O que eu vi quando vi Father John Misty ao vivo

Oh, pour me another drink
And punch me in the face
You can call me Nancy

De todos os shows que já vi na vida, o primeiro de FATHER JOHN MISTY em São Paulo foi um fenômeno até então inédito para mim. Toda a primeira parte do show passou voando. Foram 16 músicas que se sucederam de forma tão fluente e objetiva que o tempo passou e, pelo menos em minha cabeça, é como se tudo tivesse demorado apenas meia hora. Será que o fato de estarmos todos sentados no Auditório Simón Bolivar deu uma sensação maior de conforto e, por isso, sentimos menos a passagem do tempo?

De “Nancy From Now On” até a trinca de faixas-títulos que fecharam a primeira parte do setlist (“Pure Comedy”, “God’s Favorite Customer” e “I Love You, Honeybear”, na sequência) fiz questão de cantar o que sabia e curtir o som, que estava alto pra caramba, encobrindo a voz da plateia com folga, antes que terminasse e parecesse que aquele “encontro” não durou nada.

Apesar de já ter visto muitas apresentações de FJM ao vivo pelo YouTube, vê-lo em pessoa no palco deu uma clara ideia de como sua imagem esguia é magnética. Ele não é do tipo que se coloca na frente do microfone e toca violão, somente. Os ombros balançam de uma maneira sutil, mas que é parte de como aquele corpo se expressa. E os pés são muito importantes. Ele troca a base de apoio, cruza as pernas, se inclina de um lado para outro levemente, dando balanço e movimento constante ao seu jeito de tocar e cantar.

Maybe I’ll get a pet
Learn how to take care of someone else
Maybe I’ll name him Jeff

O bis do show teve apenas cinco canções, mas pareceu durar tanto quanto o setlist principal da apresentação. Nunca antes em minha vida participei de um apresentação em que a sensação da passagem do tempo estivesse tão invertida em minha mente.

Joshua Tillman é um dândi, um hipster, uma mente atribulada ligada a um coração enorme. Eu já sabia disso, mas ao vivo a gente sempre tira a prova dos nove, não é? Ele aproveitou o palco do Auditório Simón Bolivar para ser cancioneiro, profeta e entertainer. Músicas como “The Palace” e “Bored In The USA”, “Total Entertainment Forever” e “Hangout at the Gallows” pediam performances diferenciadas, e ele as entregou. Em “Pure Comedy” ele usou todo o espaço que tinha disponível e todos os recursos de sua expressão corporal.

Se “Date Night” não está entre suas preferidas de seu último álbum, ao vivo a canção funciona que é uma beleza, injetando rock na veia do público. A agitada e barulhenta “The Ideal Husband” foi para lavar a alma, fazendo-o ajoelhar no palco ao cantar, com toda a força que lhe restava naquela noite fria, os versos “I came by at seven in the morning / Seven in the morning…” O sarcasmo e as críticas das letras são reforçadas pelo seu olhar e por como acena com as mãos.

And they get terribly upset
When you question their sacred texts
Written by woman-hating epileptics

A guitarra parecia bem alta durante o show, mas em “Hollywood Forever Cemetery Signs” ela realmente trouxe seus acordes para um outro nível. O soul bonitinho de “Real Love Baby”, já no bis, fez metade do público finalmente abandonar seus assentos e se jogar nas laterais do palco. Isso devia ter acontecido muito antes. Será que o público estava com vergonha? Não sabiam se isso seria permitido? Estavam bem acomodados em seus assentos para se levantar e curtir o show como devia ser curtido?

Seja como for, foi essa atitude do público que fez Josh ser um cara legal, mais uma vez, e chamar a galera para cima do palco [“Não façam eu me arrepender disso!”, ele disse]. Foi bonito de ver a banda toda cercada de pessoas enquanto ele tocava para elas “So I’m Growing Old on Magic Mountain”. Embora ele tenha tocado “Strange Encounter” e “True Affection” somente na noite anterior, no Festival Queremos no Rio de Janeiro, e não em SP, “Magic Mountain” foi um presente ao público paulista. Ovacionado pelos jovens ao seu redor, ele sentou-se no chão para terminar o momento de celebração folk.

Saí do local para enfrentar uma noite de 10 graus murmurando a melodia de “Mr. Tillman”. Fiquei por quase duas horas na frente de Father John Misty e ainda tinha a impressão de que durou metade do total. Dizem que o tempo passa mais rápido quando estamos fazendo algo de que gostamos. Deve ter sido isso o que aconteceu.

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