancer

E, por um instante, ela olhou diretamente para aqueles ternos olhos azuis e soube, com a certeza do instinto mamífero, que os extremamente ricos não eram nem de longe humanos.

Publicado em 1986, três anos após Neuromancer, COUNT ZERO é a sequência que William Gibson achou que nunca escreveria. A princípio, ele achou que Neuromancer não daria em nada, mas levar para casa os três principais prêmios da literatura de ficção científica de uma vez realmente pode fazer um homem mudar de ideia, certo?

Primeiro, é preciso dizer que, caso você queira, pode ler Count Zero sem ter lido Neuromancer. A trama é totalmente independente da contada no primeiro livro da Trilogia do Sprawl, com (quase) todos novos personagens e situações. Contudo, há detalhes e pequenas passagens no livro que são saborosos para quem conhece Neuromancer. Nenhum desses detalhes é importantíssimo para compreender o que se passa em Count Zero, mas são necessários para que saibamos o que mudou no ciberespaço, na matrix, no Sprawl, nas corporações desde os eventos do primeiro livro.

Em segundo lugar, Count Zero é muito mais fluido que Neuromancer. Por mais que Gibson tenha reescrito diversas vezes muita coisa do primeiro, com medo de que o leitor não ficasse entretido o bastante, Neuromancer parece mais truncado em diversas ocasiões. Count Zero não. O enredo só vai.

O vodu diz que há um Deus, claro, Gran Met, mas ele é grande, grande demais e distante demais pra se preocupar se você é pobre ou não arranja mulher. Vamos lá, cara, você sabe como funciona, é uma religião de rua, que veio do lugar mais pobre possível um milhão de anos atrás. Vodu é como a rua. Se um cheirador de pó fizer picadinho da sua irmã, você não vai acampar na porta da Yakuza, vai? De jeito nenhum. Você procura alguém que pode cuidar do assunto. Certo?

Acompanhamos três histórias diferentes, que se alternam até o final. Primeiro, a de Turner, um mercenário, um cara grandão e que é chamado para fazer o trabalho sujo para corporações. A princípio, ele é contratado para fazer a extração de um cientista da Maas Lab para a Hosaka. Mas é claro que algo dará muito errado nesse processo e Turner, de predador, vira a caça. Em Paris, Marly Krushkhova se deu mal no ramo das galerias de arte e acaba contratada por um dos homens mais ricos deste mundo para investigar um artista. Não demora para ela perceber que sua missão não é tão simples e que há muito mais do arte envolvida no caso.

Por fim, temos Bobby “Count Zero” Newmark, um hotdogger, um cowboy do ciberespaço iniciante que ao tentar acessar um sistema de proteção (ICE), acaba se metendo sem querer numa conspiração envolvendo corporações e a existências de “deuses” na matrix.

No futuro cyberpunk criado pelo autor americano, os Estados, enquanto governos, são mínimos. Grandes corporações são tão presentes no universo social, político e econômico que acabam dando as cartas, criando teias de relações e conspirações bastante intrincadas. Bobby, Turner e Marly atuam cada um em uma ponta dessa grande teia e aos poucos o desenho vai ficando claro, com um série de reviravoltas que garantem movimento constante às três narrativas.

Há alguns pensamentos bem interessantes no livro, como a reflexão de que espaço teriam, nesse mundo de corporações, fortunas incalculáveis de famílias ou pessoas. A aristocracia é quase uma anomalia nessa era, mas ainda persiste. Outro assunto que se desenvolve ao longo das páginas é a existência de IAs que não apenas tomam consciência de si mesmas, como acabam se identificando com os loa (entidades espirituais) da religião vodu haitiana. Essa apropriação cultural pela máquina e como os humanos, por sua vez, recebem essa apropriação e a aceitam, é o traço filosófico que considero o melhor de Count Zero. Por outro lado, é inegável que Neuromancer parecia muito mais carregado de filosofia até nos pequenos detalhes.

Isso faz com que a sequência seja muito mais focada em ação e aventura. Ainda assim, os capítulos estão cheios de detalhes sobre como é esse mundo (retro)futurista imaginado por Gibson. São pequenos trechos que, por mais que imaginação que exista em sua concepção, espelha possibilidades reais de nossa sociedade, seja ela como era nos anos 80 ou mesmo agora, 30 anos depois. William Gibson é chamado de visionário não por tentar acertar o que seria nosso futuro – até porque ele não previu a telefonia móvel e a rede como a temos e usamos hoje –, mas por conseguir ler o seu zeitgeist e conseguir projetar nossas obsessões, traumas e medos mais fundamentais no tempo.

