Garotas Mortas e como encarar o feminicídio

Depois do imenso prazer que foi ler O Vento que Arrasa, o primeiro livro da argentina Selva Almada, ler GAROTAS MORTAS não poderia ter me dado uma experiência mais diferente.

O Vento é leve, mesmo quando investiga o fundo da alma daqueles homens que são seus personagens. Garotas Mortas, por um lado, é escrito com delicadeza. Apesar de ser a história de três feminicídios sem solução que ocorrem 30 anos atrás no interior da Argentina, Almada não os descreve com sensacionalismo. Essa é uma marca de sua escrita. No entanto, é impossível ler sobre como os crimes foram brutais (às vezes, sem sentido aparente) e não sentir desconforto. São muitos abusos, muitas mortes e muitas injustiças.

A autora fica na tríplice fronteira da memória, do jornalismo e da literatura. Parte da lembrança de ouvir sobre um dos assassinatos no rádio ainda garota. Outros dois se somam a essa recordação para serem explorados. Contudo, Selva Almada nos dá um verdadeiro panorama de como eram as coisas na Argentina profunda dos anos 80 e 90. Conversas de bairro sobre “certas garotas” e “certos homens”, sobre matrimônios em que abusos eram cometidos mas que ninguém metia a colher e todo tipo de segredos que guarda a intimidade das residências e a violência deixada à mostra em terrenos baldios, lagoas e charcos hermanos. Quem assistiu a série da HBO Sharp Objects, ou cresceu em cidades do interior ,terá uma imagem mental bem precisa do que a autora puxa de sua memória.

Nunca ninguém falou que você podia ser estuprada pelo marido, pelo pai, pelo irmão, pelo vizinho, pelo professor. Por um homem em quem você tem toda a confiança.

Como uma jornalista pouco ortodoxa, Selva Almada também vai em busca da reconstituição do assassinato de Andrea Danne, María Luisa Quevedo e Sarita Mundín. Espalha pelos onze capítulos detalhes do que ocorreu, como morreram ou como acreditam que morreram, quem seriam os suspeitos e de como era a relação dessas mulheres com os suspeitos e com o mundo ao seu redor. Fala com familiares e pessoas que estiveram envolvidas no caso. Ela não nos dá aspas que veríamos em páginas de jornais. O interesse dela não está em solucionar os crimes, e sim em nos mostrar a experiência de perceber que estamos em um mundo em que a mulher vive muito perto de ser uma vítima. Como ela mesma conclui rapidamente: “Eu não sabia que uma mulher podia ser morta pelo simples fato de ser mulher”.

Almada não fala em machismo ou em patriarcado. Não fala em submissão da mulher pelo homem. Não fala da dominação sexual. Ela não dá certos nomes a certas situações porque não precisa. Tudo isso é parte da equação e basta ler para entender, mesmo que você não ligue os fatos relatados a um termo como machismo, por exemplo. Eu mesmo só me dei conta de que a escritora não fala em machismo enquanto escrevia este texto.

E aí entra outro fator que faz de Garota Mortas um livro relevante. Almada usa técnicas da ficção para contar sua história. Não há travessões para anunciar a fala de um personagem de suas memórias ou de uma fonte em suas conversas. O discurso indireto livre abunda. O Vento que Arrasa, só para efeito de comparação, era muito mais bem delineado, com todas as falas e pensamentos muito bem distinguíveis no texto. Isso mostra como Selva Almada é uma escritora de recursos, como no trecho abaixo:

Ela não perdia a calma nem desmanchava o sorriso, mas eu sabia que no fundo estava tão assustada quanto eu. Não, obrigada, tenho namorado. E daí? Eu não sou ciumento. Teu namorado deve ser um moleque, o que ele pode te ensinar da vida? Uma menininha como você precisa de um cara maduro como eu. Proteção. Segurança econômica. Experiência. As frases chegavam até mim entrecortadas. Lá fora já era noite e não se enxergavam nem as lavouras à beira da estrada.

Ao utilizar a prosa criativa (e utilizar bem!) em uma obra de não-ficção, dá até para dizer que Garotas Mortas é um exemplo de jornalismo literário. Embora os três casos que são o mote do livro sejam bem interessantes em suas brutalidades e indefinições, os relatos pessoais de Selva Almada contribuem para entendermos ainda melhor toda a situação das mulheres dos anos 80 até hoje, do cenário político e social argentino (que acaba influenciando em tudo de certa forma) e da própria autora tentando não exatamente descobrir o que aconteceu com Andrea, María Luisa Quevedo e Sarita Mundín, mas o que é que fica dessas três vidas que acabaram tão cedo, tão sem sentido, e que são apenas exemplos de tantas outros assassinatos de garotas que ocorreram e ainda ocorrem e são tratados como mais um homicídio, sem que se importem com todas as contingências que fazem do feminicídio uma situação singular.

O livro chegou ao Brasil pela Todavia justamente quando esperamos que investigações cheguem a algum lugar no caso Marielle Franco. A ex-vereadora do Rio de Janeiro, homossexual e negra, com uma atuação política bastante crítica e incômoda para tantos bambambans da cidade, é um caso um tanto diferente daqueles tratados por Almada, pois é razoável supor que Marielle foi morta por motivos políticos. Ainda assim, tanto o livro quanto o caso lidam com o que há de mais fundamental nesse cenário: a mulher como alvo, ou a visão de uma sociedade machista sobre o que se sentem no direito de fazer a uma mulher.

Como ninguém diz isso claramente, Selva usa sua própria voz para dizer o que é que precisa mudar e qual é a intenção de relatos como o de seu livro:

Eu acho que o que nós precisamos é reconstruir o jeito como o mundo olhava para elas. Se conseguirmos saber como elas eram vistas, como eram olhadas, vamos saber qual era o olhar que elas tinham sobre o mundo, entende?

Acredito que o livro consegue muito bem traçar como essas mulheres eram olhadas e percebidas. Não é muito diferente do que vemos hoje. Falta agora principalmente nós, homens, pensarmos menos como “mais um homicídio” e tentar entender como elas viam o mundo e se sentiam nele.

GAROTAS MORTAS
Selva Almada
Tradução de Sergio Molina
Editora Todavia
128 páginas

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