“Count Zero”, a sequência de Neuromancer

E, por um instante, ela olhou diretamente para aqueles ternos olhos azuis e soube, com a certeza do instinto mamífero, que os extremamente ricos não eram nem de longe humanos.

Publicado em 1986, três anos após Neuromancer, COUNT ZERO é a sequência que William Gibson achou que nunca escreveria. A princípio, ele achou que Neuromancer não daria em nada, mas levar para casa os três principais prêmios da literatura de ficção científica de uma vez realmente pode fazer um homem mudar de ideia, certo?

Primeiro, é preciso dizer que, caso você queira, pode ler Count Zero sem ter lido Neuromancer. A trama é totalmente independente da contada no primeiro livro da Trilogia do Sprawl, com (quase) todos novos personagens e situações. Contudo, há detalhes e pequenas passagens no livro que são saborosos para quem conhece Neuromancer. Nenhum desses detalhes é importantíssimo para compreender o que se passa em Count Zero, mas são necessários para que saibamos o que mudou no ciberespaço, na matrix, no Sprawl, nas corporações desde os eventos do primeiro livro.

Em segundo lugar, Count Zero é muito mais fluido que Neuromancer. Por mais que Gibson tenha reescrito diversas vezes muita coisa do primeiro, com medo de que o leitor não ficasse entretido o bastante, Neuromancer parece mais truncado em diversas ocasiões. Count Zero não. O enredo só vai.

O vodu diz que há um Deus, claro, Gran Met, mas ele é grande, grande demais e distante demais pra se preocupar se você é pobre ou não arranja mulher. Vamos lá, cara, você sabe como funciona, é uma religião de rua, que veio do lugar mais pobre possível um milhão de anos atrás. Vodu é como a rua. Se um cheirador de pó fizer picadinho da sua irmã, você não vai acampar na porta da Yakuza, vai? De jeito nenhum. Você procura alguém que pode cuidar do assunto. Certo?

Acompanhamos três histórias diferentes, que se alternam até o final. Primeiro, a de Turner, um mercenário, um cara grandão e que é chamado para fazer o trabalho sujo para corporações. A princípio, ele é contratado para fazer a extração de um cientista da Maas Lab para a Hosaka. Mas é claro que algo dará muito errado nesse processo e Turner, de predador, vira a caça. Em Paris, Marly Krushkhova se deu mal no ramo das galerias de arte e acaba contratada por um dos homens mais ricos deste mundo para investigar um artista. Não demora para ela perceber que sua missão não é tão simples e que há muito mais do arte envolvida no caso.

Por fim, temos Bobby “Count Zero” Newmark, um hotdogger, um cowboy do ciberespaço iniciante que ao tentar acessar um sistema de proteção (ICE), acaba se metendo sem querer numa conspiração envolvendo corporações e a existências de “deuses” na matrix.

No futuro cyberpunk criado pelo autor americano, os Estados, enquanto governos, são mínimos. Grandes corporações são tão presentes no universo social, político e econômico que acabam dando as cartas, criando teias de relações e conspirações bastante intrincadas. Bobby, Turner e Marly atuam cada um em uma ponta dessa grande teia e aos poucos o desenho vai ficando claro, com um série de reviravoltas que garantem movimento constante às três narrativas.

Há alguns pensamentos bem interessantes no livro, como a reflexão de que espaço teriam, nesse mundo de corporações, fortunas incalculáveis de famílias ou pessoas. A aristocracia é quase uma anomalia nessa era, mas ainda persiste. Outro assunto que se desenvolve ao longo das páginas é a existência de IAs que não apenas tomam consciência de si mesmas, como acabam se identificando com os loa (entidades espirituais) da religião vodu haitiana. Essa apropriação cultural pela máquina e como os humanos, por sua vez, recebem essa apropriação e a aceitam, é o traço filosófico que considero o melhor de Count Zero. Por outro lado, é inegável que Neuromancer parecia muito mais carregado de filosofia até nos pequenos detalhes.

Isso faz com que a sequência seja muito mais focada em ação e aventura. Ainda assim, os capítulos estão cheios de detalhes sobre como é esse mundo (retro)futurista imaginado por Gibson. São pequenos trechos que, por mais que imaginação que exista em sua concepção, espelha possibilidades reais de nossa sociedade, seja ela como era nos anos 80 ou mesmo agora, 30 anos depois. William Gibson é chamado de visionário não por tentar acertar o que seria nosso futuro – até porque ele não previu a telefonia móvel e a rede como a temos e usamos hoje –, mas por conseguir ler o seu zeitgeist e conseguir projetar nossas obsessões, traumas e medos mais fundamentais no tempo.

Nessa projeção cabe até a crença religiosa na cultura cyberpunk. Se hoje ela ainda existe tomando como base “uma existência superior”, como se estivesse em uma camada de existência não acessível aos homens e mulheres, no futuro, com toda a tecnologia disponível, a crença ainda está lá, mas mudou de lugar. Dos templos para a matrix. Ao mesmo tempo, isso não excluiu Jesus do rol de divindades, mas inclui o controverso L. B. Hubbard, o criador da cientologia, como um profeta digno de culto e admiração.

“Nos últimos sete, oito anos, tem coisas engraçadas lá fora, lá na roda dos cowboys de console. Os novos jóqueis fazem tratos com as coisas, não fazem, Lucas? É, pode aposta que eu sei. Eles ainda precisam do hard e do soft, e ainda precisam ser mais rápidos que cobras no gelo. Mas todos eles, todos os que sabem mesmo cortar, têm aliados, não têm, Lucas?”

Citei quando falei sobre a série Strange Angel, que conta a história do cientista e ocultista Jack Parsons, falei de uma sutil mudança que vivemos, onde os mundos da ciência e da crença metafísica se reencontram, mais do que se combatem. Em 1986, Gibson já deixava isso palpável entre tribos urbanas do Sprawl (megacidade que vai de Boston a Atlanta), inteligências artificiais e megacorporações. O Finlandês, que já estava em Neuromancer, reaparece em Count Zero mais velhaco do que antes para fazer essa conexão: “É, tem coisas lá. Fantasmas, vozes. Por que não? Os oceanos tinham sereias, e toda aquela merda, e a gente estava com um mar de silício, vê? Claro, é só uma alucinação inventada que todos concordamos em ter, o ciberespaço, mas qualquer um que se conecta sabe, sabe mesmo que é todo um universo. E a cada ano fica um pouco mais lotado, é o que parece…”

Embora seja muito menos debatido e citado que seu antecessor, Count Zero  é uma leitura válida se seu intuito é se aprofundar na obra de Gibson ou de mais um bom exemplo de cyberpunk com ideias que continuam sendo reaproveitadas até hoje. O autor está mais afiado neste livro e parte de uma estrutura diferente para contar sua história, ao mesmo tempo em que apresenta uma paleta de personagens e cobre uma geografia mais vasta. Terminamos a história de Bobby, Marly, Turner, Lucas, Paco e Angie com uma ideia melhor das várias tribos que habitam o planeta e que fronteiras ainda existem.

Mona Lisa Overdrive, a terceira parte da Trilogia do Sprawl, já está nos planos de leitura e em breve devo escrever sobre ela.

Leia também: Minha releitura de Neuromancer

COUNT ZERO
William Gibson
Tradução: Carlos Angelo
Editora Aleph
312 páginas