Eugene Thacker e como Pensar o Impensável

Eugene Thacker, filósofo e professor da universidade The New School de Nova York, teve reconhecimento com o lançamento de IN THE DUST OF THIS PLANET, primeiro livro de uma trilogia que tenta filosofar a partir de temas sombrios e ocultos ligados ao terror. A base de sua argumentação parte de filmes e livros de terror, de religiões pagãs e chamadas satânicas. Mas como ele próprio deixar claro, seu objetivo não é fazer uma filosofia do terror, e sim explorar o Terror da Filosofia.

A filosofia lida com o racional, com os fenômenos que os seres humanos podem e estão esquipados para investigar, entender e interpretar. Contudo, Thacker cria um paradoxo em sua obra e tenta racionalizar sobre aquilo que não há razão de ser ou, pelo menos, é impossível para os seres humanos compreenderem. Esse é o “terror da filosofia”: entender o que não está ao alcance da capacidade humana apreender ou mesmo conhecer.

…O que nós preguiçosamente chamamos de “sobrenatural” é simplesmente um outro tipo de natureza, mas um tipo que está além da compreensão humana…

O prólogo de In The Dust Of This Planet é um ensaio por si só, com um ponto de vista interessantíssimo. O autor diferencia o mundo-para-nós (world-for-us), que é o mundo em que os humanos agem e conseguem apreender e interpretar, do mundo-em-si-mesmo (world-in-itself) que é o mundo sem a racionalidade humana, indiferente a ela. O mundo-em-si-mesmo é o que é, sem a agência dos homens, e não deve ser pensado como algo que aí está para servir à humanidade. E por fim temos o obscuro mundo-sem-nós (world-without-us), que seria a faceta mais autônoma do planeta, cuja existência não se importa com a presença humana e ainda pode guardar elementos e fenômenos que estão além do conhecimento da humanidade, totalmente ocultos para ela. Esses fenômenos até podem se manifestar à humanidade, mas nós não estaremos prontos ou equipados para entendê-las completamente.

Para Thacker, esses fenômenos ocultos do mundo-sem-nós se manifestam nas obras de terror de diversas formas, como demônios, como o vazio mais perfeito, como a manifestação sobrenatural que arrepia nossa espinha por estarmos diante de algo que não sabemos de que é feito, o que significa e o que pode fazer conosco. Embora a gente sinta medo e se assuste com o que vemos em obras de terror, Thacker diz que o impensável vai além desses sentimentos. O impensável é o desconhecido.

Quando resolve abordar as práticas mágicas, diz: “Enquanto a filosofia oculta tradicional é um conhecimento oculto do mundo aberto, a filosofia oculta hoje é um conhecimento aberto do mundo oculto.” E completa com: “
A nova filosofia oculta é anti-humanista, tendo como método a revelação do não-humano como um limite para o pensamento…”

ABSTRAÇÃO E ARTE

Ele começa discutindo o que é o termo “black” em “black metal”, para dar conta de como “negro” é um adjetivo amplamente usado em nossa cultura para designar o que está além ou escondido dos seres humanos. Depois passa a refletir sobre filmes e livros de terror – com citações e análises muito interessantes de Stephen King, J. G. Ballard, H. P. Lovecraft, A Divina Comédia de Dante e as versões de Fausto de Goethe e Marlowe, o mangá Uzumaki de Junji Ito, entre outros – e como o desconhecido entra em nosso mundo e é representado, seja por demônios, por neblinas, por fluidos, por magia e etc para dar conta do que é o impensável.

O autor não fica preso a essas obras como se estivesse fazendo uma análise de cinema e literatura. Ele parte dos elementos que se apresentam nessas obras para realmente filosofar e tentar encontrar uma forma de nos fazer enxergar o que não é possível entendermos e que acaba traduzido em seres místicos, religiões obscuras e existências lovecraftianas nas artes.

Eugene Thacker tem uma escrita simples, fluida e bem objetiva. A todo momento ele recupera e resume conceitos já explorados para garantir que o leitor continue acompanhando seu pensamento. É realmente uma obra original. Se ler não é o problema, a dificuldade de In This Dust Of This Planet está em abstrair. O desconhecido, por definição, é algo que só podemos começar a imaginar (ou nem isso), mas como somos incapazes de entendê-lo – por ser impensável, oras – é preciso sempre ter em mente o nada, o zero absoluto, a escuridão mais densa… enfim, palavras para definir isso é nossa tentativa de dar sentido a algo que está além do sentido. Percebe como é preciso exercitar o pensamento abstrato para acompanhar o autor?

…esse confronto com o mundo inumano pode se manifestar como os vários demônios, fantasmas e criaturas maléficas que povoam o quadro mitológico e cosmológico de diferentes tradições religiosas. Podemos até acrescentar que esse confronto com o divino como algo terrível é também um tema central do romance gótico do século 18.

Kant, Kierkegaard, Aristóteles, Schopenhauer, Nietzsch, Agostinho e Aquino são filósofos que Thacker recupera para discutir suas teses. Me chamou a atenção como até mesmo filósofos ocultistas, como Aggripa, e teólogos, como Rudolf Otto, ele também evoca para dar a dimensão desse terror da filosofia. É realmente uma obra instrutiva e que te ajuda a filosofar com o que Thacker chega a chamar de não-filosofia. A ideia da obra é realmente mostrar, por meio da produção cultural humana, os limites do pensamento e colocar na equação o mundo-em-si-mesmo e o mundo-sem-nós, o que nos obriga a pensar na(s) existência(s) como coisas em si mesmas, não em termos humanos. Filosofar sobre isso e dessa forma acaba, de fato, levando a filosofia ao seu próprio limite.

Não é preciso ter um conhecimento amplo de filosofia clássica, contemporânea, niilista ou Idealismo Alemão. Também não precisa ser um fã de King, Lovecraft, filmes de terror e praticante de magia da mão esquerda para compreender In The Dust Of This Planet. Mas se tiver afinidade ou curiosidade com esses temas citados, o livro fica ainda mais delicioso e realmente joga muitas trevas na luz do que achávamos que sabíamos.

BURACO NEGRO E O POP

Como disse, o pensamento abstrato é importante para chegar ao coração do que Eugene Thacker quer nos dizer com Impensável. Ele não faz essa analogia no livro, mas foi a que criei para eu mesmo conseguir visualizar melhor a questão. Então, imagine um buraco negro no espaço: embora seja invisível, sabemos que ele existe, que ele suga toda a matéria e até a luz para dentro de si. É um enorme poço gravitacional e está lá, como uma existência que não sabemos bem o que representa, pois se passarmos por ele não sabemos o que há do outro lado. Simplesmente não sabemos. Não há evidências. Não sabemos ao certo nem quando os menores e nem quando os maiores (os supermassives) foram feitos. É algo que não tem moral e nem vontade, como o world-without-us de Thacker. Ele engole tudo, sem distinção, sem se importar, sem culpa ou remorso. Pode até ser que do outro lado exista algo maravilhoso, mas somente a ideia de ficar cara-a-cara com um buraco negro é aterrorizante. Sentimos medo, medo do que não sabemos o que é, para onde vai, o que é capaz de fazer conosco e com qualquer outra coisa. Um enigma. Além da escuridão de sua invisibilidade, o restante é impensável.

