Garotas Mortas e como encarar o feminicídio

Depois do imenso prazer que foi ler O Vento que Arrasa, o primeiro livro da argentina Selva Almada, ler GAROTAS MORTAS não poderia ter me dado uma experiência mais diferente.

O Vento é leve, mesmo quando investiga o fundo da alma daqueles homens que são seus personagens. Garotas Mortas, por um lado, é escrito com delicadeza. Apesar de ser a história de três feminicídios sem solução que ocorrem 30 anos atrás no interior da Argentina, Almada não os descreve com sensacionalismo. Essa é uma marca de sua escrita. No entanto, é impossível ler sobre como os crimes foram brutais (às vezes, sem sentido aparente) e não sentir desconforto. São muitos abusos, muitas mortes e muitas injustiças.

A autora fica na tríplice fronteira da memória, do jornalismo e da literatura. Parte da lembrança de ouvir sobre um dos assassinatos no rádio ainda garota. Outros dois se somam a essa recordação para serem explorados. Contudo, Selva Almada nos dá um verdadeiro panorama de como eram as coisas na Argentina profunda dos anos 80 e 90. Conversas de bairro sobre “certas garotas” e “certos homens”, sobre matrimônios em que abusos eram cometidos mas que ninguém metia a colher e todo tipo de segredos que guarda a intimidade das residências e a violência deixada à mostra em terrenos baldios, lagoas e charcos hermanos. Quem assistiu a série da HBO Sharp Objects, ou cresceu em cidades do interior ,terá uma imagem mental bem precisa do que a autora puxa de sua memória.

Nunca ninguém falou que você podia ser estuprada pelo marido, pelo pai, pelo irmão, pelo vizinho, pelo professor. Por um homem em quem você tem toda a confiança.

Como uma jornalista pouco ortodoxa, Selva Almada também vai em busca da reconstituição do assassinato de Andrea Danne, María Luisa Quevedo e Sarita Mundín. Espalha pelos onze capítulos detalhes do que ocorreu, como morreram ou como acreditam que morreram, quem seriam os suspeitos e de como era a relação dessas mulheres com os suspeitos e com o mundo ao seu redor. Fala com familiares e pessoas que estiveram envolvidas no caso. Ela não nos dá aspas que veríamos em páginas de jornais. O interesse dela não está em solucionar os crimes, e sim em nos mostrar a experiência de perceber que estamos em um mundo em que a mulher vive muito perto de ser uma vítima. Como ela mesma conclui rapidamente: “Eu não sabia que uma mulher podia ser morta pelo simples fato de ser mulher”.

Almada não fala em machismo ou em patriarcado. Não fala em submissão da mulher pelo homem. Não fala da dominação sexual. Ela não dá certos nomes a certas situações porque não precisa. Tudo isso é parte da equação e basta ler para entender, mesmo que você não ligue os fatos relatados a um termo como machismo, por exemplo. Eu mesmo só me dei conta de que a escritora não fala em machismo enquanto escrevia este texto.

E aí entra outro fator que faz de Garota Mortas um livro relevante. Almada usa técnicas da ficção para contar sua história. Não há travessões para anunciar a fala de um personagem de suas memórias ou de uma fonte em suas conversas. O discurso indireto livre abunda. O Vento que Arrasa, só para efeito de comparação, era muito mais bem delineado, com todas as falas e pensamentos muito bem distinguíveis no texto. Isso mostra como Selva Almada é uma escritora de recursos, como no trecho abaixo:

Ela não perdia a calma nem desmanchava o sorriso, mas eu sabia que no fundo estava tão assustada quanto eu. Não, obrigada, tenho namorado. E daí? Eu não sou ciumento. Teu namorado deve ser um moleque, o que ele pode te ensinar da vida? Uma menininha como você precisa de um cara maduro como eu. Proteção. Segurança econômica. Experiência. As frases chegavam até mim entrecortadas. Lá fora já era noite e não se enxergavam nem as lavouras à beira da estrada.

