Um velho e um menino. Quem assombra quem?

Um senhor de 70 e tantos anos. Um menino de 4. Um apartamento – a atual residência do menino que é também onde o velho morou em sua adolescência. Os dois precisam passar alguns dias juntos, praticamente sozinhos a maior parte do tempo, o avô e seu neto. O velho e seus fantasmas e a criança e todo seu futuro. ASSOMBRAÇÕES, do italiano Domenico Starnone, não é um livro sobre o choque de gerações. É muito, muito mais que isso.

O avô precisa ficar com Mario durante três dias. Sair de Milão, onde mora e trabalha como um ilustrador reconhecido, e voltar à Nápoles já é um martírio por si só para ele. Gosta do menino, mas não é do tipo que gosta de cuidar de crianças. A filha e o marido, dois matemáticos, estão tendo problemas conjugais e precisam participar de um congresso. Como é um avô um tanto ausente, se sente obrigado a aceitar ficar com o garoto, entrar em suas exaustivas brincadeiras e sua lógica infantil.

Você quis se transformar – diziam – num senhorzinho de fina sensibilidade e veja a que se reduziu.

Starnone quer contar essa história de limites em primeiro lugar. O avô é Daniele Mallarico sabe muita coisa da vida, mas está debilitado. Nem tudo é fácil para ele realizar. O garoto, por sua vez, sabe bastante para sua idade, mas longe de interpretar tudo como deve ser interpretado. Cada um em uma ponta da vida. Como ilustrador já velho de guerra (que não está em redes sociais e que vê cair o número de pedidos de trabalho), o avô se vê contestado por editor 40 anos mais jovem que lhe pediu para ilustrar um conto fantasmagórico de Henry James. Até seu neto coloca seu trabalho em xeque, dizendo que acha seus desenhos “escuros”. O velho então vê Mario desenhar e nota que ali há mais originalidade do que em seu trabalho. Isso o desnorteia. Ele comenta melancolicamente: “Tudo se esfarela em poucos segundos, as opiniões, as certezas. Talvez, pensei, meus desenhos não digam mais nada a uma criança.”

Se recuperando de um cirurgia, vendo vultos na escuridão, precisando terminar um trabalho, de volta à sua velha casa no sul da Itália e tendo que cuidar de um menino que ser sua aprovação em tudo. Aí estão os conflitos do protagonista, todos eles agindo nos poucos dias em que se passa a trama. Domenico Starnone sabe que é essa história que quer contar e, embora Assombrações seja um livro muito devotado a essa trama, é interessante notar como autor consegue fazer comentários sobre a Itália de ontem e de hoje que refletem a leitura sociopolítica do narrador. São breves comentários dentro das elucubrações do artista protagonista, mas bastante relevantes para que Starnone mostre que sua história, quase toda dentro de um apartamento em Nápoles, tem mais dimensões.

Assombrações também não esconde seus pontos de virada. É fácil identificar quando o artista, já cheio de problemas e desgostos mal-disfarçados, precisa encarar a figura do menino e os dias que passará com ele, tendo não exatamente que confrontar a juventude e a geração mais nova, mas sim conviver com ela, da forma mais natural possível, colocando a sua própria imagem em perspectiva da história de suas escolhas. A convivência chega a um ponto limítrofe no livro que beira a tragédia, mas também é fácil identificar quando a situação se transforma mais uma vez, fazendo com que Mallarico atinja uma espécie de suave iluminação.


“Aquele matemático brilhante, um homem poderoso, lhe inoculara uma energia nova, de modo que a cada dia ela se esforçava em parecer mais bonita e elegante do que na véspera. Em pouco tempo a universidade se tornara para Betta como um enorme recipiente cheio de uma substância licorosa, em que seu corpo frágil flutuava a todo instante, quase sem querer, na direção do corpanzil do recém-chegado – organismo, segundo Saverio, de coxas grossas e ventre pesado -, buscando tocá-lo, chocar-se com ele, e depois se esfregar, enredá-lo, arrastá-lo com ela para o fundo.”

As tais assombrações que dão nome ao livro também aparecem em diversas dimensões. O paralelo mais óbvio é com a assombração no livro de Henry James que o artista precisa ilustrar. Em seguida, seu passado. Mario também acaba se convertendo em um tipo de assombro ao velho. E por fim, ele próprio se assombra. É uma história simples, curta e íntima, mas com as camadas que vão se sobrepondo, como o autor havia construído em Laços, seu único outro livro publicado no Brasil pela Todavia (até agora).

A prosa de Starnone não é nada empolada, fazendo de seu livro uma obra bastante acessível e que pode ser lido tranquilamente por quem nunca leu o autor. Não é um livro tristonho, mas tampouco cheio de felicidades. Uma de suas melhores frases, aliás, é: “Uma das mentiras difíceis de morrer é que as histórias possam de fato terminar em alegria.”

Quarenta anos atrás os excepcionais, já em grande número, começaram a pressionar as portas estreitas das fábricas de arte e cultura. Até que agora (…) a excepcionalidade se tornara um desesperado vozerio de massa pelos infinitos canais de televisão e da internet, uma excelência difusa, mal paga, muitas vezes desempregada.

ASSOMBRAÇÕES
Domenico Starnone
Tradução de Maurício Santana Dias
Editora Todavia
177 páginas

O Vento Que Arrasa e aquilo que nos falta

– O carro vai estar pronto no finzinho da tarde, se Deus quiser – disse o Reverendo, enxugando a testa com o lenço.

– E se Deus não quiser? – respondeu Leni, ajustando os fones de ouvido do walkman que sempre levava pendurado na cintura. Apertou play e sua cabeça se encheu de música.

Há autores que fazem de tudo para imprimir um estilo a cada frase e acenar para o leitor que sim, você está lendo esse autor mesmo. Pode pensar em figuras como Joyce, Guimarães Rosa, DFW, António Lobo Antunes e tantos outros. Veja bem que não citei entre eles um único autor que não mereça ser lido 🙂 e nem afirmo que façam isso o tempo todo, ao longo de todas as suas obras. Mas fazem.

Há autores que, de outra forma, conseguem submergir seus tiques e suas personalidades por trás da pena, da caneta, da máquina de escrever e do computador e passamos o livro todo vendo a história se desdobrar com naturalidade incrível. É o caso da argentina Selva Almada e seu O VENTO QUE ARRASA, livro que já chegou à décima edição em seu país natal e confirmou o nome da autora como uma das melhores escritores contemporâneas da América Latina.

É um livro leve. Tem apenas 128 páginas e apenas uma locação onde toda a ação e todo o drama se passam. Contém somente quatro personagens. O Reverendo Pearson e sua filha Leni que, viajando pelo charco argentino, acabam ficando na estrada com o carro quebrado e rebocado até a oficina quase no meio do nada onde trabalha Gringo Brauer e seu ajudante Tapioca.

O Vento Que Arrasa é quase um road movie às avessas, primeiro porque não é filme, e sim literatura, e depois porque não é a viagem que leva à transformação, mas sim a estadia de um dia em um mesmo local fora de casa. Contudo, Almada encadeia as cenas e os flashbacks de modo a dar um ar de road movie.

Foto: Santiago Maquelet

Na Argentina católica, Reverendo Pearson é um desses religiosos evangélicos que não se cabem dentro de si e enxergam uma missão cristianizadora em praticamente tudo o que veem ou em todos que conhecem. Beira o irritante, é verdade, mas também é bonito de ver sua fé se manifestar de forma quase ingênua. A mesma ingenuidade que o leva a ver no jovem Tapioca uma alma pura e prontinha para ser fisgada pelo prego da cruz de Cristo.

Leni, a filha adolescente, é a figura que confronta o pai. Age com deboche, com certa rebeldia e guarda para si os fantasmas que ajudam a dar a forma no confronto que vive tendo com seu pai. Gringo Brauer, a figura que não quer ser cristianizada, contrasta tanto com seu parceirinho Tapioca, quanto com o Reverendo.

Selva Almada, assim, forma um quadrado perfeito e coloca cada personagem em um lado, sempre com duas figuras contrastantes e em rota de colisão com os outros dois, do outro lado. A tensão vai sendo criada aos poucos e com exímio controle da autora, para que a história tenha conflito, mas sem perder a ternura. Ela até mesmo concatena uma mudança climática para acompanhar o clímax da história, um velho truque, é claro, mas bastante eficaz.

Mesmo assim, em algum momento, começou a chorar. Só lágrimas, sem nenhum som. Água caindo de seus olhos como a água que caía do céu. Chuva perdida em meio à chuva.

Não sei se cheguei ao cerne de O Vento Que Arrasa, mas me peguei pensando em como substituímos o que nos falta por alguma outra coisa. Há aqueles que, como sabemos bem, buscam uma verdade maior em que tudo caiba. A religião parece o quadro perfeito para este tipo, fornecendo não a resposta, mas a promessa de resposta. A vida simples e espartana, livre de grandes dramas e grandes compromissos, também blinda contra tudo o que mais poderíamos ser ou experimentar. O sarcasmo e um certo grau de negação parece a resposta natural de uma juventude que perdeu algo contra sua escolha e não sabe bem ainda como cobrir esse buraco. E há também quem nunca teve nada e nem esperava que haveria mais o que se ter. Porém, quando o mundo parece poder ficar maior, dá o salto de fé necessário para se agarrar à oportunidade.

