O ousado A Vegetariana

Fiquei sozinho na escuridão da cozinha, encarando a porta do quarto que engoliu minha esposa vestida de branco.

A VEGETARIANA, livro da sul-coreana Han Kang, ganhou uma nova edição no Brasil. Dessa vez pela Todavia, com tradução caprichada e direto da versão original. Um dos motivos alegados pela editora para acrescentar o livro ao seu catálogo é que poderia ser uma introdução à literatura coreana. Não tenho dúvidas de que para a maior parte dos brasileiros será mesmo a primeira vez que se deparam com a literatura de lá. Foi a minha primeira vez também.

Outro motivo é que A Vegetariana tem sido considerado um dos livros mais importantes da ficção contemporânea. Não tenho o cacife e a leitura suficiente para tal afirmação, mas posso dizer que o impacto é enorme. Han Kang escreve de forma clara e cria imagens fortes e vivas na cabeça do leitor. Enquanto lia, um filme noir rodava em minha mente, geralmente em preto e branco, mas com cores surgindo em momentos muito específicos quando um pedaço de carne é apresentado, ou quando um pulso é cortado, quando flores são desenhadas sobre corpos, quando uma mulher se refugia imóvel entre as árvores de um bosque.

Han Kang, a autora sul-coreana

A Vegetariana é contado em três atos e em quatro pontos de vista diferentes. Yeonghye, uma esposa comum, que não é mãe e casada com um cara tediosamente comum, deixa de comer carne. Se recusa até a prepará-la. Não é uma defesa ideológica aos direitos dos animais. Tampouco é saúde do corpo que interessa à personagem. A mudança ocorre de uma hora para outra, motivada, segundo ela, por sonhos.

O marido se incomoda. Primeiro acha que é uma moda de dieta vegetariana. Depois acha que é loucura mesmo. Convoca toda a família de Yonghye para ajudá-lo a dissuadir a mulher dessa bobagem de vegetarianismo. “Como podia ser tão teimosa e ignorar completamente a opinião de seu marido?”, ele pensa.

O primeiro ato é importantíssimo e o melhor do livro. Temos alguns flashes do que pode estar ocorrendo com a mulher. É a única porção da história em que nossa protagonista tem voz, mesmo que seu relato seja meio misterioso e não confiável. De resto, ela é toda sufocada pelas vozes, vontades e interpretações dos outros. Vamos ter machismo, o tradicionalismo cultural coreano que logo taxa o que ocorre com Yeonghye como rebelião e algo totalmente inaceitável.

Percebeu que a letargia proporcionada pelo sono apagava a dor e a humilhação. E que, nas manhãs seguintes, na mesa do café, continha o impulso de espetar os palitos nos próprios olhos ou de jogar a água quente da chaleira na cabeça. 

A grande sacada de Han Kang, a meu ver, é conseguir quebrar a história desse misterioso e repentino vegetarianismo em diferentes frentes temáticas, misturando-o com diversas outras questões que são tanto locais ali na Coréia e no Oriente (hábitos alimentares, familiares, apego às tradições) com outras muito universais (empatia e a falta dela, saúde mental, erotismo, amor, traição, casamento, taras, sexualidade, punição e perdão).

Embora dois terços do livro seja contado do ponto de vista de homens escrotos, a escritora entrega uma humanidade assustadora a eles. Mas não humanidade no sentido mais elevado, aquele em que entendemos as motivações e até achamos que tenham alguma razão. É, sobretudo, humanidade no sentido de sabermos como, lá no íntimo, certas pessoas podem ser incrivelmente perversas e nem se darem conta disso.

O filtro da literatura nos revela esse lado dos personagens ao nos colocar no ponto de vista deles. São todos vítimas de uma mudança repentina que não compreendem, são todos vítimas de suas próprias questões internas e problemas mal resolvidos. Mas são todos vítimas de acordo apenas com certo ponto de vista. São todos predadores também e fazem de Yeonghye a maior vítima.

Vendo-a aceitar sem resistência todo aquele processo, considerou-a um ser sagrado, nem humano nem animal, ou talvez um ser entre o vegetal, o animal e o humano, tudo ao mesmo tempo.

A história deriva do conto O Fruto da Minha Mulher, que Kang escreveu uma década antes de publicar A Vegetariana, sobre uma mulher que vai gradativamente se transformando em planta. O marido até a coloca em um vaso e passa a regá-la. Aspectos desse conto estão mantidos no romance, porém causas e significados são mais amplos no livro e cutucam feridas bem abertas. Da degradação de uma mulher, seja no conto ou seja no romance, fica bem evidente o grito de denúncia abafado da mulher.

A autora estudou Literatura na universidade e dá aulas de escrita criativa. A Vegetariana foi seu maior sucesso até agora. Originalmente publicado em 2007 e o primeiro a ser traduzido para o inglês (em 2015), venceu o Man Booker Prize em 2016, o que só deu mais força ao livro. O falatório não é hype de premiação apenas. Han Kang revela pessoas e contextos de forma ousada. A narrativa muda, conforme as três partes do livro se sucedem, e ampliam o espectro do significado da recusa da carne. De um conto meio misterioso e que parece que vai virar um terror mudamos para uma abordagem que mistura arte e sexo, e então chegamos às questões de saúde. Nunca deixa de ser interessante, sempre uma obsessão para vermos até onde é levada.

Um romance curto e poderoso. A verdadeira rebelião da vegetariana não é contra a proteína de origem animal. É contra as violências que a liberdade individual constantemente sofre.

A VEGETARIANA
Han Kang
Tradução: Jae Hyung Woo
Editora Todavia
176 páginas

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