Ao utilizar a prosa criativa (e utilizar bem!) em uma obra de não-ficção, dá até para dizer que Garotas Mortas é um exemplo de jornalismo literário. Embora os três casos que são o mote do livro sejam bem interessantes em suas brutalidades e indefinições, os relatos pessoais de Selva Almada contribuem para entendermos ainda melhor toda a situação das mulheres dos anos 80 até hoje, do cenário político e social argentino (que acaba influenciando em tudo de certa forma) e da própria autora tentando não exatamente descobrir o que aconteceu com Andrea, María Luisa Quevedo e Sarita Mundín, mas o que é que fica dessas três vidas que acabaram tão cedo, tão sem sentido, e que são apenas exemplos de tantas outros assassinatos de garotas que ocorreram e ainda ocorrem e são tratados como mais um homicídio, sem que se importem com todas as contingências que fazem do feminicídio uma situação singular.

O livro chegou ao Brasil pela Todavia justamente quando esperamos que investigações cheguem a algum lugar no caso Marielle Franco. A ex-vereadora do Rio de Janeiro, homossexual e negra, com uma atuação política bastante crítica e incômoda para tantos bambambans da cidade, é um caso um tanto diferente daqueles tratados por Almada, pois é razoável supor que Marielle foi morta por motivos políticos. Ainda assim, tanto o livro quanto o caso lidam com o que há de mais fundamental nesse cenário: a mulher como alvo, ou a visão de uma sociedade machista sobre o que se sentem no direito de fazer a uma mulher.

Como ninguém diz isso claramente, Selva usa sua própria voz para dizer o que é que precisa mudar e qual é a intenção de relatos como o de seu livro:

Eu acho que o que nós precisamos é reconstruir o jeito como o mundo olhava para elas. Se conseguirmos saber como elas eram vistas, como eram olhadas, vamos saber qual era o olhar que elas tinham sobre o mundo, entende?

Acredito que o livro consegue muito bem traçar como essas mulheres eram olhadas e percebidas. Não é muito diferente do que vemos hoje. Falta agora principalmente nós, homens, pensarmos menos como “mais um homicídio” e tentar entender como elas viam o mundo e se sentiam nele.

GAROTAS MORTAS
Selva Almada
Tradução de Sergio Molina
Editora Todavia
128 páginas

Quanto há de Nick Cave em The Sick Bag Song?

Nick Cave pinta o cabelo de preto até parecer as asas de um corvo. O veículo que transporta os Bad Seeds fica parado na estrada enquanto um corpo é removido. Ao passar pelo local do acidente, Nick vê o corpo decapitado pela janela. Quando chega ao hotel e percebe que tem gente esperando para vê-lo assim que descer da van, chama os fãs de caçadores de autógrafos.

São coisas assim que ficamos sabendo sobre Nick Cave, o cantor australiano, ao ler THE SICK BAG SONG, livro escrito a partir de notas, letras, pensamentos e narrações que o compositor fez durante naqueles saquinhos de enjoo fornecidos pelas empresas aéreas. Foi tudo escrito ao longo de poucos dias na turnê do álbum Push The Sky Away (2013) em 2014, entre show no Canadá e nos Estados Unidos.

O livro chega ao Brasil pela editora Terreno Estranho, com tradução do jornalista e escritor Carlos Messias, no momento mais oportuno: na semana em que Nick Cave and The Bad Seeds se apresentam em São Paulo (cidade em que o cantor morou no início dos anos 90) mais de 25 anos depois da último show. A edição de luxo do livro tem capa dura azul, respeita a simplicidade do design da edição original e traz páginas coloridas com a reprodução fotográfica dos sacos de enjoo em que o músico esboçou suas ideias. Essa versão é limitada há 400 exemplares numerados. Uma versão em brochura mais em conta será lançada em breve também.

Num estúdio em Malibu, Johnny Cash se sentou e tocou uma canção.
Ele estava parcialmente cego e mal conseguia caminhar.
Eu estava lá.
Eu vi um homem doente pegar seu instrumento e ficar bem.
Com pesar, também vi o contrário. Palhetar, palhetar, palhetar.Eu vi mais de um homem, em bom estado, pegar seu instrumento
E se adoentar.

Em The Sick Bag Song, Cave fala de uma visita a Bryan Ferry e sua esposa em Denver e de como Bryan não consegue mais compor há 3 anos. Fala de como ele e a banda ficam doentes na turnê. Explica como os saquinhos de enjoo da United Airlines são plastificados e ruins de escrever por cima. Aparentemente, ele gosta de dragões também. Os chineses. E até encontra uma dragonesa em uma de suas paradas.

