Lista: os Melhores na Música em 2018

Melhor álbum contra a angústia

Chastity – DEATH LUST |Uma banda nova que fez sua estreia em 2018 com Death Lust, Chastity foi um dos maiores acontecimentos par mim. Banda canadense de Whitby, pequena cidade próxima a Toronto, que vive entre o tédio e a falta de perspectiva, uma noção que faz parte de toda a angústia presente no álbum. Trafega por diversos estilos e vai da pancada que é “Children” até conseguir deixar entrar os primeiros raios de esperança em “Innocence”.

Álbum mais delicado

Lauren Auder – WHO CARRY’s YOU | Lauren Auder é um francês que fazia suas produções em casa e as postava no Soundcloud. Ainda estudava no ensino médio quando chamou a atenção de rappers e gravadoras. Ao se formar, foi para a Inglaterra. Who Carry’s You é seu primeiro EP e já demonstra maturidade, sensibilidade e boa mão para experimentar sem perder a ternura.

Tuyo – PRA CURAR | Trip hop brasileiro de qualidade, com lírica, ótima escolha de sons, de duetos, de contrastes de voz e com ótima atmosfera. Além disso, o trio do Tuyo mostrou uma maturidade bem grande em Pra Curar que não estava toda no EP Pra Doer. Falei mais de Pra Curar aqui.

Rubel – CASAS | O carioca Rubel fez um dos álbuns que mais ouvi este ano. Doce, contido, quente a sua maneira, poético. Uma trincheira onde deságua rap, MPB e folk, orquestrações e violões, cenas da vida real e espaço para a imaginação.

Melhor álbum feminista

U.S. Girls – IN A POEM UNLIMITED | Desde que U.S. Girls (nome do projeto solo de Meg Remy) lançou In a Poem Unlimited, o disco foi baixado na minha biblioteca do Spotify e não cogitei apagar. O disco é bom do começo ao fim. Funk rock, funk pop, levemente lisérgico e cheio de mensagens feministas, inclusive um tapão na cara do Barack Obama e uma história de vingança. Remy é americana e vive no Canadá, seu novo disco entretém e ilustra a luta, os medos e a esperança de diversas mulheres. O Dirty Computer de Janelle Monáe poderia figurar aqui também com tranquilidade, mas a voz de Remy no U.S. Girls precisa ser ouvida e destacada também.

Melhor disco nacional

Luiza Lian – AZUL MODERNO | A fluidez como Luiza Lian e seus músicos produzem uma obra sentimental e misturando referências que vão do funk ao pop e da música negra à eletrônica é incrível. Azul Moderno tem o que dizer e tem som para embalar sua meditação, sua magia, sua dança e até sua festa. Foi um ano de ótimos lançamentos nacionais e nada fácil escolher apenas um disco, mas foi este da Luiza Lian que quis sempre ter à mão desde que foi lançado. Falei mais de Azul Moderno aqui.

Álbum que achei que ia ouvir muito e ouvi bem pouco

Florence + The Machine – HIGH AS HOPE | Adoro Florence Welch e sua banda. Adoro sua voz e a forma efusiva como interpreta suas composições. Adoro inclusive que ela tenha algo de místico. Mas High As Hope me soou contemplativo demais e com pouca força. As letras são boas, as músicas são bonitas, está tudo certo, mas mesmo assim não é um disco que empolga. Quem sabe com o tempo a gente não redescobre este 4º álbum do Florence + The Machine, né?

Banda que ia lançar disco novo, não lançou e me frustrou

TOOL | Eu e toda uma legião de fãs do Tool estávamos esperando por um novo álbum em 2018. Eu e toda uma legião de fãs do Tool estamos esperando o 5º álbum da banda americana há mais de 10 anos. Ficou para 2019. O que sabemos é que a banda já gravou todas as músicas e só falta colocar a voz em tudo. Vários músicos – incluindo Tom Morello, Nergal Darski e o líder dos Melvins, entre outros – já puderam ouvir o que o Tool aprontou e todos dizem que é incrível.