In The Dust Of This Planet foi lançado em 2011. Ganhou ainda mais reconhecimento quando Jay-Z apareceu ao lado de Beyoncé usando uma jaqueta com o nome do livro no clipe de “Run”. O título virou artigo de moda, desdobramento bem incomuns para obras filosóficas niilistas. Nic Pizzolato, roteirista de True Detective, também admitiu ter se influenciado pelo livro para a primeira temporada da série, o que só aumentou o alcance do texto. Há duas continuações, ambas de 2015, e que pretendo ler também.

O divino é sombrio porque não temos conceito para ele.

No momento, não faço ideia de como Thacker aborda o assunto dos limites do pensamento e da não-filosofia nas continuações da sua série Horror of Philosophy, mas acredito que siga na trilha de investigar abstratamente como seria um mundo em que nem tudo precisa de “uma razão para ser” (princípio básico de filosofia), embora ansiemos por dar significado a tudo, pois é terrível não sabermos, não é? Mas em um mundo como o nosso, em que os terrores políticos e principalmente climáticos parecem ameaçar continuamente a vida no planeta, acredito que há muito mais para pensarmos sobre o mundo-em-si-mesmo e o mundo-sem-nós, mesmo que para chegar ao mundo-sem-nós tenhamos que estar todos mortos e, por isso, sem ninguém para de fato pensar este mundo-sem-nós que, no final das contas, será um mundo sem pensamento algum.

Parece muito niilista para você? E é mesmo. Mas Thacker não pratica o niilismo do tipo “está tudo ferrado agora”. Mesmo que nada tenha sentido, mesmo que nada tenha a resposta que buscamos ou que achamos que precisamos, ele parece querer dizer que vale a pena viver. Afinal, até mesmo a falta de fé de que existam respostas é fé em alguma coisa.

IN THE DUST OF THIS PLANET
Eugene Thacker
Editora Zero Books
170 páginas

Greta Van Fleet recupera o som, mas não a atitude

Como tudo nesta era, as reações ao Greta Van Fleet são extremadas: ou se considera a banda um hino ou um lixo. Não faltou quem ressaltasse como os garotos de Frankenmuth recuperam o rock sessenta e setentista para uma geração que já não conhece o rock. Também não era preciso procurar muito para ouvir ou ler comentários que tiravam sarro da banda por serem jovens “imitando” o Led Zeppelin e encontrar quem parecia ter raiva do grupo, sentindo que estavam usurpando o som de seu sagrado Zeppelin.

Na primeira vez em que discuti o Greta Van Fleet foi em um podcast com meus colegas do Escuta Essa Review (confira abaixo) e mantive a posição de que esperaria até o segundo disco da banda para notar se ficariam presos à influência de Robert Plant, Jimmy Paige, John Bonham e John Paul Jones ou se teriam a garra de mostrar características próprias.

Bem, acho que o lançamento de ANTHEM OF THE PEACEFUL ARMY deixa bem claro que o Greta Van Fleet tem raízes mais vastas do que apenas o sempre bom e velho Led Zeppelin. Estão muito mais alinhados ao classic rock, de forma geral, do que devotados inteiramente ao Led. “Age of Man”, que abre o disco, tem muito mais teclado que guitarra. “Brave New World”, já quase no fim do LP, tem algo de progressivo. Ambas, aos meus ouvidos, derivam muito de Rush. O The Who, que sempre foi uma referência forte para os irmãos Josh, Jake e Sam Kiszka, também dá as caras aqui e ali. O Eder Albergoni, que também participou do podcast, disse que notou até semelhanças de bandas como Yes e Elton John.

As raízes são vastas, cobrem bastante território musical ao que parece, mas não são profundas. Embora tentem não fazer faixas previsíveis – e eu me surpreendi com certas mudanças de ritmo e variações dinâmicas muito bem feitas -, não há nada que seja unicamente Greta Van Fleet em Anthem Of The Peaceful Army. Mesmo o Led Zeppelin, a grande inspiração e comparação do grupo, cometeu algumas liberdades que eram bem únicas para a época. É só lembrar do clima criado com “Dazed and Confused”. Ou então daquele miolo maluco de “Whole Lotta Love” que, além dos sons esquisitos, tinha a brincadeira de fazer o som ir de um lado a outro do seu equipamento de estéreo. Sem falar em todas as músicas épicas, longas e/ou cheias de detours, como “Black Dog”.

Canções novas do GVF como “The Cold Wind”, “When The Curtain Falls” e “Lover, Leaver” são totalmente alinhadas à tradição do rock do Zeppelin. Riffs espertos e ágeis, bases com ótimos grooves e vocal alto, cheio de drive, são onipresentes na receita e não os afastam da comparação com o quarteto inglês. Contudo, tenho que dizer que, inegavelmente, são boas canções.

O maior pecado do Greta Van Fleet é (ou continua a) ser a mais nova banda para se comparar com Plant & Cia. Já tivemos o Wolfmother, o The Black Crowes e o Rival Sons nessa mesma berlinda. As três bandas são excelentes e possuem discografias sólidas. É bobagem deixar de curti-las só porque podem derivar de Zeppelin. Pode também ser bobagem descartar o GVF pelo mesmo motivo.

A cozinha formada pelo baixista Sam Kiszka e pelo baterista Danny Wagner só não é melhor porque não exploram mais o formato das canções. Mas o que se prestam a fazer é de muito bom gosto. Ainda não dá para sacar qual seria o estilo próprio de Jake Kiszka para as seis cordas, mas se o negócio é emular Jimmy Paige e Pete Townshend, ele o faz com grande sucesso. Até mesmo o timbre do instrumento está vintage o suficiente e às vezes até caipira o bastante para resgatar o passado. E o vocalista Josh Kiszka canta para impressionar ainda mais dessa vez. Não tem o charme e aquele senso de imprevisibilidade que muitas vezes Robert Plant tinha (em estúdio e ao vivo), um sinal de tempos em que as bandas são mais comportadas e embaladas desde cedo como um produto confiável.

Dá para a banda recuperar tudo do rock clássico: os timbres de Fender, os riffs, os teclados e, com Josh na parada, até os vocais incríveis de um Plant. Mas não recuperam a atitude rock’n’roll fundamental de Led Zeppelin, Black Sabbath, The Who, etc. Era essa atitude que determinava muito do que seria o som, e não o contrário.

