APOSTASIA e o problema do dogma

Apostasia é o ato de renunciar a uma crença, a uma religião, à fé em alguma coisa. APOSTASIA (Apostasy, 2017) É também um dos filmes com temática religiosa mais interessantes que vi este ano, ao lado de First Reformed e Desobediência.

Apostasia é uma interessante reflexão sobre a religião e seu papel cultural determinante na vida de uma família. Nessa família, Ivanna (Siobhan Finneran), a mãe, é a guardiã dos valores tradicionais dos Testemunhas de Jeová. Segue as regras, por mais que elas a atinjam e pareçam injustas. A filha mais velha, Luisa (Sacha Parkinson), está na faculdade e tenta manter as aparências na comunidade religiosa e no âmbito familiar. Mas se permitiu observar o conjunto de regras de sua congregação de fora e pensar criticamente sobre elas, enxergando assim suas inconsistências.

Mas, ei, estamos falando de uma religião e, como qualquer dogma, trata seus ditames como indiscutíveis. A errada, assim, sempre será Luisa. E como nenhuma pessoa da Trindade cristã vai descer dos céus para mediar esse embate, Luisa é quem tem algo a perder. Ela não quer se desfazer da religião em que foi criada, mas sua vida, e até suas crenças mais profundas, já não se adaptam às regras. E aí há uma crítica muito válida: o problema não é acreditar na existência de Deus ou no Novo Mundo da liturgia dos Testemunhas de Jeová. São as regras ditadas e controladas pelos anciões (pastores) que constituem o verdeiro entrave. Algo ali não reflete o texto bíblico fundamental. E temos a irmã mais jovem, a doce Alex (Molly Wright).

Os Testemunhas de Jeová são proibidos pela religião de fazer transfusão de sangue – ou então, mais recentemente, são permitidas transfusões em quantidades e frequências muito menores do que as recomendadas pela medicina. Esse é um assunto delicado dentro e fora de seus salões, mas não faltam relatos de crentes que preferem morrer ou ver um familiar morrer do que sobreviver descumprindo uma regra básica de sua igreja. Alex é anêmica e sofreu uma transfusão em uma situação que ninguém podia controlar. Ela meio que se martiriza por isso. Ela tenta ser a Testemunha de Jeová exemplar, mas esse detalhe a deixa em dúvida de seu valor para Jeová.

Essa família será desfeita e as crenças serão colocadas sobre a mesa e em debate. Apostasia tenta ilustrar as contradições mais básicas dessa crença. Vale a pena se apegar a um dogma tão firmemente e deixar que isso mate uma filha e afaste a outra para sempre?

Embora seja o primeiro filme do diretor Daniel Kokotajlo, ele não trata suas personagens como estúpidas. Luisa, a filha que deixa de acreditar, ainda quer fazer parte, mas entende que se dobrar às regras não fará bem a ninguém, sobretudo se você é uma mulher. Alex, a filha mais nova, entende a crítica aberta que a irmã representa e tenta, mesmo assim, seguir sua religiosidade. Não há mocinhas e bandidas em Apostasia, mas Alex é a maior vítima da religião e onde se concentra tanto a crítica do filme no suposto obscurantismo dos Testemunhas de Jeová (quanto a regra que não permite tratamentos de saúde que poderiam salvar vidas) como também a prova de fé pela qual a mãe passará.

Sabe, essas coisas todas sobre sangue… na Bíblia, o Corpo Governante simplesmente inventa e depois muda sempre que querem. Mas as pessoas morrem.

Ivanna não vai abandonar a fé, o salão e os anciões. Não quer abandonar a filha mais velha também. Tenta prospectar uma interpretação mais flexível e “humana”, como ela mesmo pede, para as regras. Mas fundamentalistas são fundamentalistas. A fé, no fim, pode te salvar. Mas quem é que sabe se a história será mesmo como pregam os panfletos dos Testemunhas de Jeová?

Kokotajlo foi criado ele mesmo como Testemunha de Jeová, mas abandonou a igreja e mostra alívio com isso. Havia um controle de pensamento e de acesso à cultura que parece acachapante quando lhe é dado, em algum momento, a oportunidade de conhecer novas abordagens e escolher entre elas ou encará-las criticamente.

Apesar de confrontar a religião, Apostasia não é, em momento algum, panfletário. Mas ele deixa bem claro o seu ponto. A fé não precisa necessariamente ser descartada. Contudo, existe uma fronteira (constantemente embaçada por padres, pastores, anciões, etc) entre uma vida espiritual e as leis de uma instituição. Pregam que as “leis” da espiritualidade (a fé) se sobrepõem às regras da instituição, mas o que geralmente ocorre é o inverso: ou se obedece as regras da igreja ou então nossa fé o rejeitará. A apostasia, dessa forma, não toma a forma da recusa da fé em Jeová, no Armagedom, no Novo Mundo, e sim uma recusa da lei criada pelos homens.

Aliás, essa história tem foco sobre três mulheres. Dizer que são as leis dos homens que realmente valem nesse terreno não é só jeito de falar.