Capitão Nemo, Sharon Van Etten e James Blake

CAPITÃO NEMO | ⭐⭐⭐⭐

Quando escrevi sobre o Bon Voyage, primeiro disco da banda Capitão Nemo, ressaltei que era uma banda de rock que não estava perdida em um mundo cor-de-rosa, usando mesmo o poder de riffs e bateria firme para falar inclusive de problemas sociais sem perder o feeling pop. E essa é a característica dos piracicabanos que continua ressoando no novo EP da banda, EU NÃO NASCI PARA SER O MESMO.

É um lançamento bem curto (nem 15 minutos de som) com quatro faixas curtas, mas já mostram a banda mais madura e deixam a porta aberta para um segundo disco tão bom ou melhor que Bon Voyage.

Como cantor, Bruno Razera está ainda melhor. Não só não há o que dizer de coisas mais técnicas como afinação e respiração, mas o carisma que transmite com seu timbre, mesmo que ele não esteja cantando na sua frente, é algo que fica ainda mais nítido em Eu Não Nasci Para Ser o Mesmo. O rock das duas primeiras faixas, “Ser o Mesmo” e “Aqui Se Faz, Aqui Se Paga”, é rápido e direto. Mesmo que tenha algo de vintage, seja na escolha dos instrumentos, pedais ou amplificadores, a produção soa moderna e sofisticada, com diversos bons arranjos, dando mais corpo às canções. Ponto para a banda e para a produção de Giu Daga, que tem três Grammys latinos no currículo e trabalhas com Titãs e NX Zero.

“Carta” não tem tom crítico ou político, mas é, para mim, a canção desse EP que resume como o Capitão Nemo está mais sofisticado. É uma música de fácil assimilação e que poderia tocar em FMs, podcasts, entrar em boas playlists do Spotify e em trilha de novela global. Mas não digo isso porque ela é comercial. Se tem algo que o Capitão Nemo não se tornou é uma banda de musiquinhas chicletonas e gratuitas. “Carta” é muito bem composta e cria uma atmosfera quase cinematográfica na forma como guitarra, violão e piano se complementam.

Como EP, Eu Não Nasci Para Ser o Mesmo cumpre o papel de introduzir uma nova fase da banda nas mãos de um novo produtor. Em um cenário em que identidade é o que mais falta ao rock’n’roll nacional, sentir que as características do quinteto estão bem preservadas é um excelente primeiro passo até a chegada do novo álbum.

SHARON VAN ETTEN | ⭐⭐⭐⭐

Não é questão de preferir um álbum ou outro. É questão de observar como os cinco anos que separam Are We There e REMIND ME TOMORROW mostram como Sharon Van Etten é mais do que você imaginou que ela seria. Lembro claramente do barulho que Are We There fez em 2014 e como rendeu o maior reconhecimento para a compositora que ela jamais tivera. Como superar aquilo?

Durante todo o tempo em que esteve fora dos estúdios e sem material inédito, ela se formou, teve um filho, virou atriz na série The OA da Netflix e trocou as guitarras por pianos e novas texturas. E ainda assim ela continua soando tão indie rock e indie pop quanto antes, com a mesma melancolia, sem se render aos refrãos fáceis. Muda-se a produção musical, mantém-se o mesmo DNA.

Às vezes, ao discutir a estética do artista, olhamos apenas para o som que está saindo de nossos fones e dos falantes do aparelho de som – e isso certamente faz parte da estética. Mas há um elemento mais fundamental, que também é estética, que é a forma como se compõe tudo aquilo, quais são as linhas mestras por trás do resultado sensorial final. Veja que o gênero tragédia, para um filme, não muda. Uma tragédia é um conceito estético, seja ela retratada em um futuro cheio de luzes e decadência urbana, ou num épico grego de milênios atrás, ou em uma história íntima em 2019. Sharon Van Etten tem seu jeito de fazer as coisas, tem sua própria voz, acima de tudo, e isso não mudou em Remind Me Tomorrow, mesmo que o instrumental possa ser outro.

O álbum tem a tristeza de “I Told You Everything”, a força de “Comeback Kid”, a atmosfera de “Jupiter 4”, o rock alternativo de “Hands” e todo o feeling de “Seventeen”, faixa no qual Van Etten não se segura e, sem aviso, grita. E esse grito mostra que não é nem tudo precisa ser polido, há espaço para a emoção saltar pra fora do peito.

JAMES BLAKE | ⭐⭐⭐🧞‍♂️

Um dos artistas mais interessantes da música eletrônica, James Blake permanece fiel ao seu jeito quase abstrato de fazer música. “Assume Form”, que abre o disco e dá nome ao disco, é a melhor música de ASSUME FORM também. Muda de harmonia, se contorce, coloca orquestrações, coloca um sample de voz sintetizada em loop e só então encontra sua regularidade. A beleza em sua música nem sempre vem fácil. É preciso se deixar levar, entrar no jogo do músico inglês, e ouvir diversas vezes, até que o que soa estranho soe (quase) natural.

