Relendo Neuromancer, o clássico cyberpunk

Cyberpunk 2077 vem aí. Qualquer um que tenha jogado The Witcher sabe da capacidade da CD Projekt Red, o estúdio polonês de games, de contar uma boa história, madura e complexa, cativante e que ilustra quem somos ou podemos ser, seja o nosso melhor ou pior. E não basta que Cyberpunk 2077 seja um jogo baseado na estética cyberpunk. Ele assume o nome do subgênero da ficção-científica como seu título, e então dá-se apenas um ano como complemento. Isso mostra a ambição por trás do estúdio de tentar fazer do jogo um marco do gênero.

Como preparação para este jogo tão estiloso, me lancei à tarefa de ler os livros fundamentais do cyberpunk, a Trilogia do Sprawl do norte-americano William Gibson. Eu já havia lido a segunda tradução de NEUROMANCER antes mesmo de entrar na faculdade, uns 14 anos atrás. A tradução desse livro sempre foi algo muito debatida, pois não é tarefa fácil trazer para o português todos aqueles termos que Gibson usou para descrever seu mundo pós-humano onde o ciberespaço/matrix é uma realidade tão presente. Contudo, a editora Aleph embarcou em um projeto de trazer a trilogia com cara nova e totalmente padronizada para os brasileiros, e então lançou Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive em ótimas novas versões, com ótimas novas traduções.

Eu já reli Neuromancer nesta nova tradução de Fábio Fernandes. Foi engraçado perceber como eu me recordava muito bem de toda a primeira parte do livro em Chiba/Night City e da última parte da história, quando Case, nosso cowboy (hacker do ciberespaço) protagonista, acessa a matrix para confrontar uma inteligência artificial em uma praia de areia cinzenta. Todo o miolo era um breu em minha mente.

Night City era como uma experiência malsucedida de darwinismo social, projetada por um pesquisador entediado que não tirava o dedo do botão de fast-forward.

Quando Gibson escreveu Neuromancer e deu as bases literárias do cyberpunk, não tínhamos quase nada no cinema ou nos quadrinhos que nos ajudassem a imaginar o que ele estava descrevendo quando falava em decks, Hosaka, Ono-Sendais, trodos e plugs na base do crânio humano que servem como uma porta de entrada para informação. Obras que se basearam nos elementos e universo do livro, como o filme Matrix e os animes Ghost In The Shell e Serial Experiments Lain, viriam anos ou décadas após a publicação.

Mesmo hoje conseguindo enxergar muito melhor o que Gibson propõe em sua narrativa por já ter visto na telona, na telinha e nos quadrinhos várias interpretações visuais de suas ideias, há um bom punhado de passagens que são difíceis de visualizar com exatidão. Sabemos qual é o sentido do que Case, Molly, Armitage, Wintermute e Riviera estão fazendo, mas não exatamente o que. Isso, imagino, é outro desafio para a tradução.

Outra coisa que notei é que minha releitura foi muito mais fluida e divertida do que me lembrava da primeira vez. Quaisquer 20 minutos que me sobravam eram desculpa para ler mais um capítulo e ver para onde Case e sua entourage iriam. Do Japão para o Sprawl, ou BAMA, já que no futuro cyberpunk os EUA não existem mais, mas há uma megalópole que se estende de Boston à Atlanta. A Europa ainda existe, assim como o Brasil (que tem uma participação fundamental na história). E há Zion também, e o Freeside, um cidade na órbita da Terra.

“Ciberespaço. Uma alucinação consensual vivenciada por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças que estão aprendendo conceitos matemáticos… uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não espaço da mente, aglomerados e constelações de dados. Como luzes da cidade, se afastando…”

Matrix e Ghost In The Shell beberam muito, muito mesmo na fonte de Neuromancer e de William Gibson. É notável como diversos elementos do livro estão ou copiados mesmo, ou reinterpretados nessas duas obras. Com Cyberpunk 2077, o jogo, não deverá ser diferente. Em primeiro lugar, sabemos que o mapa do game é o mapa de Night City, uma megalópole na Califórnia, que vai de Los Angeles à San Diego. Enquanto eu lia, grifava descrições de lugares e construções sociais que poderão ser incorporadas ao jogo também.

