Greta Van Fleet recupera o som, mas não a atitude

Como tudo nesta era, as reações ao Greta Van Fleet são extremadas: ou se considera a banda um hino ou um lixo. Não faltou quem ressaltasse como os garotos de Frankenmuth recuperam o rock sessenta e setentista para uma geração que já não conhece o rock. Também não era preciso procurar muito para ouvir ou ler comentários que tiravam sarro da banda por serem jovens “imitando” o Led Zeppelin e encontrar quem parecia ter raiva do grupo, sentindo que estavam usurpando o som de seu sagrado Zeppelin.

Na primeira vez em que discuti o Greta Van Fleet foi em um podcast com meus colegas do Escuta Essa Review (confira abaixo) e mantive a posição de que esperaria até o segundo disco da banda para notar se ficariam presos à influência de Robert Plant, Jimmy Paige, John Bonham e John Paul Jones ou se teriam a garra de mostrar características próprias.

Bem, acho que o lançamento de ANTHEM OF THE PEACEFUL ARMY deixa bem claro que o Greta Van Fleet tem raízes mais vastas do que apenas o sempre bom e velho Led Zeppelin. Estão muito mais alinhados ao classic rock, de forma geral, do que devotados inteiramente ao Led. “Age of Man”, que abre o disco, tem muito mais teclado que guitarra. “Brave New World”, já quase no fim do LP, tem algo de progressivo. Ambas, aos meus ouvidos, derivam muito de Rush. O The Who, que sempre foi uma referência forte para os irmãos Josh, Jake e Sam Kiszka, também dá as caras aqui e ali. O Eder Albergoni, que também participou do podcast, disse que notou até semelhanças de bandas como Yes e Elton John.

As raízes são vastas, cobrem bastante território musical ao que parece, mas não são profundas. Embora tentem não fazer faixas previsíveis – e eu me surpreendi com certas mudanças de ritmo e variações dinâmicas muito bem feitas -, não há nada que seja unicamente Greta Van Fleet em Anthem Of The Peaceful Army. Mesmo o Led Zeppelin, a grande inspiração e comparação do grupo, cometeu algumas liberdades que eram bem únicas para a época. É só lembrar do clima criado com “Dazed and Confused”. Ou então daquele miolo maluco de “Whole Lotta Love” que, além dos sons esquisitos, tinha a brincadeira de fazer o som ir de um lado a outro do seu equipamento de estéreo. Sem falar em todas as músicas épicas, longas e/ou cheias de detours, como “Black Dog”.

Canções novas do GVF como “The Cold Wind”, “When The Curtain Falls” e “Lover, Leaver” são totalmente alinhadas à tradição do rock do Zeppelin. Riffs espertos e ágeis, bases com ótimos grooves e vocal alto, cheio de drive, são onipresentes na receita e não os afastam da comparação com o quarteto inglês. Contudo, tenho que dizer que, inegavelmente, são boas canções.

O maior pecado do Greta Van Fleet é (ou continua a) ser a mais nova banda para se comparar com Plant & Cia. Já tivemos o Wolfmother, o The Black Crowes e o Rival Sons nessa mesma berlinda. As três bandas são excelentes e possuem discografias sólidas. É bobagem deixar de curti-las só porque podem derivar de Zeppelin. Pode também ser bobagem descartar o GVF pelo mesmo motivo.

A cozinha formada pelo baixista Sam Kiszka e pelo baterista Danny Wagner só não é melhor porque não exploram mais o formato das canções. Mas o que se prestam a fazer é de muito bom gosto. Ainda não dá para sacar qual seria o estilo próprio de Jake Kiszka para as seis cordas, mas se o negócio é emular Jimmy Paige e Pete Townshend, ele o faz com grande sucesso. Até mesmo o timbre do instrumento está vintage o suficiente e às vezes até caipira o bastante para resgatar o passado. E o vocalista Josh Kiszka canta para impressionar ainda mais dessa vez. Não tem o charme e aquele senso de imprevisibilidade que muitas vezes Robert Plant tinha (em estúdio e ao vivo), um sinal de tempos em que as bandas são mais comportadas e embaladas desde cedo como um produto confiável.

Dá para a banda recuperar tudo do rock clássico: os timbres de Fender, os riffs, os teclados e, com Josh na parada, até os vocais incríveis de um Plant. Mas não recuperam a atitude rock’n’roll fundamental de Led Zeppelin, Black Sabbath, The Who, etc. Era essa atitude que determinava muito do que seria o som, e não o contrário.

O que fica de Anthem Of The Peaceful Army é uma execução muito boa, mas originalidade muito aquém. Para certo público, que já não consegue mais ouvir nada que não seja familiar, é ótimo que o Greta Van Fleet não invente muita história. A crítica da Pitchfork foi cruel com a banda e o disco, mas acertou em cheio ao dizer que hoje, na era dos streamings e algorítimos de indicação musical, quanto mais único é seu som, mais difícil relacioná-lo com algo que o público já ouve. O Greta está bem coberto nessa área, já que é associado a uma das maiores bandas que o planeta já viu e é só a nova ponta de uma longa tradição de bandas que soam como o Zeppelin para roqueiros notálgicos baterem palma ou para roqueiros preciosistas reclamarem.