É possível se identificar com qualquer um dos quatro. Gringo Brauer não tenta ser simpático e mesmo assim a gente se sente na pele dele quase imediatamente. Tapioca rouba a cena. De um moleque calado passa a ser o personagem pelo qual você torce para que algo mude e, de fato, a sua mudança é a mais relevante ao fim das 120 páginas. Esperava mais de Leni, mas certamente a sutil incursão por sua cabeça vale a pena. Quanto ao Reverendo Pearson, sai ganhando, com a fé firme, mesmo que nada tivesse tido a ver com a vontade de Deus.

Por que o solteirão se enforcou, por que o engenheiro matou o outro engenheiro? E o que é a morte senão uma só e mesma coisa, vazia e obscura, pouco importando o braço que a executa?

O Vento que Arrasa foi publicado originalmente em 2012 e chegou ao Brasil em 2015 pela Cosac Naify. Mesmo sendo um livro curtinho de capítulos igualmente breves, é bom notar que sua editora não existe mais e então não foram feitas mais impressões da obra no país. Se quiser ler a história de Leni, Tapioca, Gringo e do Reverendo, terá que enfrentar a escassez do mercado que elevou o preço das cópias restantes na Amazon para astronômicos R$ 250. Já na Estante Virtual há quem venda cópias usadas por R$ 18 ou por inflacionados R$ 70. Quem tiver criatividade para procurar por livros o encontrará disponível em ainda mais um meio que, apesar de ser meio underground, é vendido, comicamente, como “cópia original”.

Embora o último capítulo seja um dos mais lindos que já tenha lido, com a potência de que apenas os capítulos curtos e precisos têm, Almada não entrega catarses e muito menos deixa sua história com um final aberto. Fiquei com o gosto de cada personagem na boca ao terminar de ler, esperando um raio, esperando uma aparição no retrovisor, ou com o corpo reagindo como o de Gringo: “No peito, o coração parecia um gato metido num saco.”

O VENTO QUE ARRASA
Selva Almada
Tradução: Samuel Titan Jr.
Editora Cosac Naify
128 páginas

“Múltipla Escolha” é vestibular em estado de arte

E se o vestibular fosse uma arte literária travestida de exame de admissão?

Mesmo eu tendo adquirido e lido os quatro livros do escritor Alejandro Zambra já publicados no Brasil, os algorítimos que oferecem novas leituras para mim na Amazon parecem ter esquecido quais foram minhas compras anteriores e deixaram MÚLTIPLA ESCOLHA de fora do meu radar. O livro saiu em 2017, mas só há poucas semanas descobri que já tinha sido convertido para o português.

Entre os vários motivos que tenho para ler, um deles é encontrar novas formas de narração. Isso vai muito além daquelas fórmulas narrativas, como o clássico Começo-Meio-e-Fim, a (desgastada, mas ainda fascinante) Jornada do Herói, ou o Ciclo dos Oito Pontos que dão os parâmetros para o desenvolvimento de seu personagem. Essas fórmulas ditam mais o storytelling. No entanto, há um nível de planejamento de escrita mais substancial que tem a ver com a forma: como estruturar sua história de uma forma que nunca foi feita antes?

Zambra se baseia no Exame de Aptidão do Chile (o vestibular de lá) para emoldurar Múltipla Escolha e, em pouco mais de 100 páginas, faz seu livro mais recente. A partir de enunciados e respostas de múltipla escolha, ele constrói uma obra verdadeiramente literária que aos poucos vai ensinando seu leitor como encará-la. Quando você dá por você, percebe que a linguagem poética estava ali desde o começo. Logo, ele está construindo argumentos, como chamamos na área de roteiros, ou então microcontos. E em vários desses casos convida o leitor, por meio das múltiplas escolhas, a participar da construção desses argumentos narrativos.

É um exercício para o chileno e é instigante para seu leitor. Às vezes, temos certeza do que responder. Outras vezes, a coisa é dúbia. Às vezes ficamos sem saída. No final do livro, ele integra a este “vestibular literário” o formato conto, e então as múltiplas escolhas se convertem em um exercício ora cívico, ora irônico de interpretação. Contudo, Múltipla Escolha tem um tema comum a tudo o que apresenta, tem um porquê de ser, tem as marcas que o autor já colocou em suas obras passadas, tem crítica social e sim, o fantasma de Pinochet ainda assombra.

Certas passagens são de cortar o coração, ou não, dependendo da forma como fizer mais sentido para o leitor arranjar os fatos, ou as palavras. É um jogo, e sei que há por aí muitos “puristas” que talvez não enxerguem a validade desse tipo de construção, mas o que o livro faz é literário do começo ao fim. Tudo se resolve na palavra – ou nas sentenças -, na consciência que temos sobre aquilo que o autor nos entrega e sobre como queremos preservar, subverter ou simplesmente, por ignorância ou por ironia, agir cinicamente frente às situações apresentadas.

27) Um Filho

  1. Você sonha que perde um filho.
  2. Acorda.
  3. Chora.
  4. Perde um filho.
  5. Chora.
  • A) 1 – 2 – 3 – 4 – 5
  • B) 1 – 2 – 3 – 5 – 4
  • C) 2 – 3 – 4 – 5 – 1
  • D) 3 – 4 – 5 – 1 – 2
  • E) 4 – 5 – 1 – 2 – 3

Quando decidi ler Alejandro Zambra, comprei logo os três livros que ele tinha lançado até então e que tinham sido publicados no Brasil pela finada (e caprichosa) Cosac Naify. Acho que nunca tinha arriscado tanto. Sabia do reconhecimento do autor chileno e outro chileno, Roberto Bolaño, já era meu escritor favorito. Além disso, muita gente boa havia recomendado Zambra. Sabia quase nada sobre a trama de seus três livros, mas comprei mesmo assim, pois sou daqueles que não lê literatura de ficção exatamente pela história que é contada, mas pela “realização da palavra” que o autor propõe/almeja/consegue/conquista.

Assim, li pela ordem: Bonsai, A Vida Privada das Árvores e Formas de Voltar Para Casa. Fiquei fascinado pela forma como Zambra se mostrava um autor contemporâneo, mas ciente do passado, e que não precisa de muitos artifícios que não seja a escrita para conquistar o leitor. Suas tramas são profundamente humanas e isso basta. Geralmente, retrata pessoas que estão num espectro social que chamaríamos de classe média baixa, e a precisão como faz isso é tamanha que, tenho certeza, qualquer brasileiro se reconheceria nas agruras chilenas, assim como um estadunidense de Nova Jérsei ou Ohio.

Meses depois de enfim ficar em dia com a produção de Zambra, seu quarto livro Meus Documentos, de contos, foi publicado no Brasil e o li assim que ficou disponível na prateleira virtual da Amazon. Só posso dizer que Zambra é tão bom em suas histórias curtas quanto nos romances mais longos. Aliás, algo que facilitou minha leitura de Zambra é que nenhum de seus livros é excessivamente longo. Bonsai é pouco maior que um conto. Os outros livros têm por volta de 200 páginas ou menos. A profundidade é grande. A melancolia, idem. As mais de 600 páginas que já li de um Jonathan Franzen – em sua tentativa de fazer o grande romance americano – não me comoveram como os livros e contos do Zambra, histórias que perto dos tijolões do colega norte-americano, parecem estreitos como o mapa do Chile.

(Justiça seja feita: apesar de passar centenas de páginas curtindo Franzen, sem muitos arroubos sentimentais reais, eu chorei nas duas últimas linhas de Liberdade).

…vivemos no país da espera, vivemos esperando algo, o Chile é uma enorme sala de espera e vamos morrer esperando o nosso número.

Ser sucinto e preciso, sabendo salpicar a trama e suas entrelinhas de diversos assuntos, abrindo verdadeiros portais dimensionais para temas e histórias que não estão ali, mas certamente influenciam aquela narrativa, é uma marca de Zambra. Múltipla Escolha prova isso de diversas maneiras.

Melancólico, como Zambra sempre acaba sendo, com uma prosa que é fluida e nada empolada, e estruturada de uma maneira bastante original e que não foi escolhida à toa. Construir o livro usando o formato do Exame de Aptidão é uma sacada para falar do chileno, da educação chilena, das contradições do país – e da humanidade – e ainda passar pelo governo ditatorial que aplicava esse exame. “Os estudantes vão à universidade para estudar, não para pensar”, diz uma das frases mais contundentes de Múltipla Escolha.

O livro me lembra de algo: as palavras importam. E a escolha delas acaba ditando diferentes realidades.

Em um artigo de Carlos Schroeder sobre o lançamento do livro no Brasil, há alguns parágrafos do próprio autor explicando como se recusa a dizer que/se há poesia ou conto em seu Múltipla Escolha e dá algum contexto sobre ele.

MÚLTIPLA ESCOLHA
Alejandro Zamba
Tradução: Miguel Del Castilho
Editora Tusquets
109 páginas