Os Homens Difíceis que mudaram a TV

Indicaram HOMENS DIFÍCEIS, de Brett Martin, em um podcast. Me interessei, pois há tempos queria ler algo que contasse como foi que a televisão dos Estados Unidos deu um salto de qualidade. O preço na Amazon estava excelente e em 30 segundos o livro estava no meu Kindle.

Eu queria um livro sobre a mudança na qualidade da TV e acabei lendo um que conta como isso ocorreu do ponto de vista dos roteiros. Eu, como jornalista que atua em publicidade, interessado em storytelling em todas as mídias e também um roteirista, não poderia me identificar mais com essa abordagem.

Família Soprano se torna arte na medida em que se propõe como mais do que uma história de mafiosos e se apresenta como um tratado sobre a família americana. […] É também dessa maneira que The Wire deve ser avaliado… Como veículo para declarações sobre a cidadania americana e inclusive sobre a experiência americana.”

O livro conta como a HBO encabeçou essa mudança, primeiro para ela mesma, e depois, para toda a rede de produção de conteúdo original televisivo, ao apostar no roteiro de David Chase para Família Soprano. De alguma forma, sabiam que o material era bom, mas bom de uma forma que ninguém tinha muita certeza se o público poderia se interessar por aquilo, contado daquela forma. Deu certo e, então, várias outras séries, da HBO e de outros canais, tentaram seguir não o mesmo receituário, mas o mesmo salto de fé em algo com potencial, mas que talvez fosse uma ideia que todos enxergavam como uma proposta artística para o cinema, e não para a TV.

Além de Família Soprano, que é a série mais extenuadamente analisada por Martin ao longo de todo o livro, conta-se detalhes preciosos de The Wire, A Sete Palmos, Deadwood, The Shield, Mad Men e Breaking Bad. Outras séries, como True Blood, Girls e Damages, também são destacadas, mas com menor ênfase. E junto com todas elas, Martin traz um histórico e análises do modus operandi de seus responsáveis, os showrunners.

Se quer entender o que é um showrunner e como eles foram importantíssimos para essas séries nesse novo contexto, Homens Difíceis não deixa dúvidas de como trabalhavam, o que era esperado deles e como cada um tinha alguma característica capazes de meter medo em todo mundo. David Chase era rabugento e difícil de dobrar. Queria dirigir filmes originalmente. David Simons (showrunner de The Wire), era obstinado, extremamente preocupado com os detalhes e com a coerência de tudo que colocaria na tela. David Milch (Deadwood), além de um vício em álcool e heroína, simplesmente parou de fazer roteiros em certo momento e começou a criar cenas e diálogos para suas produções no set, com câmera e atores esperando para saber o que fazer. Ninguém nunca sabia o que ia acontecer. Matthew Weiner [Mad Men] era o artistão da parada e queria ser o auteur por excelência em seu feudo. Todos lideravam suas equipes como déspotas.

Segundo Brett, o único que foge à regra é Vince Gilligan. O criador de Breaking Bad não ficou putinho quando sua ideia foi rejeitada por uma penca de canais e sabia criar um ambiente de trabalho interessante. Ele se via como mais uma peça na engrenagem, não como o único merecedor dos créditos pelo programa.

A sala de roteirista é outro elemento famoso dessas produções. O livro detalha como elas foram formadas, como funcionam e como uma equipe de escritores era capaz de escrever um arco inteiro de 10 ou 13 episódios sem se perder ou, pelo menos, de forma que todos levassem à frente a mesma narrativa. Há muitas histórias de bastidores em Homens Difíceis, mas as que ajudam a esmiuçar a dinâmica nas salas de roteiristas são algumas das mais interessantes.

Homens difíceis – como seus showrunners -, complexos e bastante controversos são elementos que dão a tônica nas séries analisadas e que mostraram que a TV pode contar histórias de qualidade, com técnicas de filmagem provenientes do cinema, correndo riscos criativos, deixando o público puto, estarrecido e, se desse na telha do showrunner, até mesmo a ver navios – como o final de Família Soprano. Dessa forma, elevaram o que se faz na TV ao estado de arte, algo que até 1999 era impensável. E assim, atraíram atores e atrizes do cinema para o formato. A primeira grande estrela do cinema a topar ir para a TV foi Glenn Close [em Damages]. Esse período o autor chama de Terceira Era de Ouro.

“Sem finais” acabou significando “sem finais ruins”, nada de catarses baratas.”

Como já estamos vivenciando uma continuidade dessa Terceira Era de Ouro, é interessante ver como o mercado existia, apenas com redes de televisão abertas e fechadas, e hoje temos Netflix, Hulu, Amazon, e tantas outras plataformas, todas apostando em material original. Homens difíceis ainda existem, mas atualmente há muito foco em papeis e protagonistas femininas, em histórias que vão muito além de mostrar mulheres difíceis, fortes e/ou controversas. Há todo um contexto construído ao redor disso que amplia o discurso dessas séries, seja Orange Is The New Black ou The Handmaid’s Tale, que talvez seja a melhor série produzida ultimamente. Até mesmo Game of Thrones está em dia com essa mudança.

Daqui alguns anos, quando um livro parecido com Homens Difíceis existir e contar esse novo modelo da TV, vai ser interessante observar como o contexto mudou e elegeu a mulher sua protagonista. E pode apostar que não haverá como não lembrar do quarteto de Sex And The City como um prenúncio disso tudo.