Suspiria tem o clímax mais diabólico dos últimos tempos

O diretor italiano Luca Guadagnino não brincou em serviço ao fazer uma releitura do clássico Suspiria de seu conterrâneo Dario Argento. Guadagnino não desperdiçou nenhuma chance de mostrar toda a sua verve como diretor, uma verve aliás que envolve correr diversos riscos, como já haviam em outros de seus filmes, mas nunca, nunquinha, titubear. Seu SUSPIRIA sabe o que é, ou melhor, o diretor sabe o que quer com seu filme e mostra que maturidade na hora de contar uma história, e liberdade criativa para isso, contam a seu favor.

As surpresas não tardaram. Para começar, esperava uma estética mais limpa e iluminada, como são os filmes de hoje, mesmo aqueles com orçamentos mais baixos. Guadagnino e seu diretor de fotografia, Sayombhu Mukdeeprom, no entanto, optaram por captar imagens mais realista, sem se importar em iluminar tudo o que estaria em cena, o que capta uma atmosfera mais opressiva e distante, com uma paleta de cores mais apagada, fugindo da saturação de 1977. Esperava um filme mais lento, mas novamente Guadgnino e seu montador, Walter Fasano, encheram sua versão de Suspiria de cortes violentos, secos, rápidos, com vários inserts um tanto estranhos e às vezes até desconcertantes, sem falar em zooms rápidos que hoje quase não existem mais. Esses elementos tanto afastam o filme de produções recentes do terror quanto o aproxima do original de 1977. Mas não fica a impressão de que a nova produção está querendo reproduzir ou “homenagear” Argento. Suspiria pega emprestado algumas coisas, mas em 2018 o filme tem seu próprio DNA.

O roteiro de David Kajganich também colabora para que o novo Suspiria se mantenha em pé sozinho e de forma gloriosa ao seu estupendo final. Dê um tapa na cara de quem disser “Ain, tem que ver o original para entender o novo”, certo? Na trama, estamos de volta à Berlim de 1977, a Segunda Guerra Mundial e os efeitos do nazismo ainda assombram a cidade em plena Guerra Fria. Susie Bannion (Dakota Johnson), uma intrépida alma do interior de Ohio, vinda de uma família menonita (um grupo cristão), precisou se rebelar contra família e religião para se tornar dançarina e enfim ser aceita na Academia Markos, o coletivo liderado por madame Blanc (Tilda Swinton) que possui um coração extremamente sombrio. Enquanto isso, Patricia (Chloë Grace-Moretz), tenta avisar seu psicanalista que está em maus-lençóis e deixa o homem (também interpretado por Swinton) com a pulga atrás da orelha, embora cético sobre toda a parte da bruxaria relatado pela menina.

Só por essa breve introdução já é possível perceber que Suspiria 2018 segue a trama de Suspiria 1977 mas já introduz diversos outros elementos, dando mais estofo aos personagens. No original, você descobre que a companhia de dança é lar de um coven de bruxas lá na frente; desta vez, a magia está presente desde o começo, se manifestando de formas bem criativas e crueis, aliás, demandando o mínimo de efeitos visuais. Não é um filme de terror de sustos. Isso é importante: nada vai te pegar de surpresa e te fazer pular da cadeira. O filme não demora a mostrar que não precisa economizar no sangue, no gore, nos corpos retorcidos (afinal, estamos em uma academia de dança). E garanto: o clímax planejado por Guadagnino e Kajganich é muito mais diabólico que o original ou qualquer outro dos últimos tempos.

Sobre atuações, nem é preciso dizer que Tilda Swinton está excelente como sempre. Além de madame Blanc, retratada de forma muito limpa (roupas neutras, cabelão escorrido, pouquíssima maquiagem), ela interpreta o terapeuta e uma das grandes bruxas do filme, sempre muito carregada de maquiagem. Dakota Johnson também está muito bem em seu papel. A fama de atriz ruim surgiu com seu trabalho na trilogia 50 Tons de Cinza, e então parte do público confundiu um filme ruim com roteiro e direção preguiçosos com uma incapacidade da atriz. Dakota não é incapaz. A mesma confusão (que acaba virando uma implicância) ocorria com Kristen Stewart durante a tetralogia Crepúsculo. Depois ela participou de filmes do diretor francês Olivier Assayas e vejam só que boa atriz ela é.

