Black Hole: uma das HQs mais estranhas que já li

Eu tinha a percepção de que BLACK HOLE era uma história em quadrinhos esquisita desde que foi publicada no Brasil pela primeira vez, mais de 10 anos atrás, pela pioneira editora Conrad. A capa de cada volume era um rosto sorridente. Um sorriso meio maníaco, meio doente, meio psicopata. Um sorriso menos exagerado que o do Coringa e, talvez por isso mesmo, muito mais preciso em seu mal-estar.

Tinha muita vontade de ler, mas sempre deixava a obra de Charles Burns de lado. Fui adquirir só recentemente essa graphic novel, e adquiri a nova edição lindona da editora Darkside, com a história na íntegra e tradução do escritor Daniel Pellizzari. Nesta altura do campeonato, já sabia da importância de Black Hole para os quadrinhos alternativos e autorais e de como alçou Burns para um patamar de maior destaque na área dos quadrinhos americanos, mas nunca soube absolutamente nada do enredo ou sobre algum de seus personagens até de fato começar a ler a edição brasileira. Ainda tenho a mesma impressão do sorriso na capa, mas comecei a ler como às vezes sou levado a ver um filme sem nem ter visto o trailer.

Black Hole é um dos quadrinhos mais estranhos que já li. Publicado originalmente entre 1995 e 2005 de forma seriada, representa uma juventude de meados dos anos 70 que está descobrindo amor, sexo, usando drogas, sentindo medo e tentando viver. Os pais existem mas não estão nessas páginas. Todos eles, independente das boas notas e da beleza, acabam todos virando párias. É uma história sobre outcasts por excelência, com um elemento fantástico: por algum motivo, o contato íntimo entre esses jovens acaba contaminando-os com alguma coisa que abre fendas em seus corpos, deformando partes ou até criando novos membros.

De cara isso lembra um pouco os filmes de David Cronenberg, com aquele fundo filosófico a partir dos corpos e das mutações que ele sofre. Cronenberg faz intervenções muito mais radicais, de certa forma, o que o aproxima da ficção científica. É claro que Burns usa as mutações como uma metáfora para a juventude e suas transformações, mas foge do “tudo vai ficar bem”, colocando uma aura constante de inadequação, falta de perspectivas e de saídas. Eu já tinha lido 80% da obra e pensava que não fazia ideia de como aquilo poderia acabar.

Se a questão do corpo – de onde partem as cisões na vida dos personagens – lembra Cronenberg, o aspecto misterioso geral do livro fazia eu sentir como se estivesse vendo Donnie Darko novamente. Com certeza, é uma das coisas mais estranhas que já li nos quadrinhos. Perde apenas, talvez, para Uzamaki e Fragmentos do Horror de Junji Ito.

Mesmo sendo uma obra dos anos 90 retratando os anos 70, quando adolescentes não estavam colados aos seus celulares, Black Hole tem uma narrativa que se mantém atual até hoje, mais de 20 anos após seu início. As sombras sobre a juventude ainda são as mesmas. A arte de Burns, sem tons de cinza, abusa do nanquim para criar escuridão em 90% dos quadros, o que também quer dizer muitas coisas sobre como retrata esse público, como se algo sinistro ou oculto estivesse à espreita o tempo todo, mesmo quando Chris, Rob, Eliza e Keith tentam ser o mais afetuosos possível. Há ternura mesmo nas situações mais irracionais.

Algo de que gostei muito em Black Hole foi de como Charles Burns dispensou a procura por lógica. Os personagens “infectados” não vão ao médico, não conversam sobre suas mutações, não tentam encontrar um ponto de origem, não há busca por cura. Eles seguem vivendo, se conformando com o que viraram, se afastando do resto da sociedade e em alguns casos tentando imaginar uma vida possível idilicamente. Afinal, como é que se cura a adolescência, suas transformações e seu mal-estar? Pois é, isso não se cura.

Antes de ir para a Evergreen State College (inclusive ao mesmo tempo que Matt Groening, criador dos Simpsons, estava lá), o autor lia Batman e Superman, comprava as edições da MAD quando ainda eram sobre quadrinhos (em branco e preto e cheias de coisas “alternativas”) e Zap, de Robert Crumb, foi uma das HQs que logo tiveram impacto sobre ele. Antes de começar a escrever e publicar sua mais famosa história, Burns já estava às voltas com a ideia de falar sobre adolescentes e uma praga ou doença em histórias curtas. Quando começou Black Hole, concentrou-se muito mais em seus personagens, em como viajar para o interior deles, do que em aprofundar a trama em sim. Aliás, aprofundar os personagens é uma forma de aprofundar uma trama também, dar uma terceira dimensão a ela.

Desde 2005, quando a Pantheon Books publicou o livro completo com todas as edições de uma vez e o público da HQ foi ampliado com vendas em livrarias (e não apenas em comicshops), há o projeto de um filme. Neil Gaiman e Roger Avary (de Pulp Fiction) chegaram mesmo a escrever um roteiro, mas então a direção passou para David Fincher (de Clube da Luta) e outro teria que ser feito. Desde março de 2018, os direitos da adaptação estão com a Plan B, produtora do Brad Pitt, e sob os cuidados de Rick Famuyiwa, que lançou Dope em Sundance em 2015, como diretor e roteirista.

