Não há série como The Handmaid’s Tale na TV

Entre 2017 e 2018, poucas séries foram tão impactantes e trouxeram temas tão importantes à tona quanto THE HANDMAID’S TALE, baseado no livro O Conto da Aia, de Margaret Atwood. Por mais complexidade e elegância que Westworld tenha trazido à TV e por mais que Games of Thrones esteja chegando ao fim e excitando os espectadores com suas intrigas palacianas, a história de June/Offred (Elisabeth Moss) em Gillead é aquela que te faz olhar ao seu redor, no incrível agora, e ver como diversos temas, violências objetivas e subjetivas retratadas no mundo distópico da série estão ao nosso redor.

Afinal, quem nunca viu um homem citando versículos bíblicos para controlar e determinar o comportamento de uma mulher? Quem não vive em uma sociedade em que homens e mulheres são tratados de forma diferente e geralmente colocando as mulheres em posições de submissão?
A segunda temporada de The Handmaid’s Tale continua aprofundando os mecanismos perversos usados pela nação teocrata de Gillead, que substituiu os Estados Unidos, para tomar o controle da situação, colocando a palavra da Bíblia acima da razão, ou misturando as duas coisas.

Na realidade em que se passa a história, a taxa de natalidade caiu, o que levou a um golpe de estado em que um novo regime foi instaurado: mulheres ainda capazes de engravidar são aias (serviçais) que além de fazer as compras da semana, são estupradas e servem de parideiras para homens poderosos do governo de Gillead. Os filhos resultantes dessa violência são tratados como filhos dos casais poderosos, enquanto a aia, que deu a luz, é passada a outro chefão do pedaço, repetindo um ciclo desesperador. O que vai ficando claro é que o problema na taxa de natalidade pode não estar na ovulação das mulheres, como o novo governo teocrata acredita, mas sim nos homens.

Photo by: George Kraychyk/Hulu

É BRUTAL

Se a primeira temporada foi pesada, a segunda conseguiu ser tão brutal quanto. Não há um episódio em que algo revoltante não ocorra. Quando os roteiristas dão um jeito de tornar a vida de June/Offred mais suportável, logo depois algo ocorre para termos certeza de que não há lado bom em Gillead.

A segunda temporada aprofunda a personagem de Serena Waterford (interpretada pela australiana Yvonne Strahovski). Chegamos mesmo a sentir pena e a entender o lado dela, mas a humanidade dela esbarra em seus próprios desejos e em sua crença política e religiosa. Leva quase toda a temporada para que June, após sofrer todo o tipo de violência física, mental e sexual, consiga mostrar como Gillead, o estado que ela ajudou a criar, é nocivo para as mulheres. E embora a gente torça para que o castigo da personagem venha de June, é o próprio marido e o sistema de Gillead que lhe dá uma pequena amostra de como opera uma ditadura cristã.

– Nós acreditamos que nossos filhos e nossas filhas… deveriam aprender a ler.
– Essa é uma proposta radical, Sra. Waterford.

Emily, a personagem de Alexis Blendel (vencedora de um Emmy pelo papel na primeira temporada), ganhou sobrevida. Por meio dela, conhecemos os tóxicos campos de trabalho forçado que haviam sido apenas sugeridos na temporada anterior. Tão esmagada pelo sistema quanto June, acompanhamos o desabrochar de seu instinto assassino.

A segunda temporada deixa claro também como de todas as séries recentes, nenhuma expressou uma qualidade estética tão marcante. Vermelho para as aias; verde-azulado para as esposas de generais; cinza para as martas; preto para os homens e figuras de autoridade; e há ainda aquele leve filtro esverdeado que contamina todas as cenas no presente de Gillead. Os olhos verde-água de Elisabeth Moss e Bledel, filmados no contra-luz, reforçam ainda mais a preciosidade estética da fotografia da série.

Assim, na mente de quem vê a série, um vestido vermelho deixa de ser só o vestuário das aias e se torna um símbolo de papel social, de submissão, de resistência ao verde das mulheres de generais. No entanto, ao mesmo tempo em que o verde é a cor “oposta” ao vermelho na roda das cores, ele é também a sua cor complementar. E a segunda temporada da série gasta a paciência de June (vermelha) tentando mostrar a Serena (verde) que ambas são mulheres e que, apesar da diferença na hierarquia, a luta de uma é a luta da outra também.

Se Game of Thrones repete a fórmula de Família Soprano (você não sabe quem vai morrer, mas sabe que muitos personagens importantes vão dessa pra melhor), The Handmaid’s Tale prefere matar seus personagens um pouquinho por episódio. Assim vamos entendendo o que essa forma misógina de pensar faz com a cabeça de uma mulher, até ser totalmente justificado que Emily tenha sede de vingança e impulsos homicidas em sua falta de esperança de que algo mude. Episódio por episódio, vemos como o mundo pode ser não mais cruel, mas cruel em tantas formas diferentes, como se perder a família e ter seus direitos anulados já não fosse o suficiente.

Photo by: Take Five/Hulu

É POLÍTICA

The Handmaid’s Tale levanta assuntos importantes. Até mesmo uma piada por meio de um trechinho de um episódio de Friends no segundo capítulo tem função política ali, fazendo uma crítica ao modo como as mulheres são encaradas. Em um mundo em que os EUA elegem um presidente que certamente tem um comportamento repreensível quanto às mulheres, justamente no momento histórico em que mulheres de várias áreas reivindicam o cumprimento de seus direitos, não é algo para se ignorar.

O Brasil não escapa a este cenário. Quando as mulheres mais querem ter voz, é quando mais tentam abafá-las, e com a ajuda de uma boa parcela da população que, neste momento, às vésperas da eleição, temos um candidato a presidente misógino, defensor de um “Brasil grande novo” com “Deus acima de todos”, com maior intenção de votos no primeiro turno. Felizmente, a rejeição a este candidato por parte das mulheres é grande. De outro modo, vejo amigos cristãos declarando votos em candidatos que abertamente defendem a liberação de armas, como se Jesus, em algum trecho do livro sagrado para eles próprios, defendesse essa ideia. Sei que meus amigos não defendem a liberação de armas, mas como Serena na série, fingem que esse assunto não está no pacote do candidato. E assim vai-se moldando o futuro e como escolhemos ver apenas o que nos interessa.

Se June reage, não é apenas à Gillead, é ao nosso planeta em 2018 mesmo. Se Serena é uma mulher cínica, que finge não ver o que ocorre bem debaixo de seu nariz, é porque reflete tantas mulheres que conscientemente escolheram acreditar em alguma “verdade superior”; e/ou reflete as mulheres que não entenderam que só porque um abuso ainda não foi cometido contra ela não quer dizer que não possa acontecer caso os direitos de todas as mulheres não sejam garantidos.

Poucas são as séries que se mantêm incrivelmente relevantes até o final, mantendo o mesmo fôlego. Das mais recentes, Breaking Bad é a única que me vem a mente. Mas mesmo a série de Vince Gilligan, cujos méritos já foram bastante explorados ao longo da última década, não levou ao audiovisual uma conotação política tão aguda e urgente. É por isso que, a julgar pelas duas primeiras temporadas, falo com tranquilidade que hoje não há série tão importante quanto The Handmaid’s Tale na televisão. Não há programa que cause maior perplexidade em sua audiência.