Authority: do otimismo à corrupção dos heróis

THE AUTHORITY foi criado pelos britânicos Warren Ellis [Transmetropolitan, Trees] e Bryan Hitch [Stormwatch, JLA], mas quem leva a história até sua forma final são os escoceses Mark Millar [Kick-Ass, Kingsman] e Frank Quietly [We3All-Star Superman]. Trata-se de um supergrupo que anteriormente foi conhecido como Stormwatch e esteve sob comando da ONU. Reformado para uma nova era, agora sob o nome de Authority, o grupo age desde o princípio da HQ sem levar em conta a ONU, apenas usando-a para sua conveniência diplomática.

É um grupo de seis super-humanos cheios de habilidades especiais. Temos a elétrica Jenny Sparks, que é o espírito do século. Um xamã chamado Doutor, que possui magia que até ele mesmo desconhece a abrangência. Jack Hawksmoor. que estabelece uma íntima ligação com todas as cidades e construções urbanas. Swift, uma budista tibetana que possui asas e garras nos pés. A Engenheira, uma mulher dotada de uma mente brilhante e com 5 liros de nanomáquinas no lugar do sangue, fazendo dela a biomáquina definitiva. Os mais interessantes, no entanto, são Apolo e Meia-Noite. Apolo é o Superman: fortão, destemido e abastecido pela luz solar. Veloz, musculoso e capaz de dizimar um exército sozinho. Meia-Noite é o Batman: bom com artes marciais, furtivo e letal, sem poderes sobrenaturais. Apolo e Meia Noite são um casal.

Antes de ler Authority, talvez você tenha lido ou ouvido em algum lugar que trata-se de uma história em quadrinhos que não trata os super-heróis como estamos habituados a vê-los. É claro que após Watchmen, até mesmo as linhas mais mainstream da DC e da Marvel tiveram que mudar algumas coisas em suas histórias para que seus universos povoados por super-seres soasse mais tangíveis, mas nada que desconstruísse a figura do herói sobre-humano em nosso imaginário. Ao ler os três primeiros arcos de Authority, conduzidos pelos criadores Ellis e Hitch, fica a impressão de que trata-se apenas de uma HQ com heróis poderosíssimos que enfrentam seres de outras dimensões, terroristas gananciosos e até a força criadora e alienígena de Deus. O otimismo é tão grande (assim como a diversão em ler) que não deixa entrever como o Authority pode ser uma crítica ao modelo padrão de super-herói – e à política global.

É aí que entra Mark Millar. A partir do momento em que o escocês assume o roteiro, as coisas começam a ficar mais sombrias. Gradualmente vai aparecendo mais palavrões, o grupo passa a se importar ainda menos com a ONU e os super-humanos do grupo viram ícones da cultura pop e celebridades. Hawksmoor vai a programas de televisão defender as atitudes do grupo, os dois brutamontes Apolo e Meia Noite viram um reconhecido casal gay, o Doutor acaba viciado em drogas, a imagem deles aparece em outdoors e revistas, e por aí vai. E se antes eles protegiam a Terra de inimigos cósmicos e invasores interplanetários e interdimensionais, começam a se meter em situações terrenas, como um conflito no sudeste da Ásia. É quando as barreiras dos superpoderosos começam a ficar borradas. Até onde eles podem intervir? Quem permite que eles continuem a agir dessa forma e por que permitir? E quem pode pará-los – e por quê pará-los?

Até o final da HQ, que foi publicada na íntegra no Brasil pela Panini em 4 edições encadernadas, fica claro como seres bem intencionados e superpoderosos podem ser corrompidos e virar marionetes nas mãos de governos e de quem tem a grana que determina qual situação deve sofrer uma intervenção e em qual é melhor fazer vista grossa.

Se a introdução de Ellis não fosse tão otimista, para representar o ideal do Authority, toda a continuação de Millar talvez não representasse a mudança tão bem, mudança essa que começa com um fato que decapita a liderança do grupo e conduz à corrupção.

Se Watchmen lidava com um mundo polarizado e tentava construir sua trama em um mundo que poderia existir – com Nixon ainda na presidência, vitorioso da Guerra do Vietnã – e tratava seus personagens como párias do mundo que eles próprios ajudaram a moldar, Authority abraça uma fantasia maior e perde muito menos tempo com o contexto do planeta e com o peso psicológico de seus personagens. Ainda assim, consegue fazer sua crítica ao papel do G7 e de instituições mundiais que pretendem pairar acima dos interesses de países e grupos específicos, mas que, na verdade, são grupos recheados de interesses particulares e políticas que envolvem o que é melhor para seus membros.

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Outro dado interessante: diferente do herói que faz de Gotham o seu quintal, do herói que raramente combate os males fora de Metrópoles ou do defensor do bairro Queens, o Authority é realmente global: suas aventuras passam pela Rússia, Los Angeles, Londres, Paris, Tóquio, Polo Norte, Cidade do México, etc. Infelizmente, com exceção de um pedaço de terra na África, o hemisfério sul não é contemplado (vai ver temos problemas demais por aqui para que possamos nos ocupar com ameaças sobrenaturais ou vindas da sangria do tempo-espaço) nas páginas das 29 edições. A equipe é global, mas global até certo ponto de interesse.

Apesar de rodarem o mundo e não apenas os EUA, como é mais comum até mesmo para HQs criadas por britânicos, a voz das ruas ou das populações ou do homem comum não está em lugar nenhum dentre as 29 edições. O enfoque é dado apenas em supervilões, supermocinhos e superanti-heróis. O povo que é atacado ou protegido ou manipulado nessas páginas fica em quarto plano.

Authority também é uma mescla de fantasia super-heróica com ficção científica. Principalmente nos arcos escritos por Warren Ellis, há diversos diálogos que funcionam para dar peso ao lado sci-fi, explicando como certas geringonças ou conceitos usados funcionam. Embora fique claro que o autor se preocupou em fazer um universo crível, em que coisas existem com alguma base científica [ainda que especulativa], vários diálogos acabam ficando um pouco burocráticos e frios. Ellis faz isso no começo mais otimista da HQ e quando Mark Millar assume o roteiro há muito menos linhas para explicar como as coisas funcionam. Os diálogos ficam mais fluidos, com detalhes que aos poucos constroem ou mantêm viva a personalidade dos personagens.

Authority, como uma forma de continuação de Stormwatch (série toda escrita por Ellis e desenhada por Hitch), teve mais 3 volumes ou grandes arcos narrativos, contando com Brian Azzarelo, Ed Brubaker e Grant Morrison nos roteiros. Mark Millar ganhou o prêmio Eisner de Melhor Roteiro por Authority em 2001.

The Authority Meia-Noite