Sharp Objects e as palavras

As grandes metrópoles que nos deem licença. Por mais que seus becos, suas periferias pouco vigiadas e metrôs cheios de gente e de indiferença sejam ótimos subterfúgios para crimes e toda sorte de situação estranha, nada parece mais insólito do que as pequenas cidades. SHARP OBJECTS, minissérie da HBO que adapta Objetos Cortantes, o romance de Gillian Flynn, vem engrossar o caldo de cidadezinhas do interior com suas próprias idiossincrasias, aristocracias, senso de justiça e segredos lúgubres.

Amy Adams, com uma atuação acima da média, é a jornalista Camille Preaker, convidada pelo seu editor do jornal da grande St. Louis, na divisa do Missouri com Illinois, a passar uns dias em sua cidade natal, Wind Gap, no interior profundo, para investigar a morte de uma adolescente e o desaparecimento de uma segunda. A jornalista é meio ferrada na vida: passou anos se cortando para aliviar a dor mental e, agora que já consegue não se automutilar, bebe pra caramba para aliviar a ansiedade e o sofrimento. O problema é que ao voltar para Wind Gap e confrontar a mãe, o padrasto e o quarto vazio da irmã que morreu quando Camille ainda era pré-adolescente, muitas memórias e muita dor recaem sobre a jornalista que não vê a hora de cair fora dali.

Logo após chegar a Wind Gap e começar a acompanhar o caso – muito a contragosto das autoridades locais e de sua mãe, dona da indústria de carne suína que movimenta a economia local -, Camille reencontra sua irmã mais nova, a adolescente Amma Crellin, interpretada com uma vivacidade incrível por Eliza Scanlen.

– Quando ouve o que as pessoas dizem todos estão loucos ou são maus. Apenas a metade é verdade.
– Isso é o que me preocupa. Estamos vendo a metade errada.

Com apenas oito episódios de uma hora cada, ouvi comentários de que a série poderia enrolar para chegar a seu final. Não é o caso. O assassinato e o novo desaparecimento, que logo se confirma como mais um homicídio hediondo, nunca perdem espaço na série. Mas o que os roteiristas e o criador Marti Noxon fazem é dar espaço para que se desenvolva a relação de Camille com sua mãe, Adora Crellin (Patricia Clarkson, uma perfeita mulher do sul dos EUA) que nunca foi das melhores e continua não sendo, sua relação com os homens, sua relação com os lugares de Wind Gap, e sua relação consigo mesma.

Não são poucas as cenas em que acompanhamos Camille em seu Volvo 240 GL dos anos 80, quase sempre com o celular conectado ao sistema de som e rolando um bom Led Zeppelin (suspeito que boa parte do orçamento de Sharp Objects tenha sido queimada com o licenciamento das músicas do quarteto inglês). A princípio, essa cenas de Camille rodando pela cidade podem parecer enrolação, mas aos poucos se tornam um espaço para vir à tona lembranças, emoções e reflexões.

PALAVRAS E IMAGENS

Dois elementos visuais são incrivelmente marcantes e fugazes na série. O primeiro, impossível não notar, é a edição que coloca microssequências de alucinações ou de memórias de Camille no meio de uma cena linear da narrativa principal. Piscou, perdeu. Em diversos momentos voltei a cena e fui assistindo frame a frame para ver melhor todos os vultos e fantasmas que assombram a jornalista.

Todas essas lembranças que piscam na tela e todas aquelas relações que vão se desenvolvendo paralelamente à investigação dos crimes são importantes para o desfecho, acredite. A pasmaceira não é só efeito estético ou enrolação. É parte de uma criação sofisticada de plot.

O segundo elemento visual pode ter passado despercebido. Tratam-se de palavras que podem ser encontradas ao longo da série nos mais insuspeitos locais. Caçá-las nos enquadramentos é como procurar pelos easter eggs de jogos de vídeo-game. O diretor canadense Jean-Marc Vallée e os diretores de fotografia Yves Bélanger e Ronald Plante resolveram seguir a metodologia “esconder em plena vista”.

Essas imagens espalhadas pela série às vezes estão mesmo escritas onde aparecem. Outras vezes, é a mente de Camille as colocando lá. Um quadro onde se lia “Hope” muda para “Hurt“; “Scared” (com medo) na porta de um carro muda para “Sacred” (sagrado); o logo da Caterpillar vira “Catfight“; o sinal de “Open” (aberto) em uma loja vira “Omen” (presságio). De todo modo, servem como uma parte do design da série. As palavras nos dão pistas e nos dão sentido, assim como as palavras que estão marcadas no corpo da protagonista.

E as palavras ditas em alto e bom som também dão pistas. Embora a identidade do assassino só seja descoberta no último episódio, quando você menos espera, eu pude apostar todas as fichas em um dos personagens logo a partir do segundo episódio. Quem prestar atenção às palavras ditas – não nas que estão “escondidas” no ambiente – notará uma relação difícil de ignorar, uma escolha de termos que não é por acaso. O enredo cria várias circunstâncias que dificultam descobrirmos qual dos suspeitos é o bicho-papão de mocinhas, mas confiar nas palavras provou ser uma forma de foreshadowing (antecipação de uma revelação ou acontecimento) bem interessante.

Sharp Objects dá a Amy Adams um papel de destaque pelo qual ela pode ser lembrada e, de fato, ela parece perfeita na pela da jornalista. Eliza Scanlen é uma jovem que sai da série com um portfólio incrível para conseguir novos trabalhos. Ela mostra presença, confiança, doçura, atitude e habilidade com a patinação. Fica trás só de Adams.

