“Múltipla Escolha” é vestibular em estado de arte

E se o vestibular fosse uma arte literária travestida de exame de admissão?

Mesmo eu tendo adquirido e lido os quatro livros do escritor Alejandro Zambra já publicados no Brasil, os algorítimos que oferecem novas leituras para mim na Amazon parecem ter esquecido quais foram minhas compras anteriores e deixaram MÚLTIPLA ESCOLHA de fora do meu radar. O livro saiu em 2017, mas só há poucas semanas descobri que já tinha sido convertido para o português.

Entre os vários motivos que tenho para ler, um deles é encontrar novas formas de narração. Isso vai muito além daquelas fórmulas narrativas, como o clássico Começo-Meio-e-Fim, a (desgastada, mas ainda fascinante) Jornada do Herói, ou o Ciclo dos Oito Pontos que dão os parâmetros para o desenvolvimento de seu personagem. Essas fórmulas ditam mais o storytelling. No entanto, há um nível de planejamento de escrita mais substancial que tem a ver com a forma: como estruturar sua história de uma forma que nunca foi feita antes?

Zambra se baseia no Exame de Aptidão do Chile (o vestibular de lá) para emoldurar Múltipla Escolha e, em pouco mais de 100 páginas, faz seu livro mais recente. A partir de enunciados e respostas de múltipla escolha, ele constrói uma obra verdadeiramente literária que aos poucos vai ensinando seu leitor como encará-la. Quando você dá por você, percebe que a linguagem poética estava ali desde o começo. Logo, ele está construindo argumentos, como chamamos na área de roteiros, ou então microcontos. E em vários desses casos convida o leitor, por meio das múltiplas escolhas, a participar da construção desses argumentos narrativos.

É um exercício para o chileno e é instigante para seu leitor. Às vezes, temos certeza do que responder. Outras vezes, a coisa é dúbia. Às vezes ficamos sem saída. No final do livro, ele integra a este “vestibular literário” o formato conto, e então as múltiplas escolhas se convertem em um exercício ora cívico, ora irônico de interpretação. Contudo, Múltipla Escolha tem um tema comum a tudo o que apresenta, tem um porquê de ser, tem as marcas que o autor já colocou em suas obras passadas, tem crítica social e sim, o fantasma de Pinochet ainda assombra.

Certas passagens são de cortar o coração, ou não, dependendo da forma como fizer mais sentido para o leitor arranjar os fatos, ou as palavras. É um jogo, e sei que há por aí muitos “puristas” que talvez não enxerguem a validade desse tipo de construção, mas o que o livro faz é literário do começo ao fim. Tudo se resolve na palavra – ou nas sentenças -, na consciência que temos sobre aquilo que o autor nos entrega e sobre como queremos preservar, subverter ou simplesmente, por ignorância ou por ironia, agir cinicamente frente às situações apresentadas.

27) Um Filho

  1. Você sonha que perde um filho.
  2. Acorda.
  3. Chora.
  4. Perde um filho.
  5. Chora.
  • A) 1 – 2 – 3 – 4 – 5
  • B) 1 – 2 – 3 – 5 – 4
  • C) 2 – 3 – 4 – 5 – 1
  • D) 3 – 4 – 5 – 1 – 2
  • E) 4 – 5 – 1 – 2 – 3

Quando decidi ler Alejandro Zambra, comprei logo os três livros que ele tinha lançado até então e que tinham sido publicados no Brasil pela finada (e caprichosa) Cosac Naify. Acho que nunca tinha arriscado tanto. Sabia do reconhecimento do autor chileno e outro chileno, Roberto Bolaño, já era meu escritor favorito. Além disso, muita gente boa havia recomendado Zambra. Sabia quase nada sobre a trama de seus três livros, mas comprei mesmo assim, pois sou daqueles que não lê literatura de ficção exatamente pela história que é contada, mas pela “realização da palavra” que o autor propõe/almeja/consegue/conquista.

