Valciãn Calixto, Kovtun e Sungazer

VALCIÃN CALIXTO | ⭐⭐⭐⭐⭐

De surpresa, partindo de uma brincadeira em seu perfil no Facebook, o piauiense Valciãn Calixto lançou MÚSICAS PARA SE OUVIR NA BAD DURANTE O PERÍODO CHUVOSO DE TERESINA em seu Bandcamp. São cinco canções, todas violão e voz e gravadas com nada mais do que um celular. Se você ouvir mais do que seis cordas do instrumento e o vocal do cantor, saiba que nada foi acrescentado em pós-produção. São sons do ambiente caseiro dele entrando na captação do smartphone e dando uma ambiência sutil ao registro.

MPSONBDOPCDT é íntimo, como o Crush Songs da Karen O. São quatro músicas do Valciãn e um cover. O som do violão é extremamente nítido. Que pena que ele não erra no dedilhado e nem trasteja. A Karen faz dessas e ficou legal. Valciãn, embora tenha gravado tudo quase de uma vez só, logo após meter na cabeça que lançaria o EP, tem um domínio muito bem do violão e dos próprios arranjos.

É só ouvir “Fim de Ano” para sacar como sua voz aparece muito melhor posicionada, com afinação acertada, um nível técnico bem maior do que o apresentado em FODA!, seu primeiro álbum (pega lá no Spotify, bebê). Isso só aumenta minha ansiedade pelo próximo álbum completo de Valciãn Calixto, que de Foda! para cá já evoluiu demais.

Não julgue as letras de Valciãn muito cedo. A amostra presente em Músicas Para Se Ouvir Na Bad Durante o Período Chuvoso de Teresina têm uma lírica que é melancólica e irônica, reflexiva e ácida. Ele fala do ponto de vista do homem e da mulher comuns com seus dramas hipercomuns, mas sempre chega a um ponto interessantíssimo. “Teoria do Abacaxi”, por exemplo, sou eu próprio descrito ali. Talvez ele esteja descrevendo você também.

KOVTUN | ⭐⭐⭐⭐👻

Desde que DEATH saiu, ouvi o álbum uma vez por dia pelo menos. É aquela coisa: música ambiente, sombrio, às vezes tem silêncio sinistro, às vezes tem ritmos sinistros, às vezes parece que você está num hospital abandonado, às vezes parece que a indústria do desconhecido tá em plena atividade.

Kovtun é o stage name de Raphael Mandra, de Ribeirão Preto (SP), que produz esses sons para quem gosta de música para além de ritmo, melodia, harmonia e letras. Não é todo mundo que curte essa parada, eu sei, mas todo mundo que curte um dark ambient conhece Kovtun (ou deveria conhecer).

A cada trabalho, Raphael tenta incluir elementos novos sem perder de vista o núcleo sonoro de faz do Kovtun o que ele é. Enquanto alguns artistas partem do cavernoso para criar alguma beleza (caso da Demen e também do Arca em alguns momentos), me parece que Kovtun não está muito interessado em dar esse salto para o outro lado, mantendo o seu mundo sonoro tenso, misterioso, e com pouca luminosidade mesmo. Achei Infernal, de 2017, um tanto ruidoso. Death, por outro lado, é muito mais equilibrado e ouvi todas as vezes do começo ao fim sem sair do clima proposto pelo artista.

“The Swarm” é minha faixa preferida. “Everything Must Finish Exempt From Suffering” é a mais fora da caixa, pois basicamente são duas faixas, uma sobreposta à outra. Ideia sensacional, execução inteligente, desconforto garantido.

SUNGAZER | ⭐⭐⭐⭐😵

SUNGAZER VOL. 2 é um EP muito bom do duo Sungazer, formado pelo baixista Adam Neely e pelo baterista Shawn Crowder. Vol. 2 segue o estilo do Vol. 1, entregando mais uma leva de canções que fundem jazz com EDM, glitch e sons de videogame 8-bits. A dupla faz coro com as encarnações mais atuais possíveis do jazz nova-iorquino.

Adam Neely é um estudante de música muito dedicado e possui um canal no YouTube que, aparentemente, virou sua melhor fonte de renda. E o conteúdo dele é bom mesmo, eu garanto! A música que ele faz com Shawn Crowder não é bolinho e nem viraria hit no YouTube: cada faixa tem uma profusão de ritmos, harmonias complexas, momentos de groove, momentos de virtuose, difícil saber onde termina o jazz e a loucura com a música eletrônica começa. Mas sério: se você acha que jazz hoje ainda se resume ao que viu em filme do Damien Chazelle ou em figurões antigos, ouça Sungazer e surpreenda-se.

“Drunk” foi gravada com os músicos realmente altos de tanto beber. “Bird on the Wing” é provavelmente a minha favorita do EP, cheia de vida, de ideias e em compasso 9/8. “Electro” tem ritmos complexos e quebrados, carregada de efeitos sonoros em sua porção mais EDM, além de um ótimo solo de sax no miolo.

Se neste início de 2019 você estiver procurando algo que represente o que existe de mais arrojado em termos de música contemporânea e que tenha um lado comercial, Sungazer Vol. 2 é um ótimo exemplo.

Daughters, Marianne Faithfull e Jon Hopkins

DAUGHTERS | ⭐⭐⭐⭐⭐

O quarteto de Rhoade Island quebrou o silêncio de 8 oitos anos do jeito que qualquer fã do Daughters adora: com YOU WON’T GET WHAT YOU WANT, um disco forte e violento, que causa desconforto, mas uma certa fascinação também, como uma cena tensa em filme de suspense e terror no estilo Mandy.

O riffs são repetitivos, como é característico nesse tipo de rock alternativo praticado pelo Daughters e Swans. Mas as repetições são importantes, pois serve de mantra, uma forma de a cada volta enredar o ouvinte em uma espécie de ladainha profana que instiga algo dentro do ouvinte a cada compasso.

You Won’t Get What You Want é bad vibe pra caramba. As guitarras às vezes parecem serras, a bateria uma grande marreta e o vocal de Alexis Marshall não está preocupado com melodias. Tudo bem ao estilo daquele kautrock alemão. Um tipo bem específico de rock.

A banda estava espalhada pelos Estados Unidos e precisaram aprender a compor junta novamente, mandando arquivos demos de um lado para o outro até conseguirem gravar o trabalho final. Não houve receita, apenas a fé de que haveria disco novo se fizessem canções à altura do legado da banda.

Todo o processo demorou três anos, mas o Daughters mostra que está afiadíssimo e faz um dos grandes trabalhos do ano. “Long Roads, No Turns”, “Satan In The Wait” e “The Reason They Hate Me” são preciosidades de YWGWYW.

MARIANNE FAITHFULL | ⭐⭐⭐⭐⭐

NEGATIVE CAPABILITY mostra como a maturidade é uma coisa linda mesmo. Nem sempre os mais maduros são os mais inovadores em suas áreas, mas entregam obras dotadas de uma sensibilidade que só quem não tem mais paciência para papo furado é capaz de conceber.

A cantora folk e atriz inglesa Marianne Faithfull vai direto ao ponto e preenche canções delicadas com letras sobre amor, solidão, morte (inclusive a sua própria) e temas mais gerais, como a chacina extremista no Bataclan em Paris em 2015. Tudo de peito aberto e de forma poética, sim, mas com honestidade pungente. “To die a good death, is my dream“, ela canta em “Born to Die”.

Várias faixas parecem improvisadas, como se Faithfull e banda encontrassem seus tempos on the fly. E boa parte do álbum combina um clima onírico de sintetizadores com levadas de violão, ambos sobrepostos pela voz rouca da cantora. Estrutura simples, mas produção sofisticada. Se essas características lembra os últimos discos de Nick Cave And The Bad Seeds, não é por acaso. Cave coescreveu “The Gypsi Faerie Queen” com Marianne e Warren Ellis, grande responsável pelo som contemporâneo do australiano, é um dos produtores de Negative Capability.

Há músicas completamente novas (dentre essas, destaco “In My Own Particular Way” e o rock soturno “They Come At Night”, em parceria com Mark Lanegan) e releituras como “It’s All Over Now, Baby Blue”, “Witches Song” e a histórica “As Tears Go By” que, caso você não conheça as versões originais, vão passar como músicas novas de Negative Capability, tamanha é a coesão estética do projeto. “Loniest Person” é um cover do Pretty Things de 1968.

Assim como Leonard Cohen em seus últimos álbuns, Marianne Faithfull faz agora uma espécie de canto do cisne. Não queremos que signifique e nem marque seu fim, mas se assim for, ela sairá por cima. É um álbum de sensações que só quem já viveu muito consegue exprimir.

JON HOPKINS | ⭐⭐⭐⭐⭐

O produtor inglês Jon Hopkins dá continuidade ao seu projeto de música eletrônica iniciado com o disco anterior, Immunity (2013), e consegue superá-lo com SINGULARITY, o quinto de sua carreira.

O disco saiu em maio e de lá para cá colecionou elogios. Ele merece mesmo. Com muitas faixas longas, duas acima dos 10 minutos e três acimas dos 6, ele se deu espaço suficiente para fazer composições que servem tanto para a pista de dança quanto para o cérebro. “Emerald Rush” é um excelente single! Ouvi Singularity durante uma manhã de trabalho intensa essa semana e me peguei virando a cabeça ao ritmo hipnótico de “Everything Connected” enquanto tentava encontrar uma solução para o que a tela do computador me mostrava. Estava motivado e não era por conta do trabalho – e nem por causa do café, que não bebo.

Singularity está cheio de camadas e imaginação. Batidas ritmadas podem sofrer interferências, podem se dissolver em música ambiente, oferecer alívio como uma faixa noturna de dinâmica mais baixa (como a linda “Feel First Life”), e podem voltar a soar grandes e poderosas sem precisar de grandes refrãos. Hopkins é um dos grandes caras do techno atual há alguns anos e Singularity o mantém nesse posto com folga.