Abaixo temos algumas das palavras que aparecem ao longo das cenas. Algumas estão lá mesmo, outras são substituídas, outras não estão, outras se disfarçam de frases totalmente dentro de seus contextos (como as da clínica). Mas nenhuma delas é inocente e todas querem nos dizer algo. Há muitas outras pela série.

Falling
Faith
Sacred
Bitch
Yelp

Os Homens Difíceis que mudaram a TV

Indicaram HOMENS DIFÍCEIS, de Brett Martin, em um podcast. Me interessei, pois há tempos queria ler algo que contasse como foi que a televisão dos Estados Unidos deu um salto de qualidade. O preço na Amazon estava excelente e em 30 segundos o livro estava no meu Kindle.

Eu queria um livro sobre a mudança na qualidade da TV e acabei lendo um que conta como isso ocorreu do ponto de vista dos roteiros. Eu, como jornalista que atua em publicidade, interessado em storytelling em todas as mídias e também um roteirista, não poderia me identificar mais com essa abordagem.

Família Soprano se torna arte na medida em que se propõe como mais do que uma história de mafiosos e se apresenta como um tratado sobre a família americana. […] É também dessa maneira que The Wire deve ser avaliado… Como veículo para declarações sobre a cidadania americana e inclusive sobre a experiência americana.”

O livro conta como a HBO encabeçou essa mudança, primeiro para ela mesma, e depois, para toda a rede de produção de conteúdo original televisivo, ao apostar no roteiro de David Chase para Família Soprano. De alguma forma, sabiam que o material era bom, mas bom de uma forma que ninguém tinha muita certeza se o público poderia se interessar por aquilo, contado daquela forma. Deu certo e, então, várias outras séries, da HBO e de outros canais, tentaram seguir não o mesmo receituário, mas o mesmo salto de fé em algo com potencial, mas que talvez fosse uma ideia que todos enxergavam como uma proposta artística para o cinema, e não para a TV.

Além de Família Soprano, que é a série mais extenuadamente analisada por Martin ao longo de todo o livro, conta-se detalhes preciosos de The Wire, A Sete Palmos, Deadwood, The Shield, Mad Men e Breaking Bad. Outras séries, como True Blood, Girls e Damages, também são destacadas, mas com menor ênfase. E junto com todas elas, Martin traz um histórico e análises do modus operandi de seus responsáveis, os showrunners.

Se quer entender o que é um showrunner e como eles foram importantíssimos para essas séries nesse novo contexto, Homens Difíceis não deixa dúvidas de como trabalhavam, o que era esperado deles e como cada um tinha alguma característica capazes de meter medo em todo mundo. David Chase era rabugento e difícil de dobrar. Queria dirigir filmes originalmente. David Simons (showrunner de The Wire), era obstinado, extremamente preocupado com os detalhes e com a coerência de tudo que colocaria na tela. David Milch (Deadwood), além de um vício em álcool e heroína, simplesmente parou de fazer roteiros em certo momento e começou a criar cenas e diálogos para suas produções no set, com câmera e atores esperando para saber o que fazer. Ninguém nunca sabia o que ia acontecer. Matthew Weiner [Mad Men] era o artistão da parada e queria ser o auteur por excelência em seu feudo. Todos lideravam suas equipes como déspotas.

Segundo Brett, o único que foge à regra é Vince Gilligan. O criador de Breaking Bad não ficou putinho quando sua ideia foi rejeitada por uma penca de canais e sabia criar um ambiente de trabalho interessante. Ele se via como mais uma peça na engrenagem, não como o único merecedor dos créditos pelo programa.

A sala de roteirista é outro elemento famoso dessas produções. O livro detalha como elas foram formadas, como funcionam e como uma equipe de escritores era capaz de escrever um arco inteiro de 10 ou 13 episódios sem se perder ou, pelo menos, de forma que todos levassem à frente a mesma narrativa. Há muitas histórias de bastidores em Homens Difíceis, mas as que ajudam a esmiuçar a dinâmica nas salas de roteiristas são algumas das mais interessantes.

Homens difíceis – como seus showrunners -, complexos e bastante controversos são elementos que dão a tônica nas séries analisadas e que mostraram que a TV pode contar histórias de qualidade, com técnicas de filmagem provenientes do cinema, correndo riscos criativos, deixando o público puto, estarrecido e, se desse na telha do showrunner, até mesmo a ver navios – como o final de Família Soprano. Dessa forma, elevaram o que se faz na TV ao estado de arte, algo que até 1999 era impensável. E assim, atraíram atores e atrizes do cinema para o formato. A primeira grande estrela do cinema a topar ir para a TV foi Glenn Close [em Damages]. Esse período o autor chama de Terceira Era de Ouro.

“Sem finais” acabou significando “sem finais ruins”, nada de catarses baratas.”

Como já estamos vivenciando uma continuidade dessa Terceira Era de Ouro, é interessante ver como o mercado existia, apenas com redes de televisão abertas e fechadas, e hoje temos Netflix, Hulu, Amazon, e tantas outras plataformas, todas apostando em material original. Homens difíceis ainda existem, mas atualmente há muito foco em papeis e protagonistas femininas, em histórias que vão muito além de mostrar mulheres difíceis, fortes e/ou controversas. Há todo um contexto construído ao redor disso que amplia o discurso dessas séries, seja Orange Is The New Black ou The Handmaid’s Tale, que talvez seja a melhor série produzida ultimamente. Até mesmo Game of Thrones está em dia com essa mudança.

Daqui alguns anos, quando um livro parecido com Homens Difíceis existir e contar esse novo modelo da TV, vai ser interessante observar como o contexto mudou e elegeu a mulher sua protagonista. E pode apostar que não haverá como não lembrar do quarteto de Sex And The City como um prenúncio disso tudo.