A Pé Ele Não Vai Longe, Os Irmãos Sisters e Sorry To Bother You

A PÉ ELE NÃO VAI LONGE

O novo filme do diretor Gus Van Sant é sobre John Callahan, um cartunista que sofreu um acidente nos anos 70 e ficou paraplégico. É uma história, em nível profundo, sobre enxergar quem você é, suas limitações e aceitar suas merdas, sem autopiedade e sem culpar quem não tem, de fato, culpa pelas péssimas escolhas que você fez. E A PÉ ELE NÃO VAI LONGE (Don’t Worry, He Won’t Get Far On Foot) cumpre muito bem esse papel.

Joaquin Phoenix é extremamente convincente como Callahan, e não é fácil imitar um tetraplégico, com movimentos limitados, a forma como usava os pulsos e não as mãos para segurar objetos (garrafas de uísque, canetas, etc), a forma como o corpo deve ficar em uma cadeira de rodas, etc. Jonah Hill, como Connie, o padrinho de Callahan na Alcoólicos Anônimos, está um gigante. Rooney Mara, como Annu, está a fofura sueca em carne e osso.

O filme é considerado uma comédia, mas não espere muitos risos no fim das contas. Ele é bem mais dramático do que qualquer outra coisa, já que o o personagem lida com questões bastante sérias, como o alcoolismo antes e após o acidente, a impossibilidade de um relacionamento amoroso e o abandono da mãe quando criança. Não é uma história para chorar, pois Van Sant não apela para sentimentalismo, mas é tocante em diversos momentos.

A Pé Ele Não Vai Longe estreou em Sundance em janeiro de 2018 e só agora, um ano depois, chegou aos cinemas brasileiros, com distribuição da Amazon. A produção se baseia no livro de memórias do cartunista e o próprio Callahan está creditado como um dos idealizadores da história que deu origem ao roteiro de Van Sant. Mas Callahan morreu em 2010, o que nos dá uma boa ideia do tempo em que o projeto estava sendo gestado. A princípio, Robin Williams (que faleceu em 2014) interpretaria o protagonista.

OS IRMÃOS SISTERS

OS IRMÃOS SISTERS (The Sisters Brothers) é um western que se passa durante a corrida do ouro na Califórnia. Apesar de ser um gênero e uma história tipicamente estadunidense, é uma produção francesa dirigida por Jacques Audiard, seu primeiro filme todo falado em inglês. O filme estreou no Festival de Veneza de 2018 e foi muito mal na bilheteria norte-americana. Uma pena, pois foi um dos filmes mais tocantes que vi ano passado.

O elenco está primoroso. A princípio, acompanhamos as aventuras dos irmãos Charlie (Joaquin Phoenix) e Eli (John C. Riley). Um é beberrão e impulsivo, outro é mais comedido e já pensa em um futuro diferente para si mesmo. Apesar das diferenças de planos e personalidade, ambos são igualmente mortais e trabalham como assassinos para um comodoro do Oregon. Descem a costa oeste dos EUA atrás do investigador John Morris (Jake Gyllenhaal) e do químico Hermann Warm (Riz Ahmed), que aparentemente desenvolveu uma nova técnica para procurar ouro e o comodoro quer o segredo a todo custo.

Os Irmãos Sisters é sobre manipulação política e ganância, mas também é um conto moral sobre empatia e o que realmente importa no final das contas em um ambiente inóspito em que a lei está longe de ser aplicada a todos. Embora nos identifiquemos com Eli e Charlie, eles são matadores de aluguel que vão enfrentar aranhas, ursos, outros capangas do comodoro e uma gangue que usa chapéu de pele de guaxinim. É um drama, mas faz valer seu lado western com variados obstáculos e até um lado filosófico.

Duas coisas são preciosas em Os Irmãos Sisters. Primeiro, poder ver Phoenix, Riley, Gyllehaal e Ahmed atuando juntos. Segundo, assim que nossos olhos se enchem e nosso coração se aquece com o clímax da história, logo em seguida Audiard nos dá o maior banho de água fria, só para nos fazer perceber o quanto aprendemos a gostar daquele quarteto.

SORRY TO BOTHER YOU

Da safra 2018 de Sundance temos também SORRY TO BOTHER YOU, primeiro longa-metragem do rapper, produtor, roteirista e ativista Boots Riley. É um filme norte-americano, de comédia e drama, com laivos de ficção-científica. Assim como o Infiltrado Na Klan, de Spike Lee, é um filme sobre o homem e a mulher negros dos EUA neste momento, com um ethos forte e que não tem medo de parecer panfletário para falar o que precisa.

Cassius Green (Lakeith Stanfield, perfeito em suas caras de dó) começa a trabalhar em uma empresa de telemarketing, mas vai mal. Tudo parece sem sentido para ele, até que recebe a dica de ligar para as pessoas usando sua voz de branco, sem dar a entender pelo telefone que é um afro-americano. É aí que sua carreira deslancha. Ele sabe que a grana federal que começa a entrar em sua conta vem manchada de sangue e durante o segundo e terceiro atos do filme, ele vai ver e sentir quão inescrupuloso o capitalismo pode ser.