Nessa projeção cabe até a crença religiosa na cultura cyberpunk. Se hoje ela ainda existe tomando como base “uma existência superior”, como se estivesse em uma camada de existência não acessível aos homens e mulheres, no futuro, com toda a tecnologia disponível, a crença ainda está lá, mas mudou de lugar. Dos templos para a matrix. Ao mesmo tempo, isso não excluiu Jesus do rol de divindades, mas inclui o controverso L. B. Hubbard, o criador da cientologia, como um profeta digno de culto e admiração.

“Nos últimos sete, oito anos, tem coisas engraçadas lá fora, lá na roda dos cowboys de console. Os novos jóqueis fazem tratos com as coisas, não fazem, Lucas? É, pode aposta que eu sei. Eles ainda precisam do hard e do soft, e ainda precisam ser mais rápidos que cobras no gelo. Mas todos eles, todos os que sabem mesmo cortar, têm aliados, não têm, Lucas?”

Citei quando falei sobre a série Strange Angel, que conta a história do cientista e ocultista Jack Parsons, falei de uma sutil mudança que vivemos, onde os mundos da ciência e da crença metafísica se reencontram, mais do que se combatem. Em 1986, Gibson já deixava isso palpável entre tribos urbanas do Sprawl (megacidade que vai de Boston a Atlanta), inteligências artificiais e megacorporações. O Finlandês, que já estava em Neuromancer, reaparece em Count Zero mais velhaco do que antes para fazer essa conexão: “É, tem coisas lá. Fantasmas, vozes. Por que não? Os oceanos tinham sereias, e toda aquela merda, e a gente estava com um mar de silício, vê? Claro, é só uma alucinação inventada que todos concordamos em ter, o ciberespaço, mas qualquer um que se conecta sabe, sabe mesmo que é todo um universo. E a cada ano fica um pouco mais lotado, é o que parece…”

Embora seja muito menos debatido e citado que seu antecessor, Count Zero  é uma leitura válida se seu intuito é se aprofundar na obra de Gibson ou de mais um bom exemplo de cyberpunk com ideias que continuam sendo reaproveitadas até hoje. O autor está mais afiado neste livro e parte de uma estrutura diferente para contar sua história, ao mesmo tempo em que apresenta uma paleta de personagens e cobre uma geografia mais vasta. Terminamos a história de Bobby, Marly, Turner, Lucas, Paco e Angie com uma ideia melhor das várias tribos que habitam o planeta e que fronteiras ainda existem.

Mona Lisa Overdrive, a terceira parte da Trilogia do Sprawl, já está nos planos de leitura e em breve devo escrever sobre ela.

Leia também: Minha releitura de Neuromancer

COUNT ZERO
William Gibson
Tradução: Carlos Angelo
Editora Aleph
312 páginas

O Vento Que Arrasa e aquilo que nos falta

– O carro vai estar pronto no finzinho da tarde, se Deus quiser – disse o Reverendo, enxugando a testa com o lenço.

– E se Deus não quiser? – respondeu Leni, ajustando os fones de ouvido do walkman que sempre levava pendurado na cintura. Apertou play e sua cabeça se encheu de música.

Há autores que fazem de tudo para imprimir um estilo a cada frase e acenar para o leitor que sim, você está lendo esse autor mesmo. Pode pensar em figuras como Joyce, Guimarães Rosa, DFW, António Lobo Antunes e tantos outros. Veja bem que não citei entre eles um único autor que não mereça ser lido 🙂 e nem afirmo que façam isso o tempo todo, ao longo de todas as suas obras. Mas fazem.

Há autores que, de outra forma, conseguem submergir seus tiques e suas personalidades por trás da pena, da caneta, da máquina de escrever e do computador e passamos o livro todo vendo a história se desdobrar com naturalidade incrível. É o caso da argentina Selva Almada e seu O VENTO QUE ARRASA, livro que já chegou à décima edição em seu país natal e confirmou o nome da autora como uma das melhores escritores contemporâneas da América Latina.

É um livro leve. Tem apenas 128 páginas e apenas uma locação onde toda a ação e todo o drama se passam. Contém somente quatro personagens. O Reverendo Pearson e sua filha Leni que, viajando pelo charco argentino, acabam ficando na estrada com o carro quebrado e rebocado até a oficina quase no meio do nada onde trabalha Gringo Brauer e seu ajudante Tapioca.