Artista mais incompreendido de 2018

JACK WHITE | Passei boa parte de 2018 seguindo os passos de Jack White. Ele lançou o disco mais estranho da carreira, o menos roqueiro, é verdade, e finalmente usou edição digital para montá-lo. Contudo, Boarding House Reach foi extremamente incompreendido por boa parte do público e até da crítica. Cansei de ver textos sobre o álbum bem mal-informados, porque neste caso, a forma totalmente alinear como White compôs e gravou, determinou o resultado final, e a grande maioria da crítica analisou como se fosse um disco produzido de forma convencional. A turnê de Jack foi longa e ele registrou tudo em seu Instagram. Ao vivo, as canções ganharam peso rock e as performances do músico eram sempre entregas de corpo e alma. Continua sendo o embaixador do espírito rock’n’roll em nossos tempos, mesmo com um álbum esquisito e experimental.

Artista mais controverso de 2018

KANYE WEST | Kanye West, o rapper originalmente de Chicago, de onde veio o ex-presidente Obama, nunca foi parte do séquito de Obama. Querendo ter algum peso na Casa Branca, deu declarações polêmicas sobre escravidão e pareceu passar pano em Donald Trump. Sua saúde mental foi colocada em xeque e seu estado emocional foi brilhantemente sintetizado no clipe animado de “Feels Like Summer” de Childish Gambino. Se fechou no estúdio em 2018 e produziu 5 discos curtos de 5 rappers diferentes, incluindo um novo álbum próprio e um em parceria com Kid Cudi. Todos ficaram ótimos. Esse é o Kanye: ótimo por um lado e uma besta por outro.

Melhor capa

Blood Orange – NEGRO SWAN | Ouvi Negro Swan muito menos do que pretendia, mas ainda assim, que grande disco de R&B. Dev Hynes, o homem por trás de Blood Orange, disse que o tema geral da obra é a depressão negra. A capa, uma foto, é maravilhosa no que retrata e em como retrata. Há algo de absurdo, inda que profundamente humano, mesmo que remetendo a algo sobrenatural ou irreal em um ambiente urbano. O tipo de imagem que permite trocentas leituras, tantas que talvez seja melhor apenas apreciar e sentir, sem explicar muito.

Show mais esperado

RADIOHEAD no Allianz Parque | Não compareci àquele primeiro show do Radiohead em São Paulo em 2009 e por muito tempo me arrependi profundamente de não ter ido. Finalmente lavei a alma e conferi a banda no Soundhearts Festival, que teve também Aldo The Band, Junun e Flying Lotus. Gostei de todos os shows, mas o mais esperado era mesmo o do Radiohead, que tocou por 2h30, Thom Yorke estava animado e deu pra ver como  banda reproduz o máximo de sons possíveis ao vivo mesmo, sem recorrer a VS e trilhas disparadas por teclado ou notebook.

Show mais emocionante e suante

NICK CAVE AND THE BAD SEEDS no Espaço das Américas | Fazia quase 30 anos que Nick Cave não se apresentava em SP e pelo menos há 10 eu aguardava sua volta. O show único no Espaço das Américas foi anunciado no dia do meu aniversário e mais do que depressa me dei o ingresso de presente. Foi incrível. Não só esteve à altura das expectativas como superou todas elas. Já estive em muitos shows de rock e metal, dentro de festivais e fora, e nunca saí tão suado de uma apresentação como foi esse show do Nick Cave. Ele não parou um segundo no palco, a gente não parou lá embaixo também. Durante “Higgs Boson Blues”, toquei o coração do cantor, que riu para mim quando fiz isso. Falei mais do show dele aqui.

Melhor show que vi no YouTube

NINE INCH NAILS – Live: Black and Blue and Broken Bones | Filmado em Madri, na Espanha, em julho deste ano, este é só uma das várias apresentações que o Nine Inch Nails está disponibilizando online. Trent Reznor, Atticus Ross e toda a banda é de uma energia inesgotável no palco. A edição do vídeo e a câmera frenética só tornam tudo mais intenso. A certeza é que não quero perder outro show desses caras no Brasil como já perdi uma vez.

