Tuyo, Noname e Sleep Party People

TUYO | ⭐⭐⭐⭐⭐

A mistura de trip hop com dream pop e MPB me pegou totalmente desprevenido. A proposta do trio curitibano Tuyo em PRA CURAR, o primeiro disco do grupo, é de uma delicadeza notável e originalidade ímpar. Em o site Noize este ano, Tuyo foi categorizado com afrofolk futurista, o que parece fazer bastante sentido também, já que o apelo imagético do trio é bem forte, tão trabalhado quanto seu som.
As irmãs Lay e Lio já participaram do The Voice Brasil (como Lílian e Layane). Não venceram, o que, paradoxalmente, é sempre ótimo.

Geralmente, é quem não vence esses programas que acaba fazendo a música que importa. A voz de ambas nas faixas de Pra Curar é coisa de louco. Elas cantam e usam as cordas vocais como instrumentos, acrescentando diversos detalhes vocais que enriquecem os arranjos de cada faixa. “Vidaloca” é a indicação mais óbvia para reparar nisso.

Vozes, batidas, sintetizadores, efeitos eletrônicos e violão são os principais ingredientes do som do Tuyo, que tem em Jean seu terceiro membro. Mas diria que a mixagem do disco é aquele elemento definitivo que faz Pra Curar ser tão coerente, tão tridimensional e sensível, trazendo sons à superfície enquanto outros parecem crescer do infinito. Coisa fina!

Pra Curar é mais um álbum que se encaixa na definição: lindas melodias dizendo coisas terríveis. Uma de suas faixas é chamada ” :'( “, o que já denota muito do tipo de sentimentos que vamos encontrar. Não se deixe levar pelo nome do disco. Tuyo ainda está na vibe do primeiro EP Pra Doer.

NONAME | ⭐⭐⭐⭐

Eu estava ouvindo o novo FM! e planejava falar de Vince Staples, mas terminou o disco dele, achei meio morno, e começou a tocar “Blaxploitation” da Noname, muito mais interessante e fora da casinha. Aqui está então a indicação de ROOM 25, novo álbum dessa rapper de Chicago que faz um hip hop bem moderno, com elementos de jazz, funk e soul, preferindo uma abordagem mais orgânica, com uma boa banda, do que eletrônica.

Room 25 é seu segundo disco e foi gravado inteiramente ao longo de um mês, após Noname se mudar para Los Angeles e logo depois de terminar sua primeira turnê.

Com Lauryn Hill e Andre 3000, do Outkast, como grandes inspirações, e ex-participante de slams de poesia e noites de improviso, ela sabe mandar um recado. Seu flow é direto e mais falado do que cantado, sua música é ágil e não parece fazer muitas concessões para ser mais comercial.

SLEEP PARTY PEOPLE | ⭐⭐⭐⭐

Já viu aquela banda cujos integrantes estão vestidos de coelho, né? É o projeto musical do dinamarquês Brian Batz, o Sleep Party People, que lançou o quinto álbum, LINGERING PT. II.

Entre a fofura do dream pop e os outbursts sonoros do post-rock, o Sleep Party People continua a fazer uma música de sensações. Viajante na medida, uma produção bem acabada e melodias que não são pegajosas, mas agradam fácil. Os discos de Batz sempre tiveram entre tiveram mais de 40 e menos de 50 minutos. Lingering Pt. II, no entanto, acaba em pouco mais de 30 minutos. É rápido, mas não fica a impressão de que poderia ser maior. Como não há uma diversidade tão grande assim no disco, 30 minutos é tempo suficiente para o dinamarquês mostrar seu ótimo pop psicodélico.


Robyn, Haken e Sirenia

ROBYN | ⭐⭐⭐⭐⭐

HONEY, o novo disco da sueca Robyn, é perfeito! Semanas atrás falei do novo álbum da , que tentava deixar seu indie pop eletrônico mais comercial e acabou ficando mais comum também. Robyn segue o caminho da elegância da composição e da produção e faz um disco de música eletrônica pop à altura de seu nome e de sua carreira.