Nick é um erudito versado em mitologia grega. Antes de entrar no palco, a banda busca o nome das musas: Calíope, Euterpe, Erato, Clio, Melpômene, Polimnia, Terpsícore, Tália e Urânia. Cada uma tem uma função e é evocada para ajudar em um tipo específico de música. É interessante ver como ele categoriza suas próprias músicas: “From Here To Eternity” definitiva é uma música antiga. Será que ele considera “Stagger Lee” uma canção engraçada? “Jesus Alone” seria super trágica ou religiosa?

Não é um livro em que Nick Cave está preocupado em contar como é uma turnê dos Bad Seeds, revelando detalhes de backstage, histórias engraçadas ou trágicas, conversas ou a personalidade cada um ao seu redor. Não é um diário de turnê, mas, ao mesmo tempo, é sim. Veja por este lado: Nick escreve da forma mais pessoal que pode, mais para si mesmo do que para o leitor, o que se aproxima muito do que seria um diário real dele feito para ele mesmo.

Era o Dia do Canadá e eu era um único pulmão berrante
E insuficiente.
Minha dragonesa não tinha sobrevivido àquela noite.
Ela tinha morrido.
Eu sentei lá e escutei seu último e vagaroso suspiro
Borbulhar feito uma canção da ferida em seu interior.

O livro é como o documentário 20.000 Dias Na Terra, em que não se busca contar a história de Cave e da banda, não se busca explorar linearmente como se deu a carreira. É uma baita experiência, mas não no sentido mais tradicional do documentário, do tipo que tentaria te revelar coisas por meio de explorações de informações, biografias, e etc.

Até as surreais conversas de divulgação do próprio livro fazem parte de suas páginas. E nem perca tempo tentando adivinhar o que pode ter influenciado a escrita de Cave em The Sick Bag Song. Ele dá a resposta e nem que você fosse um observador muito arguto conseguiria reunir a miríade de obras e nomes em que Nick encontra alguma correlação ou inspiração.

Também não é um livro como A Morte de Bunny Munro. Não é um romance, embora Cave misture muita imaginação ao que escreve. Um fato real pode se transmutar em fantasia. A garota da minissaia está lá todas as vezes realmente ou é apenas devaneio? Embora seja um livro de prosa, ele faz questão de quebrar as frases em versos com frequência.


Mitologia borbulha em mim feito plástico derretido.

Alguns temas são recorrentes nos saquinhos de enjoo. O menino nos trilhos de trem que caiu do precipício. Decapitações. Fumar em escadas e depois de cada show ou enquanto espera por algo. A minissaia. A esposa que aparece e desaparece e que não atende a porra do telefone!

Não posso deixar passar que grandes influências musicais de Cave encontraram um jeito de fazer parte da história. Leonard Cohen está ali. Bob Dylan também. Johnny Cash aparece cedo também.

Não é um livro que se preste à explicações, mas acredito que como apenas fãs – novos ou antigos – vão ler The Sick Bag Song, diria que é fácil encontrar uma extensão de sua obra musical. Quanto de Nick Cave há no livro? Ora, muito. Suas obsessões, suas histórias, suas vivências, seus amores e os nomes que são importantes para ele são citados ao menos uma vez. Não vai ajudar a interpretar todo o seu extenso catálogo de letras e músicas, pois é um produto em que ele se manifesta de forma única como não tínhamos visto ainda.

THE SICK BAG SONG
Nick Cave
Tradução: Carlos Messias
Editora Terreno Estranho
180 páginas

O Vento Que Arrasa e aquilo que nos falta

– O carro vai estar pronto no finzinho da tarde, se Deus quiser – disse o Reverendo, enxugando a testa com o lenço.

– E se Deus não quiser? – respondeu Leni, ajustando os fones de ouvido do walkman que sempre levava pendurado na cintura. Apertou play e sua cabeça se encheu de música.

Há autores que fazem de tudo para imprimir um estilo a cada frase e acenar para o leitor que sim, você está lendo esse autor mesmo. Pode pensar em figuras como Joyce, Guimarães Rosa, DFW, António Lobo Antunes e tantos outros. Veja bem que não citei entre eles um único autor que não mereça ser lido 🙂 e nem afirmo que façam isso o tempo todo, ao longo de todas as suas obras. Mas fazem.

