Maniac acerta na psicodelia narrativa

MANIAC, nova série original da Netflix, se beneficia de alguns fatores que não podemos deixar de lado. Em primeiro lugar, a visão do criador, roteirista e produtor Patrick Somerville parece ter recebido um tipo muito especial de carta branca. Enquanto muitas séries da Netflix são feitas pensando em nichos de público, me peguei vendo cada episódio e tentando adivinhar qual teria sido o público-alvo na mente de Somerville quando apresentou o projeto.

Em segundo lugar, o talentoso Cary Joji Fukunaga dirigiu todos os 10 episódios. Séries geralmente entregam roteiros a diretores diferentes para que o ritmo das gravações seja agilizado. Assim, cabe aos produtores manterem o padrão de qualidade e identidade visual do programa. Como Fukunaga (que também dirigiu os 8 episódios da primeira temporada de True Detective) também é produtor executivo de Maniac, sua direção é menos um ato de transposição do roteiro e mais um tipo de assinatura estilística mesmo.

(Quem viu True Detective lembra de um plano sequência espetacular e tenso que Fukunaga concebeu no episódio 4. Em Maniac, ele faz outro plano sequência cheio de cor, movimento, coreografia e graça no episódio 9. Imperdível!)

Isso garantiu uma cara muito própria e original à Maniac. Essa primeira temporada se passa em uma Nova York de hoje, mas com elementos do futuro embalados na estética oitentista. É retrofuturismo e não demora nada para percebermos que é cyberpunk também (uma subdivisão da ficção científica que curiosamente tem sido bem debatido neste site aqui, aqui e até aqui).

ENREDOS DENTRO DO ENREDO

Maniac acompanha uma parte transformadora da vida de Annie Landsberg (Emma Stone) e Owen Milgram (Jonah Hill). Annie perdeu a irmã mais nova em um acidente e não conseguiu se livrar do trauma. Além disso, está viciada em um remédio que nem chegou ao mercado ainda. Owen sofre de esquizofrenia, é o filho menos notável de uma família e precisa testemunhar a favor de um irmão que pode não ser um santo na história. Eles se inscrevem em um experimento farmacêutico que mistura psicanálise, behaviorismo, psiquiatria, neurologia, inteligência artificial e que promete trazer à tona o trauma mais expressivo de cada indivíduo, limpar suas barreiras mentais e então confrontá-los com o problema, levando-os à cura.

Embora essa seja a linha mestra da série, há diversos outros enredos  paralelos e narrativas dentro das narrativas se desenvolvendo de uma forma bem psicodélica. Não é exatamente difícil acompanhar a série, mas seus personagens, durante as fantasias/sonhos que vivenciam no experimento, vão de um excêntrico ritual espírita à uma floresta povoada por elfos, de uma vida suburbana americana à uma vida como mafiosos. É uma loucura que quebra a expectativa do espectador. Contudo, com a mão firme e segura de Somerville e Fukunaga, todas essas experiências narrativas nunca se desviam do que a série pretende contar, seja no plano mais superficial ou em seu substrato mais profundo de significado.

– E daí se viu coisas que não estavam lá. As pessoas veem alienígenas, ouvem vozes, veem fantasmas.
– Isso é diferente. Minha mente… não funciona direito.
– A de ninguém funciona.

Todos os enredos – que na verdade são um só – estão recheados de humor negro. Nada que te faça gargalhar, mas está lá aquele tom cômico que não deixa a tristeza dos personagens pesar demais. Certas sequências são um pouco exageradas de propósito, fazendo a série ter um ar meio galhofa mesmo. E a violência não é onipresente, mas quando acontece deixa sangue espalhado pelos rostos, roupas, paredes e banheiras do cenário.

Além de escritor de dois romances e principal roteirista de Maniac, Patrick Somerville fora roteirista de alguns episódios da ótima The Leftovers. Ou seja, ele já está acostumado a escrever para séries viajadas, mas que devem ser firmes no seus significados. Além disso, trouxe da série da HBO para a Netflix o ator Justin Theroux.

EMMA & HILL

Emma Stone começou a carreira cinematográfica em Superbad (2007), filme adolescente que também deu reconhecimento à Jonah Hill. Nesse filme, os dois atores interpretavam jovens que não sabiam muito bem como fazer o que queriam e, ao final da história, isso era o que mais nos conquistava em ambos. Hoje, os dois são reconhecidos grandes atores de cinema. Maniac é, sem dúvida alguma, um dos melhores trabalhos de atuação dos dois.

A Maniac da Netflix é baseada numa série norueguesa de mesmo nome, mas a produção americana mudou vários elementos da original. Para começar, a série escandinava tinha apenas um protagonista masculino. Quando conseguiram contratar Emma Stone, encontraram um jeito de Annie e Owen terem peso igual na narrativa e, mais do que isso, complementares.

Um paralelo interessante é que em Superbad, por mais que houvesse um interesse romântico rondando os personagens de Stone e Hill, eles terminavam o filme como amigos, sem consumar nada. Em Maniac, o arco de ambos confia muito mais numa amizade que os ajuda a superar e entender seus dilemas do que em interesses amorosos.

CONEXÕES

Além dos paralelos com Superbad e com a série norueguesa, Maniac tira proveito de diversas outras obras. Há um computador e uma inteligência artificial que foi programado a partir da personalidade de uma mulher, mãe de um dos cientistas que criou o teste farmacêutico a que Owen e Annie são submetidos. No anime Neon Genesis Evangelion, lá de 1995, um supercomputador também incorporou a “alma” e a personalidade da mãe de uma das cientistas que operava a máquina.

Toda a conexão das cobaias e seus sonhos (ou reflexos) remetem aos simstims de William Gibson, que antecipou a realidade virtual como um ambiente de ciberespaço. O próprio retrofuturismo da série é muito palpável hoje quando lemos Neuromancer (1983), sem falar que todo o teste, em território americano, é conduzido por uma equipe japonesa, o tipo de presença nipônica que inunda o mundo da Trilogia do Sprawl também.

Na série temos ainda os mcmurphies, que nunca são explicados, mas fica aquele ar de “deve ser problema”. McMurphy é o sobrenome do personagem de Jack Nicholson no clássico Um Estranho no Ninho (1975), que acaba lobotomizado no fim do filme. Isso dá uma boa pista do que Dra. Azumi e Dr. Mantleray querem dizer com o termo.

NETFLIX ACERTA

Já há algum tempo a Netflix recebe críticas por lançar diversas novas séries e não cuidar do padrão de qualidade de suas produções originais. Para cada Orange Is The New Black, Bojack Horseman ou House of Cards, há outras séries que apostam em determinados nichos de público e ficam devendo muito em roteiro e originalidade.

Embora Maniac me pareça arriscada, ela é uma série que, pelo menos nesta primeira temporada, se mantém desafiante, arrojada e, por mais psicodelica que pareça, atada a seu storytelling. Somerville, Fukunaga, Emma Stone e Jonah Hill entregaram uma das melhores novas ideias de 2018.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *