Richard Ashcroft, SHT GHST e MØ

RICHARD ASHCROFT

Gosto muito de Richard Ashcroft. Ele é muito importante na minha formação musical, sobretudo por causa do The Verve, mas é importante notar que seu som em carreira solo é bem menos ambicioso e muito mais açucarado. As canções se baseiam em ciclos de quatro ou cinco acordes bem comuns. Contudo, o britânico sabe fazer boas melodias e faz parecer que fazer música é fácil. De certa forma, a julgar pelo que ele vem fazendo em carreira solo, é fácil mesmo. A música tem que ser bonita e isso basta.

NATURAL REBEL é uma coleção de canções bem redondas, bem acabadas, e sem nenhuma ambição artística. É Richard, um violão e uma banda de apoio que ele pode dispensar para tocar – com muita emoção, inclusive – suas músicas sozinho num palco.

Para quem o conheceu nos anos 90, suas músicas de agora podem soar às vezes como o do roqueiro que envelheceu e ficou mais acomodadão. De fato, um Noel Gallagher da vida é muito mais explorador e arrojado ainda hoje, mas por mais que pareça cafona ver Richard se derretendo, há momentos em Natural Rebel que tocam o ouvinte, como em “That’s How Strong” e em “A Man in Motion”. As orquestrações que ele planta em cada faixa ajudam a dar aquele empurrãozinho em nossa empatia por elas.

Mas é isso. A gente é manipulado emocionalmente por táticas bem conhecidas. Não há real rebeldia para ser vista ou sentida em Natural Rebel. A salvação em “Money Money” – essa sim mais roqueira – chega tarde demais. Ashcroft tem uma excelente voz e ouvido para melodias, mas virou um projeto suave e autoindulgente demais para nossos tempos turbulentos.

SHT GHST

O psicodelismo sempre tem um espaço aqui, né? Dessa vez indico o segundo disco do SHT GHST, o 2: PHOTOS OF BREAD. É um som viajante e poderoso, moderno, que te parece estranhamente familiar e alien ao mesmo tempo.

Apesar de os músicos se apresentarem todos vestidos em spandex branco, com aqueles óculos em espiral, a parte musical é realmente séria. São bons músicos que produzem muita coisa legal a partir de improvisos.

A banda é de Seattle e fez vários shows baseados em experimentações e longas jam sessions de rock e jazz com ênfase ora no ritmo, ora na viagem. Dizem que ninguém sabe quem são as pessoas que realmente estão por trás das máscaras. Em 2017 lançaram 1: The Creation, álbum com poucas faixas, mas todas bem longas, reproduzindo essa forma de tocar e criar que já demonstravam no palco. 2: Photos of Bread é a prova de que eles também conseguem fazer músicas mais planejadas, com começo, meio e fim.

O KEXP definiu assim o álbum: “2: Photos of Bread se constrói a partir da ambição deixada pelo álbum anterior, encontrando inspiração no oceano, galáxias distantes, e na condição humana da perspectiva de um ser urgente e curioso que tenta apreender o sentido disso tudo.” Se joga!

É triste, mas as músicas de em FOREVER NEVERLAND se sucedem e uma se parece com a outra e com alguma outra coisa que já ouvimos por aí. Triste porque a estreia dela foi bem interessante, parecia uma voz nova do pop que tinha uma abordagem artística que tentava ser mais pessoal – e um tantinho ambiciosa – mas ainda acessível.

A dinamarquesa MØ foi ficando cada vez mais comercial e hoje é mais uma artista do pop escandinavo tentando soar como… uma artista do pop escandinavo que precisa soar como uma estrela produzida para pistas de NY, LA ou Miami. A faixa final, “Purple Like The Summer Rain”, é a que parece evocar melhor o lado mais original dela.

A voz de MØ continua sendo uma atração por si própria. Ela não é do tipo que faz agudos ou sustain anormais. Nada disso. É o timbre dela que é bem gostoso mesmo. Um pouco rouco e altamente adaptativo, seja ao pop mais europeu, a uma batida mais próxima do Miami bass misturada com indie (como em “Blur”). Apesar de vir de terras frias, o álbum é bem solar, para o verão, para dançar. “I Want You” não me deixa mentir.

Tem “feat.” com Charli XCX, mas é só parte do jogo se associar a nomes relevantes para um determinado público. As outras participações resultam em música melhores, como a balada “Mercy” (com What So Not e Two Feet) e Red Wine (feat. Empress Of), com seu reggae e sopro oriental, parecido com algo que o Gorillaz poderia fazer anos atrás. “Sun In Our Eyes”, com Diplo, é a faixa comercial por excelência. Os feat. são importantes para ela. Embora ela sozinha seja interessante, foi com DJ Snake e Major Lazer que a dinamarquesa conseguiu reconhecimento mundial em “Lean On”.