O elenco é bem legal (completado por Tessa Thompson, Steven Yeun, Danny Glover e participação de Terry Crews) e a trilha sonora original foi feita pela Tune-Yards. Além disso, Boots Riley juntou o seu grupo de rap The Coup para gravar canções especialmente para o filme. Não é um ataque à administração Donald Trump, pois o roteiro foi concebido durante o governo Obama. Seja qual for o presidente, os mecanismos do capitalismo mais agressivo continuam sendo os mesmos e Sorry To Bother You teria o mesmo impacto hoje ou daqui três anos.

Quando a porção mais sci-fi da história começa a tomar corpo, o filme bambeia, quase perde o seu chão, mas o diretor segura firme as rédeas e consegue chegar a um final plenamente satisfatório, desde que o público abrace a piração, é claro. Ela não é gratuita e se se afasta do realismo, é porque às vezes o absurdo não só ajuda a entreter, mas ilustra melhor o que pode ser difícil colocar em palavras.

Homem-Aranha encontra sua melhor casa no Aranhaverso

Quem diria que um filme animado do Homem-Aranha seria o melhor filme do Homem-Aranha que já vimos na telona? Não só tem uma forte base nos quadrinhos como também se aproveita do que já ocorreu na trilogia Homem-Aranha dirigida por Sam Raimi na década passada. Peter Parker está lá, mas o verdadeiro amigo da vizinhança é o afrodescendente e latino-americano Miles Gonzalo Morales, o novo Homem-Aranha de um universo dos quadrinhos desde 2011 pelas mãos do roteirista Brian Michael Bendis.

Foram todas decisões acertadíssimas pela Sony, em parceria com a Marvel, para transformar HOMEM-ARANHA: NO ARANHAVERSO (Spiderman: Into The Spider-Verse) no filme de super-herói mais estiloso e interessante que o estúdio já fez.

Desde que o primeiro trailer saiu, já deixando claro que o jovem estudante Morales seria o protagonista, e não o fotógrafo Peter Parker, ficou a sensação de que estavam enfim fazendo um filme de personagem de quadrinhos que realmente tinha a vibe dos quadrinhos. Assistir essa animação é se reencontrar nas páginas. Não apenas elementos da linguagem dos quadrinhos estão na tela a todo momento – recordatórios, onomatopeias, divisão da tela/página em quadros – como há uma textura que se repete em diversos momentos para imitar aquelas bolinhas de tinta no papel, visíveis se você olhar uma página de gibi com um microscópio.

O fato de Homem-Aranha: no Aranhaverso ser uma animação ajuda a comprarmos tudo o que ele propõe. Como não há uma figura humana de carne e osso e cenários reais, nossa suspensão de crença automaticamente já se ajusta à todas as possibilidades que uma animação pode ter, que são muito menos críveis em live action.

O humor funciona muito bem e não é forçado em momento algum. Há drama também, principalmente da parte de Miles Morales e de Peter. Miles precisa lidar com uma nova escola mais elitizada que não fica mais em sua área no Brooklyn, precisa lidar com o fato de que seu pai é um policial que não gosta do Homem-Aranha, e lidar com várias outras transformações que são levadas à décima potência quando é picado por uma aranha radioativa.

Peter Parker, que vem de outra realidade, não está na melhor forma física e anda meio decepcionado com essa coisa de ser um herói em Nova York. Em sua realidade, não queria filhos (o que se torna mais um de seus dramas ao lidar com Miles) e se divorciou de Mary Jane. Quando os personagens chegam a base do Peter Parker da “realidade normal”, Miles logo se encanta pelos uniformes e alta tecnologia do lugar. Peter não liga pra nada disso, mas se comove com uma fotografia de casamento com Mary Jane. Isso não é evidenciado em palavras, são as imagens que contam esse detalhe. Em meio a tantos filmes com atores reais que afogam emoções, achei essa uma das cenas mais maduras dos filmes de super-heróis dos últimos anos.

Há, inclusive, mortes. E elas não são gratuitas. O fato de estarmos em um contexto em que é possível – graças a uma máquina do Rei do Crime – “puxar” elementos e pessoas de dimensões paralelas não vira desculpa para restabelecer pessoas importantes que perderam a vida na realidade de Miles, ou em qualquer outra.

Em 1999, quando Matrix estreou, tive a impressão de que estava vendo o filme mais estiloso da minha vida. Naquela época, era mesmo. Vinte anos depois, me vejo na sala de cinema vendo o Homem-Aranha se balançar pelo Brooklyn e pensando que talvez seja o filme com estética mais estilosa que já minhas retinas já presenciaram. A Imageworks, divisão de animação da Sony, fez um excelente trabalho ao misturar 3D e 2D, fugindo da estética padrão da Disney, da Pixar e da Dreamworks. Os cortes são rápidos, os ângulos de câmera são inteligentemente invertidos a todo momento, aproveitando o fato das Aranhas no filme (são 6, ao todo) conseguirem andar pelas paredes, darem mortais no ar e ficarem presas no teto.

O filme não tenta explorar o fato de Miles Morales ser negro, latino e filho de um policial numa escola elitizada nova-iorquina. Assim, questões raciais e sociais envolvendo sua origem evadem o vitimismo, mas também não são exploradas para chamar a atenção para algum fato mais relevante. Miles é o que é e, se não precisa enfrentar algum tipo de preconceito, também não tem que provar nada para ninguém que tenha a ver com a cor de sua pele ou etnia.