Uma das grandes contribuições dessa releitura é colocar um peso político maior em Suspiria. Isso tanto se reflete em como Nazismo e Guerra Fria são fantasmas ao redor de personagens e contexto da época e também no Feminismo, sendo afirmado desde que Susie é aceita na companhia de dança, sendo criticado ao longo do filme na forma como pode se manifestar quando há abuso, e enfim recolocado em seu trilho. O Feminismo também está presente na forma como a trindade de mães (das Trevas, das Lágrimas e dos Suspiros) são entidades anteriores ao cristianismo e à ideia de diabo, sedimentando um contexto matriarcal. A impotência masculina, aliás, está muito presente nesse filme. O roteirista tomou o cuidado de deixar tudo dentro do filme, seja em imagens ou em pequenos diálogos, para que o espectador leia as entrelinhas. Também há uma questão de poder dentro da academia/coven ocorrendo ao longo do filme.

A própria resolução da parte mais mística e satânica do filme pode confundir algumas pessoas, mas se não há diálogos para deixar tudo às claras, Luca Guadagnino se serviu de material visual e da montagem para poder ligar uma coisa na outra e assim quem assiste monta o quebra-cabeça.

É interessante também ver como os arcos de personagens são ricos. A poderosa Madame Blanc experiencia um arco negativo de queda, segundo a nomenclatura usada por K. M. Weiland em seu livro Creating Characters Arcs. Susie, seduzida pelas bruxas, engana o público, seguindo um arco negativo de ilusão. No entanto, ao final, temos uma reviravolta e, com a aceitação de Susie – ou sua consciência desperta – passamos a ver um arco negativo de corrupção (o mesmo vivido por Anakin ao final do terceiro capítulo de Star Wars ou de Walter Walt no fim de Breaking Bad). Ao mesmo tempo, apesar das trevas dentro da garota, Susie aparentemente redireciona o coven para um estado menos abusivo.

Coisas curiosas para se prestar atenção: Dario Argento, criador e diretor do filme original, é um dos produtores de Suspiria. Jessica Harper, que interpretou Susie no passado, faz uma participação. “Suspiria” é uma das placas luminosas atrás de Susie assim que ela chega a Berlim. David Kajganich é o roteirista por trás do seriado The Terror. Os diretores Paul Thomas Anderson, Quentin Tarantino e Edgar Wright, assim como o compositor japonês Ryuichi Sakamoto, estão entre os agradecimentos de Suspiria. Fique até o fim dos créditos para uma ceninha extra.

Suspiria é um excelente terror que não fica em cima do muro: não joga todos os fatos sobrenaturais como se fossem apenas fenômenos psicológicos e ainda encontra um jeito de ligar a situação política com tudo o que está ocorrendo na companhia de dança. Luca Guadagnino segue lançando filmes muito diferentes entre si e muito bons, sem fazer concessões para tornar sua obra mais palatável para um público maior. Provavelmente não será indicado a nenhum grande prêmio, mas deve ganhar todos os corações negros dos apreciadores do horror.

Sabrina contra o patriarcado e o “problema” da fé

Quem diria que um seriado adolescente como O MUNDO SOMBRIO DE SABRINA (Chilling Adventures of Sabrina) colocaria o dedo ardendo com as chamas do abismo na ferida aberta das religiões?

Embora seja baseada na personagem dos quadrinhos da Archie Comics, como aquela outra Sabrina Aprendiz de Feiticeira dos anos 90, esta nova Sabrina Spellman se baseia numa renovação mais encapirotada da garota. Além do nome, das duas tias (Zelda e Hilda) e do gato preto Salem, o clima, as aventuras e as magias são totalmente diferentes. A nova Sabrina da Netflix vai à floresta durante a noite para escrever seu nome – com seu próprio sangue – no Livro da Besta, conjura espíritos e cruza linhas entre a vida e a morte que a Aprendiz de Feiticeira jamais sonhou existir.

Sabrina é interpretada por Kiernan Shipka (quem acompanhou Mad Men viu essa menina crescer) que é uma fofa. Sua família é devotada à magia, falam de necromancia e citam o Demonomicon na mesa do café da manhã. Ela se lava com água e sabão como um tipo de banimento para afastar uma possível maldição e faz projeção astral. Embora exista algo de Harry Potter na série (a protagonista perdeu os dois pais e é tratada pelo próprio Satã como uma espécie de Escolhida em formação que precisa frequentar uma escola de bruxaria), existem características que fazem a personagem se destacar.

Para começar, Sabrina Spellman é uma bruxa que veio para contestar o status quo – no mundo mágico e profano. Ela tem uma amiga negra, uma amiga com disforia de gênero (que não se identifica com seu corpo biológico) e um primo feiticeiro abertamente gay e que não é representado em momento algum de forma caricata. Juntos, questionam o patriarcado na escola, em suas vidas particulares e em suas religiões. Há um diálogo logo nos primeiros episódios em que a tia Zelda pergunta se o namorado de Sabrina à deflorou, pois as bruxas devem comparecer ao seu peculiar batismo com a virgindade preservada para o Senhor das Trevas. A garota retruca: “Por que ele tem que decidir o que faço com meu corpo?”

