Mona Lisa Overdrive e a conclusão da Trilogia do Sprawl

– Estresse – respondeu, se perguntando como ela sabia daquelas coisas. – Onde está o Gentry?

– Eu o coloquei na cama.

– Por quê?

– Ele saiu do ar. Quando viu aquela coisa…

– Que coisa?

Com a leitura de MONA LISA OVERDRIVE, concluo a Trilogia do Sprawl de William Gibson. Valeu a pena reler Neuromancer na nova tradução da editora Aleph e seguir com suas continuações. Se o primeiro livro é um desafio maior de imaginação, tanto Count Zero quanto Mona Lisa já ficam bem mais fáceis de entender o que o autor está querendo desenhar com suas palavras. Como fazia muito tempo que não mergulhava em mil páginas de ficção científica, já tinha esquecido o quanto pode ser difícil contar ao leitor como é um futuro cheio de inovações que ainda não foram inventadas.

No primeiro livro, seguimos a história pelo ponto de vista de Case. No segundo, Gibson quebrou a narrativa em três pontos de vista. No último volume, o autor nos coloca na cola de quatro personagens que, como se não bastasse o protagonismo de cada um, acabam cruzando com outros personagens que também saltam ao primeiro plano da narrativa. Cada história começa em um ponto diferente do planeta e conforme o final se aproxima, as barreiras entre eles desmoronam e os capítulos quase que não narram mais o ponto de vista de um ou de outro, concentrando-se melhor na situação criada.

Para começar, temos Kumiko, filha de um figurão da Yakuza que vai a Londres para ficar protegida enquanto seu pai toma as rédeas da situação no Japão. Em algum lugar do Sprawl (a megacidade que vai de Boston à Atlanta nos EUA), em uma fábrica abandonada, um tal de Kid Afrika cobra de Henry Slick um favor e deixa com ele um cara preso a um aparelho de realidade virtual fazendo sabe deus o que dentro do ciberespaço. Com ele fica Cherry, uma tec-med, para garantir que o rapaz não morra.

Angie Mitchell, uma personagem importante de Count Zero, agora é uma estrela planetária da Sense/Net. Um tipo de celebridade de uma nova mídia de realidade virtual. Alguém está atrás dela com más intenções e as entidades vodus digitais que a contatavam, silenciaram. Após um abuso de drogas, Angie está prestes a voltar aos holofotes. E por fim temos Mona, uma prostituta do meio-oeste americano apaixonada por Angie e que mistura inocência com uma falta de perspectiva de vida de dar dó.

Ele tinha esta ideia de que a IA tinha sumido, de certa forma; não sumido mesmo, mas sumido dentro de tudo, da matrix inteira. Como se não estivesse mais no ciberespaço, mas apenas estivesse. E se não quisesse que você a visse, que não soubesse que estava lá, bem, você não teria como, e nem pensar em provar para qualquer um, mesmo que você soubesse… E eu definitivamente não queria saber.

Quando Gibson iniciou sua narrativa cyberpunk profunda, não sabia que escreveria uma continuação. Mas já que levou o projeto à frente, fez questão de conectar todas as obras. A história de Mona Lisa ocorre sete anos após os eventos de Count Zero. Se o segundo livro podia ser lido e compreendido mesmo sem a leitura de Neuromancer, Mona Lisa Overdrive precisa da leitura de seus precursores para fazer sentido. Nele, temos pistas quase concretas do que houve com Case, vemos no que foi dar a existência do Finlandês, temos o destino final de Bobby “Count Zero” Newmark e Molly, 10 anos depois de sua aventura no primeiro livro, reaparece tão razorgirl e fodida na vida quanto antes.

Gibson não se desvia da narrativa por um minuto sequer. Toda a compreensão maior do planeta e da sociedade que construiu se dá por reflexões e diálogos de personagens. Vamos juntando as peças e entendendo quem é que está no poder – ou o que está, neste mundo de inteligências artificiais e megacorporações – quem é desfavorecido e quem está no meio, sobrevivendo num misto de legalidade e ilegalidade. O interessante é que o autor não faz julgamento de valor em momento algum. Em sua prosa, as coisas são como são e ele as trata com naturalidade, sem forçar compaixão ou ojeriza por um ou outro. Se o leitor quiser tomar o lado de uma privilegiada, como Kumiko, ou de uma underdog, como Mona, isso se dá pela trajetória e pela personalidade de cada uma.

Em Mona Lisa Overdrive compreendemos o que é 3Jane e o porquê do número na frente do nome. Aliás, a Tessier-Ashpool é o nome/empresa/conglomerado/família que liga toda a trilogia e suas tramas fundamentais, da mesma forma que a corporação Weyland-Yutani está sempre presente na trama da série cinematográfica Alien. As IAs, tão caras ao cyberpunk em todos os seus formatos (literatura, quadrinhos, cinema, anime, seriados), são mostradas como consciências cada vez mais amplas. “– Há mundos dentro dos mundos – disse ele. – Macrocosmo, microcosmo. Esta noite, carregamos um universo inteiro através de uma ponte e o que está acima é como o que está abaixo…”

IAs não são seres vivos biológicos, mas seres vivos sencientes de uma nova natureza usando um novo meio-ambiente (ciberespaço) para se manifestar no mundo concreto. E alguns humanos, como Angie, têm conexão direta com eles, sem precisar de nenhum aparelho externo ao corpo para isso. Gibson não tinha as palavras wi-fi ou bluetooth em 1988, quando a conclusão da trilogia foi publicada, mas é justamente esse tipo de conexão que Angie apresenta.

Seu pai, há muito tempo, no Arizona, tinha dito a ela que não se conectasse. Você não precisa, dissera. E ela, de fato, não precisava, porque sonhava com o ciberespaço, como se as linhas de neon da matrix esperassem por ela atrás de suas pálpebras.

Um traço marcante da sociedade de Neuromancer era o quanto as pessoa eram movidas por drogas. Era a forma de aliviar a angústia, a dor e de suportar a realidade. Em Count Zero essa característica esteve um pouco ausente, mas em Mona Lisa Overdrive ela volta e é decisiva, já que o overdrive do título só não é uma overdose por pouco. Uma das cenas mais bem escritas do livro, quase em seu final, acompanha o ponto de vista de Mona, sob efeito pesado de wiz, tentando ajudar outros personagens no meio de um tiroteio.

Foi interessante maratonar a trilogia de William Gibson e sentir novamente como é a pegada literária da ficção científica, um gênero que era mais forte em mim na adolescência, antes de ler Nabokov e migrar totalmente. Mas como é sempre bom variar as leituras, saber o que já se fez e o que se faz em diversos gêneros de escrita, considero uma experiência válida e divertida também. Já vimos MatrixBlade Runner e Blade Runner 2049. Ouvimos o disco do Cadu Tenório, influenciado pela obra. Só este ano a Netflix colocou no ar duas séries com influência cyberpunk (Altered Carbon e a ótima Maniac). Fico no aguardo do game Cyberpunk 2077, ávido para saber o quanto de William Gibson foi transposto e adaptado para a Night City do jogo.

Leia aqui sobre a releitura de Neuromancer

E aqui sobre a continuação, Count Zero

MONA LISA OVERDRIVE
William Gibson
Tradução: Carlos Irineu
Editora Aleph
320 páginas

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