RDR2 – Lá vem a morte! – Parte 1

Sobre meu cavalo, com couro de cabra e boi na garupa do animal, atravesso o mapa de RED DEAD REDEMPTION 2. Faz 15 horas que estou jogando e só agora começo a me acostumar com os controles e com toda a jogabilidade. Estou mais atento ao pequeno mapa no canto da tela. Enquanto cruzo riachos, pradarias e trilhos, é comum algum pontinho fora do campo de visão pipocar no mapa, me avisando que tem algo para fazer ou alguém para conhecer. Ou alguém para matar.

Ou alguém querendo te matar.

Nesse momento específico estava tentando cavalgar até uma caverna, perto de uma cascata, onde uma viúva fora-da-lei estaria escondida. Se a capturar viva, o xerife de Valentine me dará 25 dólares. Em 1899, 25 dólares é dinheiro pra caralho! Essa é minha missão no momento, mas no caminho um ponto branco pisca e alguém chama por mim. Paro meu alazão e vejo que um negro em uniforme de presidiário está pedindo ajuda. Ele não diz se fugiu ou o que aconteceu, quer apenas que eu atire nas correntes que prendem seus pés. Eu o ajudo, ele agradece e vai embora. Não ganhei nada com essa boa ação. Sigo em frente e pouco depois, debaixo de uma grande árvore, dois sujeitos mal-encarados me param e dizem que aquela região é dos O’Driscolls, uma gangue rival de foras-da-lei. A minha gangue, a de Dutch Van Der Linde, está em guerra com os O’Driscolls desde o início do jogo. Os dois homens não queriam me assaltar e nem apontaram armas para mim. Queriam apenas intimidar o velho Arthur Morgan. Daí resolvo pegar minha espingarda de repetição e rapidamente pipoco o peito de ambos. Vasculho seus cadáveres e sigo em frente.

Depois de muito andar, chego enfim à cascata. Um cavaleiro bem vestido se aproxima, elogia meu cavalo e oferece uma corrida até Diablo Ridge. Olho no mapa e vejo que fica ao sul de onde estou. A aposta vai me desviar um bocado da missão, mas aceito, pois não sei se haverá outra oportunidade. Saímos galopando e mantenho a dianteira quase que durante o percurso todo. No final da “pista”, preciso fazer uma curva muito fechada. Não consigo e meu cavalo bate no tronco de uma árvore. Ele relincha e sou arremessado para a frente. Me levanto e corro até o ponto de chegada a pé mesmo. Venci. Espero receber algo dessa vez. Quando o cavaleiro se aproxima para reconhecer minha vitória eu acabo apontando a arma para ele ao invés de apenas direcionar a atenção para iniciar o diálogo. Ele se assusta e sai galopando, com medo. Se essa corrida ia render algo, jamais saberei agora.

Subo no cavalo e sigo a trilha até a viúva que vai me render os 25 dólares. Salvo o game. Depois de perder diversas oportunidades e fazer muita besteira, descobri que é sempre bom salvar o progresso quando acabo de fazer algo significativo. Até pequenas coisas levam um tempo considerável em Red Dead Redemption 2. Matar animais para pegar sua pele e carne, por exemplo, exige escolher aqueles em melhores condições. Matá-los (nem sempre fácil, nem sempre morrem com uma flecha, nem sempre você acerta em cheio a cabeça). Esfolá-los. Levar a pele até o cavalo. Voltar e pegar o corpo do animal para colocá-lo no cavalo também. É um game bem detalhista, o mais detalhista que já joguei. Além disso, muitos encontros são fortuitos. Por isso, ao se deparar com eles, é bom aproveitar ou ter um save logo antes de ocorrerem, caso as coisas não saiam como o esperado.

VOLTA O SAVE

Começo a procurar a viúva e eis que dois cavaleiros passam correndo por mim, um deles levando um homem amarrado na garupa. Vou atrás deles e resolvo intervir naquilo para ver se salvar aquele homem vale de alguma coisa. Mato um deles e me atrapalho com os comandos, sendo morto pelo segundo. Volto meu save e tento novamente. Ando mais um pouco por ali e os dois cavaleiros passam novamente. Inicio uma briga com eles e sou morto de novo. Tento pela terceira vez: recomponho a vida, o fôlego e a barra de Dead Eye do personagem. Encontro a dupla e novamente intervenho na vida deles. Dessa vez, enquanto cavalgam à minha frente, aciono o Dead Eye, que faz efeito bullet time me dando tempo para mirar nos pontos que quero atingir com mais precisão. Erro na mira e coloco pelo menos dois tiros no homem amarrado. Um acerta seu pescoço e o outro, sua cabeça, criando uma pequena cachoeira de sangue. Não consigo acreditar na minha burrice e falta de habilidade. Consigo derrotar os dois homens e confiro o corpo do homem amarrado. Está morto mesmo.