O hip-hop é a trilha sonora do começo ao fima de Homem-Aranha: No Aranhaverso. É uma das melhores trilhas para filme de super-heróis que já montaram, visto o quanto os sons escolhidos se conectam com o protagonista, com a área em que o protagonista vive, com a cultura jovem americana atual e com toda a modernidade do visual do filme, que não raro mistura algo de cyberpunk com psicodelia. Até mesmo a música tema, “Sunflower”, cantada por Post Malone e Swae Lee, é usada de forma inteligente dentro do filme.

Em menos de 20 anos, o cabeça de teia foi encarnado nas telas por três atores diferentes, em três fases distintas. Os dois primeiros filmes de Sam Raimi foram ótimos para o personagem e para o gênero cinema de super-herói. Desde que o Marvel Studios pegou emprestado para integrá-lo ao seu universo cinematográfico, vimos uma significativa melhora nas histórias de Peter Parker.

Contudo, seria a mais mirabolante das situações – tirando Peter Parker do centro e colocando o afrodescendente Miles Morales como protagonista, unindo realidades paralelas (sempre uma faca de dois gumes para roteiristas ansiosos) e fazendo uma animação fora da estética padrão – que o Homem-Aranha encontraria sua melhor casa no Aranhaverso.

Não vamos reduzir ROMA à fotografia, ok?

ROMA é como Alfonso Cuarón falou: um filme sobre uma empregada doméstica no México em 1971, em preto e branco e que não força plot twists para animar a plateia. Filmado digitalmente em uma câmera Alexa, com o formato de 65 milímetros, fazendo qualquer cena doméstica, qualquer fato cotidiano e tomada mais íntima ter a grandeza de um épico de guerra. É por aí que opera a sensibilidade artística de Cuarón, que fez o filme baseado em sua infância, em sua família, no mixteco (um dos dialetos do país) e no México que viu desabrochar a duras penas. Ele foi diretor, roteirista, diretor de fotografia e editor da obra fazendo deste o filme mais pessoal de sua carreira.

Muito já se falou da fotografia de Roma e ela precisa mesmo ser reconhecida. Perdi a conta de quantas cenas foram icônicas para mim. Teve a cena da “despedida” do médico na frente da casa com as crianças na calçada, a tomada dos praticantes de artes marciais, Cleo (Yalitza Aparicio) andando por um bairro sem calçadas, ruas ou esgotamento sanitário, a cena do incêndio, aquela no cinema, o plano sequência do parto, o abraço quente e que mistura alívio e desespero próximo do fim e que virou cartaz do filme. Que coisa linda tudo isso! A câmera se comporta como uma mera testemunha de tudo e sua movimentação, que parece meio canhestra a princípio, faz com que as perambulações dos personagens tenham que ser milimetricamente encenadas, e mesmo assim diretor e elenco fazem tudo soar natural.

Mas por favor não reduza Roma à sua fotografia. É como reduzir o clipe de “This Is America” às referências. O filme fala por si só, mesmo que pareça muito quieto. A tensão fica no ar, nas entrelinhas dos diálogos, em cada cômodo da casa onde a dinâmica familiar vai ruindo e depois se reconfigurando. Mais do que ver a tensão – e olha que Roma é um filme para não desgrudar os olhos – é preciso sentir como uma coisa leva a outra, como o drama de Cleo fica em segundo plano sufocado pelo que ocorre na casa da família. Se por mais de uma hora parece que os elementos da história soam meio aleatórios, eles vão fazer muito sentido e se unir na segunda metade.

É lindo de acompanhar.

Conforme assistia pela Netflix, diversas vezes me peguei pensando em filmes italianos dos anos 60, como os de Michelangelo Antonioni, mas principalmente os de Federico Felini. É claro que pode ter um pouco desse DNA em Cuarón, mas não soa como homenagem – o que é ótimo, nesse mundo onde parece que uma obra só consegue se fazer notar por certo público se tiver uma “referência” para pescar. Outra coisa que me peguei pensando constantemente é que era um dos melhores exemplos de Cinema que vi em 2018, do tipo que muita gente teria medo de fazer visto que não há mais um mercado de salas de cinema para produções como essa. É por isso que é tão importante que a Netflix esteja promovendo a obra e a colocando em mais de 100 países ao mesmo tempo.

Se eu tivesse que destacar uma cena, seria a dos praticantes de artes marciais, quando o mestre pede que todos juntem as mãos acima da cabeça, recolham uma das pernas formando um 4 e vejam se conseguem se equilibrar. A princípio parece uma cena longa demais e que seria cortada a seus momentos principais em um filme mais prático no roteiro e no trato com sua audiência. Mas Alfonso Cuarón quer dar tempo para sentirmos as coisas e tudo o que se revela nessa cena que aparentemente está sobrando. É importante que Cleo se veja desamparada por Fermín. Mas é mais importante ver do que ela foi capaz sozinha.

