O PERFURANEVE: a sociedade em um trem

Publicado no Brasil pela editora Aleph, O PERFURANEVE (Le Transperceneige) é um quadrinho francês que muita gente deve conhecer pela sua adaptação cinematográfica, O Expresso do Amanhã (2013). Porém, apesar de o filme ter um bom diretor, elenco estrelado e estética estilosa, não é lá grande coisa no final das contas. O quadrinho, por outro lado, é chocante.

O Expresso do Amanhã apenas pegou a premissa mais básica da obra. Uma hecatombe transformou a Terra e seus oceanos em um deserto de gelo. Quem sobreviveu está a bordo de um sofisticado trem de mil vagões chamado Perfuraneve, que nunca para de rodar. Como é a última esperança da humanidade, é tratado com uma reverência religiosa: a “Santa Locomotiva“.

O trem é uma amálgama da sociedade. No fundão estão amontoados aqueles desprovidos de status social e dinheiro (seja lá o que for que dinheiro ainda signifique nesse mundo arrasado). No meio está o que sobrou da classe média, uma grande quantidade de pessoas que vive com alguma dignidade e que movimenta o trabalho dentro do Perfuraneve, mas longe dos privilégios de quem está nos vagões Dourados. Nesses espaços mais à frente da locomotiva há comidas finas, mordomias, espaço de sobra e até o sexo é usado pelos autores do quadrinho como uma forma de demonstrar uma clara separação entre os que têm e os que não têm poder.

A graphic novel é dividida em três partes. “O Perfuraneve” (seriado originalmente em 1982 e compilado em 1984), foi escrita por Jacques Lob e desenhada por Jean-Marc Rochette. Lob acabou falecendo e as duas continuações, “O Explorador” (1999) e “A Travessia” foram escritas por Benjamin Legrand. Lob fez uma incrível crítica social na primeira parte da obra e desde as primeiras 10 páginas já é possível ver como o filme deixou de lado grande parte da tensão sociológica e política da obra. Não que o filme não tenha toda a questão da luta de quem está no fundo por uma sobrevivência mais digna, mas os embates na página são muito mais presentes do que na tela.

É difícil saber o que Lob faria se pudesse ter continuado ele próprio a história do Perfuraneve, mas Legrand conseguiu manter a tensão e o conteúdo político, além de dar um jeito de incluir em sua narrativa o que Lob havia criado 15 anos antes. Rochette, que fez a arte de toda a série, manteve o branco e preto noir em tudo, mas a arte das duas últimas partes é diferente, com mais cinza e menos retícula.

Mesmo assim… que história de louco! Ter esperado tanto tempo pra abandonar os vagões do fundo e pensar nos moradores de lá!… O seu presidente tá querendo ficar com a consciência limpa… mas é um pouco tarde mais…

Na história de Lob acompanhamos Proloff, um “fundista”, que foge da decrepitude dos últimos vagões e é capturado lá pelo meio do trem. Uma mulher, Adeline, quer acompanhá-lo até a frente, onde está a chefia militar e civil do Perfuraneve, para cobrar os direitos dos fundistas. Na segunda e terceira partes, acompanhamos a ascensão de outro homem, Puig Vallés, que parte de um posto de trabalho perigoso para o Conselho do trem. Nas duas temos um tipo de ascensão social, porém sempre feita oportunamente para manter aparências e status quo.

Em suas mais de 250 páginas, os excluídos são deixados para trás enquanto os mais abastados, em seus vagões dourados, tramam como manipular a informação e a percepção da Segunda Classe para fazerem o que continuará a garantir seus privilégios. Essa manobra lembra alguma coisa que você já viu? Seja nos anos 80, 2000 ou até agora nos EUA ou no Brasil, a estratégia é sempre a mesma.

E é por isso que O Perfuraneve, o quadrinho, chegou à categoria de cult e é universal. O filme que ele gerou até é interessante, mas em nome do espetáculo o personagem de Chris Evans acaba virando um herói das massas, sendo que nos quadrinhos a realidade é mais sombria e, como a arte de Rochette, tem muitos tons de cinza. Há pouquíssimo heroísmo e muita politicagem, envolvendo autoridades civis, militares e religiosas. O povo… bem… é tratado como o gado de sempre.

A editora Aleph fez um trabalho de edição linda. É grandão, páginas com alta gramatura, 1,5 kg de massa e tem um posfácio bem interessante de Rochette. É um belo exemplar de quadrinho europeu e de distopia hardcore até o último quadro.

O PERFURANEVE
Jacques Lob, Jean-Marc Rochette e Benjamin Legrand
Tradução de Daniel Lühmann
Editora Aleph
280 páginas