Há autores que, de outra forma, conseguem submergir seus tiques e suas personalidades por trás da pena, da caneta, da máquina de escrever e do computador e passamos o livro todo vendo a história se desdobrar com naturalidade incrível. É o caso da argentina Selva Almada e seu O VENTO QUE ARRASA, livro que já chegou à décima edição em seu país natal e confirmou o nome da autora como uma das melhores escritores contemporâneas da América Latina.

É um livro leve. Tem apenas 128 páginas e apenas uma locação onde toda a ação e todo o drama se passam. Contém somente quatro personagens. O Reverendo Pearson e sua filha Leni que, viajando pelo charco argentino, acabam ficando na estrada com o carro quebrado e rebocado até a oficina quase no meio do nada onde trabalha Gringo Brauer e seu ajudante Tapioca.

O Vento Que Arrasa é quase um road movie às avessas, primeiro porque não é filme, e sim literatura, e depois porque não é a viagem que leva à transformação, mas sim a estadia de um dia em um mesmo local fora de casa. Contudo, Almada encadeia as cenas e os flashbacks de modo a dar um ar de road movie.

Foto: Santiago Maquelet

Na Argentina católica, Reverendo Pearson é um desses religiosos evangélicos que não se cabem dentro de si e enxergam uma missão cristianizadora em praticamente tudo o que veem ou em todos que conhecem. Beira o irritante, é verdade, mas também é bonito de ver sua fé se manifestar de forma quase ingênua. A mesma ingenuidade que o leva a ver no jovem Tapioca uma alma pura e prontinha para ser fisgada pelo prego da cruz de Cristo.

Leni, a filha adolescente, é a figura que confronta o pai. Age com deboche, com certa rebeldia e guarda para si os fantasmas que ajudam a dar a forma no confronto que vive tendo com seu pai. Gringo Brauer, a figura que não quer ser cristianizada, contrasta tanto com seu parceirinho Tapioca, quanto com o Reverendo.

Selva Almada, assim, forma um quadrado perfeito e coloca cada personagem em um lado, sempre com duas figuras contrastantes e em rota de colisão com os outros dois, do outro lado. A tensão vai sendo criada aos poucos e com exímio controle da autora, para que a história tenha conflito, mas sem perder a ternura. Ela até mesmo concatena uma mudança climática para acompanhar o clímax da história, um velho truque, é claro, mas bastante eficaz.

Mesmo assim, em algum momento, começou a chorar. Só lágrimas, sem nenhum som. Água caindo de seus olhos como a água que caía do céu. Chuva perdida em meio à chuva.

Não sei se cheguei ao cerne de O Vento Que Arrasa, mas me peguei pensando em como substituímos o que nos falta por alguma outra coisa. Há aqueles que, como sabemos bem, buscam uma verdade maior em que tudo caiba. A religião parece o quadro perfeito para este tipo, fornecendo não a resposta, mas a promessa de resposta. A vida simples e espartana, livre de grandes dramas e grandes compromissos, também blinda contra tudo o que mais poderíamos ser ou experimentar. O sarcasmo e um certo grau de negação parece a resposta natural de uma juventude que perdeu algo contra sua escolha e não sabe bem ainda como cobrir esse buraco. E há também quem nunca teve nada e nem esperava que haveria mais o que se ter. Porém, quando o mundo parece poder ficar maior, dá o salto de fé necessário para se agarrar à oportunidade.

É possível se identificar com qualquer um dos quatro. Gringo Brauer não tenta ser simpático e mesmo assim a gente se sente na pele dele quase imediatamente. Tapioca rouba a cena. De um moleque calado passa a ser o personagem pelo qual você torce para que algo mude e, de fato, a sua mudança é a mais relevante ao fim das 120 páginas. Esperava mais de Leni, mas certamente a sutil incursão por sua cabeça vale a pena. Quanto ao Reverendo Pearson, sai ganhando, com a fé firme, mesmo que nada tivesse tido a ver com a vontade de Deus.

Por que o solteirão se enforcou, por que o engenheiro matou o outro engenheiro? E o que é a morte senão uma só e mesma coisa, vazia e obscura, pouco importando o braço que a executa?