Em segundo lugar, assim como George Lucas imaginava sociedades tecnologicamente mais avançadas em uma galáxia far, far away em Star Wars, mas partia do que conhecia na vira de 60 para 70 ao imaginar o funcionamento e o design de máquinas, a mesma limitação atinge em cheio Neuromancer. O livro não peca por isso e, na verdade, é uma delícia ler o puro retrofuturismo que cerca Case e todos os outros personagens. Será interessante acompanhar como Cyberpunk 2077 atualizará a nossa visão de futuro a partir do que já conhecemos hoje e que Gibson não era capaz de prever em 1983, quando o livro foi publicado. Como será a internet? Como será o ciberespaço e o papel da matrix na sociedade daqui 60 anos? E principalmente, em que estágio estarão as Inteligências Artificiais?

Autor William Gibson em 2012 (foto: Jason Redmond)

Uma história curiosa é que Gibson já tinha escrito um terço de Neuromancer quando Blade Runner estreou em 1982. O filme virou um clássico com o tempo, mas passou muito tempo considerado um filmezinho menor e sem importância. Nem comercialmente foi um sucesso. Mas o escritor gostou do que assistiu e viu boa parte do que tinha imaginado como sociedade cyberpunk retratada na Los Angeles neo-noir de Ridley Scott.

Antes de 1983, a estética cyberpunk e a cibercultura já vinham se desenvolvendo em muitos meios, da moda aos vídeo games, do cinema aos contos que o próprio Gibson publicara (como Queimando Cromo [primeira aparição da palavra ciberespaço] e Johnny Mnemonic [primeira aparição da razorgirl Molly]). Neuromancer foi o primeiro romance a trazer uma longa narrativa calcada no cyberpunk, criando de vez essa subdivisão dentro da ficção-científica. Não foi um sucesso comercial, mas venceu os três maiores prêmios do SciFi: o Hugo, o Nebula e o Philip K. Dick.

“Por milhares de anos os homens sonharam em pactos com demônios. Só que agora essas coisas são possíveis. E o que é que vocês ganham em troca? Qual seria o seu preço para ajudar essa coisa a se libertar e crescer?” 

Embora toda a cibercultura seja um dos traços mais distintos do cyberpunk, com seus eletrodos e Ono-Sendais, com a realidade virtual, holografia, IAs, os implantes cibernéticos e modificações corporais, o livro também tem em seu cerne uma sociedade que vive à base de drogas (lembra do soma que controlava as pessoas em Admirável Mundo Novo?), em péssimas condições de vida caso você não seja um ricaço, e se distanciando da utopia de que a tecnologia melhoraria a vida das pessoas. Que ela traz avanços e que facilita operações, com certeza, mas também traz novos dilemas e precariza parte de nossa vida.

Interessante é notar que, seja em Chiba ou no Sprawl ou em Freeside, a tecnologia é como é e não há como pensar a sociedade sem ela. Os personagens, então, precisam lidar com o mundo como está. Pode não ser uma crítica direta, mas é um retrato do high tech/low life que, como toda boa ficção (científica), deve nos levar a refletir.

Embora seja uma visão do futuro a partir dos anos 80, acredito que Neuromancer seja ainda uma ótima referência. As inquietações presentes em suas páginas ainda são válidas e nem mesmo adaptações de ideias da obra esgotaram o assunto. Mais do que isso, é divertido de ler e tem passagens realmente interessantes. Literariamente, é um malabarismo colocar em palavras coisas que não existiam ainda. Para mim, pelo menos, mesmo na segunda leitura, foi um exercício de imaginação.

