Não deixe First Reformed passar batido

FIRST REFORMED [No Coração da Escuridão, 2017] é o tipo de drama que te deixa alarmado. No melhor estilo de filmes e séries com finais abertos, ficamos no impasse de querer saber o que acontece dali pra frente e buscando, desesperadamente em nosso íntimo, uma resolução moral para o que acabamos de ver. Mas não é moral o objetivo do diretor e roteirista Paul Schrader. Ou melhor, até é, pois o filme todo joga habilmente com questões e noções morais, mas o ato final vai ficar rodando em sua mente, igual a câmera de Schrader, por muito tempo.

Ethan Hawke [que vimos envelhecer na pele do Jesse da série de filmes iniciada com Antes do Amanhecer] é um reverendo com uma vida pregressa desgraçada. No momento em que o filme começa, seu corpo também está em uma situação miserável e ficando pior a cada cena. Um dos temas abordados no filme, que se torna motivação do personagem, é a degradação ambiental causada pelo homem. Outro tema não é a falta de fé em si, mas a dúvida sobre o que um suposto Deus reservou para nós e como é possível que nós, limitados seres humanos, saibamos como agir. Esperamos seus desígnios ou agimos? E se escolhermos agir, qual o tamanho de nosso sacrifício?

Não é um filme religioso, mas o roteiro de Schrader é esperto o suficiente para colocar na mesa – e na tela – as argumentações religiosas sobre o que trata. Para cada questionamento que usa um versículo bíblico para ganhar peso, há uma suposta resposta que parece estar contida em outro versículo do livro. Levantando questões sobre tempos extremos e ações extremas do nosso hoje mais imediato, First Reformed oferece material para deixar todo mundo pensando e instigado, procurando primeiro as saídas para os personagens, depois para si mesmo, fora do filme, em nossa vida cotidiana. Mesmo ateus – ou principalmente eles – devem encontrar um campo fértil para discussão e reflexão.

“- Deus consegue nos perdoar pelo que fizemos com este mundo?
– Não sei. Quem conhece a mente de Deus?”

O reverendo Ernst Toller, logo no início do filme, atende um ambientalista de alma e mente perturbada e coloca em jogo as noções de esperança e coragem contra o desespero da vida. O filme todo vai se equilibrando em torno dessas três palavras e o que representam. Aos poucos, vemos que a distinção entre elas é mais complicada do que parece. A coragem para mudar algo é também um ato de esperança no futuro, mas pode se manifestar de uma forma desesperada. Qual a saída? Quem indica o caminho?

First Reformed é notável não só em termos de enredo e roteiro. Schrader usa o formato de tela 3:4 e raramente usa movimentos de câmera. E geralmente esse movimento ocorre quando o reverendo de Ethan Hawke está na presença de Mary, personagem de Amanda Seyfried. Há anos acostumados com um corte wide de cinema, o formato 3:4 dá uma levemente incômoda sensação de não deixar muito espaço para respirar.

Ethan Hawke, como ator, melhora com o passar do tempo. Entrega uma atuação exata, sem excesso e que tira do background do personagem a medida certa para imaginar as semanas decisivas de sua vida ao longo do filme. Schrader, um dinossauro de Hollywood – é dele o roteiro de Taxi Driver e a direção de Gigolô Americano, por exemplo – coloca em menos de duas horas uma boa quantidade de temas e de retóricas na tela. First Reformed acaba ganhando peso e construindo um contexto complexo, mas bastante claro e lúcido, em torno de si. Ingmar Bergman, um dos diretores referência de Schrader, inclusive está presente, pois é difícil não ver os dilemas do reverendo Toller e não lembrar de Luz de Inverno, do sueco.

“Então, devemos poluir para que Deus possa restaurar? Devemos pecar para que Deus possa perdoar?”

Não é um filme de ação e nem de aventura. Não há grandes acontecimentos, mas os que estão na tela ressoam. É um drama que não banaliza a violência, mas quando ela dá as caras, mesmo que indiretamente, pesa um tonelada.

O final é algo a ser discutido. Não perca seu tempo procurando respostas na internet ou criando teorias. É capaz de você nem gostar do final, oras. Há quem considere que o final de First Reformed, que se resolve mais dentro da cabeça do personagem e daí só temos seus atos para tentar compreender, é um recusa de Schrader a decidir que caminho seguir, sua própria falta de coragem em dizer quem vence: a esperança ou o desespero. Na minha opinião, é este final que garante que as questões levantadas também continuarão conosco. Quem é que almoçou com Deus e sabe de seus desígnios, afinal? Coragem, esperança e desespero seguem de mãos dadas.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *