Muse eclético até demais em Simulation Theory

⭐⭐👍

Em 2015, Drones trouxe o Muse mais roqueiro de volta. Pode não ser a mesma coisa de antigamente, mas ouvimos a banda apostar em rock de novo, ao invés de cair no pop como acontecia com muitas bandas que vinham tocando para estádios.

Em SIMULATION THEORY, o trio parece bem menos um trio. Ou pelo menos é um trio muito bem mixado com um computador como quarto membro. Todo guitarrista que já tentou tirar as músicas da banda sabe que acertar nos timbres é um trabalho árduo, mas agora ficará impossível. São as faixas mais texturizadas e sintetizadas que o grupo já produziu. Embora existam riffs roqueiros, a quantidade de processamento em cima de cada nota as transformam sons novos, uma alquimia interessante entre o eletrônico e o overdrive.

A veia pop inegável do grupo está presente de cabo a rabo em Simulation Theory. “Propaganda” é bizarra. Eletrorock com vocal em falsete e um trecho meio country ali no meio. Poderia estar no último disco do Jack White. “Break It To Me” é igualmente bizonha, porém coloca o baterista Dominic Howard para fazer alguma coisa diferente do que vinha tocando nos últimos quatro álbuns. Ao misturar batidas oitentistas com seu estilo de pancadaria reto e preciso, mostra que a ideia da banda é realmente explorar novos terrenos.

A balada “Something Human” continua sendo terrível dentro do contexto do álbum, como já era quando ouvida como single. Esta faixa marca a metade do disco e começo a pensar que parece apesar das diferenças é um trabalho que tem sim a assinatura característica do Muse, mas feito a partir da mesma receita que Justin Timberlake utilizou em seu Man Of The Woods (2018).

“Get Up and Fight” tem participação da sueca Tove Lo. O refrão é um puta rock, mas até chegarmos a ele dá para colocar o gosto dessa banda em xeque, amigos. Fica a questão: o Muse não tinha ninguém no estúdio para avisar a eles que nem todas as misturas que estavam promovendo pareciam coesas o bastante?

Sim, eles tinham os coprodutores Rich Costley (um cara que produziu tudo do Muse de 2003 até aqui), Mike Elizondo (principalmente rap e hip hop), Shellback (sueco especialista em pop hypado) e Timbaland (já trabalhou com Jay-Z, Drake, Björk e, veja só, Justin Timberlake). Mas uma rápida olhada no perfil desses produtores explica muita coisa do que se ouve em ST, para o bem e para o mal.

“Dig Down” foi revelada bem antes de Simulation Theory ser um projeto em andamento. Achei até que era uma sobra de Drones e que não entraria no disco seguinte. Agora, contudo, ouvindo-a no contexto do álbum, dá para ver que ela pertence muito mais ao Muse de 2018 do que ao de 2015. Era uma faixa fraca quando surgiu, continua sendo fraca agora (mas o registro acústico e gospel da versão deluxe é boa!).

“Algorithm” não é ruim. Ruim é compará-la com aberturas como “Supremacy” e “Apocalypse Please”. Não tem nem o caráter épico da primeira e nem a linda urgência da segunda. Tem aqueles arranjos de corda básicões que Matt Bellamy toma de inspiração da trilha de filmes. “The Void”, a última do álbum, parecia promissora, mas acaba sem grandes graças.

Há potencial para ser o pior disco da discografia da banda, mas não subestime o tamanho do público dessa banda e nem o ecletismo dessa massa. Aliás, ao vivo, o Muse continua sendo uma banda incrível – e isso pode contar muito na percepção das noivas músicas.

É o LP mais arriscado dentro os oito do catálogo e não acho que seja uma tentativa de soar mais pop. Bandas que fizeram essa migração chegaram lá com uma música mais acessível e redonda, caso de Coldplay e Maroon 5, Kaiser Chiefs e The Killers. O Muse promove uma mistura que tenta unir seu lado mais exploratório com o pop e seu rock poderoso, tentando fazer isso tudo casar com o conceito mais alegre, colorido com neon e sci-fi do álbum. O problema é que acaba soando brega em boa parte das vezes. Salvam-se algumas faixas, como “The Dark Side”, “Thought Contagion” e “Blockades”.

É divertido, mas falta coesão e consistência em ST. Se resume a uma composição muito mediana e produção que parece uma gangorra tentando abraçar coisas demais enquanto sobe e desce. Quando lembramos de canções como “Panic Station” ou “Supermassive Blackhole” temos o Muse que sabe incorporar o pop descarado no seu som, na sua identidade. “Pressure” é o mais próximo desse equilíbrio que temos no álbum novo.

Sons de videogame antigo, teremim, percussão e arranjos com inspiração árabe e cinematográfica. Visual cyberpunk e o clima menos sisudo da carreira. Bom, com todos esses elementos também presentes em Simulation Theory, pelo menos não dá para acusar o trio inglês de não tentar fazer algo diferente.