O que fica de Anthem Of The Peaceful Army é uma execução muito boa, mas originalidade muito aquém. Para certo público, que já não consegue mais ouvir nada que não seja familiar, é ótimo que o Greta Van Fleet não invente muita história. A crítica da Pitchfork foi cruel com a banda e o disco, mas acertou em cheio ao dizer que hoje, na era dos streamings e algorítimos de indicação musical, quanto mais único é seu som, mais difícil relacioná-lo com algo que o público já ouve. O Greta está bem coberto nessa área, já que é associado a uma das maiores bandas que o planeta já viu e é só a nova ponta de uma longa tradição de bandas que soam como o Zeppelin para roqueiros notálgicos baterem palma ou para roqueiros preciosistas reclamarem.

MANDY e a arte do terror trash (com Nicolas Cage)

A primeira imagem de MANDY é uma epígrafe em que alguém pede para que seja enterrado com fones de ouvido e falantes de som, para que assim possa curtir o rock’n’roll mesmo na morte. Como um filme, mesmo que estrelado por Nicolas Cage, pode dar errado se já entramos nele com essa imagem de um cadáver roqueiro? E enquanto os créditos de abertura rolam, toca a melancólica “Starless”, da banda progressiva King Crimson. Uma escolha rara dessas não tem como ser mero acaso.

O filme é uma aula de como recuperar o terror trash dos anos 80 como arte. Pense em filmes como A Morte do Demônio, O Massacre da Serra Elétrica e Fome Animal. Filmes nichados como esses viraram cult misturando medo, gore, produção mambembe e humor involuntário. Mandy

Primeiro, as cores. Todas saturadíssimas. Às vezes, azul e vermelho se sobrepõem. Às vezes, temos alto contraste entre o vermelho e o negro da noite. Não é a toa que o protagonista se chama Red e Mandy, sua esposa, usa uma camiseta do Black Sabbath. A textura é marcante também. Cada frame tem uma granulação digital linda que não fica aparente o tempo todo. Mas quando ela se destaca, em especial em uma cena com a cara de sofrimento de Nicolas Cage, é preciosa.

A personagem Mandy, vivida por Andrea Riseborough, tem pouco tempo de tela, mas o suficiente para você ver que é uma baita atriz em um filme trash. O vilão Jeremiah Sand, interpretado pelo inglês Linus Roache, é um dos melhores em filmes de terror recentes. Um líder cultista que parece um misto entre Aleister Crowley e Charles Manson, com um acorde de Alice Cooper.

Sabe qual foi o maior erro de Jesus? Ele não ofereceu um sacrifício ao invés de se oferecer. E a cruz é um lembrete constante disso.

Já o suposto protagonista, Nicolas Cage, não deve ter nem 10 falas no filme todo e sua atuação canastrona cai como uma luva ao filme, se equilibrando perfeitamente naquela tênue linha entre o grotesco, o ruim e a pura arte de atuar em uma produção de baixo orçamento. Cage consegue calibrar sua atuação para ser intensa e exagerada como Mandy precisa. Estamos diante de um grande ator que fez muitos projetos ruins ou de um ator ruim que conseguiu colocar sua limitação a serviço da gloriosa estética trash?

O diretor ítalo-canadense Panos Cosmatos (que fez Beyond The Black Rainbow) foi genial ao conseguir Cage para o papel. Conhecido por não fazer filmes bons, entra de cabeça em Mandy. Se ele é bom ou não, não há porque discutir agora. O fato é que ele acerta em cheio. Seus gritos, choros, expressões de maníaco e de fúria são as melhores que uma homenagem dessas poderia produzir.

Mandy é tão trash quanto qualquer outro filme trash dos anos 80 foi. O que o diferencia, porém, é a tremenda verve com que o diretor Panos Cosmatos o dirige, respeitando os tropos do estilo (tem sangue espirrando na cara, tem machadada, tem motoqueiros demoníacos, tem um religiosismo estranho e tem até uma luta de motosserras) e com um controle imenso das imagens que produz. Mandy não é o filme que de tão ruim dá a volta e fica bom. É justamente o contrário: o trash elevado à categoria de arte.

– O que você vai caçar?
– Evangélicos.
– Não sabia que era temporada deles, cara.

A trilha sonora é do islandês Jónhann Jónhannsson, que faleceu este ano. O filme só estreou nos cinemas em setembro, mas em janeiro foi exibido em Sundance. É uma das últimas trilhas de Jóhannsson, que mistura guitarras e baixos de heavy metal aos sons de drone e sintetizadores.

Como todo filme cult, ou em processo de se tornar um cult, Mandy pode não cair no gosto de todo mundo. É bem violento e uma cena em especial é terrivelmente cruel. Contudo, nada gratuito como aquela famosa cena de estupro demoníaco em Evil Dead 2. Se seu olhar gosta de filmes com estilo e sua alma é atraída pela perversidade de quem mexe com o desconhecido e já está à beira da loucura, Mandy vai satisfazer sua sede de catarse de punição moralista.

Richard Ashcroft, SHT GHST e MØ

RICHARD ASHCROFT

Gosto muito de Richard Ashcroft. Ele é muito importante na minha formação musical, sobretudo por causa do The Verve, mas é importante notar que seu som em carreira solo é bem menos ambicioso e muito mais açucarado. As canções se baseiam em ciclos de quatro ou cinco acordes bem comuns. Contudo, o britânico sabe fazer boas melodias e faz parecer que fazer música é fácil. De certa forma, a julgar pelo que ele vem fazendo em carreira solo, é fácil mesmo. A música tem que ser bonita e isso basta.

NATURAL REBEL é uma coleção de canções bem redondas, bem acabadas, e sem nenhuma ambição artística. É Richard, um violão e uma banda de apoio que ele pode dispensar para tocar – com muita emoção, inclusive – suas músicas sozinho num palco.

Para quem o conheceu nos anos 90, suas músicas de agora podem soar às vezes como o do roqueiro que envelheceu e ficou mais acomodadão. De fato, um Noel Gallagher da vida é muito mais explorador e arrojado ainda hoje, mas por mais que pareça cafona ver Richard se derretendo, há momentos em Natural Rebel que tocam o ouvinte, como em “That’s How Strong” e em “A Man in Motion”. As orquestrações que ele planta em cada faixa ajudam a dar aquele empurrãozinho em nossa empatia por elas.

Mas é isso. A gente é manipulado emocionalmente por táticas bem conhecidas. Não há real rebeldia para ser vista ou sentida em Natural Rebel. A salvação em “Money Money” – essa sim mais roqueira – chega tarde demais. Ashcroft tem uma excelente voz e ouvido para melodias, mas virou um projeto suave e autoindulgente demais para nossos tempos turbulentos.

SHT GHST

O psicodelismo sempre tem um espaço aqui, né? Dessa vez indico o segundo disco do SHT GHST, o 2: PHOTOS OF BREAD. É um som viajante e poderoso, moderno, que te parece estranhamente familiar e alien ao mesmo tempo.

Apesar de os músicos se apresentarem todos vestidos em spandex branco, com aqueles óculos em espiral, a parte musical é realmente séria. São bons músicos que produzem muita coisa legal a partir de improvisos.

