Strange Angel, Ciência e Magia Sexual

Se você é um interessado em magia e não é um babaca, provavelmente tem algum interesse em ciência também. Jack Parsons, uma figuraça do século 20, teve um curioso papel na ciência de foguetes dos Estados Unidos e na Thelema, a religião ou filosofia oculta criada por Aleister Crowley e que tinha uma célula de seguidores em Los Angeles nas décadas de 30 e 40. De homem da ciência, com uma inabalável fé na possibilidade de colocar o homem na órbita da Terra, passou a ser um reconhecido thelemita e acabou inclusive associado ao criador da Cientologia.

É essa trajetória que o seriado STRANGE ANGEL, da CBS, busca retratar baseando-se no livro de mesmo nome que é a biografia de Parsons. O seriado é muito interessante para qualquer tipo de público adulto, mas para quem tem algum interesse ou conhecimento mesmo que superficial em magicka, Strange Angel adquire um paladar mais doce e curioso.

Contudo, não vá esperando que a série seja uma introdução didática em Thelema. O roteiro é bem construído o suficiente para colocar os temas da religião em pauta, frases bem conhecida d’O Livro da Lei, símbolos, fotos e termos que estudantes ou praticantes de magia notarão com prazer, mas nada panfletário e nenhum ritual ali é mostrado de forma redundante. Mark Heyman, o showrunner, tomou o cuidado de alicerçar tudo no drama de Jack Parsons com sua esposa, com seu amigo Richard e com a comunidade científica, com seu novo e impetuoso vizinho Ernst Donovan e com sua vontade de fazer um foguete funcionar e revolucionar a ciência.

Uma das características mais conhecidas da Thelema é a sua prática fundamentada em magia sexual, o que talvez leve a crer que o seriado apostaria muito em cenas quentes – o que não ocorre com a frequência que poderia se esperar. Mas devo dizer que apesar de raras, todas as cenas de rituais são belamente filmadas, sobretudo a que ajuda a fechar o 10º episódio. Mas não espere nada muito explícito.

Mas antes de seguir o caminho da magia, Parsons, vivido pelo ator Jack Reynor, é um aspirante a cientista e Strange Angel gasta bastante tempo com a ciência. Na década de 30, a ciência de foguetes era coisa de ficção e ninguém tinha ideia de como torná-la realidade. Parsons não era acadêmico o suficiente para merecer credibilidade. O seriado também nos faz pensar em quais eram as dificuldades de se construir um foguete e, pelo menos eu, não fazia ideia de que o tipo de combustível era tão determinante nessa história. Você se pega, no meio do seriado, entendendo qual é o desafio teórico e técnico e como a eclosão da Segunda Guerra ajuda a impulsionar Parsons e seu time de desenvolvedores.

AMOR SOB VONTADE

Vale lembrar que, alguns séculos atrás, ciência e magia eram campos de estudos sobrepostos que levavam o homem a conhecer e entender os mecanismos da natureza. A racionalização extrema ainda não havia separado as duas áreas. Hoje vivemos uma época em que diversos pesquisadores já entendem os limites da ciência e qual é o papel de saltos de fé que talvez uma teoria física não seja capaz de mover corações humanos, mas a ressignificação mitológica ou religiosa, sim. Strange Angel aproveita esse momento e também costura o fazer científico com a magia. Não chega a misturar as duas coisas, mas deixa implícito como cada uma alimenta o conhecimento humano a seu modo.

René Descartes relatou que, uma noite, teve uma visão de três fantasmas e isso mudou o seu jeito de pensar. Ele era um matemático francês que você provavelmente conheça das aulas de Filosofia e da máxima “Penso, logo existo”. Essa mudança acabou mudando a forma como a ciência era encarada. Ironicamente, o que começou com a interferência de seres sobrenaturais levou ao início de um mundo [e uma ciência] mais racional. E a crença no racionalismo, levada a cabo pelo projeto do Iluminismo, falhou, como sabemos. O avanço científico e da razão transformou nosso mundo, e nem sempre de maneiras boas. Ou melhor: se o propulsor a jato era o sonho de levar o homem à Lua, foi desenvolvido com a missão de criar mísseis e caças mais potentes, chegando a ser o tipo de propulsor de armas nucleares.