Uma vez, durante os anos de faculdade, um amigo (oi, César!) disse que gostava de deixar um dos filmes do Antonioni – acho que era o inglês Blow Up – Depois Daquele Beijo – passando na tevê, sem áudio, só para apreciar as imagens. Roma tem o mesmo poder, com a “vantagem” do formato 65 mm encher os olhos. Se Blow Up tem o jogo de tênis imaginário para coçar nossa mente, Roma tem uma poesia intrínseca e aponta para cima, para vermos mais um avião cruzando o céu do bairro, e pensarmos no que isso talvez queira nos dizer hoje.

A Casa que Jack Construiu com sangue, cinismo e arte

É bem conhecida entre os psicanalistas a história de que James Joyce, o escritor irlandês, escrevia para lidar com sua psicose. Seus livros são uma escalada de estilo e verborragia e experimentação, até chegar a Finnegans Wake e aquilo parecer um quadro de Jackson Pollock com frases e parágrafos. O argentino Ricardo Piglia até escreveu em Formas Breves que Joyce nunca admitiu que sua filha sofresse do mesmo mal, mas incentiva a garota a buscar na arte uma forma de lidar com a sua condição.

É bem verdade também que diversos autores – em qualquer uma das artes – gosta de compor obras que falem de si mesmos ou exponha seus pontos de vista, seus gostos, suas críticas à sociedade, etc. Lars von Trier, o cineasta dinamarquês, sempre deixou muito claro em seus filmes, nos melhores e nos piores, que é uma alma da contracultura e que tem o que dizer, e que nunca facilita com o que tem a dizer, até porque seus pontos de vista podem ser chocantes ou, se acertados, encenados em seus filmes de uma forma bastante espetaculosa, beirando o doentio.

Em A CASA QUE JACK CONSTRUIU (The House That Jack Built), Trier segue alguns dos pontos que já são comuns a sua filmografia: é a história de um serial killer americano na América do Norte, e assim aponta sua câmera inquisidora para os EUA para criticar aquela sociedade mais uma vez. O pessimismo, a falta de fé na bondade das pessoas, também está de volta, o que não é surpresa nenhuma. No entanto, sabemos que o diretor passou por alguns problemas mentais, como a depressão, e trabalhar foi uma forma de ele também lidar com o assunto. Dessa fase saíram pelo menos Melancolia e A Ninfomaníaca.

A Casa Que Jack Construiu é Lars von Trier se olhando no espelho e refletindo nele não um cineasta polêmico, mas um engenheiro serial killer com Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC); se Trier se refugiou na arte, como Joyce e tantos outros, para ajudar a lidar com o problema, Jack (Matt Dillon), o protagonista, assassina para criar arte e essa arte (do assassinato) o ajuda a ter prazer na vida. Essa relação que Trier estabelece entre ele próprio e seu matador fica claro por meio dos diálogos. Há até uma conversa especificamente para falar de como artistas com problemas mentais usam a arte para se manterem mais firmes no mundo.

Há aí também um cinismo bem proposital: o cineasta sabe que pelo menos parte do público vai entender que ele está se refletindo na tela e exagerando, e então vamos olhar de volta para ele com caras abissais de quem pode querer confundir o personagem com o autor.

Cinismo é parte importante da história desse filme também, tanto para mostrar como as pessoas (americanos) são burros ou manipuladores. A primeira vítima, interpretada por Uma Thurman, simplesmente trata o protagonista como um serial killer, sem saber que ele realmente o é. Mas o espectador já sabe disso, o que dá um ar de comédia à cena. Em outros momentos, Jack vai assumir que é um assassino só para que o absurdo da afirmação faça com que ele pareça tudo, menos o que ele realmente é.

Lars von Trier pode até parecer que quer emular um Tarantino aqui e ali, principalmente na forma como a tensão às vezes leva à comédia (de risos nervosos), mas sua assinatura é única. Pode não mostrar uma criança levando um tiro na cabeça, mas mostra seu corpo congelado e manipulado para permanecer entalhado e sorridente. Um corpo arrastado pelo asfalto deixa um rastro de sangue e um corpo sem face. E por aí vai. Trazer o que há de mais obscuro num psicopata serve tanto para retratar o engenheiro/artista Jack quanto para tecer comentários sociais e, por fim e principalmente, chocar.

Erudição é o ponto final para discutirmos aqui. O cineasta europeu vai da arquitetura às pinturas para comparar a arte de seu Jack com a arte ao longo dos séculos. O final é bastante surpreendente e não devo comentar nada aqui, apenas que ao longo do filme, dividido em Incidentes (que operam como capítulos, algo bem comum aos roteiros de Trier), Jack conversa com Verge (Bruno Ganz), que é Virgílio, provavelmente o mesmo Virgílio que guia Dante pelo Inferno na Divina Comédia. Se você sabe pelo menos como o Inferno é retratado no livro mais famoso de Dante Alighieri, ficará mais fácil entender onde Trier quer chegar com o ato final de seu filme.

Melancolia segue sendo seu melhor filme após Dogville. A Casa Que Jack Construiu é excelente em conseguir o que o diretor mais quer: público dividido, gente com nojo da humanidade, rostos retorcidos com a feiura daquilo que ele foi capaz de conceber como obra de arte e pessoas que vão olhar para o filme, ver o reflexo exagerado do diretor, e pensar que a mente que o concebeu deve ser tão doente quanto a do psicopata.