A banda é de Seattle e fez vários shows baseados em experimentações e longas jam sessions de rock e jazz com ênfase ora no ritmo, ora na viagem. Dizem que ninguém sabe quem são as pessoas que realmente estão por trás das máscaras. Em 2017 lançaram 1: The Creation, álbum com poucas faixas, mas todas bem longas, reproduzindo essa forma de tocar e criar que já demonstravam no palco. 2: Photos of Bread é a prova de que eles também conseguem fazer músicas mais planejadas, com começo, meio e fim.

O KEXP definiu assim o álbum: “2: Photos of Bread se constrói a partir da ambição deixada pelo álbum anterior, encontrando inspiração no oceano, galáxias distantes, e na condição humana da perspectiva de um ser urgente e curioso que tenta apreender o sentido disso tudo.” Se joga!

É triste, mas as músicas de em FOREVER NEVERLAND se sucedem e uma se parece com a outra e com alguma outra coisa que já ouvimos por aí. Triste porque a estreia dela foi bem interessante, parecia uma voz nova do pop que tinha uma abordagem artística que tentava ser mais pessoal – e um tantinho ambiciosa – mas ainda acessível.

A dinamarquesa MØ foi ficando cada vez mais comercial e hoje é mais uma artista do pop escandinavo tentando soar como… uma artista do pop escandinavo que precisa soar como uma estrela produzida para pistas de NY, LA ou Miami. A faixa final, “Purple Like The Summer Rain”, é a que parece evocar melhor o lado mais original dela.

A voz de MØ continua sendo uma atração por si própria. Ela não é do tipo que faz agudos ou sustain anormais. Nada disso. É o timbre dela que é bem gostoso mesmo. Um pouco rouco e altamente adaptativo, seja ao pop mais europeu, a uma batida mais próxima do Miami bass misturada com indie (como em “Blur”). Apesar de vir de terras frias, o álbum é bem solar, para o verão, para dançar. “I Want You” não me deixa mentir.

Tem “feat.” com Charli XCX, mas é só parte do jogo se associar a nomes relevantes para um determinado público. As outras participações resultam em música melhores, como a balada “Mercy” (com What So Not e Two Feet) e Red Wine (feat. Empress Of), com seu reggae e sopro oriental, parecido com algo que o Gorillaz poderia fazer anos atrás. “Sun In Our Eyes”, com Diplo, é a faixa comercial por excelência. Os feat. são importantes para ela. Embora ela sozinha seja interessante, foi com DJ Snake e Major Lazer que a dinamarquesa conseguiu reconhecimento mundial em “Lean On”.

No Mythologies To Follow foi um marco em 2014 e apresentou MØ como um promessa do indie pop escandinavo. Forever Neverland é apenas o seu segundo disco completo e, se não a coloca no centro nervoso do pop mundial e mainstream, certamente tenta se aproximar dele mantendo alguma coisa da verve da estreia.

Kurt Vile, Ministri e Morning Scales The Mountain

KURT VILE

Kurt Vile, ex-membro do The War On Drugs e que já está bem consolidado na carreira solo e indie, é extremamente autoconsciente no que faz. Gostei muito de seu álbum anterior (B’lieve I’m Going Down), que já mostrava um rock rural que tentava ser psicodélico a sua própria maneira, pra se diferenciar dos War On Drugs e dos Tame Impalas da vida.

BOTTLE IT IN, seu novo disco, é minimalista, lento e longo como um sexo triste, mas que estranhamente leva ao gozo. Não era nem 5h da manhã quando comecei a ouvi-lo pela primeira vez e tentava sair do estado de vigília para o estado de desperto enquanto um ônibus rodava pela estrada. Foi uma sensação boa, mas estranhamente boa.

“Loading Zones”, com aquele trabalho vistoso de cordas, é excelente para abrir Bottle It In. Mas o disco vai entrando numas vias mais minimalistas. O core da técnica que mistura rock, blues e country continua intacta na mão de Kurt Vile, mas ele faz isso de uma maneira mais minimalista, menos pop. Eu viajei no som, mas não é uma viagem feliz e cheia de cores. É mais como viajar olhando profundamente a estática da TV.

Com quase 1h20 e poucas músicas realmente diretas, muita gente deve desistir pelo meio do caminho. Mas é em canções exageradamente longas (para os padrões kurtvileanos) que pode ocorrer a hipnose por estática. É o caso de “Bassackwards” (dedilhado e sons tocados de trás para a frente), “Check Baby”, “Bottle It In” (que passa dos 10 minutos e tem uma sensação rítmica desconfortável, embora seja 4/4) e “Skinny Mini” (uma longa repetição de dois acordes, sempre os mesmos dois acordes, por 10 minutos).

Espero não ter afastado ninguém de Bottle It In, porque gostei mesmo do disco – embora tenha gostado mais como exercício de estilo do que como música para se divertir. Mas não desista dele tão rápido. Se você curte um Kurt Vile mais radiofônico, além de “Loading Zones” tem “Rollin With The Flow” que é show.

MINISTRI

O Eder Albergoni, que era parceiro lá do Escuta Essa Review, falou várias vezes em como a música pop italiana teve um passado vanguardista para se diferenciar do que era feito nos EUA e na Inglaterra (mercados muito maiores) mas acabou virando um pastiche do qual não se recuperou muito bem até hoje. Isso ficou cruamente evidente para mim ao ouvir FIDATEVI, novo álbum do power trio punk e hardcore Ministri.

Os italianos descem a mão para soarem bem fortes e roqueiros, mas os esquemas harmônicos e mais solares da música italiana continuam presentes, apenas estão envenenados por uma carga maior de distorção. Como o Ministri canta em italiano também, essas características do pop italiano e que hoje parece perdido “num túnel do tempo, e se parece com tudo que já foi feito” (como de fato me disse o amigo Eder), são bem evidentes.

Não é exatamente ruim, no entanto. Fidatevi é um disco roqueirão, mas que traz para o DNA italiano aquela vontade de soar maior que a vida que podemos ver em um Imagine Dragons, por exemplo, com a vantagem de que o Ministri é mais bem focado do que a banda americana. A música de abertura “La tre vite degli altri” e “Crateri” são bem nesse estilo mais modernão de rock que quer abraçar a vida. A segunda, “Fidatevi”, já te mostra que o Ministri bate um bolão no rock. E tem rock acessível, bem italianinho e tal? Tem sim, “Tienimi che ci perdiamo”.

A banda já teve um passado muito mais rebelde e com textos e subtextos muito mais políticos. Com a idade – e Fidatevi é um disco de rock jovem, mas que representa maturidade etária do Ministri -, o trio está mais voltado para o interior de si mesmo e mesmo preocupado com revolução. Esse lado mais soft é bem aparente e corresponde ao que é mais frustrante no disco. Ao ouvir, você identificará.

