BlacKKKlansman é o retrato de uma nação

E se o primeiro negro da força policial de Colorado Springs, nos Estados Unidos de 1978, se infiltrasse na Ku Klux Klan, o mais notório grupo supremacista branco da América? A ideia é tão boa que poderia virar filme. E virou o ótimo INFILTRADO NA KLAN (BlacKKKlansman), do diretor Spike Lee. Mas é uma história real, baseada nas investigações de um detetive negro, Ron Stallworth, que escreveu um livro sobre o caso, mesmo após o chefe de seu departamento ter mandado destruir todos os documentos e provas de que a operação ocorreu.

Pois é, censura oficial ocorre mesmo em países liberais e com democracia sólida, afinal.

A trama é basicamente o seguinte: Stallworth (John David Washington) se candidata para um posto na polícia de Colorado Springs. O chefão do lugar está disposto a contratá-lo para mostrar o progressismo do departamento, não porque Ron lhe pareça qualificado para o trabalho. Ron sabe o mundo racista em que vive, mas não é politizado. Ele vê um anúncio da KKK no jornal local recrutando novos membros (apenas o primeiro dos absurdos dessa história) e resolve se candidatar. Quando resolvem conhecer o tal Stallworth pessoalmente, o detetive envia o parceiro Flip (Adam Driver) em seu lugar.

Assim se arquiteta o plano. Por telefone, Stallworth mantém contato com os membros da KKK até chegar a David Duke, o Grande Mago da organização baseado na Louisiana, que está usando cargos públicos como meio de permear sua ideologia na política e legislação estadunidense. Pessoalmente, Flip, descendente de judeus, enfrenta a escória da extrema direita em meio a tiros e discursos abertamente xenófobos, racistas e homicidas.

É sempre muito complicado quando um diretor faz de sua obra um panfleto. Ao invés da história conter os elementos que nos levam a reflexão, ele toma uma posição bem demarcada e advoga abertamente por uma “causa”. Spike Lee realmente conta uma boa história com BlacKKKlansman, mas ativista como é, faz questão de colocar várias cenas na história que servem muito mais para traçar um paralelo com os EUA da era Trump do que necessárias para contar a história do negro que se infiltrou no grupo dos gorros brancos.

Embora muita gente possa considerá-lo um filme menor por esse viés mais “partidário”, eu diria que é totalmente compreensível e que aumenta, como um microcosmo, a importância do filme. É uma delícia ver os supremacistas serem enganados daquela forma, mas é terrível ao mesmo tempo acompanharmos as cenas finais de BlacKKKlansman, com filmagens documentais de marchas supremacistas e atentados ocorridos nos últimos dois anos nos Estados Unidos. Há 40 anos ainda havia grupos de ódio prontos para exterminar negros, homossexuais e judeus caso isso fosse possível. Hoje em dia, eles ainda existem e saíram da toca, sentindo-se legitimados pela ideologia do novo ocupante da Casa Branca.

– Mas também, sabe, estou atrás de camaradagem na Klan.
– Que merda cê falou?
– Camaradagem?
– Não, a outra palavra.
– A Klan?
– Sem “Klan.” É “A Organização.” O Império Invisível conseguiu permanecer invisível por um motivo. Nunca use essa palavra. Entendeu?

Aliás, o David Duke que aparece no filme como o cabeça da KKK, também aparece, ainda hoje, como o cabeça da organização, fazendo discurso público aos americanos extremados em Charlottesville.

Se BlacKKKlansman é um bom filme com um fundo panfletário, podemos lembrar do controverso clássico O Nascimento de Uma Nação (1915), filme do começo do século 20 que trouxe uma série de inovações para o cinema e é considerado um épico americano. Contudo, é um filme panfletário também, uma propaganda da KKK. Qual a diferença entre eles, então? Bem, a KKK (e seu filme) divulga uma ideologia homicida. Já o filme de Spike Lee denuncia a existência ontem e hoje dessa ideologia homicida e faz um apelo pelo respeito aos cidadãos, qualquer que seja a cor, a religião ou opção sexual deles.

