Seu cão tem uma playlist?

O meu cão tem uma playlist. Eu amo tanto ele que fiz uma playlist. Começou como uma brincadeira, mas aos poucos fui curtindo a ideia e descobrindo músicas que não conhecia e lembrando de outras que podiam fazer parte do contexto.

Aliás, meu cão é o Moby. Ele foi resgatado com poucas semanas de vida por uma amiga. Ele, um cachorrinho preto, e seu irmão, um cachorrinho branco, foram abandonados em uma casa dentro de um condomínio rural. Havia um terceiro irmão, mas ele não resistiu ao período sem alimentação e água. A mãe era uma bonita labradora, que foi retirada dali pela família de filhos da puta que tiveram coragem de abandonar filhotes.

Essa amiga resgatou e os trouxe para a cidade, sob seus cuidados. Postou no Facebook e eu, num impulso que não é muito a minha cara, resolvi adotar um deles. Fui com minha namorada buscá-lo. Peguei o pretinho no colo. Ele foi logo lambendo minha cara e minha orelha. Peguei o branco: ou estava com sono, ou muito assustado, ou não foi com a minha cara. Peguei o cão preto, achando que ele era mais carinhoso. Como fui descobrir nas semanas seguintes, eu peguei o irmão endiabrado: não era que ele gostou de mim, é que ele é mais atiradão mesmo. Minha amiga acabou adotando de vez o irmão branquinho, chamado Fred.

Ele poderia ter se chamado Ozzy ou Vader e teria combinado bem com a personalidade dele, acreditem. Mas se chamou Moby, sugestão da minha namorada, que pensou no Moby, o artista techno e cantor, que é vegano e defensor da causa animal.

Essa playlist é baseada em músicas que falem de cães de algum modo. Pode ser um cão real, uma alusão, uma metáfora. Se falar de cão preto então, melhor ainda. Às vezes, só de falar da cor preta já é um bom motivo para estar na playlist. Consegui nomes bem conhecidos, como Led Zeppelin, Ozzy, Johnny Cash, Pink Floyd, Kate Bush, Os Mutantes, Zeca Baleiro, New Order, David Bowie e, claro, o próprio Moby. Há algumas coisas alternativas bem legais também, como um lado B da carreira solo de Bruce Dickinson, uma faixa cheia de sintetizador do Jack White, um rap com bossa do Rubel, um doom da Emma Ruth Rundle que entrou no apagar das luzes, e um progressivo dark do Steven Wilson que estava na lista desde o primeiro instante.

Tem ainda uma faixa dos cariocas do Estranhos Românticos, uma balada sentimental da texana Sarah Jarosz, e uma música linda, de apenas dois acordes, dos mexicanos do Vaya Futuro. Três nomes das Américas que talvez você não conheça, mas que vale a pena ouvir. O Behemoth, aquela banda extrema da Polônia, lançou uma faixa chamada “God = Dog” que estará no novo álbum, que sai em outubro. Infelizmente a música não está no Spotify ainda. Ficou faltando essa nessa primeira versão da playlist.

Moby hoje

É claro que a playlist é para mim, não para o cão. Moby não se importa com o que está tocando: pode ser death metal ou synthpop, um podcast ou o som que sai do meu próprio amp de guitarra. Mas é uma playlist especial, que começou como brincadeira e acabou se evocando sentimentos reais que tenho pelo meu cachorro.

A foto da capa, aliás, eu mesmo fiz, quando o garotão tinha alguns meses de vida. Não é nosso momento mais íntimo, mas acho que retrata bem o momento em que comecei a fazer essa seleção de músicas. Como não há como deixar de amar o Moby, essa playlist pode ir sofrendo alterações ao longo do tempo.

Agradecimentos especiais ao Eder Robertinho que deu algumas ideias bem merdas (como o hit da minha adolescência “Dogão é Mau”) e algumas que ainda bem que ele lembrou, como a faixa d’Os Mutantes e a “Seamus”, do Pink Floyd, que fica ótima para fechar a lista.

Moby meses após ser resgatado e adotado, na época em que a playlist começou a ser feita

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