Bom, se não há muita vanguarda, pelo menos Fidatevi é recheado de rock encorpado e bem produzido, como o do Muse, cheio de melodias bonitas e refrãos poderosos.

MORNING SCALES THE MOUNTAIN

O selo brasileiro Sinewave colocou no mundo o disco MORNING SCALES THE MOUNTAIN, estreia da banda de mesmo nome. O grupo é uma colaboração entre o brasileiro André Ramiro (guitarra e baixo, membro da banda ruído/mm) e os americanos Tom Carter (guitarra) e John Allan Kennedy (bateria).

São apenas quatro músicas, bem longas e instrumentais. É uma mistura de drone e sintetizadores com dedilhados de guitarra e fills de bateria e percussão que lentamente vão construindo uma paisagem musical ao mesmo tempo mística e surreal. O pensamento musical do trio tem mais a ver com sensações do que com o formato canção. Quando uma nota da guitarra se destaca, ela faz você sentir sua presença. Quando a percussão ganha corpo, é para mexer com seus nervos e senso de expectativa.

Morning Scales The Mountain é cósmico e terreno ao mesmo tempo. Uma viagem astral ou de ácido dependendo do seu dia ou da sua preferência. Não é a música para tocar de fundo naquele churrasco, mas com certeza é o tipo de som que se ajusta muito bem entre os níveis consciente e inconsciente.

As quatro músicas são basicamente improvisos. Tom Carter já está muito bem acostumado a este tipo de approach na música, seja solo ou seja com os Charalambides. John Kennedy é parte da cena noise de Houston há algumas décadas e além da bateria tem longa experiência com música eletrônica. Já André Ramiro está totalmente aclimatado ao pós-rock, música lisérgica e experimental. Todas essas facetas aparecem na estreia do trio. É um discaço que pede para que você pegue seu instrumento e improvise com a banda.

APOSTASIA e o problema do dogma

Apostasia é o ato de renunciar a uma crença, a uma religião, à fé em alguma coisa. APOSTASIA (Apostasy, 2017) É também um dos filmes com temática religiosa mais interessantes que vi este ano, ao lado de First Reformed e Desobediência.

Apostasia é uma interessante reflexão sobre a religião e seu papel cultural determinante na vida de uma família. Nessa família, Ivanna (Siobhan Finneran), a mãe, é a guardiã dos valores tradicionais dos Testemunhas de Jeová. Segue as regras, por mais que elas a atinjam e pareçam injustas. A filha mais velha, Luisa (Sacha Parkinson), está na faculdade e tenta manter as aparências na comunidade religiosa e no âmbito familiar. Mas se permitiu observar o conjunto de regras de sua congregação de fora e pensar criticamente sobre elas, enxergando assim suas inconsistências.

Mas, ei, estamos falando de uma religião e, como qualquer dogma, trata seus ditames como indiscutíveis. A errada, assim, sempre será Luisa. E como nenhuma pessoa da Trindade cristã vai descer dos céus para mediar esse embate, Luisa é quem tem algo a perder. Ela não quer se desfazer da religião em que foi criada, mas sua vida, e até suas crenças mais profundas, já não se adaptam às regras. E aí há uma crítica muito válida: o problema não é acreditar na existência de Deus ou no Novo Mundo da liturgia dos Testemunhas de Jeová. São as regras ditadas e controladas pelos anciões (pastores) que constituem o verdeiro entrave. Algo ali não reflete o texto bíblico fundamental. E temos a irmã mais jovem, a doce Alex (Molly Wright).

Os Testemunhas de Jeová são proibidos pela religião de fazer transfusão de sangue – ou então, mais recentemente, são permitidas transfusões em quantidades e frequências muito menores do que as recomendadas pela medicina. Esse é um assunto delicado dentro e fora de seus salões, mas não faltam relatos de crentes que preferem morrer ou ver um familiar morrer do que sobreviver descumprindo uma regra básica de sua igreja. Alex é anêmica e sofreu uma transfusão em uma situação que ninguém podia controlar. Ela meio que se martiriza por isso. Ela tenta ser a Testemunha de Jeová exemplar, mas esse detalhe a deixa em dúvida de seu valor para Jeová.

Essa família será desfeita e as crenças serão colocadas sobre a mesa e em debate. Apostasia tenta ilustrar as contradições mais básicas dessa crença. Vale a pena se apegar a um dogma tão firmemente e deixar que isso mate uma filha e afaste a outra para sempre?

Embora seja o primeiro filme do diretor Daniel Kokotajlo, ele não trata suas personagens como estúpidas. Luisa, a filha que deixa de acreditar, ainda quer fazer parte, mas entende que se dobrar às regras não fará bem a ninguém, sobretudo se você é uma mulher. Alex, a filha mais nova, entende a crítica aberta que a irmã representa e tenta, mesmo assim, seguir sua religiosidade. Não há mocinhas e bandidas em Apostasia, mas Alex é a maior vítima da religião e onde se concentra tanto a crítica do filme no suposto obscurantismo dos Testemunhas de Jeová (quanto a regra que não permite tratamentos de saúde que poderiam salvar vidas) como também a prova de fé pela qual a mãe passará.

Sabe, essas coisas todas sobre sangue… na Bíblia, o Corpo Governante simplesmente inventa e depois muda sempre que querem. Mas as pessoas morrem.

Ivanna não vai abandonar a fé, o salão e os anciões. Não quer abandonar a filha mais velha também. Tenta prospectar uma interpretação mais flexível e “humana”, como ela mesmo pede, para as regras. Mas fundamentalistas são fundamentalistas. A fé, no fim, pode te salvar. Mas quem é que sabe se a história será mesmo como pregam os panfletos dos Testemunhas de Jeová?

Kokotajlo foi criado ele mesmo como Testemunha de Jeová, mas abandonou a igreja e mostra alívio com isso. Havia um controle de pensamento e de acesso à cultura que parece acachapante quando lhe é dado, em algum momento, a oportunidade de conhecer novas abordagens e escolher entre elas ou encará-las criticamente.

Apesar de confrontar a religião, Apostasia não é, em momento algum, panfletário. Mas ele deixa bem claro o seu ponto. A fé não precisa necessariamente ser descartada. Contudo, existe uma fronteira (constantemente embaçada por padres, pastores, anciões, etc) entre uma vida espiritual e as leis de uma instituição. Pregam que as “leis” da espiritualidade (a fé) se sobrepõem às regras da instituição, mas o que geralmente ocorre é o inverso: ou se obedece as regras da igreja ou então nossa fé o rejeitará. A apostasia, dessa forma, não toma a forma da recusa da fé em Jeová, no Armagedom, no Novo Mundo, e sim uma recusa da lei criada pelos homens.

Aliás, essa história tem foco sobre três mulheres. Dizer que são as leis dos homens que realmente valem nesse terreno não é só jeito de falar.

O ousado A Vegetariana

Fiquei sozinho na escuridão da cozinha, encarando a porta do quarto que engoliu minha esposa vestida de branco.

