MANDY e a arte do terror trash (com Nicolas Cage)

A primeira imagem de MANDY é uma epígrafe em que alguém pede para que seja enterrado com fones de ouvido e falantes de som, para que assim possa curtir o rock’n’roll mesmo na morte. Como um filme, mesmo que estrelado por Nicolas Cage, pode dar errado se já entramos nele com essa imagem de um cadáver roqueiro? E enquanto os créditos de abertura rolam, toca a melancólica “Starless”, da banda progressiva King Crimson. Uma escolha rara dessas não tem como ser mero acaso.

O filme é uma aula de como recuperar o terror trash dos anos 80 como arte. Pense em filmes como A Morte do Demônio, O Massacre da Serra Elétrica e Fome Animal. Filmes nichados como esses viraram cult misturando medo, gore, produção mambembe e humor involuntário. Mandy

Primeiro, as cores. Todas saturadíssimas. Às vezes, azul e vermelho se sobrepõem. Às vezes, temos alto contraste entre o vermelho e o negro da noite. Não é a toa que o protagonista se chama Red e Mandy, sua esposa, usa uma camiseta do Black Sabbath. A textura é marcante também. Cada frame tem uma granulação digital linda que não fica aparente o tempo todo. Mas quando ela se destaca, em especial em uma cena com a cara de sofrimento de Nicolas Cage, é preciosa.

A personagem Mandy, vivida por Andrea Riseborough, tem pouco tempo de tela, mas o suficiente para você ver que é uma baita atriz em um filme trash. O vilão Jeremiah Sand, interpretado pelo inglês Linus Roache, é um dos melhores em filmes de terror recentes. Um líder cultista que parece um misto entre Aleister Crowley e Charles Manson, com um acorde de Alice Cooper.

Sabe qual foi o maior erro de Jesus? Ele não ofereceu um sacrifício ao invés de se oferecer. E a cruz é um lembrete constante disso.

Já o suposto protagonista, Nicolas Cage, não deve ter nem 10 falas no filme todo e sua atuação canastrona cai como uma luva ao filme, se equilibrando perfeitamente naquela tênue linha entre o grotesco, o ruim e a pura arte de atuar em uma produção de baixo orçamento. Cage consegue calibrar sua atuação para ser intensa e exagerada como Mandy precisa. Estamos diante de um grande ator que fez muitos projetos ruins ou de um ator ruim que conseguiu colocar sua limitação a serviço da gloriosa estética trash?

O diretor ítalo-canadense Panos Cosmatos (que fez Beyond The Black Rainbow) foi genial ao conseguir Cage para o papel. Conhecido por não fazer filmes bons, entra de cabeça em Mandy. Se ele é bom ou não, não há porque discutir agora. O fato é que ele acerta em cheio. Seus gritos, choros, expressões de maníaco e de fúria são as melhores que uma homenagem dessas poderia produzir.

Mandy é tão trash quanto qualquer outro filme trash dos anos 80 foi. O que o diferencia, porém, é a tremenda verve com que o diretor Panos Cosmatos o dirige, respeitando os tropos do estilo (tem sangue espirrando na cara, tem machadada, tem motoqueiros demoníacos, tem um religiosismo estranho e tem até uma luta de motosserras) e com um controle imenso das imagens que produz. Mandy não é o filme que de tão ruim dá a volta e fica bom. É justamente o contrário: o trash elevado à categoria de arte.

– O que você vai caçar?
– Evangélicos.
– Não sabia que era temporada deles, cara.

A trilha sonora é do islandês Jónhann Jónhannsson, que faleceu este ano. O filme só estreou nos cinemas em setembro, mas em janeiro foi exibido em Sundance. É uma das últimas trilhas de Jóhannsson, que mistura guitarras e baixos de heavy metal aos sons de drone e sintetizadores.

Como todo filme cult, ou em processo de se tornar um cult, Mandy pode não cair no gosto de todo mundo. É bem violento e uma cena em especial é terrivelmente cruel. Contudo, nada gratuito como aquela famosa cena de estupro demoníaco em Evil Dead 2. Se seu olhar gosta de filmes com estilo e sua alma é atraída pela perversidade de quem mexe com o desconhecido e já está à beira da loucura, Mandy vai satisfazer sua sede de catarse de punição moralista.