O Vento que Arrasa foi publicado originalmente em 2012 e chegou ao Brasil em 2015 pela Cosac Naify. Mesmo sendo um livro curtinho de capítulos igualmente breves, é bom notar que sua editora não existe mais e então não foram feitas mais impressões da obra no país. Se quiser ler a história de Leni, Tapioca, Gringo e do Reverendo, terá que enfrentar a escassez do mercado que elevou o preço das cópias restantes na Amazon para astronômicos R$ 250. Já na Estante Virtual há quem venda cópias usadas por R$ 18 ou por inflacionados R$ 70. Quem tiver criatividade para procurar por livros o encontrará disponível em ainda mais um meio que, apesar de ser meio underground, é vendido, comicamente, como “cópia original”.

Embora o último capítulo seja um dos mais lindos que já tenha lido, com a potência de que apenas os capítulos curtos e precisos têm, Almada não entrega catarses e muito menos deixa sua história com um final aberto. Fiquei com o gosto de cada personagem na boca ao terminar de ler, esperando um raio, esperando uma aparição no retrovisor, ou com o corpo reagindo como o de Gringo: “No peito, o coração parecia um gato metido num saco.”

O VENTO QUE ARRASA
Selva Almada
Tradução: Samuel Titan Jr.
Editora Cosac Naify
128 páginas

Relendo Neuromancer, o clássico cyberpunk

Cyberpunk 2077 vem aí. Qualquer um que tenha jogado The Witcher sabe da capacidade da CD Projekt Red, o estúdio polonês de games, de contar uma boa história, madura e complexa, cativante e que ilustra quem somos ou podemos ser, seja o nosso melhor ou pior. E não basta que Cyberpunk 2077 seja um jogo baseado na estética cyberpunk. Ele assume o nome do subgênero da ficção-científica como seu título, e então dá-se apenas um ano como complemento. Isso mostra a ambição por trás do estúdio de tentar fazer do jogo um marco do gênero.

Como preparação para este jogo tão estiloso, me lancei à tarefa de ler os livros fundamentais do cyberpunk, a Trilogia do Sprawl do norte-americano William Gibson. Eu já havia lido a segunda tradução de NEUROMANCER antes mesmo de entrar na faculdade, uns 14 anos atrás. A tradução desse livro sempre foi algo muito debatida, pois não é tarefa fácil trazer para o português todos aqueles termos que Gibson usou para descrever seu mundo pós-humano onde o ciberespaço/matrix é uma realidade tão presente. Contudo, a editora Aleph embarcou em um projeto de trazer a trilogia com cara nova e totalmente padronizada para os brasileiros, e então lançou Neuromancer, Count Zero e Mona Lisa Overdrive em ótimas novas versões, com ótimas novas traduções.

Eu já reli Neuromancer nesta nova tradução de Fábio Fernandes. Foi engraçado perceber como eu me recordava muito bem de toda a primeira parte do livro em Chiba/Night City e da última parte da história, quando Case, nosso cowboy (hacker do ciberespaço) protagonista, acessa a matrix para confrontar uma inteligência artificial em uma praia de areia cinzenta. Todo o miolo era um breu em minha mente.

Night City era como uma experiência malsucedida de darwinismo social, projetada por um pesquisador entediado que não tirava o dedo do botão de fast-forward.

Quando Gibson escreveu Neuromancer e deu as bases literárias do cyberpunk, não tínhamos quase nada no cinema ou nos quadrinhos que nos ajudassem a imaginar o que ele estava descrevendo quando falava em decks, Hosaka, Ono-Sendais, trodos e plugs na base do crânio humano que servem como uma porta de entrada para informação. Obras que se basearam nos elementos e universo do livro, como o filme Matrix e os animes Ghost In The Shell e Serial Experiments Lain, viriam anos ou décadas após a publicação.

Mesmo hoje conseguindo enxergar muito melhor o que Gibson propõe em sua narrativa por já ter visto na telona, na telinha e nos quadrinhos várias interpretações visuais de suas ideias, há um bom punhado de passagens que são difíceis de visualizar com exatidão. Sabemos qual é o sentido do que Case, Molly, Armitage, Wintermute e Riviera estão fazendo, mas não exatamente o que. Isso, imagino, é outro desafio para a tradução.