A VEGETARIANA, livro da sul-coreana Han Kang, ganhou uma nova edição no Brasil. Dessa vez pela Todavia, com tradução caprichada e direto da versão original. Um dos motivos alegados pela editora para acrescentar o livro ao seu catálogo é que poderia ser uma introdução à literatura coreana. Não tenho dúvidas de que para a maior parte dos brasileiros será mesmo a primeira vez que se deparam com a literatura de lá. Foi a minha primeira vez também.

Outro motivo é que A Vegetariana tem sido considerado um dos livros mais importantes da ficção contemporânea. Não tenho o cacife e a leitura suficiente para tal afirmação, mas posso dizer que o impacto é enorme. Han Kang escreve de forma clara e cria imagens fortes e vivas na cabeça do leitor. Enquanto lia, um filme noir rodava em minha mente, geralmente em preto e branco, mas com cores surgindo em momentos muito específicos quando um pedaço de carne é apresentado, ou quando um pulso é cortado, quando flores são desenhadas sobre corpos, quando uma mulher se refugia imóvel entre as árvores de um bosque.

Han Kang, a autora sul-coreana

A Vegetariana é contado em três atos e em quatro pontos de vista diferentes. Yeonghye, uma esposa comum, que não é mãe e casada com um cara tediosamente comum, deixa de comer carne. Se recusa até a prepará-la. Não é uma defesa ideológica aos direitos dos animais. Tampouco é saúde do corpo que interessa à personagem. A mudança ocorre de uma hora para outra, motivada, segundo ela, por sonhos.

O marido se incomoda. Primeiro acha que é uma moda de dieta vegetariana. Depois acha que é loucura mesmo. Convoca toda a família de Yonghye para ajudá-lo a dissuadir a mulher dessa bobagem de vegetarianismo. “Como podia ser tão teimosa e ignorar completamente a opinião de seu marido?”, ele pensa.

O primeiro ato é importantíssimo e o melhor do livro. Temos alguns flashes do que pode estar ocorrendo com a mulher. É a única porção da história em que nossa protagonista tem voz, mesmo que seu relato seja meio misterioso e não confiável. De resto, ela é toda sufocada pelas vozes, vontades e interpretações dos outros. Vamos ter machismo, o tradicionalismo cultural coreano que logo taxa o que ocorre com Yeonghye como rebelião e algo totalmente inaceitável.

Percebeu que a letargia proporcionada pelo sono apagava a dor e a humilhação. E que, nas manhãs seguintes, na mesa do café, continha o impulso de espetar os palitos nos próprios olhos ou de jogar a água quente da chaleira na cabeça. 

A grande sacada de Han Kang, a meu ver, é conseguir quebrar a história desse misterioso e repentino vegetarianismo em diferentes frentes temáticas, misturando-o com diversas outras questões que são tanto locais ali na Coréia e no Oriente (hábitos alimentares, familiares, apego às tradições) com outras muito universais (empatia e a falta dela, saúde mental, erotismo, amor, traição, casamento, taras, sexualidade, punição e perdão).

Embora dois terços do livro seja contado do ponto de vista de homens escrotos, a escritora entrega uma humanidade assustadora a eles. Mas não humanidade no sentido mais elevado, aquele em que entendemos as motivações e até achamos que tenham alguma razão. É, sobretudo, humanidade no sentido de sabermos como, lá no íntimo, certas pessoas podem ser incrivelmente perversas e nem se darem conta disso.

O filtro da literatura nos revela esse lado dos personagens ao nos colocar no ponto de vista deles. São todos vítimas de uma mudança repentina que não compreendem, são todos vítimas de suas próprias questões internas e problemas mal resolvidos. Mas são todos vítimas de acordo apenas com certo ponto de vista. São todos predadores também e fazem de Yeonghye a maior vítima.

Vendo-a aceitar sem resistência todo aquele processo, considerou-a um ser sagrado, nem humano nem animal, ou talvez um ser entre o vegetal, o animal e o humano, tudo ao mesmo tempo.

A história deriva do conto O Fruto da Minha Mulher, que Kang escreveu uma década antes de publicar A Vegetariana, sobre uma mulher que vai gradativamente se transformando em planta. O marido até a coloca em um vaso e passa a regá-la. Aspectos desse conto estão mantidos no romance, porém causas e significados são mais amplos no livro e cutucam feridas bem abertas. Da degradação de uma mulher, seja no conto ou seja no romance, fica bem evidente o grito de denúncia abafado da mulher.

A autora estudou Literatura na universidade e dá aulas de escrita criativa. A Vegetariana foi seu maior sucesso até agora. Originalmente publicado em 2007 e o primeiro a ser traduzido para o inglês (em 2015), venceu o Man Booker Prize em 2016, o que só deu mais força ao livro. O falatório não é hype de premiação apenas. Han Kang revela pessoas e contextos de forma ousada. A narrativa muda, conforme as três partes do livro se sucedem, e ampliam o espectro do significado da recusa da carne. De um conto meio misterioso e que parece que vai virar um terror mudamos para uma abordagem que mistura arte e sexo, e então chegamos às questões de saúde. Nunca deixa de ser interessante, sempre uma obsessão para vermos até onde é levada.

Um romance curto e poderoso. A verdadeira rebelião da vegetariana não é contra a proteína de origem animal. É contra as violências que a liberdade individual constantemente sofre.

A VEGETARIANA
Han Kang
Tradução: Jae Hyung Woo
Editora Todavia
176 páginas

Falando do clipe: LSD – “Thunderclouds”

Não sou fã da SIA e nem de Diplo, embora existam músicas boas no catálogo dos dois. Agora juntos e turbinados pelo Labrinth, que eu não conhecia, o LSD tem uma proposta comercial, colorida e pop.

“Thunderclouds” é uma música que já ficou famosa por figurar no comercial do Galaxy S9. É uma canção bem simples, mas extremamente cativante. O clipe que fizeram para ela é incrível e a melhor tradução do que o LSD pode ser como um powertrio do pop.

Diplo é o piloto de um carro estiloso e voador. A imagem do olho na porta já deixa claro que essa turma é da magia. SIA é uma artista que não gosta de dar as caras, então é representada por uma marionete. A bailarina Maddie Ziegler, que representa SIA em seus clipes desde tenra idade, é a jovem de olhos curiosos que tem muito a aprender. Labrinth é o magão do pedaço que vai tentar conduzir essa jovem, e a turma toda por tabela, pelas adversidades. Mas SIA só se completa e se apresenta ao mundo quando se fundo a Maddie, criando uma metalinguagem muito interessante não só para o significado do vídeo, mas para a carreira da cantora australiana também.

O canal Explica Pop fez uma ótima interpretação do clipe.

Maddie, após se fusionar com SIA, dança aquele contemporâneo bem orquestrado com sua atuação que sempre deixa o público de boca aberta. Labrinth se mostra um excelente cantor, segurando no peito as notas mais altas. E SIA usa aquele vocal range de uma forma bem característica, transformando até certas palavras mais em sons do que em palavras mesmo.

