Corrupted Data está no Spotify, mas podia estar na Bienal

O prêmio de disco mais tresloucado de 2018 vai para CORRUPTED DATA 蝶とクジラ, quinto disco de Cadu Tenório. O carioca fez um bundle de música, site, livro e estética glitch. O álbum é um produto da cibercultura e isso é o ponto chave para entender, aliás, que não é só música ou que o ouvinte não deveria parar ali dentro da playlist no Spotify.

Explorar apenas sua música é perder parte do todo. Ver só o site é deixar de lado o coração do projeto. O negócio é se jogar, explorar, brincar. Tem até um curious.cat ali no meio da baguncinha para você deixar sua pergunta ao artista.

É um projeto pretensioso. A parte musical tem 32 faixas, alternando entre músicas com um tempo aceitável e outras que vão dos 45 segundos aos 21 minutos. Acho que a última vez que ouvi um disco com 2h30 que não era ao vivo ou de banda de rock progressivo, foi em 2014, quando deadmau5 lançou While(1<2).

Ele abraça essa ideia de que estamos conectados, de que a personalidade pode ser fluida e posta em xeque, que deus existe ou não e como fica a questão de uma existência virtual, digital, de zeros e uns, nos wires, e sem presença corpórea? E como as falhas eletrônicas fazem parte desse mundo – do nosso mundo – há vários glitches nos textos e narrativas.

Tenório explora o isolamento e a dissolução de laços também, uma questão que ficou mais presente do que nunca com o papel das redes sociais. Por deixar tantas portas abertas e tão poucas respostas, Corrupted Data é instigante. Mr. Robot meets Twin Peaks com um Serial Experiments Lain twist.

Sintetizadores e ruídos justapostos, vozes, robôs, gravações que parecem vindas do além, caso haja um além-ciberespaço, resumem o álbum. É uma experiência de imersão que ouvi justamente enquanto mergulho na Trilogia do Sprawl de William Gibson. Imagine pegar uns textos, jogar no Google Tradutor e deixar a voz do sistema ler. Aí você pega essas gravações e junta tudo numa faixa, executando uma por cima da outra. Pois é… E há muito Google Tradutor, tanto que o serviço deve estar creditado em algum lugar da ficha técnica. (Não é legal que o Google Tradutor tenha se convertido em uma espécie de instrumento?)

Corrupted Data 蝶とクジラ lembra aquela discussão se “Revolution #9”, dos Beatles, é música ou não. Diria que o álbum tem música (eletrônica, ambiente, disruptiva, noir), mas é uma arte muito mais ampla no sentido auditivo do que uma obra de arte pode ser. Visualizo, aliás, Corrupted Data como uma instalação em uma Bienal sem problema algum.

É um bom álbum? Digamos que não é um disco para quem gosta de dar play em música no sentido mais tradicional da palavra, como já ficou claro. Quem procura novas formas de expressão vai enxergar os méritos apesar da participação do Google Tradutor que, passada a primeira hora, você saca que é importante para o storytelling mas que, auditivamente, meio que enche o saco. Quando ele cria harmonias, é um disco de ambiente muito legal.

Você pode não conhecer – ou reconhecer Cadu Tenório – mas ele já tem um reconhecimento no meio. Fez música com a Juçara Marçal, Márcio Bulk e Alice Caymmi, entre outros, e já deixava seus ouvintes hipnotizados ou a beira de um ataque de nervos com seu primeiro disco Riming Compilation, de 2016, em que já mostrava sobreposição de vozes, a música eletrônica para os subterrâneos e referências da cultura popular oriental.

Dê play no álbum e não deixe de visitar o site-livro do projeto.

Relendo Neuromancer, o clássico cyberpunk

Cyberpunk 2077 vem aí. Qualquer um que tenha jogado The Witcher sabe da capacidade da CD Projekt Red, o estúdio polonês de games, de contar uma boa história, madura e complexa, cativante e que ilustra quem somos ou podemos ser, seja o nosso melhor ou pior. E não basta que Cyberpunk 2077 seja um jogo baseado na estética cyberpunk. Ele assume o nome do subgênero da ficção-científica como seu título, e então dá-se apenas um ano como complemento. Isso mostra a ambição por trás do estúdio de tentar fazer do jogo um marco do gênero.