O Vento Que Arrasa é quase um road movie às avessas, primeiro porque não é filme, e sim literatura, e depois porque não é a viagem que leva à transformação, mas sim a estadia de um dia em um mesmo local fora de casa. Contudo, Almada encadeia as cenas e os flashbacks de modo a dar um ar de road movie.

Foto: Santiago Maquelet

Na Argentina católica, Reverendo Pearson é um desses religiosos evangélicos que não se cabem dentro de si e enxergam uma missão cristianizadora em praticamente tudo o que veem ou em todos que conhecem. Beira o irritante, é verdade, mas também é bonito de ver sua fé se manifestar de forma quase ingênua. A mesma ingenuidade que o leva a ver no jovem Tapioca uma alma pura e prontinha para ser fisgada pelo prego da cruz de Cristo.

Leni, a filha adolescente, é a figura que confronta o pai. Age com deboche, com certa rebeldia e guarda para si os fantasmas que ajudam a dar a forma no confronto que vive tendo com seu pai. Gringo Brauer, a figura que não quer ser cristianizada, contrasta tanto com seu parceirinho Tapioca, quanto com o Reverendo.

Selva Almada, assim, forma um quadrado perfeito e coloca cada personagem em um lado, sempre com duas figuras contrastantes e em rota de colisão com os outros dois, do outro lado. A tensão vai sendo criada aos poucos e com exímio controle da autora, para que a história tenha conflito, mas sem perder a ternura. Ela até mesmo concatena uma mudança climática para acompanhar o clímax da história, um velho truque, é claro, mas bastante eficaz.

Mesmo assim, em algum momento, começou a chorar. Só lágrimas, sem nenhum som. Água caindo de seus olhos como a água que caía do céu. Chuva perdida em meio à chuva.

Não sei se cheguei ao cerne de O Vento Que Arrasa, mas me peguei pensando em como substituímos o que nos falta por alguma outra coisa. Há aqueles que, como sabemos bem, buscam uma verdade maior em que tudo caiba. A religião parece o quadro perfeito para este tipo, fornecendo não a resposta, mas a promessa de resposta. A vida simples e espartana, livre de grandes dramas e grandes compromissos, também blinda contra tudo o que mais poderíamos ser ou experimentar. O sarcasmo e um certo grau de negação parece a resposta natural de uma juventude que perdeu algo contra sua escolha e não sabe bem ainda como cobrir esse buraco. E há também quem nunca teve nada e nem esperava que haveria mais o que se ter. Porém, quando o mundo parece poder ficar maior, dá o salto de fé necessário para se agarrar à oportunidade.

É possível se identificar com qualquer um dos quatro. Gringo Brauer não tenta ser simpático e mesmo assim a gente se sente na pele dele quase imediatamente. Tapioca rouba a cena. De um moleque calado passa a ser o personagem pelo qual você torce para que algo mude e, de fato, a sua mudança é a mais relevante ao fim das 120 páginas. Esperava mais de Leni, mas certamente a sutil incursão por sua cabeça vale a pena. Quanto ao Reverendo Pearson, sai ganhando, com a fé firme, mesmo que nada tivesse tido a ver com a vontade de Deus.

Por que o solteirão se enforcou, por que o engenheiro matou o outro engenheiro? E o que é a morte senão uma só e mesma coisa, vazia e obscura, pouco importando o braço que a executa?

O Vento que Arrasa foi publicado originalmente em 2012 e chegou ao Brasil em 2015 pela Cosac Naify. Mesmo sendo um livro curtinho de capítulos igualmente breves, é bom notar que sua editora não existe mais e então não foram feitas mais impressões da obra no país. Se quiser ler a história de Leni, Tapioca, Gringo e do Reverendo, terá que enfrentar a escassez do mercado que elevou o preço das cópias restantes na Amazon para astronômicos R$ 250. Já na Estante Virtual há quem venda cópias usadas por R$ 18 ou por inflacionados R$ 70. Quem tiver criatividade para procurar por livros o encontrará disponível em ainda mais um meio que, apesar de ser meio underground, é vendido, comicamente, como “cópia original”.

Embora o último capítulo seja um dos mais lindos que já tenha lido, com a potência de que apenas os capítulos curtos e precisos têm, Almada não entrega catarses e muito menos deixa sua história com um final aberto. Fiquei com o gosto de cada personagem na boca ao terminar de ler, esperando um raio, esperando uma aparição no retrovisor, ou com o corpo reagindo como o de Gringo: “No peito, o coração parecia um gato metido num saco.”