Clipes com muito CGI e tela azul geralmente soam artificiais e frios, mas “Thunderclouds” conseguiu superar as duas barreiras. Embora seja 80% computação gráfica, é lindo de ver em sua proporção superwide e dá pra comprar fácil essa ambientação fantástica. Já devo ter visto umas 10 vezes o clipe e ainda o acho uma das melhores coisas que o pop produziu em 2018.

Nick Cave e o show mais intenso da Terra

Desde que conheci Nick Cave, 15 anos atrás, esperava a oportunidade de vê-lo ao vivo. Quando voltou a fazer shows com a longa turnê de Push The Sky Away (2013), achei que o momento chegaria. Bom, demoraria mais 5 anos até ele voltar a São Paulo, cidade que ele não visitava há 25 anos. O show no Espaço das Américas de 14 de outubro de 2018, realização da Popload Gig, foi anunciado em 13 de abril, data do meu aniversário. O show de NICK CAVE AND THE BAD SEEDS foi o presente de 30 anos que dei a mim mesmo.

Introduziu o show com as climáticas “Jesus Alone” e “Magneto”, aproveitando a aura de ambas para se conectar com a plateia. Ele fica bem de frente com o público, se inclina para a frente e automaticamente as mãos da plateia se erguem. Algumas querem tocá-lo, outras irão sustentá-lo. Só mesmo vendo o show, e estando perto do palco, para ver como as fotos dessa nova turnê – quase todas com a mão do público na direção dele – não é mero acaso. Mais do que qualquer outro show que já tenha visto, Cave busca realmente o olho no olho com seu público.

Assim que entrou no palco, reparei em como são brilhantes os olhos de Nick Cave. Por mais fotos, vídeos e filmes que já tenha visto com o australiano, nunca tinha reparado na luz de seus olhos azuis. Isso automaticamente levou minha memória para a capa de seu primeiro LP, From Her To Eternity (1984). 

A terceira música foi “Higgs Boson Blues”, recebida com clamor pelo público de São Paulo. Uma música intensa e de dinâmica perfeita para um transe. Ao final dela, o cantor já estava derretendo em suor. Fiquei pensando como ele conseguiria levar a cabo o show inteiro, mas acho que ele saiu do palco mais vivo do que eu lá da plateia.

O método de dominação é arriscado. Ele se inclina para o público e segura na mão de alguém enquanto canta com a outra. Todo mundo o toca e sustenta seu tronco. Ele chega a ficar bem acima de você, olhando nos seus olhos. Em uma dessas vezes, ele olhou diretamente para mim e perguntou se eu conseguia ouvir seu batimento cardíaco (“Can you hear my heartbeat?”) como diz “Higgs Boson Blues”. E fez a gente completar o verso com “Pum Pum Pum”. Cantei junto, mas sincronizei o meu “Pum Pum Pum” dando leves tapinhas em seu peito nu, com três botões da camisa abertos. Ele apertou os olhos e riu espontaneamente, quebrando a seriedade hipnótica do momento. Mais tarde, durante a mesma música, olhando bem sério para mim, disse: “Hannah Montana”. Era parte da letra, mas foi engraçado. A tensão do momento, que ele sabe criar tão bem com sua expressão corporal, não combinava com o nome da estrela teen.

MCT Agentur GmbH/Pressefoto

Enquanto Nick ia de um lado para o outro criando laços íntimos com o público, os Bad Seeds seguiam tocando sempre com perfeição. As dinâmicas eram extremamente precisas. Sabiam exatamente como acompanhar o mestre e agiam sempre de acordo com a música. Para eles, qualquer coisa que Cave fizesse era recebido sem assombro nenhum. Mas é claro que era possível vê-los entregues aos sentimentos evocados pelas músicas em diversos momentos. Warren Ellis, principalmente, era o mais livre deles para agir como um punk ao lado de Nick, mas nunca abandonava seu posto.

Cave queria ouvir o público. Deu atenção quando pediram que tocasse “Foi Na Cruz” (“Não sabemos tocar essa. Cantem vocês!”). Quando o público gritou “Nick!”, só pra se fazer notar mesmo, ele respondeu com “What?” e procurou quem parecia querer dizer algo. Em seguida, apontou para uma garota loira e baixinha e a chamou para perto da grade. Olhou bem pra ela, como se fosse dizer algo sobre ela, e mandou: “Let me tell you ‘bout a girl”, puxando uma versão longa e matadora da tensa “From Her To Eternity”.

A sequência de canções “Higgs Boson Blues”, “Do You Love Me”, “From Her To Eternity”, “Loverman” e “Red Right Hand” fez todo mundo delirar e ficar bem cansado. Era muita intensidade, uma atrás da outra. A performance furiosa de Cave faz com que a plateia reaja com a mesma força. Quando chegou a hora de “The Ship Song”, “Into My Arms” e “Shoot Me Down”, todos, público e banda, puderam enfim descansar e colocar os batimentos cardíacos no lugar.

Em “The Weeping Song”, o cantor foi para o meio do público, sem seguranças e sem nada, confiando apenas em sua conexão com a galera. O público puxou um coro de #EleNão e Nick deixou seguir. Ofereceu o microfone a uma garota e ela reforçou o protesto de #EleNão. Daí, foi Cave quem disse “Ele Não”, dando força ao movimento no show. Antes de cantar a clássica “Into My Arms”, disse que a canção seria “uma oração para o Brasil”. Embora não tenha se referido a situação política verbalmente, dá para entender o que ele quis dizer.

Nick recebeu uma cópia em inglês d’O Evangelho Segundo Jesus Cristo, de José Saramago. Ele gostou, mas avisou que já tinha lido. Camisetas, CDs de bandas independentes, buquê de flores, uma edição de Frankstein foram outros mimos entregues a ele ao longo da apresentação. Aliás, tudo que ele ganhou foi arremessado ao fundo do palco. Seus microfones com frequência iam ao chão também. Quando ele se entrega à energia e selvageria das músicas, ele faz pra valer.

De tudo que veio do público, um momento foi marcante. O cantor assinou um vinil de Tender Prey (1988) durante a parte lenta de “Jubilee Street”. Com calma e graça, ele continuou cantando e se esticou todo para poder fazer essa gentileza que, merecidamente, recebeu aplausos. Ainda bem que o vinil chegou a ele no início da canção, pois a parte final dessa música é heavy metal puro. Nick Cave e os Bad Seeds realmente entram em erupção!

“Stagger Lee” teve a participação do público em cima do palco. Foi uma loucura, um empurra-empurra. Um marmanjo abraçou o australiano e quase não o soltou mais. Outro rapaz acabou passando a Cave a toalha que ele usou ao longo da noite para enxugar o suor. Nick a devolveu ao rapaz e ele prontamente beijou o tecido molhado.

