Não há esperança em The Crooked God Machine

Passamos por vários membros da Brigada do Apocalipse. Eles usavam máscaras de monstros lembrando a Kali da língua afiada e o Abraxas de rosto negro e distribuíam panfletos sobre o fim do mundo. Nos últimos sete anos, a Brigada do Apocalipse passou de um grupo marginal para a influência política predominante em Edgewater.

Há anos não lia uma fantasia, mas CROOKED GOD MACHINE, da americana Autumn Christian, foi bem recomendada. Tem laivos de ficção-científica e cyberpunk, misturando uma sociedade distópica controlada por um Deus ditador que a população do Planeta Negro só vê pela televisão.

O mundo é um território completamente perigoso: uma em cada seis pessoas desaparece das cidades; crianças morrem aos borbotões; há monstros nos pântanos e bosques; e para mostrar como o Deus desse mundo é benevolente, ele envia carrocinhas infernais para raptar pessoas e pragas que acabam com cidades inteiras. Todo mundo é pecador, sem exceção. Há quem pregue isso com tanto fervor que anda pelas ruas à
caça de hereges usando máscaras de animais, como é o caso da Brigada do Apocalipse.

Há também os profetas, seres humanos com algumas habilidades especiais e que também devem servir a Deus. Podem ajudar, mas às vezes a ajuda significa entrar no salão de uma escola durante uma formatura, jogar gasolina nos alunos e incendiá-los, pois é improvável que vão dar em alguma coisa algum dia.

Neste livro, sair de casa é uma aventura comparável a visitar certas regiões do Rio de Janeiro depois da meia-noite.

Charles é o protagonista dessa história. Logo no início de The Crooked God Machine, o pai perde o emprego e abandona a casa. O irmão mais novo, ainda bebê, morre e acaba devorado por Jolene, uma monstrenga dos pântanos. Sem perspectiva de vida, os anos passam e o que restou da família de Charles acaba sobrevivendo de ração fornecida pelo governo caótico do lugar. Emprego ou lazer parecem mitos de uma Terra distante.

A mãe e Sissy, a irmã de Charles, não aguentam o sofrimento mórbido e submetem-se a um procedimento que implanta uma aranha mecânica em suas cabeças, causando uma espécie de lobotomia. O livro é tão dark e apresenta uma realidade tão sufocante que a esperança é nada mais que a chama de um fósforo na escuridão da noite, iluminada por uma Lua negra.

Autumn Christian tem uma prosa direta e focada na narrativa. Você lê vários capítulos de uma vez, de tão precisa e ágil que é sua escrita. As descrições são enxutas e, mesmo em um mundo saído da weird fiction e do horror, são o suficiente para você saber que está num misto de Mad Max com contos de Cthullu.

O mundo que ela criou para seu Planeta Negro vai sendo mostrado bem aos poucos e de acordo com a experiência dos personagens que, a cada página em que não são mencionados, podem ter morrido ou sido levados pelas máquinas infernais de Deus. Dá para intuir que antes do Planeta Negro havia um planeta Terra ali, mas temos apenas vislumbres do que pode ter ocorrido. Esses vislumbres são o suficiente, no entanto, para que a autora consiga estabelecer sua crítica social ao modo como encaremos a religião, a tecnologia e descuidamos deste planeta azul.

Christian parece não fazer força ao misturar o gótico americano e o folclore ao que me parece uma crítica a uma sociedade hipnotizada por televangelistas e que se submete a uma teocracia. Seus personagens convivem com corpos mutilados, queimados, mastigados e vidas vazias e tediosas diariamente. O medo imposto na sociedade e suas formas de controle parecem ser o grande tema da obra.

“O cérebro humano tem a habilidade única de duvidar da realidade apresentada. De compreender a dissonância entre ideias e a verdade do mundo ao nosso redor. Deus sabe disso e isso deixa ele furioso. Com medo.”

A autora, nascida no Texas e agora vivendo e Los Angels, é jovem e não tem tempo a perder. Pode ser que isso tenha mudado, mas quando escreveu The Crooked God Machine, Autumn tinha como inspirações Ray Bradbury, Philip K. Dick, Katie Jane Garside, o southern gothic dos EUA e a música dubstep. Mas ela vai além dessas referências mais localizadas e encontra inspiração nos livros de dois Williams: o grande Faulkner e o experimental e experimentado Burroughs. Além de testar alguns jogos, ela participou da elaboração do roteiro de State of Decay 2 e Battle Nations.

É um livro de horror com imaginação e sem as centenas de páginas de enrolação de Stephen King. Os primeiros capítulos realmente chegaram a eriçar os pelos de meus braços, principalmente nas primeiras aparições de Jolene. Depois, não senti mais nenhum medo, talvez por ficar anestesiado por tanto sofrimento e morte e ocorrências estranhíssimas.

Infelizmente, ainda não há versão em português de The Crooked God Machine e nem é provável que vá haver tão cedo. Contudo, é baratinho se optar comprar a versão em inglês mesmo pela Amazon. Além disso, se você procura uma leitura interessante e que possa te ajudar a testar seu inglês, esse livro pode ser uma boa oportunidade. Nível intermediário de conhecimento no idioma já dá conta do recado, uma vez que Christian experimenta muito no mundo e sociedade que cria, mas não tanto na formação de frases.

Se Teddy fodeu o cu da Delilah ou não, não era importante. O que importava é que Teddy vendia sono em um mundo onde todo mundo estava sempre gritando.

Li a segunda edição do livro, que possui uma nota bastante interessante da própria autoria sobre quando e porque escreveu essa história. “‘Mas e se Deus existir?’, as pessoas me perguntavam, ‘e se você estiver errada e Deus existir?’ Minha resposta foi The Crooked God Machine“, ela relata. Além disso, essa versão traz um conto de ficção científica de Autumn chamado Honeycomb Heads que certamente é um bom complemento ao livro.

Interessados em terror, distopia e ficção científica que já leram autores homens demais e precisam de novas referências, ou sair dos já batidos nomes como Stephen King, Isaac Asimov, K. Dick ou mesmo Neil Gaiman, podem encontrar algo bem interessante em Autumn Christian. Embora sua prosa seja bem palatável, a jornada de Charles deverá ser uma das coisas mais malditas que lerá.

THE CROOKED GOD MACHINE
Autumn Christian
399 páginas

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