Os pênaltis de Bohemian Rhapsody

BOHEMIAN RHAPSODY está longe de ser uma biografia do Queen ou de Freddie Mercury, seu protagonista. Contudo, a trajetória do grupo inglês é tão interessante e suas músicas tão boas que é fácil sair do cinema deslumbrado. Afinal, o filme foi calculado para ter um roteiro que reduz a trajetória da banda a uma fórmula de ascensão, problematização da fama e dos relacionamentos pessoais, derrocada e enfim, redenção.
Apesar de parecer muito redondinho e inspirador, é preciso não cair nas armadilhas da sétima arte. Listei seis tópicos para discutir os pênaltis do filme, suas decisões narrativas e artísticas.

1. DOCUMENTÁRIO

Neste filme, ninguém canta nada, ninguém não toca nada – mas todos interpretam muito. Se já foi legal e emocionante para muita gente ver a dublagem, imagina um documentário! Em vários momentos eu fui tirado da imersão do cinema ao ver os atores e desejar ardentemente que fosse um vídeo de arquivo da banda original no lugar. Todos os atores que interpretaram Freddie Mercury (Rami Malek), Brian May (Gwilym Lee), Roger Taylor (Ben Hardy) e John Deacon (Joseph Mazzelo) estão ótimos, mas uma cena documental teria o poder de dobrar a emoção.

2. HÉTERO, BI OU GAY?

O filme suaviza tanto, mas tanto a homossexualidade de Freddie Mercury que fica parecendo que ele foi bissexual durante toda a vida. Na verdade, o filme deixa claro que ele era gay (e não havia se dado conta, quando até sua esposa já sabia), mas Bohemian Rhapsody força tanto a relação dele com Mary (Lucy Boynton) que muita gente saiu do cinema achando que o cantor realmente era bi, mesmo após a separação. E quem achou ruim as cenas de beijo gay, faça-me o favor de parar de ser preconceituoso e mimizento. Até nisso o filme suavizou. As únicas cenas em que o ator aparece de forma mais sexy ou exposto são as contracenadas com Lucy. Durante as festanças em que Freddie teria ficado com vários homens, como diz seu ex-empresário, não temos no filme nem festas e nem uma cena que ilustrar isso. Ou seja: o filme DIZ que tais eventos ocorreram, mas se acovarda na hora de usar imagens para contar essa parte da história.

3. POUT-POURRI

Bohemian Rhapsody é um grande amontoado de momentos da banda. Não acredito que fosse necessário contar a história de cada música de sucesso ou de cada álbum – e de fato o filme não segue esse caminho, mas passa rapidamente por cada fase do Queen, reduzindo demais diversos contextos. É um pout-pourri. O máximo da forçação de barra foi colocar a apresentação no primeiro Rock In Rio, que ocorreu em 1985, como se tivesse acontecido em algum ponto entre 1976 e 1979. Um grande sacrifício da cronologia histórica, servindo apenas como desculpa para falar da relação de Mercury com Mary. Pelo menos a histórica apresentação de “Love of My Life” (cantada por centenas de milhares no Brasil) foi valorizada.

4. CHAPA BRANCA

O filme tem aprovação de Brian May (guitarrista da banda) e Roger Taylor (baterista), que ganharam créditos como produtores do longa. Isso explica porque é um filme tão chapa branca, que coloca o empresário como vilão, em parte responsável pelos desvios de Freddie. De outra forma, todos os membros da banda são representados como caras legais, que nunca disseram uma palavra atravessada aos outros, que nunca causaram uma briga, que nunca tiveram grandes egos. O ególatra, o estrelinha, o problema é Freddie, o cara que morreu e que não está aqui para aprovar o material e contar sua versão dos fatos. Pelo menos não esconderam a origem iraniana da família do cantor, um detalhe biográfico que muita gente que foi ver o filme não fazia nem ideia.

5. BIOGRAFIA

Assistir a Bohemian Rhapsody acende a vontade de ler a biografia da banda para saber exatamente o que aconteceu e quando aconteceu. O filme realmente recupera a memória e a importância do Queen, mas não o faz com rigor. É bem generalista e toma as liberdades de sempre para contar sua história, ajustando os fatos numa ordem que sirva à ficcionalização. Portanto, não confie no filme cegamente. Busque mais fontes, pois opções não faltam: tem A Verdadeira História do Queen de Mark Blake, Freddie Mercury – A Biografia Definitiva de Lesley-Ann Jones e Queen nos Bastidores, de Peter Hince e Maria Elizabeth H. Neilson.

6. RADIO GAGA & UNDER PRESSURE

Difícil escolher o melhor momento, visto que cada um pode sentir e ter maior ou menor conexão com uma ou outra canção da banda. Mas diria que em termos de apresentação musical, o momento de “Radio Gaga” no Live Aid em 1985 foi o que mais me tocou (e ainda que estivesse muito bem filmado e interpretado por todos os atores, senti falta de cenas reais do show). A última cena de Freddie com seu pai, antes de ir ao Live Aid, também foi bem bonita. “Under Pressure” marcou presença apenas como música de fundo, mas bem que poderia ter ganho seu momento, afinal foi o segundo hit da banda que chegou ao topo da parada inglesa. Além disso, voltando ao primeiro item desta lista, um documentário sobre a banda não perderia a chance de mostrar a colaboração do Queen com David Bowie.