Vou ler e escrever sobre Count Zero e Mona Lisa Overdrive, as continuações que pouca gente discute, e postarei aqui no Circle of Manias. Contudo, deverei alternar as leituras para não passar muito tempo dentro da prosa de um autor, de um estilo e de um tema. Também devo voltar a refletir sobre o Cyberpunk 2077 em algum momento. Se já tivemos Philip K. Dick produzindo uma gênese do cyberpunk e em 2018 a Netflix trouxe Altered Carbon, que também se encaixa no gênero, o jogo da CD Projekt Red promete ser mais um produto para marcar a linha do tempo da cibercultura.

NEUROMANCER
William Gibson
5ª Edição (2016)
Tradução: Fábio Fernandes
Editora Aleph
312 páginas

Não há esperança em The Crooked God Machine

Passamos por vários membros da Brigada do Apocalipse. Eles usavam máscaras de monstros lembrando a Kali da língua afiada e o Abraxas de rosto negro e distribuíam panfletos sobre o fim do mundo. Nos últimos sete anos, a Brigada do Apocalipse passou de um grupo marginal para a influência política predominante em Edgewater.

Há anos não lia uma fantasia, mas CROOKED GOD MACHINE, da americana Autumn Christian, foi bem recomendada. Tem laivos de ficção-científica e cyberpunk, misturando uma sociedade distópica controlada por um Deus ditador que a população do Planeta Negro só vê pela televisão.

O mundo é um território completamente perigoso: uma em cada seis pessoas desaparece das cidades; crianças morrem aos borbotões; há monstros nos pântanos e bosques; e para mostrar como o Deus desse mundo é benevolente, ele envia carrocinhas infernais para raptar pessoas e pragas que acabam com cidades inteiras. Todo mundo é pecador, sem exceção. Há quem pregue isso com tanto fervor que anda pelas ruas à
caça de hereges usando máscaras de animais, como é o caso da Brigada do Apocalipse.

Há também os profetas, seres humanos com algumas habilidades especiais e que também devem servir a Deus. Podem ajudar, mas às vezes a ajuda significa entrar no salão de uma escola durante uma formatura, jogar gasolina nos alunos e incendiá-los, pois é improvável que vão dar em alguma coisa algum dia.

Neste livro, sair de casa é uma aventura comparável a visitar certas regiões do Rio de Janeiro depois da meia-noite.

Charles é o protagonista dessa história. Logo no início de The Crooked God Machine, o pai perde o emprego e abandona a casa. O irmão mais novo, ainda bebê, morre e acaba devorado por Jolene, uma monstrenga dos pântanos. Sem perspectiva de vida, os anos passam e o que restou da família de Charles acaba sobrevivendo de ração fornecida pelo governo caótico do lugar. Emprego ou lazer parecem mitos de uma Terra distante.

A mãe e Sissy, a irmã de Charles, não aguentam o sofrimento mórbido e submetem-se a um procedimento que implanta uma aranha mecânica em suas cabeças, causando uma espécie de lobotomia. O livro é tão dark e apresenta uma realidade tão sufocante que a esperança é nada mais que a chama de um fósforo na escuridão da noite, iluminada por uma Lua negra.

Autumn Christian tem uma prosa direta e focada na narrativa. Você lê vários capítulos de uma vez, de tão precisa e ágil que é sua escrita. As descrições são enxutas e, mesmo em um mundo saído da weird fiction e do horror, são o suficiente para você saber que está num misto de Mad Max com contos de Cthullu.

O mundo que ela criou para seu Planeta Negro vai sendo mostrado bem aos poucos e de acordo com a experiência dos personagens que, a cada página em que não são mencionados, podem ter morrido ou sido levados pelas máquinas infernais de Deus. Dá para intuir que antes do Planeta Negro havia um planeta Terra ali, mas temos apenas vislumbres do que pode ter ocorrido. Esses vislumbres são o suficiente, no entanto, para que a autora consiga estabelecer sua crítica social ao modo como encaremos a religião, a tecnologia e descuidamos deste planeta azul.