Como preparação para este jogo tão estiloso, me lancei à tarefa de ler os livros fundamentais do cyberpunk, a Trilogia do Sprawl do norte-americano William Gibson. Eu já havia lido a segunda tradução de NEUROMANCER antes mesmo de entrar na faculdade, uns 14 anos atrás. A tradução desse livro sempre foi algo muito debatida, pois não é tarefa fácil trazer para o português todos aqueles termos que Gibson usou para descrever seu mundo pós-humano onde o ciberespaço/matrix é uma realidade tão presente. Contudo, a editora Aleph embarcou em um projeto de trazer a trilogia com cara nova e totalmente padronizada para os brasileiros, e então lançou Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive em ótimas novas versões, com ótimas novas traduções.

Eu já reli Neuromancer nesta nova tradução de Fábio Fernandes. Foi engraçado perceber como eu me recordava muito bem de toda a primeira parte do livro em Chiba/Night City e da última parte da história, quando Case, nosso cowboy (hacker do ciberespaço) protagonista, acessa a matrix para confrontar uma inteligência artificial em uma praia de areia cinzenta. Todo o miolo era um breu em minha mente.

Night City era como uma experiência malsucedida de darwinismo social, projetada por um pesquisador entediado que não tirava o dedo do botão de fast-forward.

Quando Gibson escreveu Neuromancer e deu as bases literárias do cyberpunk, não tínhamos quase nada no cinema ou nos quadrinhos que nos ajudassem a imaginar o que ele estava descrevendo quando falava em decks, Hosaka, Ono-Sendais, trodos e plugs na base do crânio humano que servem como uma porta de entrada para informação. Obras que se basearam nos elementos e universo do livro, como o filme Matrix e os animes Ghost In The Shell e Serial Experiments Lain, viriam anos ou décadas após a publicação.

Mesmo hoje conseguindo enxergar muito melhor o que Gibson propõe em sua narrativa por já ter visto na telona, na telinha e nos quadrinhos várias interpretações visuais de suas ideias, há um bom punhado de passagens que são difíceis de visualizar com exatidão. Sabemos qual é o sentido do que Case, Molly, Armitage, Wintermute e Riviera estão fazendo, mas não exatamente o que. Isso, imagino, é outro desafio para a tradução.

Outra coisa que notei é que minha releitura foi muito mais fluida e divertida do que me lembrava da primeira vez. Quaisquer 20 minutos que me sobravam eram desculpa para ler mais um capítulo e ver para onde Case e sua entourage iriam. Do Japão para o Sprawl, ou BAMA, já que no futuro cyberpunk os EUA não existem mais, mas há uma megalópole que se estende de Boston à Atlanta. A Europa ainda existe, assim como o Brasil (que tem uma participação fundamental na história). E há Zion também, e o Freeside, um cidade na órbita da Terra.

“Ciberespaço. Uma alucinação consensual vivenciada por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças que estão aprendendo conceitos matemáticos… uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não espaço da mente, aglomerados e constelações de dados. Como luzes da cidade, se afastando…”

Matrix e Ghost In The Shell beberam muito, muito mesmo na fonte de Neuromancer e de William Gibson. É notável como diversos elementos do livro estão ou copiados mesmo, ou reinterpretados nessas duas obras. Com Cyberpunk 2077, o jogo, não deverá ser diferente. Em primeiro lugar, sabemos que o mapa do game é o mapa de Night City, uma megalópole na Califórnia, que vai de Los Angeles à San Diego. Enquanto eu lia, grifava descrições de lugares e construções sociais que poderão ser incorporadas ao jogo também.