BlacKKKlansman é o retrato de uma nação

E se o primeiro negro da força policial de Colorado Springs, nos Estados Unidos de 1978, se infiltrasse na Ku Klux Klan, o mais notório grupo supremacista branco da América? A ideia é tão boa que poderia virar filme. E virou o ótimo INFILTRADO NA KLAN (BlacKKKlansman), do diretor Spike Lee. Mas é uma história real, baseada nas investigações de um detetive negro, Ron Stallworth, que escreveu um livro sobre o caso, mesmo após o chefe de seu departamento ter mandado destruir todos os documentos e provas de que a operação ocorreu.

Pois é, censura oficial ocorre mesmo em países liberais e com democracia sólida, afinal.

A trama é basicamente o seguinte: Stallworth (John David Washington) se candidata para um posto na polícia de Colorado Springs. O chefão do lugar está disposto a contratá-lo para mostrar o progressismo do departamento, não porque Ron lhe pareça qualificado para o trabalho. Ron sabe o mundo racista em que vive, mas não é politizado. Ele vê um anúncio da KKK no jornal local recrutando novos membros (apenas o primeiro dos absurdos dessa história) e resolve se candidatar. Quando resolvem conhecer o tal Stallworth pessoalmente, o detetive envia o parceiro Flip (Adam Driver) em seu lugar.

Assim se arquiteta o plano. Por telefone, Stallworth mantém contato com os membros da KKK até chegar a David Duke, o Grande Mago da organização baseado na Louisiana, que está usando cargos públicos como meio de permear sua ideologia na política e legislação estadunidense. Pessoalmente, Flip, descendente de judeus, enfrenta a escória da extrema direita em meio a tiros e discursos abertamente xenófobos, racistas e homicidas.

É sempre muito complicado quando um diretor faz de sua obra um panfleto. Ao invés da história conter os elementos que nos levam a reflexão, ele toma uma posição bem demarcada e advoga abertamente por uma “causa”. Spike Lee realmente conta uma boa história com BlacKKKlansman, mas ativista como é, faz questão de colocar várias cenas na história que servem muito mais para traçar um paralelo com os EUA da era Trump do que necessárias para contar a história do negro que se infiltrou no grupo dos gorros brancos.

Embora muita gente possa considerá-lo um filme menor por esse viés mais “partidário”, eu diria que é totalmente compreensível e que aumenta, como um microcosmo, a importância do filme. É uma delícia ver os supremacistas serem enganados daquela forma, mas é terrível ao mesmo tempo acompanharmos as cenas finais de BlacKKKlansman, com filmagens documentais de marchas supremacistas e atentados ocorridos nos últimos dois anos nos Estados Unidos. Há 40 anos ainda havia grupos de ódio prontos para exterminar negros, homossexuais e judeus caso isso fosse possível. Hoje em dia, eles ainda existem e saíram da toca, sentindo-se legitimados pela ideologia do novo ocupante da Casa Branca.

– Mas também, sabe, estou atrás de camaradagem na Klan.
– Que merda cê falou?
– Camaradagem?
– Não, a outra palavra.
– A Klan?
– Sem “Klan.” É “A Organização.” O Império Invisível conseguiu permanecer invisível por um motivo. Nunca use essa palavra. Entendeu?

Aliás, o David Duke que aparece no filme como o cabeça da KKK, também aparece, ainda hoje, como o cabeça da organização, fazendo discurso público aos americanos extremados em Charlottesville.

Se BlacKKKlansman é um bom filme com um fundo panfletário, podemos lembrar do controverso clássico O Nascimento de Uma Nação (1915), filme do começo do século 20 que trouxe uma série de inovações para o cinema e é considerado um épico americano. Contudo, é um filme panfletário também, uma propaganda da KKK. Qual a diferença entre eles, então? Bem, a KKK (e seu filme) divulga uma ideologia homicida. Já o filme de Spike Lee denuncia a existência ontem e hoje dessa ideologia homicida e faz um apelo pelo respeito aos cidadãos, qualquer que seja a cor, a religião ou opção sexual deles.

Como todos os filmes baseados em fatos reais, Infiltrado na Klan toma liberdades para fazer o filme se ajustar melhor à telona e não precisar ter 3 horas de duração. Uma das diferenças que vale a pena mencionar é que enquanto o Ron Stallworth interpretado por John Washington é realmente bem parecido com o Stallworth da vida real, o personagem de Adam Driver pode não ser. Primeiro porque ninguém sabe ainda quem foi o detetive branco que se infiltrou pessoalmente na KKK nesse caso. No livro, ele é Chuck, um codinome apenas, e não Flip. E o fato de Flip ser um judeu não praticante serve para aumentar a carga dramática, já que não há evidência de que Chuck era judeu.