Christian parece não fazer força ao misturar o gótico americano e o folclore ao que me parece uma crítica a uma sociedade hipnotizada por televangelistas e que se submete a uma teocracia. Seus personagens convivem com corpos mutilados, queimados, mastigados e vidas vazias e tediosas diariamente. O medo imposto na sociedade e suas formas de controle parecem ser o grande tema da obra.

“O cérebro humano tem a habilidade única de duvidar da realidade apresentada. De compreender a dissonância entre ideias e a verdade do mundo ao nosso redor. Deus sabe disso e isso deixa ele furioso. Com medo.”

A autora, nascida no Texas e agora vivendo e Los Angels, é jovem e não tem tempo a perder. Pode ser que isso tenha mudado, mas quando escreveu The Crooked God Machine, Autumn tinha como inspirações Ray Bradbury, Philip K. Dick, Katie Jane Garside, o southern gothic dos EUA e a música dubstep. Mas ela vai além dessas referências mais localizadas e encontra inspiração nos livros de dois Williams: o grande Faulkner e o experimental e experimentado Burroughs. Além de testar alguns jogos, ela participou da elaboração do roteiro de State of Decay 2 e Battle Nations.

É um livro de horror com imaginação e sem as centenas de páginas de enrolação de Stephen King. Os primeiros capítulos realmente chegaram a eriçar os pelos de meus braços, principalmente nas primeiras aparições de Jolene. Depois, não senti mais nenhum medo, talvez por ficar anestesiado por tanto sofrimento e morte e ocorrências estranhíssimas.

Infelizmente, ainda não há versão em português de The Crooked God Machine e nem é provável que vá haver tão cedo. Contudo, é baratinho se optar comprar a versão em inglês mesmo pela Amazon. Além disso, se você procura uma leitura interessante e que possa te ajudar a testar seu inglês, esse livro pode ser uma boa oportunidade. Nível intermediário de conhecimento no idioma já dá conta do recado, uma vez que Christian experimenta muito no mundo e sociedade que cria, mas não tanto na formação de frases.

Se Teddy fodeu o cu da Delilah ou não, não era importante. O que importava é que Teddy vendia sono em um mundo onde todo mundo estava sempre gritando.

Li a segunda edição do livro, que possui uma nota bastante interessante da própria autoria sobre quando e porque escreveu essa história. “‘Mas e se Deus existir?’, as pessoas me perguntavam, ‘e se você estiver errada e Deus existir?’ Minha resposta foi The Crooked God Machine“, ela relata. Além disso, essa versão traz um conto de ficção científica de Autumn chamado Honeycomb Heads que certamente é um bom complemento ao livro.

Interessados em terror, distopia e ficção científica que já leram autores homens demais e precisam de novas referências, ou sair dos já batidos nomes como Stephen King, Isaac Asimov, K. Dick ou mesmo Neil Gaiman, podem encontrar algo bem interessante em Autumn Christian. Embora sua prosa seja bem palatável, a jornada de Charles deverá ser uma das coisas mais malditas que lerá.

THE CROOKED GOD MACHINE
Autumn Christian
399 páginas

“Múltipla Escolha” é vestibular em estado de arte

E se o vestibular fosse uma arte literária travestida de exame de admissão?

Mesmo eu tendo adquirido e lido os quatro livros do escritor Alejandro Zambra já publicados no Brasil, os algorítimos que oferecem novas leituras para mim na Amazon parecem ter esquecido quais foram minhas compras anteriores e deixaram MÚLTIPLA ESCOLHA de fora do meu radar. O livro saiu em 2017, mas só há poucas semanas descobri que já tinha sido convertido para o português.