Em segundo lugar, assim como George Lucas imaginava sociedades tecnologicamente mais avançadas em uma galáxia far, far away em Star Wars, mas partia do que conhecia na vira de 60 para 70 ao imaginar o funcionamento e o design de máquinas, a mesma limitação atinge em cheio Neuromancer. O livro não peca por isso e, na verdade, é uma delícia ler o puro retrofuturismo que cerca Case e todos os outros personagens. Será interessante acompanhar como Cyberpunk 2077 atualizará a nossa visão de futuro a partir do que já conhecemos hoje e que Gibson não era capaz de prever em 1983, quando o livro foi publicado. Como será a internet? Como será o ciberespaço e o papel da matrix na sociedade daqui 60 anos? E principalmente, em que estágio estarão as Inteligências Artificiais?

Autor William Gibson em 2012 (foto: Jason Redmond)

Uma história curiosa é que Gibson já tinha escrito um terço de Neuromancer quando Blade Runner estreou em 1982. O filme virou um clássico com o tempo, mas passou muito tempo considerado um filmezinho menor e sem importância. Nem comercialmente foi um sucesso. Mas o escritor gostou do que assistiu e viu boa parte do que tinha imaginado como sociedade cyberpunk retratada na Los Angeles neo-noir de Ridley Scott.

Antes de 1983, a estética cyberpunk e a cibercultura já vinham se desenvolvendo em muitos meios, da moda aos vídeo games, do cinema aos contos que o próprio Gibson publicara (como Queimando Cromo [primeira aparição da palavra ciberespaço] e Johnny Mnemonic [primeira aparição da razorgirl Molly]). Neuromancer foi o primeiro romance a trazer uma longa narrativa calcada no cyberpunk, criando de vez essa subdivisão dentro da ficção-científica. Não foi um sucesso comercial, mas venceu os três maiores prêmios do SciFi: o Hugo, o Nebula e o Philip K. Dick.

“Por milhares de anos os homens sonharam em pactos com demônios. Só que agora essas coisas são possíveis. E o que é que vocês ganham em troca? Qual seria o seu preço para ajudar essa coisa a se libertar e crescer?” 

Embora toda a cibercultura seja um dos traços mais distintos do cyberpunk, com seus eletrodos e Ono-Sendais, com a realidade virtual, holografia, IAs, os implantes cibernéticos e modificações corporais, o livro também tem em seu cerne uma sociedade que vive à base de drogas (lembra do soma que controlava as pessoas em Admirável Mundo Novo?), em péssimas condições de vida caso você não seja um ricaço, e se distanciando da utopia de que a tecnologia melhoraria a vida das pessoas. Que ela traz avanços e que facilita operações, com certeza, mas também traz novos dilemas e precariza parte de nossa vida.

Interessante é notar que, seja em Chiba ou no Sprawl ou em Freeside, a tecnologia é como é e não há como pensar a sociedade sem ela. Os personagens, então, precisam lidar com o mundo como está. Pode não ser uma crítica direta, mas é um retrato do high tech/low life que, como toda boa ficção (científica), deve nos levar a refletir.

Embora seja uma visão do futuro a partir dos anos 80, acredito que Neuromancer seja ainda uma ótima referência. As inquietações presentes em suas páginas ainda são válidas e nem mesmo adaptações de ideias da obra esgotaram o assunto. Mais do que isso, é divertido de ler e tem passagens realmente interessantes. Literariamente, é um malabarismo colocar em palavras coisas que não existiam ainda. Para mim, pelo menos, mesmo na segunda leitura, foi um exercício de imaginação.

Vou ler e escrever sobre Count Zero e Mona Lisa Overdrive, as continuações que pouca gente discute, e postarei aqui no Circle of Manias. Contudo, deverei alternar as leituras para não passar muito tempo dentro da prosa de um autor, de um estilo e de um tema. Também devo voltar a refletir sobre o Cyberpunk 2077 em algum momento. Se já tivemos Philip K. Dick produzindo uma gênese do cyberpunk e em 2018 a Netflix trouxe Altered Carbon, que também se encaixa no gênero, o jogo da CD Projekt Red promete ser mais um produto para marcar a linha do tempo da cibercultura.

NEUROMANCER
William Gibson
5ª Edição (2016)
Tradução: Fábio Fernandes
Editora Aleph
312 páginas