O VENTO QUE ARRASA
Selva Almada
Tradução: Samuel Titan Jr.
Editora Cosac Naify
128 páginas

Relendo Neuromancer, o clássico cyberpunk

Cyberpunk 2077 vem aí. Qualquer um que tenha jogado The Witcher sabe da capacidade da CD Projekt Red, o estúdio polonês de games, de contar uma boa história, madura e complexa, cativante e que ilustra quem somos ou podemos ser, seja o nosso melhor ou pior. E não basta que Cyberpunk 2077 seja um jogo baseado na estética cyberpunk. Ele assume o nome do subgênero da ficção-científica como seu título, e então dá-se apenas um ano como complemento. Isso mostra a ambição por trás do estúdio de tentar fazer do jogo um marco do gênero.

Como preparação para este jogo tão estiloso, me lancei à tarefa de ler os livros fundamentais do cyberpunk, a Trilogia do Sprawl do norte-americano William Gibson. Eu já havia lido a segunda tradução de NEUROMANCER antes mesmo de entrar na faculdade, uns 14 anos atrás. A tradução desse livro sempre foi algo muito debatida, pois não é tarefa fácil trazer para o português todos aqueles termos que Gibson usou para descrever seu mundo pós-humano onde o ciberespaço/matrix é uma realidade tão presente. Contudo, a editora Aleph embarcou em um projeto de trazer a trilogia com cara nova e totalmente padronizada para os brasileiros, e então lançou Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive em ótimas novas versões, com ótimas novas traduções.

Eu já reli Neuromancer nesta nova tradução de Fábio Fernandes. Foi engraçado perceber como eu me recordava muito bem de toda a primeira parte do livro em Chiba/Night City e da última parte da história, quando Case, nosso cowboy (hacker do ciberespaço) protagonista, acessa a matrix para confrontar uma inteligência artificial em uma praia de areia cinzenta. Todo o miolo era um breu em minha mente.

Night City era como uma experiência malsucedida de darwinismo social, projetada por um pesquisador entediado que não tirava o dedo do botão de fast-forward.

Quando Gibson escreveu Neuromancer e deu as bases literárias do cyberpunk, não tínhamos quase nada no cinema ou nos quadrinhos que nos ajudassem a imaginar o que ele estava descrevendo quando falava em decks, Hosaka, Ono-Sendais, trodos e plugs na base do crânio humano que servem como uma porta de entrada para informação. Obras que se basearam nos elementos e universo do livro, como o filme Matrix e os animes Ghost In The Shell e Serial Experiments Lain, viriam anos ou décadas após a publicação.

Mesmo hoje conseguindo enxergar muito melhor o que Gibson propõe em sua narrativa por já ter visto na telona, na telinha e nos quadrinhos várias interpretações visuais de suas ideias, há um bom punhado de passagens que são difíceis de visualizar com exatidão. Sabemos qual é o sentido do que Case, Molly, Armitage, Wintermute e Riviera estão fazendo, mas não exatamente o que. Isso, imagino, é outro desafio para a tradução.

Outra coisa que notei é que minha releitura foi muito mais fluida e divertida do que me lembrava da primeira vez. Quaisquer 20 minutos que me sobravam eram desculpa para ler mais um capítulo e ver para onde Case e sua entourage iriam. Do Japão para o Sprawl, ou BAMA, já que no futuro cyberpunk os EUA não existem mais, mas há uma megalópole que se estende de Boston à Atlanta. A Europa ainda existe, assim como o Brasil (que tem uma participação fundamental na história). E há Zion também, e o Freeside, um cidade na órbita da Terra.

“Ciberespaço. Uma alucinação consensual vivenciada por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças que estão aprendendo conceitos matemáticos… uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não espaço da mente, aglomerados e constelações de dados. Como luzes da cidade, se afastando…”

Matrix e Ghost In The Shell beberam muito, muito mesmo na fonte de Neuromancer e de William Gibson. É notável como diversos elementos do livro estão ou copiados mesmo, ou reinterpretados nessas duas obras. Com Cyberpunk 2077, o jogo, não deverá ser diferente. Em primeiro lugar, sabemos que o mapa do game é o mapa de Night City, uma megalópole na Califórnia, que vai de Los Angeles à San Diego. Enquanto eu lia, grifava descrições de lugares e construções sociais que poderão ser incorporadas ao jogo também.