Entre os vários motivos que tenho para ler, um deles é encontrar novas formas de narração. Isso vai muito além daquelas fórmulas narrativas, como o clássico Começo-Meio-e-Fim, a (desgastada, mas ainda fascinante) Jornada do Herói, ou o Ciclo dos Oito Pontos que dão os parâmetros para o desenvolvimento de seu personagem. Essas fórmulas ditam mais o storytelling. No entanto, há um nível de planejamento de escrita mais substancial que tem a ver com a forma: como estruturar sua história de uma forma que nunca foi feita antes?

Zambra se baseia no Exame de Aptidão do Chile (o vestibular de lá) para emoldurar Múltipla Escolha e, em pouco mais de 100 páginas, faz seu livro mais recente. A partir de enunciados e respostas de múltipla escolha, ele constrói uma obra verdadeiramente literária que aos poucos vai ensinando seu leitor como encará-la. Quando você dá por você, percebe que a linguagem poética estava ali desde o começo. Logo, ele está construindo argumentos, como chamamos na área de roteiros, ou então microcontos. E em vários desses casos convida o leitor, por meio das múltiplas escolhas, a participar da construção desses argumentos narrativos.

É um exercício para o chileno e é instigante para seu leitor. Às vezes, temos certeza do que responder. Outras vezes, a coisa é dúbia. Às vezes ficamos sem saída. No final do livro, ele integra a este “vestibular literário” o formato conto, e então as múltiplas escolhas se convertem em um exercício ora cívico, ora irônico de interpretação. Contudo, Múltipla Escolha tem um tema comum a tudo o que apresenta, tem um porquê de ser, tem as marcas que o autor já colocou em suas obras passadas, tem crítica social e sim, o fantasma de Pinochet ainda assombra.

Certas passagens são de cortar o coração, ou não, dependendo da forma como fizer mais sentido para o leitor arranjar os fatos, ou as palavras. É um jogo, e sei que há por aí muitos “puristas” que talvez não enxerguem a validade desse tipo de construção, mas o que o livro faz é literário do começo ao fim. Tudo se resolve na palavra – ou nas sentenças -, na consciência que temos sobre aquilo que o autor nos entrega e sobre como queremos preservar, subverter ou simplesmente, por ignorância ou por ironia, agir cinicamente frente às situações apresentadas.

27) Um Filho

  1. Você sonha que perde um filho.
  2. Acorda.
  3. Chora.
  4. Perde um filho.
  5. Chora.
  • A) 1 – 2 – 3 – 4 – 5
  • B) 1 – 2 – 3 – 5 – 4
  • C) 2 – 3 – 4 – 5 – 1
  • D) 3 – 4 – 5 – 1 – 2
  • E) 4 – 5 – 1 – 2 – 3

Quando decidi ler Alejandro Zambra, comprei logo os três livros que ele tinha lançado até então e que tinham sido publicados no Brasil pela finada (e caprichosa) Cosac Naify. Acho que nunca tinha arriscado tanto. Sabia do reconhecimento do autor chileno e outro chileno, Roberto Bolaño, já era meu escritor favorito. Além disso, muita gente boa havia recomendado Zambra. Sabia quase nada sobre a trama de seus três livros, mas comprei mesmo assim, pois sou daqueles que não lê literatura de ficção exatamente pela história que é contada, mas pela “realização da palavra” que o autor propõe/almeja/consegue/conquista.

Assim, li pela ordem: Bonsai, A Vida Privada das Árvores e Formas de Voltar Para Casa. Fiquei fascinado pela forma como Zambra se mostrava um autor contemporâneo, mas ciente do passado, e que não precisa de muitos artifícios que não seja a escrita para conquistar o leitor. Suas tramas são profundamente humanas e isso basta. Geralmente, retrata pessoas que estão num espectro social que chamaríamos de classe média baixa, e a precisão como faz isso é tamanha que, tenho certeza, qualquer brasileiro se reconheceria nas agruras chilenas, assim como um estadunidense de Nova Jérsei ou Ohio.

