Noite de Lobos: mistérios e famílias

O maior problema de NOITE DE LOBOS (Hold The Dark) é não se desenvolver tão bem quanto poderia. Final aberto para interpretações e que se desvia de clímax moralista geralmente são ingredientes que fazem o público sair perplexo do cinema, talvez acreditando que nada mais importa, que tudo está condenado, que somos incapazes de mudar o absurdo da vida. Um filme que acerta em cheio nisso, por exemplo, é Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Cohen. Noite de Lobos poderia acertar mais, caso as duas horas que viessem antes do final fossem melhor construídas.

Medora Sloane (Riley Keough) perde o filho logo na primeira cena. Vive em uma vila no interiorzão do Alasca. O marido está na guerra do Iraque. Ela contrata o escritor e pesquisador de lobos Russell Core (Jeffrey Wright) para vingar o filho. O homem aceita mais por empatia ao luto da mãe do que por convicções profissionais. Mas era tudo uma armação e há intrigas antigas e macabras correndo pela vila e pelo sangue da família Sloane.

Isso é o que mais irrita em Noite de Lobos. Os elementos espalhados pela narrativa dariam um ótimo filme: lendas do Alasca, metáforas familiares, rituais e magia, talvez problemas psicológicos. Mas o diretor Jeremy Saulnier e o roteirista Macon Blair jogam tudo para o alto e não apenas não conectam os elementos de forma convincente como parece que a produção inventa cenas que, fundamentalmente, não servem para muita coisa a não ser colocar mais um corpo no caixão.

O filme tenta fazer com que tenhamos compaixão por todos eles. O protagonista é um cara esperto, mas meio sem sal. Alexander Skarsgård, de poucas palavras, é mais frio que o Alasca inteiro interpretando Vernom Sloane. Temos inclusive um tiroteio lá pela metade do filme, uma cena violenta e enorme, que dá um destaque desmedido a um personagem secundário que não acrescenta quase nada à trama ou ao nosso entendimento daquele mundo e daquele contexto misterioso.

A fotografia tenta fazer jus ao nome do filme em inglês e investe em cenas escuras em 70% do tempo. É uma tentativa de conseguir expressar a escuridão dos personagens e dessa história macabra. Porém, no final das contas, pode parecer que a fotografia quer jogar sombras sobre as muletas do roteiro para manter o mistério da trama.

Talvez não sejam muletas de roteiro e todos os elementos ali façam sentido (as máscaras, o demônio-lobo, o sangue da família, a morte da criança, o símbolo escrito em sangue no caixão). Nesse caso, o filme pode achar que está sendo maduro o suficiente para apontar caminhos e o espectador que se vire para pesquisar a cultura indígena do Alasca e descobrir sozinho as ligações.

Temos duas certezas, afinal. 1) A mãe, Medora, é talvez a personagem mais interessante e a que melhor temos sede de entender. Curiosamente, de todos os personagens, é a que tem menos tempo de tela. 2) Trata-se de uma história sobre família e os diversos processos que nos conectam aos nossos entes queridos. Tudo que ocorre, ocorre senão para que Core possa se religar à sua filha. Se tem alguém que é “salvo”, é Core. O que realmente importa ao filme não tem nada a ver com a mística que Saulnier tenta filmar, e sim com as famílias, suas (des)conexões e suas gerações. Por isso, por mais pessimista que possa parecer o final, há algo nisso tudo que deu certo.

Não é um significado final ruim, de forma alguma, e até expande a proposta do diretor. Mas há tropeços demais de desenvolvimento que fazem a conclusão soar deslocada.

O Alasca é uma locação e tanto para este filme, no entanto. Tem a questão das grandes distâncias, das dificuldades e escassez de recursos que torna tão difícil a sobrevivência de uma família de lobos quanto a de humanos. Ao mesmo tempo, ir ao Alasca caçar um lobo é a desculpa de Core para, quem sabe, dar uma olhada na filha.

Originalmente, Noite de Lobos iria ser distribuído pela A24, mesma empresa que lançou A Bruxa e Hereditário. Mas pouco antes de começarem a filmar, a Netflix comprou os direitos de distribuição. Porém, antes que estivesse na Netflix, estreou no Festival de Toronto. O roteiro é baseado no livro de William Giraldi de mesmo nome. Em janeiro deveremos ver o novo trabalho de Saulnier: ele é o responsável pela direção dos dois primeiros episódios da terceira temporada de True Detective.

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