Como todos os filmes baseados em fatos reais, Infiltrado na Klan toma liberdades para fazer o filme se ajustar melhor à telona e não precisar ter 3 horas de duração. Uma das diferenças que vale a pena mencionar é que enquanto o Ron Stallworth interpretado por John Washington é realmente bem parecido com o Stallworth da vida real, o personagem de Adam Driver pode não ser. Primeiro porque ninguém sabe ainda quem foi o detetive branco que se infiltrou pessoalmente na KKK nesse caso. No livro, ele é Chuck, um codinome apenas, e não Flip. E o fato de Flip ser um judeu não praticante serve para aumentar a carga dramática, já que não há evidência de que Chuck era judeu.

22 de Julho, o mediano filme de Paul Greengrass sobre o atentado extremista de direita na Noruega em 2011, deixa claro que atualmente existem grupelhos radicais espalhados por todo o mundo. Enquanto alguns partem para as vias de fato e outros são para agitação ideológica, há aqueles que esperam impactar a sociedade de dentro das instituições. Eles não querem plantar bombas na casa do presidente para tomar o poder. Querem influenciar a opinião pública e aí sim serem eleitos para mudarem as leis e os rumos de suas nações. No final da década de 1970, a investigação que originou BlacKKKlansman também averiguou a mesma coisa: David Duke estava na política e havia, naquela célula em que Ron Stallworth se infiltrou, pelo menos dois membros do Exército.

É um interessantíssimo caso em Colorado Springs que só pudemos saber que existiu em 2014, quando o Ron da vida real se aposentou da força policial e escreveu seu livro. Spike Lee toma esse episódio da história de uma cidade e o transforma em retrato de seu país. De diversas formas é também retrato do que vem ocorrendo ao mundo.

APOSTASIA e o problema do dogma

Apostasia é o ato de renunciar a uma crença, a uma religião, à fé em alguma coisa. APOSTASIA (Apostasy, 2017) É também um dos filmes com temática religiosa mais interessantes que vi este ano, ao lado de First Reformed e Desobediência.

Apostasia é uma interessante reflexão sobre a religião e seu papel cultural determinante na vida de uma família. Nessa família, Ivanna (Siobhan Finneran), a mãe, é a guardiã dos valores tradicionais dos Testemunhas de Jeová. Segue as regras, por mais que elas a atinjam e pareçam injustas. A filha mais velha, Luisa (Sacha Parkinson), está na faculdade e tenta manter as aparências na comunidade religiosa e no âmbito familiar. Mas se permitiu observar o conjunto de regras de sua congregação de fora e pensar criticamente sobre elas, enxergando assim suas inconsistências.

Mas, ei, estamos falando de uma religião e, como qualquer dogma, trata seus ditames como indiscutíveis. A errada, assim, sempre será Luisa. E como nenhuma pessoa da Trindade cristã vai descer dos céus para mediar esse embate, Luisa é quem tem algo a perder. Ela não quer se desfazer da religião em que foi criada, mas sua vida, e até suas crenças mais profundas, já não se adaptam às regras. E aí há uma crítica muito válida: o problema não é acreditar na existência de Deus ou no Novo Mundo da liturgia dos Testemunhas de Jeová. São as regras ditadas e controladas pelos anciões (pastores) que constituem o verdeiro entrave. Algo ali não reflete o texto bíblico fundamental. E temos a irmã mais jovem, a doce Alex (Molly Wright).