Meses depois de enfim ficar em dia com a produção de Zambra, seu quarto livro Meus Documentos, de contos, foi publicado no Brasil e o li assim que ficou disponível na prateleira virtual da Amazon. Só posso dizer que Zambra é tão bom em suas histórias curtas quanto nos romances mais longos. Aliás, algo que facilitou minha leitura de Zambra é que nenhum de seus livros é excessivamente longo. Bonsai é pouco maior que um conto. Os outros livros têm por volta de 200 páginas ou menos. A profundidade é grande. A melancolia, idem. As mais de 600 páginas que já li de um Jonathan Franzen – em sua tentativa de fazer o grande romance americano – não me comoveram como os livros e contos do Zambra, histórias que perto dos tijolões do colega norte-americano, parecem estreitos como o mapa do Chile.

(Justiça seja feita: apesar de passar centenas de páginas curtindo Franzen, sem muitos arroubos sentimentais reais, eu chorei nas duas últimas linhas de Liberdade).

…vivemos no país da espera, vivemos esperando algo, o Chile é uma enorme sala de espera e vamos morrer esperando o nosso número.

Ser sucinto e preciso, sabendo salpicar a trama e suas entrelinhas de diversos assuntos, abrindo verdadeiros portais dimensionais para temas e histórias que não estão ali, mas certamente influenciam aquela narrativa, é uma marca de Zambra. Múltipla Escolha prova isso de diversas maneiras.

Melancólico, como Zambra sempre acaba sendo, com uma prosa que é fluida e nada empolada, e estruturada de uma maneira bastante original e que não foi escolhida à toa. Construir o livro usando o formato do Exame de Aptidão é uma sacada para falar do chileno, da educação chilena, das contradições do país – e da humanidade – e ainda passar pelo governo ditatorial que aplicava esse exame. “Os estudantes vão à universidade para estudar, não para pensar”, diz uma das frases mais contundentes de Múltipla Escolha.

O livro me lembra de algo: as palavras importam. E a escolha delas acaba ditando diferentes realidades.

Em um artigo de Carlos Schroeder sobre o lançamento do livro no Brasil, há alguns parágrafos do próprio autor explicando como se recusa a dizer que/se há poesia ou conto em seu Múltipla Escolha e dá algum contexto sobre ele.

MÚLTIPLA ESCOLHA
Alejandro Zamba
Tradução: Miguel Del Castilho
Editora Tusquets
109 páginas

Os Homens Difíceis que mudaram a TV

Indicaram HOMENS DIFÍCEIS, de Brett Martin, em um podcast. Me interessei, pois há tempos queria ler algo que contasse como foi que a televisão dos Estados Unidos deu um salto de qualidade. O preço na Amazon estava excelente e em 30 segundos o livro estava no meu Kindle.

Eu queria um livro sobre a mudança na qualidade da TV e acabei lendo um que conta como isso ocorreu do ponto de vista dos roteiros. Eu, como jornalista que atua em publicidade, interessado em storytelling em todas as mídias e também um roteirista, não poderia me identificar mais com essa abordagem.

Família Soprano se torna arte na medida em que se propõe como mais do que uma história de mafiosos e se apresenta como um tratado sobre a família americana. […] É também dessa maneira que The Wire deve ser avaliado… Como veículo para declarações sobre a cidadania americana e inclusive sobre a experiência americana.”

O livro conta como a HBO encabeçou essa mudança, primeiro para ela mesma, e depois, para toda a rede de produção de conteúdo original televisivo, ao apostar no roteiro de David Chase para Família Soprano. De alguma forma, sabiam que o material era bom, mas bom de uma forma que ninguém tinha muita certeza se o público poderia se interessar por aquilo, contado daquela forma. Deu certo e, então, várias outras séries, da HBO e de outros canais, tentaram seguir não o mesmo receituário, mas o mesmo salto de fé em algo com potencial, mas que talvez fosse uma ideia que todos enxergavam como uma proposta artística para o cinema, e não para a TV.