Assim, li pela ordem: Bonsai, A Vida Privada das Árvores e Formas de Voltar Para Casa. Fiquei fascinado pela forma como Zambra se mostrava um autor contemporâneo, mas ciente do passado, e que não precisa de muitos artifícios que não seja a escrita para conquistar o leitor. Suas tramas são profundamente humanas e isso basta. Geralmente, retrata pessoas que estão num espectro social que chamaríamos de classe média baixa, e a precisão como faz isso é tamanha que, tenho certeza, qualquer brasileiro se reconheceria nas agruras chilenas, assim como um estadunidense de Nova Jérsei ou Ohio.

Meses depois de enfim ficar em dia com a produção de Zambra, seu quarto livro Meus Documentos, de contos, foi publicado no Brasil e o li assim que ficou disponível na prateleira virtual da Amazon. Só posso dizer que Zambra é tão bom em suas histórias curtas quanto nos romances mais longos. Aliás, algo que facilitou minha leitura de Zambra é que nenhum de seus livros é excessivamente longo. Bonsai é pouco maior que um conto. Os outros livros têm por volta de 200 páginas ou menos. A profundidade é grande. A melancolia, idem. As mais de 600 páginas que já li de um Jonathan Franzen – em sua tentativa de fazer o grande romance americano – não me comoveram como os livros e contos do Zambra, histórias que perto dos tijolões do colega norte-americano, parecem estreitos como o mapa do Chile.

(Justiça seja feita: apesar de passar centenas de páginas curtindo Franzen, sem muitos arroubos sentimentais reais, eu chorei nas duas últimas linhas de Liberdade).

…vivemos no país da espera, vivemos esperando algo, o Chile é uma enorme sala de espera e vamos morrer esperando o nosso número.

Ser sucinto e preciso, sabendo salpicar a trama e suas entrelinhas de diversos assuntos, abrindo verdadeiros portais dimensionais para temas e histórias que não estão ali, mas certamente influenciam aquela narrativa, é uma marca de Zambra. Múltipla Escolha prova isso de diversas maneiras.

Melancólico, como Zambra sempre acaba sendo, com uma prosa que é fluida e nada empolada, e estruturada de uma maneira bastante original e que não foi escolhida à toa. Construir o livro usando o formato do Exame de Aptidão é uma sacada para falar do chileno, da educação chilena, das contradições do país – e da humanidade – e ainda passar pelo governo ditatorial que aplicava esse exame. “Os estudantes vão à universidade para estudar, não para pensar”, diz uma das frases mais contundentes de Múltipla Escolha.

O livro me lembra de algo: as palavras importam. E a escolha delas acaba ditando diferentes realidades.

Em um artigo de Carlos Schroeder sobre o lançamento do livro no Brasil, há alguns parágrafos do próprio autor explicando como se recusa a dizer que/se há poesia ou conto em seu Múltipla Escolha e dá algum contexto sobre ele.

MÚLTIPLA ESCOLHA
Alejandro Zamba
Tradução: Miguel Del Castilho
Editora Tusquets
109 páginas

Lucky se vai

“Quando eu era garoto e morava no Kentucky, eu tinha uma arma de pressão. Ela não atirava bem, então um dia saí para atirar em coisas, árvores, folhas… E havia um pássara num árvore cantando a plenos pulmões. E… eu apontei minha arma só para assustá-lo, puxei o gatilho… E o canto parou.

Foi o momento mais triste da minha vida. O silêncio que ficou no mundo foi arrasador.”

LUCKY é uma dessas pequenas preciosidades da vida. Falo do homem e do filme.

Quando se é velho, há como se sentir ainda mais velho? Se partirmos do princípio de que sempre dá para piorar, então sim, você chega à terceira idade e sua escalada continua, com os problemas que geralmente acompanham, surgem ou se agravam nessa fase da vida. Lucky, aos 90, segue sua rotina. Come no mesmo lugar. Bebe no mesmo balcão. Fala com as mesmas pessoas. Exerce os mesmos preconceitos. Joga os mesmos jogos. Faz os mesmos exercícios. E continuará a fumar o mesmo cigarro mesmo que isso o mate. Mas a realidade “é uma coisa”, como ele logo vai ficar consciente, como alguém que nunca parou para pensar no assunto.

Lucky, o filme, marca a primeira vez que o ator John Carroll Lynch senta-se atrás da câmera de cinema no cargo de direção. E é realmente um filme de atores, para atores, para idiossincrasias e reações. Um filme de encontros que, um após o outro, por mais mundanos que pareçam, acabam mudando Lucky. O filme é bem sutil e acho que nem Lucky, o homem, sabe que mudou, aparentemente, mas ele não é o mesmo ao final do filme.

