Outras Mentes e a consciência dos polvos

Antes que a vida abandonasse a imensidão dos oceanos e migrasse para o ambiente terreno, um ancestral comum dos vertebrados e de alguns invertebrados que conhecemos hoje desenvolveu o sistema nervoso. Um sistema que dava sentidos a esse animal e coordenava as diversas partes que seu corpo deveria ter. Com o tempo, essa rede de células neuronais formulou a inteligência e alguns animais tornaram-se seres sencientes e dotados de uma certa inteligência. É o caso de vários vertebrados, parentes mais próximos do homem. Algo próximo a uma consciência é muito, mas muito mais difícil de se observar em invertebrados, mas há um grupo específico, os cefalópodes, que desenvolveu grandes cérebros e comportamentos complexos. Entre eles está o polvo, objeto de estudo desde 2008 do filósofo australiano Peter Godfrey-Smith.

Em seu livro OUTRAS MENTES, Godfrey-Smith busca na evolução das espécies uma resposta de como e porquê a consciência teria ocorrido nos animais – sobretudo, nos humanos, mas também em outras espécies consideradas inteligentes, como os corvos, papagaios e polvos. É no invertebrado, de corpo mole e com oito braços que o filósofo da ciência fecha seu foco e utiliza como fio condutor para nos dar pistas de como a seleção natural, os infindáveis processos de adaptação e a evolução, como proposta por Charles Darwin, chegou até a consciência do eu e por que. Afinal, como os animais passaram a ter experiências subjetivas?

É um livro de ciência, sim. Especialmente o capítulo 2 pode parecer muito denso para quem não lembra muita coisa das aulas de biologia e química, mas a prosa de Godfrey-Smith não é nada empolada e ele toma o cuidado de pegar o leitor pela mão e conduzi-lo pelos recifes de corais da história dos animais da forma mais suave possível. Outras Mentes é um livro para qualquer interessado ler, não apenas para acadêmicos e biólogos.

“Quando você trabalha com peixes, eles não têm ideia de que estão num tanque, um lugar que não é natural. Com os polvos é totalmente diferente. Eles sabem que estão dentro de um lugar específico, e que você está fora. Todos os seus comportamentos são afetados por essa experiência do cativeiro.”

Os polvos se mostram criaturas fascinantes. Suas peles mudam de cor constantemente como se fossem grandes telas formadas por pixels (comparação feita pelo autor); seu sistema nervoso é formado por um grande cérebro na cabeça, mas está vastamente distribuído por seus tentáculos, o que levanta a hipótese de que haveria certa autonomia de cada um de seus membros; é provável que eles enxerguem não apenas com seus olhos muito desenvolvidos, mas a partir da informação de luz que atinge suas peles; possuem sangue azul-esverdeado porque usam moléculas de cobre para transportar oxigênio, não ferro; sabem reconhecer pessoas específicas; sabem reconhecer quando não estão sendo observados; polvos brincam; polvos aprendem a abrir potes; polvos se adaptam rapidamente a novos ambientes; enfim, é possível saber muita coisa sobre esses animais que eu, particularmente, não fazia ideia de que eram parte da breve vida de um cefalópode.

O autor tenta, sempre que possível, apresentar cada característica do animal com a explicação biológica, química, psicológica ou neurológica que leva os pesquisadores a acreditarem no porquê o polvo é assim ou se comporta de determinadas formas. “Os cefalópodes são uma ilha de complexidade mental no mar dos animais invertebrados. […] Eles são, provavelmente, o mais perto que chegaremos de um alienígena inteligente”, escreve o pesquisador australiano.

Ao mesmo tempo, os polvos são misteriosos. Como Peter Godfrey-Smith busca pistas sobre o desenvolvimento da consciência a partir dos polvos, muita coisa ainda é apenas suposição, deixando um grande mar de dúvidas entre as páginas de Outras Mentes. Isso não é um ponto fraco do livro: enquanto o filósofo vai desnudando diversas questões que já são conhecidas da ciência, o que permanece incerto vira motivo de especulação por parte do autor ou então ele apresenta diversas evidências do que poderia explicar tais mistérios. Cerca de 30% do livro são de notas para explicações adicionais ou para o autor dizer de onde tirou certas inferências e ideias que usa ao longo do livro. De outro modo, temos que lembrar que Godfrey-Smith é um filósofo e mais do que dar respostas assertivas sobre tudo, o papel da filosofia é fazer perguntas e aguçar a mente. Nesse aspecto, Outras Mentes é um combustível e tanto para a mente.

Peter é um filósofo de métodos darwinistas em sua busca, o que faz de Outras Mentes um livro muito mais amplo do que uma publicação sobre os polvos apenas. Em um dos capítulos, discute-se o envelhecimento e como a vida dos polvos é brevíssima. No entanto, o autor funde filosofia e bioquímica de uma forma interessantíssima para fazer o leitor entender o que significa, biologicamente, envelhecer e como esse processo é complexo. Para mim, foi um dos pontos mais esclarecedores sobre a vida – no geral da existência, não apenas dos cefalópodes – que já li.

No fim das contas, os polvos operam para ele como um grande exemplo do maravilhoso e misterioso percurso que a seleção natural tomou para desenvolver o sistema nervoso e suas funções e percepções. Talvez estudando os cefalópodes encontre pistas – biológicas e filosóficas – sobre como as experiências subjetivas vieram a se firmar na existência dos animais (lembrando que o homem também é um animal). De certa forma, Outras Mentes lembra bastante o que Oliver Sacks fez: o neurologista partiu de casos selecionados e desnudou a neurologia, o cérebro e os limites da percepção humana para um público maior e curioso. Se você faz parte desse público, mergulhe com Godfrey-Smith pelas infinitas veredas da evolução.

[Os polvos] Têm o sistema nervoso grande por causa do que seus corpos sem limitações possibilitaram, e porque precisam caçar enquanto são caçados; sua vida é curta porque a duração de sua vida se ajusta à sua vulnerabilidade. Essa combinação, inicialmente paradoxal, faz sentido.

Fun fact: leitores de H. P. Lovecraft sabem que o Cthulhu geralmente é retratado em ilustrações como um monstrengo cósmico com uma grande cabeça e diversos tentáculos. Ou seja, um cefalópode. Sempre achei que fosse a representação de um polvo, mas lendo Outras Mentes descobri que, na verdade, as ilustrações do grande Old One estão mais para um choco, um primo do polvo, muito menos estudado, mas também com um grande cérebro.

OUTRAS MENTES: O polvo e a origem da consciência
Peter Godfrey-Smith
Tradução: Paulo Geiger
Editora Todavia
280 páginas