Melhores clipes

Rubel – COLÉGIO |Pode pegar qualquer novela ou série que se passa em escolas: RiverdaleSabrinaEliteBaby, MalhaçãoAmerican Vandal: nenhuma retratou o colégio e seus alunos de forma tão delicada, comovente e premente como Rubel no clipe de “Colégio”. Falei mais dele aqui.

Chastity – HEAVEN HELL ANYWHERE ELSE |Mais um clipe que tenta retratar a juventude, seu tédio, seu deslumbramento, sua autodestruição, o sentimento ruim de gritar que não sai do peito e que faz ser tão comum queimar uma igreja e andar numa roda gigante. O primeiro verso da música da banda Chastity já dá indícios suficientes: “Quem atou meus dias com a dor?”

Childish Gambino – THIS IS AMERICA | Childish Gambino pegou todo mundo de surpresa com esse clipe arrasa quarteirão e lotado de crítica, sarcasmo e ironia. Um dedo que parece um canhão apontado para o rosto dos EUA. Uma pena que grande parte do público ficou mais preocupado em pegar cada referência escondida na obra do que em absorver o que ela realmente quer dizer.

Melhor trilha sonora de série

REQUIEM – trilha de Dominik Scherrer e Natasha Khan | A série é uma produção da BBC e que foi comprada pela Netflix. Mortes misteriosas e espelhos negros levam a protagonista a um culto enoquiano, sigilos de John Dee e invocações angelicais. A trilha sonora é bem interessante em como tenta produzir suspense sem perder essa veia mágica. Não sei do perfil de Dominik Scherrer, mas Natash Khan (que talvez vcê conheça por Bat For Lashes), que empresta sua voz à trilha, tem familiaridade com o rolê oculto inglês.

Melhor trilha de filme que ainda não vi

SUSPIRIA – Thom Yorke | O filme de Luca Guadagnino não chegou ao Brasil e eu ainda não o assisti, mas a trilha sonora composta e interpretada por Thom Yorke, do Radiohead, é magnífica. A trilha do filme original de 1977 foi criada por uma banda prog chamada Goblin e Yorke sabia o que tinha nas mãos quando aceitou a empreitada. Tem assombro, tem delicadeza e sutilezas harmônicas para aficionados em partituras notarem e babarem. E é apenas a primeira trilha que Thom faz para cinema.

Música mais emocionante de filme

Kendrick Lamar & SZA – “All The Stars” | Da trilha de Pantera Negra, primeiro filme da Marvel que realmente se preocupou com a trilha sonora e trouxe Kendrick Lamar para cuidar dela e das ideias que a música poderia comunicar. “All The Stars”, com um emocionante refrão cantado pela SZA merece o Oscar e o Grammy a que foi indicada. Desculpa Lady Gaga e Bradley Cooper, mas a verdade tem que ser dita.

Melhor rock feito por não roquistas

Grimes feat. Hana Truly – “We Appreciate Power” | Grimes era indie pop, indie LSD, difícil de categorizar, mas não metaleira. Seu novo single traz a guitarra da parceira Hana Truly afinada em Drop D, tema cyberpunk, um peso e uma mensagem direta que nem mesmo o Muse conseguiu compor em 2018. Além disso, as buscas pelo significado do verbo “to capitulate” explodiram por causa da canção.

Disco que muita gente gosta e eu não tive interesse em ouvir

Twenty One Pilots – TRENCH | Não se trata de dizer que Trenché ruim. É que muita gente parou para ouvir o novo álbum do Twenty One Pilots e eu nem tive a curiosidade de salvar no Spotify. Aliás, a 5ª temporada de Bojack Horseman na Netflix faz uma piada sensacional com a banda.

Melhor disco cheio de ruído

Low – DOUBLE NEGATIVE | Que obra maravilhosa! O Low, 25 anos de estrada, ainda criativo, se reinventando, dessa vez usando a música eletrônica para fazer sons que parecem um erro  de programação, ou como a música que havia nessas faixas tivesse sido estragada por sinais magnéticos. Há algo de espectral e de metafísico, como se a alma viajasse pelos cabos da rede de força. Falei mais de Double Negative aqui.