Harry Dean Stanton interpreta Lucky, um personagem escrito especialmente para ele, seu físico e sua voz. Veste a carcaça de homem frágil, durão e simpático. É a performance derradeira de Stanton, que se foi deste mundo semanas antes da produção estrear.

Lucky é sensível e bastante parecido com o Uma História Real, o filme de David Lynch que acompanhou a viagem de 260 milhas de um senhor em um trator pelos EUA e as pessoas que encontrou pelo caminho. Aliás, o próprio David Lynch está em Lukcy, interpretando seu amigo Howard, um homem que acaba de perder seu jabuti e, como Lucky, fica de frente com a mortalidade de um modo muito particular.

No mundo do cinema há personagens que só chegam lá depois de salvar o mundo; há aqueles que precisam enfrentar seu nêmesis; outros precisam morrer e voltar do além para aprender algo. Lucky não. Confrontando a própria morte, o veterano de guerra encontra sua iluminação [ou entendimento] sem precisar abrir mão de seu ateísmo. Empatia é chave. O jabuti é chave. Assim, fica claro que Lucky, o homem, não busca redenção. E Lucky, o filme, não tenta forçar coisa alguma.

Gemini e o neo-noir

Gemini é um filme que pouca gente viu e que vi pouca gente falando. Eu mesmo assisti por esbarrar com ele pela internet, não por indicação de alguém.

Com Zoë Kravitz interpretando uma atriz de cinema [Heather] e Lola Kirke sua assistente pessoal, Jill, do tipo que cuida da agenda da estrela, lida com as questões difíceis de sua carreira e dá a cara a tapa no lugar da amiga/chefe. O filme é sobre a cultura da celebridade. A partir de um assassinato, parece que vai se transformar em um thriller policial, mas ocorre o oposto disso. É a própria amiga que tenta juntar as peças do quebra-cabeça para saber o que aconteceu, mas faz isso tudo de forma muito desastrada, o contrário do rigor metodológico e científico de um detetive de Los Angeles. Esse é o charme do filme: acompanhamos a personagem que se arrisca e, mesmo sem metodologia, é capaz de juntar as peças e intuir o que pode ter ocorrido na verdade.

É um filme de baixo orçamento, mas muito estiloso, seja na caracterização de seus personagens ou na iluminação. Lembra muito o cinema do americano Jim Jarmusch (principalmente em Os Limites do Controle] e do dinamarquês Nicolas Widing Refn [com Demônio de Neon ou Drive]. A L.A. construída pelo diretor e pelo diretor de fotografia é muito diferente daquela megalópole que acostumamos a ver na maioria dos filmes. Em Gemini, ela é muito mais [neo] noir e vazia, não chega a ser ameaçadora, mas você sente que há algum perigo lá fora.

Jill, se ela não se matou, quem a matou?

A música não é nada menos que incrível. Lenta e muito sensível à estética noir e colorida do filme, mas que valoriza os ambientes escuros, sem jogar luzes demais na cara dos personagens. Mistura batidas de lo-fi hip hop com música eletrônica minimalista, coloca sintetizadores pastosos e solos de sax para dar aquele gostinho de jazz que ajuda a dar a cara do mistério urbano que acompanhamos ao longo do filme. A trilha original é de Keegan DeWitt, um compositor que não conhecia até então. Ele faz trilhas de filmes desde 2005, mas até agora colaborou apenas com filmes menos chamativos. Não posso comentar sua obra toda e nem parte dela, mas o que fez em Gemini realmente é diferenciado. Quando sua música toca, L.A. instantaneamente vira um lugar de sonhos, aquela região da existência em que incerteza e suspense dão as mãos e te conduzem por lugares conhecidos, mas que se tornam suspeitos.

Keegan é do Oregon, estado natal do diretor do filme, Aaron Katz. Todos os cinco filmes de Katz tiveram trilhas assinadas pelo compositor. Outro filme bastante reconhecido do diretor, e rodado em Portland, Oregon, é Cold Weather. Fica aí a disca para conhecer o cineasta e o compositor.