A pesada “Jack The Ripper” foi o presente para o Brasil. O resto do setlist foi igual aos outros shows que a banda fez na América do Sul, mas “Jack” foi só de SP, pois foi composta ao piano, quando Nick morou no bairro Vila Madalena.

“Some people say it is just rock and roll. But it get you right down to your soul”. Os versos da música “Push The Sky Away” são reais. Mas é preciso ver o que Nick Cave e os Bad Seeds são capazes de fazer para ter a noção exata. Já fui a muitos shows em minha vida. Muitos deles eram de rock e de metal, mas nunca tinha visto uma apresentação de uma única banda que tivesse me feito ficar tão sem fôlego, melequento de suor e com dores no ombro (de tanto levantar as mãos) como nesse. Numa época em que muitos roqueiros novos não mostram nem metade da empolgação e do gás que Cave, aos 61, mostrou no palco, é importante valorizar quem ainda carrega o DNA mais puro do que uma banda de rock deve ser e fazer você sentir quando sobe ao palco.

Foi inesquecível. O show mais intenso em que já estive.

O último livro de Nick Cave, The Sick Bag Song, foi lançado na semana do show. Já li e escrevi sobre ele também.

Quanto há de Nick Cave em The Sick Bag Song?

Nick Cave pinta o cabelo de preto até parecer as asas de um corvo. O veículo que transporta os Bad Seeds fica parado na estrada enquanto um corpo é removido. Ao passar pelo local do acidente, Nick vê o corpo decapitado pela janela. Quando chega ao hotel e percebe que tem gente esperando para vê-lo assim que descer da van, chama os fãs de caçadores de autógrafos.

São coisas assim que ficamos sabendo sobre Nick Cave, o cantor australiano, ao ler THE SICK BAG SONG, livro escrito a partir de notas, letras, pensamentos e narrações que o compositor fez durante naqueles saquinhos de enjoo fornecidos pelas empresas aéreas. Foi tudo escrito ao longo de poucos dias na turnê do álbum Push The Sky Away (2013) em 2014, entre show no Canadá e nos Estados Unidos.

O livro chega ao Brasil pela editora Terreno Estranho, com tradução do jornalista e escritor Carlos Messias, no momento mais oportuno: na semana em que Nick Cave and The Bad Seeds se apresentam em São Paulo (cidade em que o cantor morou no início dos anos 90) mais de 25 anos depois da último show. A edição de luxo do livro tem capa dura azul, respeita a simplicidade do design da edição original e traz páginas coloridas com a reprodução fotográfica dos sacos de enjoo em que o músico esboçou suas ideias. Essa versão é limitada há 400 exemplares numerados. Uma versão em brochura mais em conta será lançada em breve também.

Num estúdio em Malibu, Johnny Cash se sentou e tocou uma canção.
Ele estava parcialmente cego e mal conseguia caminhar.
Eu estava lá.
Eu vi um homem doente pegar seu instrumento e ficar bem.
Com pesar, também vi o contrário. Palhetar, palhetar, palhetar.Eu vi mais de um homem, em bom estado, pegar seu instrumento
E se adoentar.

Em The Sick Bag Song, Cave fala de uma visita a Bryan Ferry e sua esposa em Denver e de como Bryan não consegue mais compor há 3 anos. Fala de como ele e a banda ficam doentes na turnê. Explica como os saquinhos de enjoo da United Airlines são plastificados e ruins de escrever por cima. Aparentemente, ele gosta de dragões também. Os chineses. E até encontra uma dragonesa em uma de suas paradas.

Nick é um erudito versado em mitologia grega. Antes de entrar no palco, a banda busca o nome das musas: Calíope, Euterpe, Erato, Clio, Melpômene, Polimnia, Terpsícore, Tália e Urânia. Cada uma tem uma função e é evocada para ajudar em um tipo específico de música. É interessante ver como ele categoriza suas próprias músicas: “From Here To Eternity” definitiva é uma música antiga. Será que ele considera “Stagger Lee” uma canção engraçada? “Jesus Alone” seria super trágica ou religiosa?

Não é um livro em que Nick Cave está preocupado em contar como é uma turnê dos Bad Seeds, revelando detalhes de backstage, histórias engraçadas ou trágicas, conversas ou a personalidade cada um ao seu redor. Não é um diário de turnê, mas, ao mesmo tempo, é sim. Veja por este lado: Nick escreve da forma mais pessoal que pode, mais para si mesmo do que para o leitor, o que se aproxima muito do que seria um diário real dele feito para ele mesmo.

Era o Dia do Canadá e eu era um único pulmão berrante
E insuficiente.
Minha dragonesa não tinha sobrevivido àquela noite.
Ela tinha morrido.
Eu sentei lá e escutei seu último e vagaroso suspiro
Borbulhar feito uma canção da ferida em seu interior.

O livro é como o documentário 20.000 Dias Na Terra, em que não se busca contar a história de Cave e da banda, não se busca explorar linearmente como se deu a carreira. É uma baita experiência, mas não no sentido mais tradicional do documentário, do tipo que tentaria te revelar coisas por meio de explorações de informações, biografias, e etc.

Até as surreais conversas de divulgação do próprio livro fazem parte de suas páginas. E nem perca tempo tentando adivinhar o que pode ter influenciado a escrita de Cave em The Sick Bag Song. Ele dá a resposta e nem que você fosse um observador muito arguto conseguiria reunir a miríade de obras e nomes em que Nick encontra alguma correlação ou inspiração.

Também não é um livro como A Morte de Bunny Munro. Não é um romance, embora Cave misture muita imaginação ao que escreve. Um fato real pode se transmutar em fantasia. A garota da minissaia está lá todas as vezes realmente ou é apenas devaneio? Embora seja um livro de prosa, ele faz questão de quebrar as frases em versos com frequência.


Mitologia borbulha em mim feito plástico derretido.

Alguns temas são recorrentes nos saquinhos de enjoo. O menino nos trilhos de trem que caiu do precipício. Decapitações. Fumar em escadas e depois de cada show ou enquanto espera por algo. A minissaia. A esposa que aparece e desaparece e que não atende a porra do telefone!

Não posso deixar passar que grandes influências musicais de Cave encontraram um jeito de fazer parte da história. Leonard Cohen está ali. Bob Dylan também. Johnny Cash aparece cedo também.

Não é um livro que se preste à explicações, mas acredito que como apenas fãs – novos ou antigos – vão ler The Sick Bag Song, diria que é fácil encontrar uma extensão de sua obra musical. Quanto de Nick Cave há no livro? Ora, muito. Suas obsessões, suas histórias, suas vivências, seus amores e os nomes que são importantes para ele são citados ao menos uma vez. Não vai ajudar a interpretar todo o seu extenso catálogo de letras e músicas, pois é um produto em que ele se manifesta de forma única como não tínhamos visto ainda.

THE SICK BAG SONG
Nick Cave
Tradução: Carlos Messias
Editora Terreno Estranho
180 páginas