Melhor disco de rap pra ouvir no repeat

Baco Exu do Blues – BLUESMAN |O baiano Baco Exu do Blues ressignificou o blues e fez um disco rápido e que defende mais uma vez a cultura negra e toda a sua importância, resgatando o valor de sua luta e seu pensamento. Bluesman é divertido, importante e variado. Falei mais sobre ele aqui.

Pusha T – DAYTONA |Um dos cinco álbuns de 2018 produzidos por Kanye West, em Daytona Pusha T manda um rap direto, com influências do old school e bastante instigante. Como tem a duração de um EP, o repeat é necessário par não sair vibe muito rápido.

Melhor disco antifascista

Behemoth – I LOVED YOU AT YOUR DARKEST | O Behemoth tomou a política de seu país, a Polônia, como pano de fundo de toda a vociferação raivosa de I Loved You At Your Darkest. O governo do país é de extrema direita e chegou ao poder por vias democráticas. Não bastasse isso, o governo é profundamente influenciado pelo catolicismo que, por sua vez, também está alinhado à extrema direito, junto ao partido que hoje comanda a Polônia. É contra a política e contra a religião que o Behemoth direciona seu blackened death metal. Não tenta superar o anterior, The Satanist, mas faz um metal tão vigoroso quanto.

Melhor disco feito em casa / DIY

Nithael – ATLANTIS | Nithael mergulhou fundo mesmo na experimentação musical para dar cara e cor ao seu disco Atlantis. Seu trabalho anterior era apenas vocal e me surpreendeu o quanto ele testou de sons, camadas e texturas, algumas bem experimentais, para fazer seu álbum ter um conceito de fato. Ele não usou músicos ou aparelhagem de estúdio, apenas o próprio conhecimento, a própria voz e a indômita vontade de fazer música. Falei mais sobre Atlantis aqui.

Melhor indicação que o @o_eder me deu

ELVIS PRESLEY ao vivo | Elvis Presley é uma figura americana tão marcante na cultura dos EUA que está associado a tudo: roupas extravagantes, carros com cauda, topetes, vozeirão, beleza, branco roubando o brio de negros na música, cinema, polêmicas, sucesso que vai além de sua própria vida e invade a morte. O @o_eder me mandou vídeos do Elvis ao vivo e pude lembrar como ele era grande, porque era o Rei. 

Melhor disco para ouvir internado

Manoel Magalhães – CONSERTOS EM GERAL | Eu não fiquei internado em 2018. No máximo saí mais cedo do trabalho um dia por causa de uma gripe. Mas o @o_eder ficou, após um acidente sério, e teve conforto na música. Consertos em Geral, do Manoel Magalhães, foi um disco que ele ouviu enquanto habitava o hospital.

Melhor álbum para puxar ferro

Daughters – YOU WON’T GET WHAT YOU WANT |Um disco de rock bem nervoso e enervante de uma banda que não tocava junta há muitos anos. A fúria passa pelos seus ouvidos e atinge a corrente sanguínea, dando aquele impulso venenosa no seu treino de cada dia. Bom álbum, cheio de sentimentos pesados para que você lide com seus próprios pesos na academia e, quem sabe, na vida. Falei mais de You Won’t Get What You Want aqui.

Melhor álbum para dormir ouvindo

LIMINAL | A playlist infinita do pessoal do Sigur Rós é um dos projetos mais legais e inovadores de 2018 na música. A música de Liminal, contudo, não sei é para todos os gostos, mas caso goste de sons novos, timbres esquisitos, uma interconexão entre o acústico e o eletrônico, o melodioso e o ruidoso, vá fundo noite adentro.

Melhor disco de artista muito veterano

Marianne Faithfull – NEGATIVE CAPABILITY | Marianne Faithfull chamou o Warren Ellis para produzir seu novo disco. Nick Cave participa. Mark Lanegan, também. O disco é precioso. Uma senhora de idade avançada refletindo sobre amor, falta de amor, solidão, morte, solidão de novo, mais morte, terrorismo, e fazendo algumas releituras de sua própria obra. É cortante a honestidade como retrata a si mesma nessa fase da vida. Falei mais de Negative Capability aqui.

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