Assim como seu nome é bastante requisitado para colaborações, dessa vez ele também pediu para que artistas do hip hop, como André 3000, Travis Scott e Metro Boomin, estivessem em seu álbum. O álbum é uma direção bem mais calcada no hip hop em “Mile High”, “Tell Them” e rap em “Where’s The Catch?”, faixas em que esses artistas aparecem. A cantora espanhola Rosalía também contribui com seus vocais quase etéreos em “Barefoot In The Park”, cantando inclusive versos em espanhol.

Dizer que Assume Form é mais upbeat não significa dizer que Blake tenha encontrado a felicidade em si. Há ainda uma grande quantia de melancolia e experimentação no que ele faz (“Don’t Miss It é o encontro desses dois elementos), mas há também canções mais diretas e que tomam menos detours e acabam sendo pontos altos de Assume Form. É o caso de “I’ll Come Too” e “Power On”. A vulnerabilidade, expressa em sua voz e em sua produção esmerada, ainda são marcas que o inglês sustenta.

Assume Form também tenta dar conta de uma mudança de ares. Blake agora vive em Los Angeles e namora a atriz, modelo e ativista Jameela Jamil. Embora diversas letras sejam sobre ele mesmo e o que ele sente, o artista deixou claro que quase tudo no álbum tem uma referência em seu atual relacionamento. Um rapaz tristonho, sim, mas romântico também.

The 1975 foca no conceito e atira pra todo lado na música

A BRIEF INQUIRY INTO ONLINE RELANTIOSHIPS é o terceiro disco da jovem banda inglesa The 1975 que, ao que parece, substituiu o Arctic Monkeys no quesito “jovem banda inglesa” do indie, já que o AM não é mais tão jovem (e isso é bom, não é?). O tema do disco são os relacionamentos mediados pela internet ou como ela afeta nosso comportamento.

“TOOTIMETOOTIMETOOTIME”, por exemplo, é sobre trocar mensagens com outro alguém. Já “Love It If We Made It” é mais forte, colocando na conta da sociedade atual vários problemas de nossa vida existencialmente cansada e em constante perigo.

O The 1975 é indie rock e sempre esteve muito próximo ao pop, sem nunca esconder essa faceta. Enquanto o primeiro disco deles eu tenha achado um horror, adorei o segundo e entendi qual é a da banda. O terceiro é claramente uma evolução, ampliando muito mais os horizontes musicais do grupo até o ponto de a porção pop tomar muito mais espaço e a porção roqueira estar muito mais mastigada. Aí entra a música eletrônica que faz o papel de representar a internet no contexto da obra e também serve como um dos principais eixos por onde o The 1975 consegue apresentar novas ideias.

Matt Healy é o vocalista, guitarrista e líder da banda. Jovem, carismático, tem problemas com drogas e está em recuperação do uso de heroína. Um personagem clássico do mundo pop para ser admirado pelo que consegue fazer e pelas batalhas diárias que precisa travar consigo mesmo. Ele está ótimo nos novos vídeos da banda, que eu gostaria de comentar separadamente, mas vale a pena ver os clipes de 2018. São bem pertinentes.

O grande trunfo de A Brief Inquiry Into Online Relationships é tratar bem de um tema e ter ótimas músicas e mostrar uma banda que trafega do eletrônico ao trap, do pop/rock de protesto ao pop mais Maroon 5 possível, da balada sentimental ao pop com sopros e influência de jazz. O grande problema de ABIIOR é apontar para todos os lados e parecer uma obra meio desconjuntada: fácil de entender as músicas separadamente, mas uma após a outra dentro do álbum parecem não colar bem uma com as outras. Ter 15 faixas apenas amplia essa sensação de descolamento. Talvez, se tivessem parado em 10 faixas, retirando o que está ali apenas para validar o conceito da obra, teriam acertado melhor. Mas talvez Matty e sua banda não abram mão dos momentos mais conceituais porque são parte do que quer dizer com o disco, mesmo que sacrifique a coesão.

The 1975 é uma das atrações do Lollapalooza 2019 (pela segunda vez) e uma das que vale a pena ver ao vivo, quando a porção rock’n’roll tende a dominar o aspecto geral da apresentação. Confesso que gosto muito da porção mais animada da banda, independente do gênero musical que escolha (o jazzinho de “Sincerity is Scary” ou o pop feliz de “It’s Not Living”), mas as baladas da banda me soam quase sempre melosas demais e uma recuperação de músicas românticas soporíferas e cafonas de boybands dos anos 90. “Surrounded By Heads and Bodies” é a única exceção desse disco.

Muita gente esperava que A Brief Inquiry Into Online Relationships seria um dos álbuns do ano e, dado o status de banda queridinha do momento, não duvido que apareça em alguma lista. Da minha parte, diria que nem sempre a soma de excelentes partes resulta em algo extraordinário.

Contudo, o quarto disco do grupo já está pronto e deve chegar em maio de 2019. Se chamará Notes On a Conditional Form e espero que Matt Healy e banda consigam encaixar melhor as peças e explorem outras ideias, não sendo somente uma continuação previsível de ABIIOR.