Impossível saber se o projeto vai vingar ou não no cinema, mas vale a pena aproveitar para ler Black Hole na íntegra. A experiência do branco e preto nas páginas de alta gramatura e capa dura da edição brasileira só aumenta o estranhamento dessa história.

BLACK HOLE
Charles Burns
Tradução de Daniel Pellizzari
Editora Darkside Books
368 páginas

O PERFURANEVE: a sociedade em um trem

Publicado no Brasil pela editora Aleph, O PERFURANEVE (Le Transperceneige) é um quadrinho francês que muita gente deve conhecer pela sua adaptação cinematográfica, O Expresso do Amanhã (2013). Porém, apesar de o filme ter um bom diretor, elenco estrelado e estética estilosa, não é lá grande coisa no final das contas. O quadrinho, por outro lado, é chocante.

O Expresso do Amanhã apenas pegou a premissa mais básica da obra. Uma hecatombe transformou a Terra e seus oceanos em um deserto de gelo. Quem sobreviveu está a bordo de um sofisticado trem de mil vagões chamado Perfuraneve, que nunca para de rodar. Como é a última esperança da humanidade, é tratado com uma reverência religiosa: a “Santa Locomotiva“.

O trem é uma amálgama da sociedade. No fundão estão amontoados aqueles desprovidos de status social e dinheiro (seja lá o que for que dinheiro ainda signifique nesse mundo arrasado). No meio está o que sobrou da classe média, uma grande quantidade de pessoas que vive com alguma dignidade e que movimenta o trabalho dentro do Perfuraneve, mas longe dos privilégios de quem está nos vagões Dourados. Nesses espaços mais à frente da locomotiva há comidas finas, mordomias, espaço de sobra e até o sexo é usado pelos autores do quadrinho como uma forma de demonstrar uma clara separação entre os que têm e os que não têm poder.

A graphic novel é dividida em três partes. “O Perfuraneve” (seriado originalmente em 1982 e compilado em 1984), foi escrita por Jacques Lob e desenhada por Jean-Marc Rochette. Lob acabou falecendo e as duas continuações, “O Explorador” (1999) e “A Travessia” foram escritas por Benjamin Legrand. Lob fez uma incrível crítica social na primeira parte da obra e desde as primeiras 10 páginas já é possível ver como o filme deixou de lado grande parte da tensão sociológica e política da obra. Não que o filme não tenha toda a questão da luta de quem está no fundo por uma sobrevivência mais digna, mas os embates na página são muito mais presentes do que na tela.

É difícil saber o que Lob faria se pudesse ter continuado ele próprio a história do Perfuraneve, mas Legrand conseguiu manter a tensão e o conteúdo político, além de dar um jeito de incluir em sua narrativa o que Lob havia criado 15 anos antes. Rochette, que fez a arte de toda a série, manteve o branco e preto noir em tudo, mas a arte das duas últimas partes é diferente, com mais cinza e menos retícula.

Mesmo assim… que história de louco! Ter esperado tanto tempo pra abandonar os vagões do fundo e pensar nos moradores de lá!… O seu presidente tá querendo ficar com a consciência limpa… mas é um pouco tarde mais…

Na história de Lob acompanhamos Proloff, um “fundista”, que foge da decrepitude dos últimos vagões e é capturado lá pelo meio do trem. Uma mulher, Adeline, quer acompanhá-lo até a frente, onde está a chefia militar e civil do Perfuraneve, para cobrar os direitos dos fundistas. Na segunda e terceira partes, acompanhamos a ascensão de outro homem, Puig Vallés, que parte de um posto de trabalho perigoso para o Conselho do trem. Nas duas temos um tipo de ascensão social, porém sempre feita oportunamente para manter aparências e status quo.

Em suas mais de 250 páginas, os excluídos são deixados para trás enquanto os mais abastados, em seus vagões dourados, tramam como manipular a informação e a percepção da Segunda Classe para fazerem o que continuará a garantir seus privilégios. Essa manobra lembra alguma coisa que você já viu? Seja nos anos 80, 2000 ou até agora nos EUA ou no Brasil, a estratégia é sempre a mesma.

E é por isso que O Perfuraneve, o quadrinho, chegou à categoria de cult e é universal. O filme que ele gerou até é interessante, mas em nome do espetáculo o personagem de Chris Evans acaba virando um herói das massas, sendo que nos quadrinhos a realidade é mais sombria e, como a arte de Rochette, tem muitos tons de cinza. Há pouquíssimo heroísmo e muita politicagem, envolvendo autoridades civis, militares e religiosas. O povo… bem… é tratado como o gado de sempre.

A editora Aleph fez um trabalho de edição linda. É grandão, páginas com alta gramatura, 1,5 kg de massa e tem um posfácio bem interessante de Rochette. É um belo exemplar de quadrinho europeu e de distopia hardcore até o último quadro.

O PERFURANEVE
Jacques Lob, Jean-Marc Rochette e Benjamin Legrand
Tradução de Daniel Lühmann
Editora Aleph
280 páginas