Os Testemunhas de Jeová são proibidos pela religião de fazer transfusão de sangue – ou então, mais recentemente, são permitidas transfusões em quantidades e frequências muito menores do que as recomendadas pela medicina. Esse é um assunto delicado dentro e fora de seus salões, mas não faltam relatos de crentes que preferem morrer ou ver um familiar morrer do que sobreviver descumprindo uma regra básica de sua igreja. Alex é anêmica e sofreu uma transfusão em uma situação que ninguém podia controlar. Ela meio que se martiriza por isso. Ela tenta ser a Testemunha de Jeová exemplar, mas esse detalhe a deixa em dúvida de seu valor para Jeová.

Essa família será desfeita e as crenças serão colocadas sobre a mesa e em debate. Apostasia tenta ilustrar as contradições mais básicas dessa crença. Vale a pena se apegar a um dogma tão firmemente e deixar que isso mate uma filha e afaste a outra para sempre?

Embora seja o primeiro filme do diretor Daniel Kokotajlo, ele não trata suas personagens como estúpidas. Luisa, a filha que deixa de acreditar, ainda quer fazer parte, mas entende que se dobrar às regras não fará bem a ninguém, sobretudo se você é uma mulher. Alex, a filha mais nova, entende a crítica aberta que a irmã representa e tenta, mesmo assim, seguir sua religiosidade. Não há mocinhas e bandidas em Apostasia, mas Alex é a maior vítima da religião e onde se concentra tanto a crítica do filme no suposto obscurantismo dos Testemunhas de Jeová (quanto a regra que não permite tratamentos de saúde que poderiam salvar vidas) como também a prova de fé pela qual a mãe passará.

Sabe, essas coisas todas sobre sangue… na Bíblia, o Corpo Governante simplesmente inventa e depois muda sempre que querem. Mas as pessoas morrem.

Ivanna não vai abandonar a fé, o salão e os anciões. Não quer abandonar a filha mais velha também. Tenta prospectar uma interpretação mais flexível e “humana”, como ela mesmo pede, para as regras. Mas fundamentalistas são fundamentalistas. A fé, no fim, pode te salvar. Mas quem é que sabe se a história será mesmo como pregam os panfletos dos Testemunhas de Jeová?

Kokotajlo foi criado ele mesmo como Testemunha de Jeová, mas abandonou a igreja e mostra alívio com isso. Havia um controle de pensamento e de acesso à cultura que parece acachapante quando lhe é dado, em algum momento, a oportunidade de conhecer novas abordagens e escolher entre elas ou encará-las criticamente.

Apesar de confrontar a religião, Apostasia não é, em momento algum, panfletário. Mas ele deixa bem claro o seu ponto. A fé não precisa necessariamente ser descartada. Contudo, existe uma fronteira (constantemente embaçada por padres, pastores, anciões, etc) entre uma vida espiritual e as leis de uma instituição. Pregam que as “leis” da espiritualidade (a fé) se sobrepõem às regras da instituição, mas o que geralmente ocorre é o inverso: ou se obedece as regras da igreja ou então nossa fé o rejeitará. A apostasia, dessa forma, não toma a forma da recusa da fé em Jeová, no Armagedom, no Novo Mundo, e sim uma recusa da lei criada pelos homens.

Aliás, essa história tem foco sobre três mulheres. Dizer que são as leis dos homens que realmente valem nesse terreno não é só jeito de falar.

Não deixe First Reformed passar batido

FIRST REFORMED [No Coração da Escuridão, 2017] é o tipo de drama que te deixa alarmado. No melhor estilo de filmes e séries com finais abertos, ficamos no impasse de querer saber o que acontece dali pra frente e buscando, desesperadamente em nosso íntimo, uma resolução moral para o que acabamos de ver. Mas não é moral o objetivo do diretor e roteirista Paul Schrader. Ou melhor, até é, pois o filme todo joga habilmente com questões e noções morais, mas o ato final vai ficar rodando em sua mente, igual a câmera de Schrader, por muito tempo.