Outra coisa que notei é que minha releitura foi muito mais fluida e divertida do que me lembrava da primeira vez. Quaisquer 20 minutos que me sobravam eram desculpa para ler mais um capítulo e ver para onde Case e sua entourage iriam. Do Japão para o Sprawl, ou BAMA, já que no futuro cyberpunk os EUA não existem mais, mas há uma megalópole que se estende de Boston à Atlanta. A Europa ainda existe, assim como o Brasil (que tem uma participação fundamental na história). E há Zion também, e o Freeside, um cidade na órbita da Terra.

“Ciberespaço. Uma alucinação consensual vivenciada por bilhões de operadores autorizados, em todas as nações, por crianças que estão aprendendo conceitos matemáticos… uma representação gráfica de dados abstraídos dos bancos de todos os computadores do sistema humano. Uma complexidade impensável. Linhas de luz alinhadas no não espaço da mente, aglomerados e constelações de dados. Como luzes da cidade, se afastando…”

Matrix e Ghost In The Shell beberam muito, muito mesmo na fonte de Neuromancer e de William Gibson. É notável como diversos elementos do livro estão ou copiados mesmo, ou reinterpretados nessas duas obras. Com Cyberpunk 2077, o jogo, não deverá ser diferente. Em primeiro lugar, sabemos que o mapa do game é o mapa de Night City, uma megalópole na Califórnia, que vai de Los Angeles à San Diego. Enquanto eu lia, grifava descrições de lugares e construções sociais que poderão ser incorporadas ao jogo também.

Em segundo lugar, assim como George Lucas imaginava sociedades tecnologicamente mais avançadas em uma galáxia far, far away em Star Wars, mas partia do que conhecia na vira de 60 para 70 ao imaginar o funcionamento e o design de máquinas, a mesma limitação atinge em cheio Neuromancer. O livro não peca por isso e, na verdade, é uma delícia ler o puro retrofuturismo que cerca Case e todos os outros personagens. Será interessante acompanhar como Cyberpunk 2077 atualizará a nossa visão de futuro a partir do que já conhecemos hoje e que Gibson não era capaz de prever em 1983, quando o livro foi publicado. Como será a internet? Como será o ciberespaço e o papel da matrix na sociedade daqui 60 anos? E principalmente, em que estágio estarão as Inteligências Artificiais?

Autor William Gibson em 2012 (foto: Jason Redmond)

Uma história curiosa é que Gibson já tinha escrito um terço de Neuromancer quando Blade Runner estreou em 1982. O filme virou um clássico com o tempo, mas passou muito tempo considerado um filmezinho menor e sem importância. Nem comercialmente foi um sucesso. Mas o escritor gostou do que assistiu e viu boa parte do que tinha imaginado como sociedade cyberpunk retratada na Los Angeles neo-noir de Ridley Scott.

Antes de 1983, a estética cyberpunk e a cibercultura já vinham se desenvolvendo em muitos meios, da moda aos vídeo games, do cinema aos contos que o próprio Gibson publicara (como Queimando Cromo [primeira aparição da palavra ciberespaço] e Johnny Mnemonic [primeira aparição da razorgirl Molly]). Neuromancer foi o primeiro romance a trazer uma longa narrativa calcada no cyberpunk, criando de vez essa subdivisão dentro da ficção-científica. Não foi um sucesso comercial, mas venceu os três maiores prêmios do SciFi: o Hugo, o Nebula e o Philip K. Dick.

“Por milhares de anos os homens sonharam em pactos com demônios. Só que agora essas coisas são possíveis. E o que é que vocês ganham em troca? Qual seria o seu preço para ajudar essa coisa a se libertar e crescer?” 

Embora toda a cibercultura seja um dos traços mais distintos do cyberpunk, com seus eletrodos e Ono-Sendais, com a realidade virtual, holografia, IAs, os implantes cibernéticos e modificações corporais, o livro também tem em seu cerne uma sociedade que vive à base de drogas (lembra do soma que controlava as pessoas em Admirável Mundo Novo?), em péssimas condições de vida caso você não seja um ricaço, e se distanciando da utopia de que a tecnologia melhoraria a vida das pessoas. Que ela traz avanços e que facilita operações, com certeza, mas também traz novos dilemas e precariza parte de nossa vida.