A divagação do parágrafo anterior não está, ainda, na primeira temporada da série que terminou na semana passada. Mas serve como uma contextualização. Também não quero dar a impressão de que a série prega a junção dos dois campos, porque não é isso o que ela faz. Os primeiros 10 episódios costuram, isso sim, na figura de Parsons, como a magia thelemita o ajudou a ver com mais clareza – ou o induziu a isso – o que precisava fazer e no que insistir para realizar seu sonho, sua vontade. O episódio final é soberbo em como justapõe uma conquista de Parsons e um ponto de mudança enorme para sua esposa, Susan, interpretada pela atriz Bella Heathcote.

Jack Parsons tem duas biografias. Sex and Rockets, de John Carter, e Strange Angel, de George Pendle. É nesta última que a série da CBS se baseia. Coisas que aconteceram no espaço de alguns anos na vida de Parsons são rearranjados para ocorrerem concomitantemente durante os episódios da série. O envolvimento do homem com o marxismo, por exemplo, não faz parte da série. Nomes também foram alterados. A esposa de Jack é Helen, não Susan. A irmã de Susan, que teria importância mais para a frente nessa trama, é Sara, mas na série mudaram para Patty. O Magus da loja thelemita Ágape chamava-se Wilfred, e no programa foi transformado em Alfred.

Ernst Donovan, o vizinho interpretado pelo talentoso Rupert Friend que recruta Jack para a religião de Crowley, nunca existiu na vida real, mas foi uma criação interessante para mexer as peças. Qualquer um que tenha lida o Lieber Null do magista Peter J. Carroll e que tenha prestado atenção ao que o autor diz sobre a risada de uma mago verá que Donovan foi muito bem concebido. Outra ponte que o personagem de Friend faz com a Thelema tem a ver com a disposição de não só não se importar com relações entre pessoas do mesmo sexo, mas saber que elas são necessárias também dentro do caminho mágico estabelecido por essa doutrina.

Elizabeth Lippman/CBS ©2018 CBS Interactive

AD ASTRA PER ASPERA

Strange Angel não é um sucesso de público, mas é uma série muito bem feita e que tratou com muito carinho seu primeiro arco, desenvolvendo muito bem seus personagens até um ponto de transformação e até mesmo a ciência de foguetes dá um passo além. Não sabemos onde vai o seriado, mas sabemos como termina a história de Parsons.

Seguindo a biografia, na próxima temporada, talvez vejamos como Jack e seus amigos cientistas fundam a ou as empresas de propulsores a jato e como ele se torna o líder da loja Ágape e como seus rituais de magia sexual, tão característicos da Thelema, vão ser sua ruína na própria empresa. Talvez L. Ron Hubbard, escritor de ficção-científica e criador da Cientologia, dê as caras e a relação com a esposa e a cunhada mude gradualmente.

Mark Heyman concebeu Strange Angel como uma história em 5 arcos, ou cinco temporadas. Mas talvez o show não chegue tão longe. Tomando alguns atalhos, consigo pensar em 4 ou até 3 temporadas como suficientes para chegar ao final da história de Parsons e, quem sabe, preparar um spin off que conecte à Cientologia.

Foi no fim da década de 1990 que as redes de TV americanas, principalmente as de cabo, perceberam que poderiam fazer boa televisão com histórias sofisticadas. Família Soprano foi a grande revelação. De lá para cá, várias embarcaram nessa. A CBS All Access, sua divisão de streaming, começou com dois seriados novos, The Good Fight e Star Trek: Discovery, mas ambos derivados de ideias já conhecidas. Strange Angel, originalmente na AMC, é a primeira série totalmente original do canal. Jordan Peele [diretor de Corra], inclusive, está ressuscitando The Twilight Zone (Além da Imaginação) para a rede. Strange Angel é a tentativa do canal de ter o seu grande e reconhecido conteúdo original.

Eu gostei bastante da primeira temporada e vou fazer esse ritual do Rupert Friend aí para garantir que a CBS renove para a segunda temporada. 🙂

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