Em segundo lugar, assim como George Lucas imaginava sociedades tecnologicamente mais avançadas em uma galáxia far, far away em Star Wars, mas partia do que conhecia na vira de 60 para 70 ao imaginar o funcionamento e o design de máquinas, a mesma limitação atinge em cheio Neuromancer. O livro não peca por isso e, na verdade, é uma delícia ler o puro retrofuturismo que cerca Case e todos os outros personagens. Será interessante acompanhar como Cyberpunk 2077 atualizará a nossa visão de futuro a partir do que já conhecemos hoje e que Gibson não era capaz de prever em 1983, quando o livro foi publicado. Como será a internet? Como será o ciberespaço e o papel da matrix na sociedade daqui 60 anos? E principalmente, em que estágio estarão as Inteligências Artificiais?

Autor William Gibson em 2012 (foto: Jason Redmond)

Uma história curiosa é que Gibson já tinha escrito um terço de Neuromancer quando Blade Runner estreou em 1982. O filme virou um clássico com o tempo, mas passou muito tempo considerado um filmezinho menor e sem importância. Nem comercialmente foi um sucesso. Mas o escritor gostou do que assistiu e viu boa parte do que tinha imaginado como sociedade cyberpunk retratada na Los Angeles neo-noir de Ridley Scott.

Antes de 1983, a estética cyberpunk e a cibercultura já vinham se desenvolvendo em muitos meios, da moda aos vídeo games, do cinema aos contos que o próprio Gibson publicara (como Queimando Cromo [primeira aparição da palavra ciberespaço] e Johnny Mnemonic [primeira aparição da razorgirl Molly]). Neuromancer foi o primeiro romance a trazer uma longa narrativa calcada no cyberpunk, criando de vez essa subdivisão dentro da ficção-científica. Não foi um sucesso comercial, mas venceu os três maiores prêmios do SciFi: o Hugo, o Nebula e o Philip K. Dick.

“Por milhares de anos os homens sonharam em pactos com demônios. Só que agora essas coisas são possíveis. E o que é que vocês ganham em troca? Qual seria o seu preço para ajudar essa coisa a se libertar e crescer?” 

Embora toda a cibercultura seja um dos traços mais distintos do cyberpunk, com seus eletrodos e Ono-Sendais, com a realidade virtual, holografia, IAs, os implantes cibernéticos e modificações corporais, o livro também tem em seu cerne uma sociedade que vive à base de drogas (lembra do soma que controlava as pessoas em Admirável Mundo Novo?), em péssimas condições de vida caso você não seja um ricaço, e se distanciando da utopia de que a tecnologia melhoraria a vida das pessoas. Que ela traz avanços e que facilita operações, com certeza, mas também traz novos dilemas e precariza parte de nossa vida.

Interessante é notar que, seja em Chiba ou no Sprawl ou em Freeside, a tecnologia é como é e não há como pensar a sociedade sem ela. Os personagens, então, precisam lidar com o mundo como está. Pode não ser uma crítica direta, mas é um retrato do high tech/low life que, como toda boa ficção (científica), deve nos levar a refletir.

Embora seja uma visão do futuro a partir dos anos 80, acredito que Neuromancer seja ainda uma ótima referência. As inquietações presentes em suas páginas ainda são válidas e nem mesmo adaptações de ideias da obra esgotaram o assunto. Mais do que isso, é divertido de ler e tem passagens realmente interessantes. Literariamente, é um malabarismo colocar em palavras coisas que não existiam ainda. Para mim, pelo menos, mesmo na segunda leitura, foi um exercício de imaginação.

Vou ler e escrever sobre Count Zero e Mona Lisa Overdrive, as continuações que pouca gente discute, e postarei aqui no Circle of Manias. Contudo, deverei alternar as leituras para não passar muito tempo dentro da prosa de um autor, de um estilo e de um tema. Também devo voltar a refletir sobre o Cyberpunk 2077 em algum momento. Se já tivemos Philip K. Dick produzindo uma gênese do cyberpunk e em 2018 a Netflix trouxe Altered Carbon, que também se encaixa no gênero, o jogo da CD Projekt Red promete ser mais um produto para marcar a linha do tempo da cibercultura.

NEUROMANCER
William Gibson
5ª Edição (2016)
Tradução: Fábio Fernandes
Editora Aleph
312 páginas