Além de Família Soprano, que é a série mais extenuadamente analisada por Martin ao longo de todo o livro, conta-se detalhes preciosos de The Wire, A Sete Palmos, Deadwood, The Shield, Mad Men e Breaking Bad. Outras séries, como True Blood, Girls e Damages, também são destacadas, mas com menor ênfase. E junto com todas elas, Martin traz um histórico e análises do modus operandi de seus responsáveis, os showrunners.

Se quer entender o que é um showrunner e como eles foram importantíssimos para essas séries nesse novo contexto, Homens Difíceis não deixa dúvidas de como trabalhavam, o que era esperado deles e como cada um tinha alguma característica capazes de meter medo em todo mundo. David Chase era rabugento e difícil de dobrar. Queria dirigir filmes originalmente. David Simons (showrunner de The Wire), era obstinado, extremamente preocupado com os detalhes e com a coerência de tudo que colocaria na tela. David Milch (Deadwood), além de um vício em álcool e heroína, simplesmente parou de fazer roteiros em certo momento e começou a criar cenas e diálogos para suas produções no set, com câmera e atores esperando para saber o que fazer. Ninguém nunca sabia o que ia acontecer. Matthew Weiner [Mad Men] era o artistão da parada e queria ser o auteur por excelência em seu feudo. Todos lideravam suas equipes como déspotas.

Segundo Brett, o único que foge à regra é Vince Gilligan. O criador de Breaking Bad não ficou putinho quando sua ideia foi rejeitada por uma penca de canais e sabia criar um ambiente de trabalho interessante. Ele se via como mais uma peça na engrenagem, não como o único merecedor dos créditos pelo programa.

A sala de roteirista é outro elemento famoso dessas produções. O livro detalha como elas foram formadas, como funcionam e como uma equipe de escritores era capaz de escrever um arco inteiro de 10 ou 13 episódios sem se perder ou, pelo menos, de forma que todos levassem à frente a mesma narrativa. Há muitas histórias de bastidores em Homens Difíceis, mas as que ajudam a esmiuçar a dinâmica nas salas de roteiristas são algumas das mais interessantes.

Homens difíceis – como seus showrunners -, complexos e bastante controversos são elementos que dão a tônica nas séries analisadas e que mostraram que a TV pode contar histórias de qualidade, com técnicas de filmagem provenientes do cinema, correndo riscos criativos, deixando o público puto, estarrecido e, se desse na telha do showrunner, até mesmo a ver navios – como o final de Família Soprano. Dessa forma, elevaram o que se faz na TV ao estado de arte, algo que até 1999 era impensável. E assim, atraíram atores e atrizes do cinema para o formato. A primeira grande estrela do cinema a topar ir para a TV foi Glenn Close [em Damages]. Esse período o autor chama de Terceira Era de Ouro.

“Sem finais” acabou significando “sem finais ruins”, nada de catarses baratas.”

Como já estamos vivenciando uma continuidade dessa Terceira Era de Ouro, é interessante ver como o mercado existia, apenas com redes de televisão abertas e fechadas, e hoje temos Netflix, Hulu, Amazon, e tantas outras plataformas, todas apostando em material original. Homens difíceis ainda existem, mas atualmente há muito foco em papeis e protagonistas femininas, em histórias que vão muito além de mostrar mulheres difíceis, fortes e/ou controversas. Há todo um contexto construído ao redor disso que amplia o discurso dessas séries, seja Orange Is The New Black ou The Handmaid’s Tale, que talvez seja a melhor série produzida ultimamente. Até mesmo Game of Thrones está em dia com essa mudança.

Daqui alguns anos, quando um livro parecido com Homens Difíceis existir e contar esse novo modelo da TV, vai ser interessante observar como o contexto mudou e elegeu a mulher sua protagonista. E pode apostar que não haverá como não lembrar do quarteto de Sex And The City como um prenúncio disso tudo.