Honey é muito acessível, mas não sofre com músicas excessivamente pegajosas. As faixas não tentam voar no ouvinte e agarrá-lo pela garganta. Ela confia nos timbres dos sintetizadores, nas belas melodias vocais e nas batidas mais cadenciadas. Os sons se sobrepõe ao estilo do dream pop.

Chama muito a atenção também como Robyn faz um disco bastante moderno e bem cuidado e que remete ao pop dos anos 90 também, mas não se entrega ao saudosismo. É realmente uma lembrança, um aceno, algo que é recuperado nos detalhes, não plantado na canção para forçar uma identificação com o público.

É o oitavo disco da carreira da artista sueca e demorou oito anos para ver a luz do dia. Valeu a pena, pois é um dos melhores de Robyn, que dessa vez tomou a frente na produção das músicas. Ela própria fez todas as batidas. Sem atropelos em como os arranjos se combinam e cheio de detalhes que ressaltam o bom gosto da cantora, Honey é o exemplo da qualidade do pop escandinavo.

HAKEN | ⭐⭐⭐⭐

Um dos melhores trabalhos de metal progressivo que ouvi em 2018 é VECTOR, o quinto disco dos ingleses do Haken. Chama a atenção como eles têm uma personalidade bem forte: músicas pesadas, cheias de riffs e parte matemáticas, para nenhum fã de prog botar defeito, mas elas se resolvem com um certo colorido que não é tão típico do estilo e nem de bandas que usam guitarras de 8 cordas.

Fogem da escola do Tosin Abasi e do Meshuggah na utilização das 8 cordas e conseguem fazer algo pesado e preciso que não soa como uma serra em seu crânio ou como um instrumento de demolição. Acredito que isso tenha a ver com 1) bom gosto dos guitarristas Richard Henshall e Charles Griffiths e 2) com o fato do vocalista Ross Jennings não ser um cantor de death, e sim de metal da linha mais melódica, e canta em tons altos.

O Haken pega inspiração em uma série de bandas, de Queen a Devin Townsend, mas a grande escola é o Dream Theater. O baterista Raymond Hearne soa como o Mike Portnoy em seus melhores dias. Aliás, é isso que faz do Haken uma grande banda do prog metal atual: apesar de todas as partes extremamente complicadas em suas músicas, soam como se divertissem fazendo música e em momento nenhum encarnam a figura dos metaleiros tr00zões que precisam tocar pesadão e fritar o tempo tempo.

Vector é conceitual e conta a história de um médico que fica obcecado com um paciente e inicia um tratamento. O ponto de vista muda para o paciente catatônico, que pode estar sofrendo as interferências desse tratamento e/ou sendo inundado por memórias. O final dessa história é aberto e cabe a cada um decidir o que acha que está ocorrendo.

Apesar de ser o disco mais curto da discografia, é sólido. Tem tudo o que a gente gosta na banda e que já estava em Affinity, além de alguns elementos novos, como saxofone criando um clima único e flertes com a eletrônica. A faixa instrumental “Nil By Mouth” me lembrou porque eu gosto de metal progressivo.

SIRENIA | ⭐⭐⭐

Não sou um grande fã dessa banda de death metal sinfônico, mas tenho acompanhado todos os lançamentos do Sirenia e achado esses noruegueses bastante consistentes. ARCANE ASTRAL AEONS não é o melhor trabalho do grupo, mas não diria que é ruim, pois parece ser o mais redondo da carreira. Acontece que também é o que obedece a uma certa fórmula – já bastante usada pelo Nightwish – que faz o metalzão do grupo soar como… pop.

Isso quer dizer que Arcane Astral Aeons é pesado, é rápido e carrega todos os elementos que fazem do Sirenia um destacado grupo nessa cena. Porém há muito mais melodia dessa vez, o que traz uma resolução mais confortável aos ouvidos, apesar do peso, da distorção e da velocidade.