Os dogmas e as fés cegas são colocadas em xeque também. Se a sua igreja cristã ainda mantém regras rígidas e vetustas a serem seguidas, o coven da Igreja da Noite do Mundo Sombrio de Sabrina também tem suas regrinhas doutrinárias e moralistas que parecem incidir com especial peso sobre as mulheres. Mas Sabrina contesta essas regras, um misto da petulância adolescente e crítica social/religiosa.

– Mas eu quero as duas coisas. Quero liberdade e poder.
– (risos) Ele nunca te dará isso. O senhor das trevas. A ideia de você ou qualquer uma de nós ter isso o aterroriza.
– Por quê?
– Ele é homem, não é?

Essa inversão de polos é realmente interessante. Embora a religião das bruxas seja um pouco estereotipada, há uma parte dela bastante chocante para quem assiste esperando emoções mais amenas para o público jovem. Há canibalismo, há decapitações, há assassinato, há tia Zelda dizendo “Satã seja Louvado”, há uma enorme estátua de Baphomet bem no meio do pátio da escola. Pais conservadores e cidadãos de bem, escondam seus filhos! Ainda assim, essa religião das bruxas é representada como uma contraparte das religiões monoteístas mainstream.

Existe um momento, logo no terceiro episódio do seriado, em que parece que toda a parte mais encapetada vai se resolver na moral cristã, o que tornaria o sombrio mundo de Sabrina muito menos diabólico. Mas como é um seriado dos mesmos produtores de Riverdale, temos alguns subterfúgios mal planejados e desenvolvidos às pressas para colocar o roteiro no trilho que desejam (não dá pra exigir o mesmo nível sofisticação de Better Call Saul em tudo que a Netflix lança, afinal). Porém, há pelo menos quatro situações em que Sabrina escolhe o caminho das bruxas e da magia negra – e não o do cristianismo – para resolver seus problemas.

CHILLING ADVENTURES OF SABRINA

Em um deles, ela precisa fazer um exorcismo, mas exorcismo é coisa de padre católico, bruxas não são ordenadas para isso. Achei realmente que ela recorreria a um sacerdote, mas encontraram uma forma de realizar o ritual (a série é cheia de rituais, aliás) apenas com bruxas. E bruxas mulheres invocando outras bruxas mulheres, reais ou fictícias. Uma das cenas mais emocionantes da série do ponto de vista de contestação do patriarcado.

As tias de Sabrina, Hilda (Lucy Davis) e Zelda (Miranda Otto) me lembraram demais o temperamento de Caim e Abel em Sandman, do Neil Gaiman. Elas são parte essencial da atração, seja para a comédia funcionar, principalmente com Hilda, ou para o dogma da Igreja da Noite se fazer presente e atuante na casa da família Spellman – função que cabe a Zelda. Já a Sra. Wardwell (Michelle Gomez) desempenha um papel extremamente ambíguo que é muito bem-vindo, embora pareça conveniente demais em boa parte da trama.

Em Sabrina, a protagonista é impetuosa e acha que tudo vai se curvar à sua vontade. E em boa parte das vezes, ela acha a forma de fazer valer seu desejo e o que julga certo, mesmo que para isso tenha que usar métodos do lado sombrio da força. Contudo, ela é uma heroína que falha e que precisa aprender com os erros. E mesmo seu maior erro de cálculo humano e mágico na primeira temporada abre a porta para a transformação que Sabrina precisa para preparar o terreno narrativo do segundo ano. Ao que tudo indica, a luta contra o patriarcado vai voltar com ainda mais força e propósito.

Não é um seriado perfeito. Ao mesmo tempo que o roteiro tenta encontrar saídas mais adequadas ao tal “mundo sombrio” de Sabrina, às vezes toma atalhos incômodos. Contudo, mesmo que seus personagens religiosos sejam de uma igreja satânica, a demonstração da moral religiosa e da fé que molda pessoas e dá sentido a tantas existências é o há de mais acertado na série. Afinal, a dualidade entre obediência à liturgia e seguir a vontade individual existe em todas as comunidades religiosas. De forma espelhada – ou invertida, como é mais o estilo do diabo – O Mundo Sombrio de Sabrina fala a qualquer um que sentiu o peso da ideologia (da cruz, da lua, da estrela, da Nova Era, do pentagrama) e, por isso, o programa serve à sua mesa os problemas da fé na modernidade.

A princípio, Sabrina seria um seriado irmão de Riverdale. Além do mesmo produtor, a mesma equipe que trabalhou atrás das câmeras em um, assumiu as filmagens do outro. Mas ao ser adquirido pela Netflix, o cordão umbilical entre as duas foi cortado. Embora um crossover não esteja confirmado, a primeira temporada de Sabrina já deixa claro que está no mesmo universo de Riverdale.