O Vento Que Arrasa e aquilo que nos falta

– O carro vai estar pronto no finzinho da tarde, se Deus quiser – disse o Reverendo, enxugando a testa com o lenço.

– E se Deus não quiser? – respondeu Leni, ajustando os fones de ouvido do walkman que sempre levava pendurado na cintura. Apertou play e sua cabeça se encheu de música.

Há autores que fazem de tudo para imprimir um estilo a cada frase e acenar para o leitor que sim, você está lendo esse autor mesmo. Pode pensar em figuras como Joyce, Guimarães Rosa, DFW, António Lobo Antunes e tantos outros. Veja bem que não citei entre eles um único autor que não mereça ser lido 🙂 e nem afirmo que façam isso o tempo todo, ao longo de todas as suas obras. Mas fazem.

Há autores que, de outra forma, conseguem submergir seus tiques e suas personalidades por trás da pena, da caneta, da máquina de escrever e do computador e passamos o livro todo vendo a história se desdobrar com naturalidade incrível. É o caso da argentina Selva Almada e seu O VENTO QUE ARRASA, livro que já chegou à décima edição em seu país natal e confirmou o nome da autora como uma das melhores escritores contemporâneas da América Latina.

É um livro leve. Tem apenas 128 páginas e apenas uma locação onde toda a ação e todo o drama se passam. Contém somente quatro personagens. O Reverendo Pearson e sua filha Leni que, viajando pelo charco argentino, acabam ficando na estrada com o carro quebrado e rebocado até a oficina quase no meio do nada onde trabalha Gringo Brauer e seu ajudante Tapioca.

O Vento Que Arrasa é quase um road movie às avessas, primeiro porque não é filme, e sim literatura, e depois porque não é a viagem que leva à transformação, mas sim a estadia de um dia em um mesmo local fora de casa. Contudo, Almada encadeia as cenas e os flashbacks de modo a dar um ar de road movie.

Foto: Santiago Maquelet

Na Argentina católica, Reverendo Pearson é um desses religiosos evangélicos que não se cabem dentro de si e enxergam uma missão cristianizadora em praticamente tudo o que veem ou em todos que conhecem. Beira o irritante, é verdade, mas também é bonito de ver sua fé se manifestar de forma quase ingênua. A mesma ingenuidade que o leva a ver no jovem Tapioca uma alma pura e prontinha para ser fisgada pelo prego da cruz de Cristo.

Leni, a filha adolescente, é a figura que confronta o pai. Age com deboche, com certa rebeldia e guarda para si os fantasmas que ajudam a dar a forma no confronto que vive tendo com seu pai. Gringo Brauer, a figura que não quer ser cristianizada, contrasta tanto com seu parceirinho Tapioca, quanto com o Reverendo.

Selva Almada, assim, forma um quadrado perfeito e coloca cada personagem em um lado, sempre com duas figuras contrastantes e em rota de colisão com os outros dois, do outro lado. A tensão vai sendo criada aos poucos e com exímio controle da autora, para que a história tenha conflito, mas sem perder a ternura. Ela até mesmo concatena uma mudança climática para acompanhar o clímax da história, um velho truque, é claro, mas bastante eficaz.

Mesmo assim, em algum momento, começou a chorar. Só lágrimas, sem nenhum som. Água caindo de seus olhos como a água que caía do céu. Chuva perdida em meio à chuva.

Não sei se cheguei ao cerne de O Vento Que Arrasa, mas me peguei pensando em como substituímos o que nos falta por alguma outra coisa. Há aqueles que, como sabemos bem, buscam uma verdade maior em que tudo caiba. A religião parece o quadro perfeito para este tipo, fornecendo não a resposta, mas a promessa de resposta. A vida simples e espartana, livre de grandes dramas e grandes compromissos, também blinda contra tudo o que mais poderíamos ser ou experimentar. O sarcasmo e um certo grau de negação parece a resposta natural de uma juventude que perdeu algo contra sua escolha e não sabe bem ainda como cobrir esse buraco. E há também quem nunca teve nada e nem esperava que haveria mais o que se ter. Porém, quando o mundo parece poder ficar maior, dá o salto de fé necessário para se agarrar à oportunidade.

É possível se identificar com qualquer um dos quatro. Gringo Brauer não tenta ser simpático e mesmo assim a gente se sente na pele dele quase imediatamente. Tapioca rouba a cena. De um moleque calado passa a ser o personagem pelo qual você torce para que algo mude e, de fato, a sua mudança é a mais relevante ao fim das 120 páginas. Esperava mais de Leni, mas certamente a sutil incursão por sua cabeça vale a pena. Quanto ao Reverendo Pearson, sai ganhando, com a fé firme, mesmo que nada tivesse tido a ver com a vontade de Deus.

Por que o solteirão se enforcou, por que o engenheiro matou o outro engenheiro? E o que é a morte senão uma só e mesma coisa, vazia e obscura, pouco importando o braço que a executa?

O Vento que Arrasa foi publicado originalmente em 2012 e chegou ao Brasil em 2015 pela Cosac Naify. Mesmo sendo um livro curtinho de capítulos igualmente breves, é bom notar que sua editora não existe mais e então não foram feitas mais impressões da obra no país. Se quiser ler a história de Leni, Tapioca, Gringo e do Reverendo, terá que enfrentar a escassez do mercado que elevou o preço das cópias restantes na Amazon para astronômicos R$ 250. Já na Estante Virtual há quem venda cópias usadas por R$ 18 ou por inflacionados R$ 70. Quem tiver criatividade para procurar por livros o encontrará disponível em ainda mais um meio que, apesar de ser meio underground, é vendido, comicamente, como “cópia original”.

Embora o último capítulo seja um dos mais lindos que já tenha lido, com a potência de que apenas os capítulos curtos e precisos têm, Almada não entrega catarses e muito menos deixa sua história com um final aberto. Fiquei com o gosto de cada personagem na boca ao terminar de ler, esperando um raio, esperando uma aparição no retrovisor, ou com o corpo reagindo como o de Gringo: “No peito, o coração parecia um gato metido num saco.”

O VENTO QUE ARRASA
Selva Almada
Tradução: Samuel Titan Jr.
Editora Cosac Naify
128 páginas

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