Ainda há bumbos duplos, riffs matadores e vocais guturais de Morten Veland misturados aos vocais limpos e operísticos da vocalista Emmanuelle Zoldan (que entrou na banda em 2016, substituindo a espanhola Ailyn, que permaneceu por oito anos na banda). A francesa Zoldan torna-se, assim, a quarta vocalista feminina do grupo.

O novo álbum também chega em um momento em que apenas Veland e Zoldan são creditados como membros fixos da banda. Morten gravou ele mesmo guitarra base, baixo, teclados, seus vocais guturais, programação eletrônica e até bateria o norueguês tocou. Chamou os dois guitarristas contratados para acompanhar a banda ao vivo para fazer os solos e o restante foi feito por músicos convidados ou de estúdio.

Acho que Arcane Astral Aeons é bem divertido. Pode ter faltado pegar um pouco mais pesado na parte death metal do disco, mas não deixa a energia cair em momento nenhum.

Tá na hora de conhecer Tash Sultana

Depois de muitos singles, um bom EP e de apresentações com muita energia e improviso, a australiana Tash Sultana lança FLOW STATE, um disco imperdível. A música flui por seus dedos, pela cintura, pelas ondas nos cabelos, por seus pés. Ela faz base de reggae, dedilhados, solos de extremo bom gosto. Conhece e sabe a hora de usar cada pedal, como pesar a mão e faz praticamente tudo sozinha. Com a Fender na mão, sola feito um John Frusciante, caso ele tivesse sido criado nos anos 2000 com uma vasta gama de influências, que vão do reggae (“Mellow Marmalade”) ao rock psicodélico (“Big Smoke”), do R&B (“Cigarettes”) ao dream pop.

Tash toca pelo menos 20 instrumentos e há vídeos de suas apresentações no YouTube em que, sozinha, faz a música acontecer diante de seus olhos e ouvidos com uma fluidez incrível. Os pedais de loop dão uma bela ajuda nesse esquema de banda de uma mulher só, mas vale a pena ver como os pés da australiana são ágeis ao acionar cada um.

Voodoo chute
Why don’t you tie the noose
From circus through to senseless way

Toda a energia do ao vivo está em Flow State. Apesar de todas características que fazem dela uma presença marcante, ela compôs músicas que possuem potencial comercial e soam como o pop radiofônico que temos aí no momento. “Salvation”, uma faixa que flerta com pop e R&B, e desemboca num solo no melhor estilo Prince.

Uma guitar hero nata, simplesmente não consegue deixar de solar em praticamente todas as faixas, mudando andamento e contexto se for preciso. E são todos excelentes no timbre, na emoção, na variedade técnica e ainda ajudam a construir uma clara imagem do que ela é capaz.

Como muitos primeiros álbuns, Flow State parece se obrigar a ser diverso em seus ritmos e climas. Ela aproveita que está estreando agora no formato álbum e se coloca à prova de tudo que pode caber em seu caldeirão, como se estivesse mostrando um portfólio. É provável que no futuro os álbuns de Tash Sultana sejam mais coesos no som. Embora seja um trabalho longo, com mais de uma hora, a australiana dá vida a cada uma de suas faixas com diversas tendências da música atual.

“Harvest Love” e “Pink Moon”, por exemplo, são sua contribuição ao estilo de rock/pop praticado por nomes como Snail Mail e Soccer Mommy. Mas enquanto as duas citadas deixam seus álbuns bem acomodados dentro das músicas sentimentais, a australiana vai mais longe, estilisticamente falando. E “Blackbird”, com 9 minutos, tem um trabalho nas seis cordas do violão digno de uma virtuose. Um lado que eu, até ouvir a faixa, não sabia que a Sultana tinha.

De uma nova leva de mulheres compositoras e autoras, Tash é a mais variada e que destila qualidade técnica. Ela é compositora de todas as canções, a responsável por todos os solos, pela produção de Flow State e também tocou todos os instrumentos que ouvimos ao longo do disco. Uma artista para acompanhar de perto!