Interessante é notar que, seja em Chiba ou no Sprawl ou em Freeside, a tecnologia é como é e não há como pensar a sociedade sem ela. Os personagens, então, precisam lidar com o mundo como está. Pode não ser uma crítica direta, mas é um retrato do high tech/low life que, como toda boa ficção (científica), deve nos levar a refletir.

Embora seja uma visão do futuro a partir dos anos 80, acredito que Neuromancer seja ainda uma ótima referência. As inquietações presentes em suas páginas ainda são válidas e nem mesmo adaptações de ideias da obra esgotaram o assunto. Mais do que isso, é divertido de ler e tem passagens realmente interessantes. Literariamente, é um malabarismo colocar em palavras coisas que não existiam ainda. Para mim, pelo menos, mesmo na segunda leitura, foi um exercício de imaginação.

Vou ler e escrever sobre Count Zero e Mona Lisa Overdrive, as continuações que pouca gente discute, e postarei aqui no Circle of Manias. Contudo, deverei alternar as leituras para não passar muito tempo dentro da prosa de um autor, de um estilo e de um tema. Também devo voltar a refletir sobre o Cyberpunk 2077 em algum momento. Se já tivemos Philip K. Dick produzindo uma gênese do cyberpunk e em 2018 a Netflix trouxe Altered Carbon, que também se encaixa no gênero, o jogo da CD Projekt Red promete ser mais um produto para marcar a linha do tempo da cibercultura.

NEUROMANCER
William Gibson
5ª Edição (2016)
Tradução: Fábio Fernandes
Editora Aleph
312 páginas

“Múltipla Escolha” é vestibular em estado de arte

E se o vestibular fosse uma arte literária travestida de exame de admissão?

Mesmo eu tendo adquirido e lido os quatro livros do escritor Alejandro Zambra já publicados no Brasil, os algorítimos que oferecem novas leituras para mim na Amazon parecem ter esquecido quais foram minhas compras anteriores e deixaram MÚLTIPLA ESCOLHA de fora do meu radar. O livro saiu em 2017, mas só há poucas semanas descobri que já tinha sido convertido para o português.

Entre os vários motivos que tenho para ler, um deles é encontrar novas formas de narração. Isso vai muito além daquelas fórmulas narrativas, como o clássico Começo-Meio-e-Fim, a (desgastada, mas ainda fascinante) Jornada do Herói, ou o Ciclo dos Oito Pontos que dão os parâmetros para o desenvolvimento de seu personagem. Essas fórmulas ditam mais o storytelling. No entanto, há um nível de planejamento de escrita mais substancial que tem a ver com a forma: como estruturar sua história de uma forma que nunca foi feita antes?

Zambra se baseia no Exame de Aptidão do Chile (o vestibular de lá) para emoldurar Múltipla Escolha e, em pouco mais de 100 páginas, faz seu livro mais recente. A partir de enunciados e respostas de múltipla escolha, ele constrói uma obra verdadeiramente literária que aos poucos vai ensinando seu leitor como encará-la. Quando você dá por você, percebe que a linguagem poética estava ali desde o começo. Logo, ele está construindo argumentos, como chamamos na área de roteiros, ou então microcontos. E em vários desses casos convida o leitor, por meio das múltiplas escolhas, a participar da construção desses argumentos narrativos.

É um exercício para o chileno e é instigante para seu leitor. Às vezes, temos certeza do que responder. Outras vezes, a coisa é dúbia. Às vezes ficamos sem saída. No final do livro, ele integra a este “vestibular literário” o formato conto, e então as múltiplas escolhas se convertem em um exercício ora cívico, ora irônico de interpretação. Contudo, Múltipla Escolha tem um tema comum a tudo o que apresenta, tem um porquê de ser, tem as marcas que o autor já colocou em suas obras passadas, tem crítica social e sim, o fantasma de Pinochet ainda assombra.

Certas passagens são de cortar o coração, ou não, dependendo da forma como fizer mais sentido para o leitor arranjar os fatos, ou as palavras. É um jogo, e sei que há por aí muitos “puristas” que talvez não enxerguem a validade desse tipo de construção, mas o que o livro faz é literário do começo ao fim. Tudo se resolve na palavra – ou nas sentenças -, na consciência que temos sobre aquilo que o autor nos entrega e sobre como queremos preservar, subverter ou simplesmente, por ignorância ou por ironia, agir cinicamente frente às situações apresentadas.