Dá para continuar a jornada tranquilamente mesmo com esse erro. O peso na missão principal ou na história é minúsculo. Poderia tê-lo matado, libertado ou pego o suspeito para que eu mesmo o entregasse às autoridades federais dos Estados Unidos. Essa é uma das belezas de RDR2. Algum tempo antes desses fatos que estou relatando, passei 3 horas tentando fazer Arthur Morgan roubar os fundos de uma loja de remédios. Ao passar por trás da loja, uma porta de ferro evidencia uma movimentação suspeita. Ao entrar na loja, vejo que há outra porta de ferro trancada do lado de dentro. Volto, coloco a máscara de bandido,e aponto a arma ao médico para que ele abra a porta. Há três bandidos O’Driscoll e uma mulher lá dentro. Mato todos. Pego dinheiro, vasculho seus corpos e pego uma arma rara ali em cima da mesa. Mas só posso sair pela porta da frente e as autoridades a essa altura já estão me procurando. E é difícil escapar delas. Muitos homens vêm atrás de você e sua cabeça fica a prêmio. Eu tentei de diversas formas completar essa “tarefa” fazendo com que não me reconhecessem, mas sempre acabei ou morto ou com uma dívida gigantesca para pagar em uma cidade que precisaria visitar com frequência no início do jogo. Tentei repetir as mesmas coisas por 4 fucking horas antes de desistir. RDR2 exige paciência, meu amigo.

De volta aos dois cavaleiros levando um homem amarrado na garupa. Volto o save e repito pela quinta ou sexta vez o processo. Consigo derrubar os dois homens e salvar o terceiro – que disse que não fez nada. Ele agradece e se vai e eu começo a ser perseguido por mais três homens. Dou cabo deles e em seguida mais dois aparecem atrás da minha carcaça. Alguém deve ter me visto disparando contra meus alvo originais com uma carabina de cano duplo e assim fui denunciado às autoridades. Passo a ser um procurado não só pelos “policiais” do velho oeste americano, mas pelos caçadores de recompensa. Isso acontece muito em RDR2. Se vai matar alguém, certifique-se de que não há ninguém por perto. E se tiver, não deixe testemunhas.

Consigo escapar dos homens no meu encalço, mas a recompensa por minha cabeça já está em 165 dólares. Não tenho essa grana para pagar por meus próprios crimes na agência de correios daquela região. Isso quer dizer que toda vez que eu estiver na região de West Elizabeth vou precisar sempre desconfiar de quem cruzar meu caminho e viver com um olho na nuca. E pensar que tudo isso começou como uma caça à uma mulher que vai me render apenas 25 dólares…

Eu encontrei a mulher. A viúva estava com um homem em uma caverna perto do córrego. Fiquei ouvindo a conversa dos dois. Como ela não deveria morrer, preparei meu laço. Ao me aproximar, o homem me vê, ela anuncia que devo ser um caçador de recompensas e passa a faca na garganta do cara. Laço a garota e a coloco na garupa do meu cavalo. Ela fala pra caramba durante todo o percurso até o xerife de Valentine. Eu sei que libertei algumas pessoas de trajetória meio duvidosa, mas elas não estavam com a cabeça a prêmio (que eu saiba) e eu vi a viúva assassinar um homem bem na minha frente a troco de nada!

(Incrível como o videogame coloca a gente na pele do personagem, não é? Meu personagem saqueia casas e corpos, mata quando acho que tudo bem e tenho essa posição moralista frente a esta viúva… Eu sou Arthur Morgan. Nada é real, mas tudo me pertence devido às minhas decisões e escolhas por meio do sistema e do personagem.)

SERIAL KILLER

Em uma dessas andanças de um lado para outro com meu fiel cavalo, um ponto branco pisco no mapa enquanto passava por uma ponte. Olhei lá para baixo e não vi ninguém, tampouco ouvi algum tiro ou chamado. Fiquei intrigado e dei a volta para ver o que havia debaixo da ponte. Encontrei rastro de sangue no chão. Pendurado na estrutura de aço que sustenta a ponte estava um meio-corpo, pendurado pelas pernas e cortado da cintura para cima. Uma visão bem impressionante. Nesse momento, a música tensa e sintetizada que marca conflitos surge e deixa a cena com ares macabros. No chão, os restos do corpo. Partes de camisa, braços, uma poça de sangue. Não achei a cabeça. Olho para o paredão à esquerda e a frase “Look on my works” (Contemplai as minhas obras). Temos um serial killer a solta em Red Dead Redemption. A frase é também o primeiro verso do soneto Ozymandias do inglês Pierce Bysshe Shelley (cuja segunda esposa foi Mary Shelley, a autora de Frankenstein). Segue o poema:

Eu encontrei um viajante de uma antiga terra
Que disse: — Duas imensas e destroncadas pernas de pedra
Erguem-se no deserto. Perto delas na areia
Meio enterrada, jaz uma viseira despedaçada, cuja fronte
E lábio enrugado e sorriso de frio comando
Dizem que seu escultor bem suas paixões leu
Que ainda sobrevivem, estampadas nessas coisas inertes,
A mão que os escarneceu e o coração que os alimentou.
E no pedestal aparecem estas palavras:
“Meu nome é Ozymandias, rei dos reis:
Contemplai as minhas obras, ó poderosos e desesperai-vos!”
Nada mais resta: em redor a decadência
Daquele destroço colossal, sem limite e vazio
As areias solitárias e planas se espalham para longe.

Há algo de místico nesse assassinato? Pois ele foi ritualizado, inspirado no texto de Shelley. Ele chega às raias do Impensável, como escrito pelo filósofo contemporâneo Eugene Thacker em In The Dust Of This Planet que recentemente apareceu aqui no C I R C L E.

Entre tantas coisas interessantes para se ver no jogo, essa certamente é uma das que mais chamou a minha atenção até agora. Algo misterioso e que não deixa pistas de quem seria o assassino. Com mais de 20 horas de jogo, completei apenas 20% do primeiro capítulo de Red Dead Redemption 2. Vai ser assim, aos poucos, a minha jornada. Sempre com a morte à espreita.

Leia também a primeira parte do diário de jogo de Life Is Strange 2 – Roads

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