Ethan Hawke [que vimos envelhecer na pele do Jesse da série de filmes iniciada com Antes do Amanhecer] é um reverendo com uma vida pregressa desgraçada. No momento em que o filme começa, seu corpo também está em uma situação miserável e ficando pior a cada cena. Um dos temas abordados no filme, que se torna motivação do personagem, é a degradação ambiental causada pelo homem. Outro tema não é a falta de fé em si, mas a dúvida sobre o que um suposto Deus reservou para nós e como é possível que nós, limitados seres humanos, saibamos como agir. Esperamos seus desígnios ou agimos? E se escolhermos agir, qual o tamanho de nosso sacrifício?

Não é um filme religioso, mas o roteiro de Schrader é esperto o suficiente para colocar na mesa – e na tela – as argumentações religiosas sobre o que trata. Para cada questionamento que usa um versículo bíblico para ganhar peso, há uma suposta resposta que parece estar contida em outro versículo do livro. Levantando questões sobre tempos extremos e ações extremas do nosso hoje mais imediato, First Reformed oferece material para deixar todo mundo pensando e instigado, procurando primeiro as saídas para os personagens, depois para si mesmo, fora do filme, em nossa vida cotidiana. Mesmo ateus – ou principalmente eles – devem encontrar um campo fértil para discussão e reflexão.

“- Deus consegue nos perdoar pelo que fizemos com este mundo?
– Não sei. Quem conhece a mente de Deus?”

O reverendo Ernst Toller, logo no início do filme, atende um ambientalista de alma e mente perturbada e coloca em jogo as noções de esperança e coragem contra o desespero da vida. O filme todo vai se equilibrando em torno dessas três palavras e o que representam. Aos poucos, vemos que a distinção entre elas é mais complicada do que parece. A coragem para mudar algo é também um ato de esperança no futuro, mas pode se manifestar de uma forma desesperada. Qual a saída? Quem indica o caminho?

First Reformed é notável não só em termos de enredo e roteiro. Schrader usa o formato de tela 3:4 e raramente usa movimentos de câmera. E geralmente esse movimento ocorre quando o reverendo de Ethan Hawke está na presença de Mary, personagem de Amanda Seyfried. Há anos acostumados com um corte wide de cinema, o formato 3:4 dá uma levemente incômoda sensação de não deixar muito espaço para respirar.

Ethan Hawke, como ator, melhora com o passar do tempo. Entrega uma atuação exata, sem excesso e que tira do background do personagem a medida certa para imaginar as semanas decisivas de sua vida ao longo do filme. Schrader, um dinossauro de Hollywood – é dele o roteiro de Taxi Driver e a direção de Gigolô Americano, por exemplo – coloca em menos de duas horas uma boa quantidade de temas e de retóricas na tela. First Reformed acaba ganhando peso e construindo um contexto complexo, mas bastante claro e lúcido, em torno de si. Ingmar Bergman, um dos diretores referência de Schrader, inclusive está presente, pois é difícil não ver os dilemas do reverendo Toller e não lembrar de Luz de Inverno, do sueco.

“Então, devemos poluir para que Deus possa restaurar? Devemos pecar para que Deus possa perdoar?”

Não é um filme de ação e nem de aventura. Não há grandes acontecimentos, mas os que estão na tela ressoam. É um drama que não banaliza a violência, mas quando ela dá as caras, mesmo que indiretamente, pesa um tonelada.

O final é algo a ser discutido. Não perca seu tempo procurando respostas na internet ou criando teorias. É capaz de você nem gostar do final, oras. Há quem considere que o final de First Reformed, que se resolve mais dentro da cabeça do personagem e daí só temos seus atos para tentar compreender, é um recusa de Schrader a decidir que caminho seguir, sua própria falta de coragem em dizer quem vence: a esperança ou o desespero. Na minha opinião, é este final que garante que as questões levantadas também continuarão conosco. Quem é que almoçou com Deus e sabe de seus desígnios, afinal? Coragem, esperança e desespero seguem de mãos dadas.