27) Um Filho

  1. Você sonha que perde um filho.
  2. Acorda.
  3. Chora.
  4. Perde um filho.
  5. Chora.
  • A) 1 – 2 – 3 – 4 – 5
  • B) 1 – 2 – 3 – 5 – 4
  • C) 2 – 3 – 4 – 5 – 1
  • D) 3 – 4 – 5 – 1 – 2
  • E) 4 – 5 – 1 – 2 – 3

Quando decidi ler Alejandro Zambra, comprei logo os três livros que ele tinha lançado até então e que tinham sido publicados no Brasil pela finada (e caprichosa) Cosac Naify. Acho que nunca tinha arriscado tanto. Sabia do reconhecimento do autor chileno e outro chileno, Roberto Bolaño, já era meu escritor favorito. Além disso, muita gente boa havia recomendado Zambra. Sabia quase nada sobre a trama de seus três livros, mas comprei mesmo assim, pois sou daqueles que não lê literatura de ficção exatamente pela história que é contada, mas pela “realização da palavra” que o autor propõe/almeja/consegue/conquista.

Assim, li pela ordem: Bonsai, A Vida Privada das Árvores e Formas de Voltar Para Casa. Fiquei fascinado pela forma como Zambra se mostrava um autor contemporâneo, mas ciente do passado, e que não precisa de muitos artifícios que não seja a escrita para conquistar o leitor. Suas tramas são profundamente humanas e isso basta. Geralmente, retrata pessoas que estão num espectro social que chamaríamos de classe média baixa, e a precisão como faz isso é tamanha que, tenho certeza, qualquer brasileiro se reconheceria nas agruras chilenas, assim como um estadunidense de Nova Jérsei ou Ohio.

Meses depois de enfim ficar em dia com a produção de Zambra, seu quarto livro Meus Documentos, de contos, foi publicado no Brasil e o li assim que ficou disponível na prateleira virtual da Amazon. Só posso dizer que Zambra é tão bom em suas histórias curtas quanto nos romances mais longos. Aliás, algo que facilitou minha leitura de Zambra é que nenhum de seus livros é excessivamente longo. Bonsai é pouco maior que um conto. Os outros livros têm por volta de 200 páginas ou menos. A profundidade é grande. A melancolia, idem. As mais de 600 páginas que já li de um Jonathan Franzen – em sua tentativa de fazer o grande romance americano – não me comoveram como os livros e contos do Zambra, histórias que perto dos tijolões do colega norte-americano, parecem estreitos como o mapa do Chile.

(Justiça seja feita: apesar de passar centenas de páginas curtindo Franzen, sem muitos arroubos sentimentais reais, eu chorei nas duas últimas linhas de Liberdade).

…vivemos no país da espera, vivemos esperando algo, o Chile é uma enorme sala de espera e vamos morrer esperando o nosso número.

Ser sucinto e preciso, sabendo salpicar a trama e suas entrelinhas de diversos assuntos, abrindo verdadeiros portais dimensionais para temas e histórias que não estão ali, mas certamente influenciam aquela narrativa, é uma marca de Zambra. Múltipla Escolha prova isso de diversas maneiras.

Melancólico, como Zambra sempre acaba sendo, com uma prosa que é fluida e nada empolada, e estruturada de uma maneira bastante original e que não foi escolhida à toa. Construir o livro usando o formato do Exame de Aptidão é uma sacada para falar do chileno, da educação chilena, das contradições do país – e da humanidade – e ainda passar pelo governo ditatorial que aplicava esse exame. “Os estudantes vão à universidade para estudar, não para pensar”, diz uma das frases mais contundentes de Múltipla Escolha.

O livro me lembra de algo: as palavras importam. E a escolha delas acaba ditando diferentes realidades.

Em um artigo de Carlos Schroeder sobre o lançamento do livro no Brasil, há alguns parágrafos do próprio autor explicando como se recusa a dizer que/se há poesia ou conto em seu Múltipla Escolha e dá algum contexto sobre ele.

MÚLTIPLA ESCOLHA
Alejandro Zamba
Tradução: Miguel Del Castilho
Editora Tusquets
109 páginas