22 de Julho, o mediano filme de Paul Greengrass sobre o atentado extremista de direita na Noruega em 2011, deixa claro que atualmente existem grupelhos radicais espalhados por todo o mundo. Enquanto alguns partem para as vias de fato e outros são para agitação ideológica, há aqueles que esperam impactar a sociedade de dentro das instituições. Eles não querem plantar bombas na casa do presidente para tomar o poder. Querem influenciar a opinião pública e aí sim serem eleitos para mudarem as leis e os rumos de suas nações. No final da década de 1970, a investigação que originou BlacKKKlansman também averiguou a mesma coisa: David Duke estava na política e havia, naquela célula em que Ron Stallworth se infiltrou, pelo menos dois membros do Exército.

É um interessantíssimo caso em Colorado Springs que só pudemos saber que existiu em 2014, quando o Ron da vida real se aposentou da força policial e escreveu seu livro. Spike Lee toma esse episódio da história de uma cidade e o transforma em retrato de seu país. De diversas formas é também retrato do que vem ocorrendo ao mundo.

APOSTASIA e o problema do dogma

Apostasia é o ato de renunciar a uma crença, a uma religião, à fé em alguma coisa. APOSTASIA (Apostasy, 2017) É também um dos filmes com temática religiosa mais interessantes que vi este ano, ao lado de First Reformed e Desobediência.

Apostasia é uma interessante reflexão sobre a religião e seu papel cultural determinante na vida de uma família. Nessa família, Ivanna (Siobhan Finneran), a mãe, é a guardiã dos valores tradicionais dos Testemunhas de Jeová. Segue as regras, por mais que elas a atinjam e pareçam injustas. A filha mais velha, Luisa (Sacha Parkinson), está na faculdade e tenta manter as aparências na comunidade religiosa e no âmbito familiar. Mas se permitiu observar o conjunto de regras de sua congregação de fora e pensar criticamente sobre elas, enxergando assim suas inconsistências.

Mas, ei, estamos falando de uma religião e, como qualquer dogma, trata seus ditames como indiscutíveis. A errada, assim, sempre será Luisa. E como nenhuma pessoa da Trindade cristã vai descer dos céus para mediar esse embate, Luisa é quem tem algo a perder. Ela não quer se desfazer da religião em que foi criada, mas sua vida, e até suas crenças mais profundas, já não se adaptam às regras. E aí há uma crítica muito válida: o problema não é acreditar na existência de Deus ou no Novo Mundo da liturgia dos Testemunhas de Jeová. São as regras ditadas e controladas pelos anciões (pastores) que constituem o verdeiro entrave. Algo ali não reflete o texto bíblico fundamental. E temos a irmã mais jovem, a doce Alex (Molly Wright).

Os Testemunhas de Jeová são proibidos pela religião de fazer transfusão de sangue – ou então, mais recentemente, são permitidas transfusões em quantidades e frequências muito menores do que as recomendadas pela medicina. Esse é um assunto delicado dentro e fora de seus salões, mas não faltam relatos de crentes que preferem morrer ou ver um familiar morrer do que sobreviver descumprindo uma regra básica de sua igreja. Alex é anêmica e sofreu uma transfusão em uma situação que ninguém podia controlar. Ela meio que se martiriza por isso. Ela tenta ser a Testemunha de Jeová exemplar, mas esse detalhe a deixa em dúvida de seu valor para Jeová.

Essa família será desfeita e as crenças serão colocadas sobre a mesa e em debate. Apostasia tenta ilustrar as contradições mais básicas dessa crença. Vale a pena se apegar a um dogma tão firmemente e deixar que isso mate uma filha e afaste a outra para sempre?

Embora seja o primeiro filme do diretor Daniel Kokotajlo, ele não trata suas personagens como estúpidas. Luisa, a filha que deixa de acreditar, ainda quer fazer parte, mas entende que se dobrar às regras não fará bem a ninguém, sobretudo se você é uma mulher. Alex, a filha mais nova, entende a crítica aberta que a irmã representa e tenta, mesmo assim, seguir sua religiosidade. Não há mocinhas e bandidas em Apostasia, mas Alex é a maior vítima da religião e onde se concentra tanto a crítica do filme no suposto obscurantismo dos Testemunhas de Jeová (quanto a regra que não permite tratamentos de saúde que poderiam salvar vidas) como também a prova de fé pela qual a mãe passará.

Sabe, essas coisas todas sobre sangue… na Bíblia, o Corpo Governante simplesmente inventa e depois muda sempre que querem. Mas as pessoas morrem.

Ivanna não vai abandonar a fé, o salão e os anciões. Não quer abandonar a filha mais velha também. Tenta prospectar uma interpretação mais flexível e “humana”, como ela mesmo pede, para as regras. Mas fundamentalistas são fundamentalistas. A fé, no fim, pode te salvar. Mas quem é que sabe se a história será mesmo como pregam os panfletos dos Testemunhas de Jeová?

Kokotajlo foi criado ele mesmo como Testemunha de Jeová, mas abandonou a igreja e mostra alívio com isso. Havia um controle de pensamento e de acesso à cultura que parece acachapante quando lhe é dado, em algum momento, a oportunidade de conhecer novas abordagens e escolher entre elas ou encará-las criticamente.

Apesar de confrontar a religião, Apostasia não é, em momento algum, panfletário. Mas ele deixa bem claro o seu ponto. A fé não precisa necessariamente ser descartada. Contudo, existe uma fronteira (constantemente embaçada por padres, pastores, anciões, etc) entre uma vida espiritual e as leis de uma instituição. Pregam que as “leis” da espiritualidade (a fé) se sobrepõem às regras da instituição, mas o que geralmente ocorre é o inverso: ou se obedece as regras da igreja ou então nossa fé o rejeitará. A apostasia, dessa forma, não toma a forma da recusa da fé em Jeová, no Armagedom, no Novo Mundo, e sim uma recusa da lei criada pelos homens.

Aliás, essa história tem foco sobre três mulheres. Dizer que são as leis dos homens que realmente valem nesse terreno não é só jeito de falar.

Não deixe First Reformed passar batido

FIRST REFORMED [No Coração da Escuridão, 2017] é o tipo de drama que te deixa alarmado. No melhor estilo de filmes e séries com finais abertos, ficamos no impasse de querer saber o que acontece dali pra frente e buscando, desesperadamente em nosso íntimo, uma resolução moral para o que acabamos de ver. Mas não é moral o objetivo do diretor e roteirista Paul Schrader. Ou melhor, até é, pois o filme todo joga habilmente com questões e noções morais, mas o ato final vai ficar rodando em sua mente, igual a câmera de Schrader, por muito tempo.

Ethan Hawke [que vimos envelhecer na pele do Jesse da série de filmes iniciada com Antes do Amanhecer] é um reverendo com uma vida pregressa desgraçada. No momento em que o filme começa, seu corpo também está em uma situação miserável e ficando pior a cada cena. Um dos temas abordados no filme, que se torna motivação do personagem, é a degradação ambiental causada pelo homem. Outro tema não é a falta de fé em si, mas a dúvida sobre o que um suposto Deus reservou para nós e como é possível que nós, limitados seres humanos, saibamos como agir. Esperamos seus desígnios ou agimos? E se escolhermos agir, qual o tamanho de nosso sacrifício?

Não é um filme religioso, mas o roteiro de Schrader é esperto o suficiente para colocar na mesa – e na tela – as argumentações religiosas sobre o que trata. Para cada questionamento que usa um versículo bíblico para ganhar peso, há uma suposta resposta que parece estar contida em outro versículo do livro. Levantando questões sobre tempos extremos e ações extremas do nosso hoje mais imediato, First Reformed oferece material para deixar todo mundo pensando e instigado, procurando primeiro as saídas para os personagens, depois para si mesmo, fora do filme, em nossa vida cotidiana. Mesmo ateus – ou principalmente eles – devem encontrar um campo fértil para discussão e reflexão.

“- Deus consegue nos perdoar pelo que fizemos com este mundo?
– Não sei. Quem conhece a mente de Deus?”

O reverendo Ernst Toller, logo no início do filme, atende um ambientalista de alma e mente perturbada e coloca em jogo as noções de esperança e coragem contra o desespero da vida. O filme todo vai se equilibrando em torno dessas três palavras e o que representam. Aos poucos, vemos que a distinção entre elas é mais complicada do que parece. A coragem para mudar algo é também um ato de esperança no futuro, mas pode se manifestar de uma forma desesperada. Qual a saída? Quem indica o caminho?

First Reformed é notável não só em termos de enredo e roteiro. Schrader usa o formato de tela 3:4 e raramente usa movimentos de câmera. E geralmente esse movimento ocorre quando o reverendo de Ethan Hawke está na presença de Mary, personagem de Amanda Seyfried. Há anos acostumados com um corte wide de cinema, o formato 3:4 dá uma levemente incômoda sensação de não deixar muito espaço para respirar.

Ethan Hawke, como ator, melhora com o passar do tempo. Entrega uma atuação exata, sem excesso e que tira do background do personagem a medida certa para imaginar as semanas decisivas de sua vida ao longo do filme. Schrader, um dinossauro de Hollywood – é dele o roteiro de Taxi Driver e a direção de Gigolô Americano, por exemplo – coloca em menos de duas horas uma boa quantidade de temas e de retóricas na tela. First Reformed acaba ganhando peso e construindo um contexto complexo, mas bastante claro e lúcido, em torno de si. Ingmar Bergman, um dos diretores referência de Schrader, inclusive está presente, pois é difícil não ver os dilemas do reverendo Toller e não lembrar de Luz de Inverno, do sueco.

“Então, devemos poluir para que Deus possa restaurar? Devemos pecar para que Deus possa perdoar?”

Não é um filme de ação e nem de aventura. Não há grandes acontecimentos, mas os que estão na tela ressoam. É um drama que não banaliza a violência, mas quando ela dá as caras, mesmo que indiretamente, pesa um tonelada.

O final é algo a ser discutido. Não perca seu tempo procurando respostas na internet ou criando teorias. É capaz de você nem gostar do final, oras. Há quem considere que o final de First Reformed, que se resolve mais dentro da cabeça do personagem e daí só temos seus atos para tentar compreender, é um recusa de Schrader a decidir que caminho seguir, sua própria falta de coragem em dizer quem vence: a esperança ou o desespero. Na minha opinião, é este final que garante que as questões levantadas também continuarão conosco. Quem é que almoçou com Deus e sabe de seus desígnios, afinal? Coragem, esperança e desespero seguem de mãos dadas.