No Mythologies To Follow foi um marco em 2014 e apresentou MØ como um promessa do indie pop escandinavo. Forever Neverland é apenas o seu segundo disco completo e, se não a coloca no centro nervoso do pop mundial e mainstream, certamente tenta se aproximar dele mantendo alguma coisa da verve da estreia.

Emma Ruth Rundle, Lenine, Ólafur Arnalds

EMMA RUTH RUNDLE

ON DARK HORSES é o que de mais próximo ao doom a Emma Ruth Rundle já se permitiu. O single “Light Song”, que não é nada leve, poderia ser uma faixa “light” da Chelsea Wolfe. O clima denso e misterioso de suas faixas, um universo entre PJ Harvey e Mark Lanegan, dá o tom do novo álbum, que vem cheio de guitarras com afinações baixas e arroubos sonoros que são intercalados com sua boa mão para melodias melancólicas e emotivas.

Emma é mais uma artista que pega o seu (o nosso) lado mais sombrio e o transforma em algo belo. “Dead Set Eyes” e “You Don’t Heave To Cry” não me deixam mentir.

Nos últimos anos, ela tem sido uma luz para minhas trevas. Marked For Death, seu álbum anterior, já tinha despertado sentimentos fortes em mim, assim como me apresentou uma artista talentosa no comando de uma boa banda. Ano passado, sua balada “The Distance” foi, sem dúvida, a música que mais ouvi no ano, isoladamente. A delicadeza, a profundidade, a sobriedade me acalentaram em diversos momentos. On Dark Horses têm uma pegada mais dark e com certeza o lado roqueiro dela está mais aflorado do que nunca. Nada de baladas acessíveis ou músicas mais comerciais. “Races”, a única que não pesa a mão, é arrastadinha também.

Pessoas noturnas e que gostam de sentimentos pesados, que parecem desabar sobre você podem se jogar nas costas desse cavalo de oito faixas e aproveitar a catarse. Emma Ruth Rundle fica feliz em ajudar.

LENINE

Lenine nunca foi um cara de uma música só. De um estilo só. No cenário da música popular brasileira, é um dos mais inventivos, transitando entre temas de novela e músicas com uma boa dose de experimentação, entre letras de amor e de crítica política, social e ambiental. Ao vivo, sua banda sempre soa mais rock ‘n’ roll. Lenine mesmo não é do tipo que fica paradinho na frente do microfone. Ele agita. 

E principalmente quando o repertório passa por músicas de álbuns como Labiata, Chão e Carbono, o guitarrista Tostoi dá uma cara de post-rock a tudo que contrasta de uma forma interessantíssima com aquelas levadas de violão tão próprias e brasileiras de Lenine.

EM TRÂNSITO é um disco de músicas inéditas do Lenine, mas que ele gravou ao vivo. Ao longo da versão deluxe (com 1h20) há canções antigas também, mas o grosso do álbum é de composições novas. Para quem já teve o prazer de vê-lo ao vivo nas últimas turnês, perceberá que as músicas novas soam bastante como várias das antigas. No palco, a MPB se mistura bem com o rock e resolvem tudo com a banda, sem overdubs, sem as adições de instrumentos e camadas que são comuns em estúdio. Em Trânsito é uma forma de Lenine experimentar um novo jeito de gravar novas composições e, de quebra, serve como registro de como sua banda soa ao vivo ultimamente.

Tem rock (“Virou Areia”), tem experimental (“Lá Vem a Cidade”), tem uma linda balada de piano (“Lua Candeia”), ritmos que eu chamo de radioheadianos (“Lá e Lô”, “Sublinhe e Revele”) e tem até música dançante (“Que Baque é Esse?”). Lenine não se reinventa. Nada que ele faça está a 180 graus do que ele produzira no passado. Mais do que sua voz, há uma forma característica de como suas músicas se comportam. Depois de dois álbuns que consumiram um bom tempo em estúdio, Em Trânsito é uma vigorosa e criativa banda fazendo alquimia musical no ato.

ÓLAFUR ARNALDS

Ólafur Arnalds é um dos meus compositores preferidos da Islândia. RE:MEMBER só mostra como sua versatilidade estilística é enorme. Erudito e eletrônico dão as mãos em seu novo trabalho, abrindo espaço para o ruído e para aquela profundida emocional tão típica da música islandesa, que congrega graça e harmonia com uma ponta de melancolia e dissonância.

Para este álbum, ele estreia um software de processamento chamado Stratus que transforma o som do piano em algo único, com timbres até então nunca usados. Ao lado do baterista e cientista da computação Halldór Eldjárn, ele passou dois anos programando o software. No entanto, ele entrega composições com uma ampla gama artística e, assim, o timbre do Stratus de forma alguma é a única estrela de re:member.

Enquanto algumas músicas flertam com o pop (“inconsist”), outras são mais calcadas no piano clássico (“nyepi”). Mas nada é sagrado. Arnalds borra as fronteiras e nos dá uma música fluida, do popular ao clássico, acessível e ainda assim misteriosamente complexa (“they sink” e “undir”). Difícil de categorizar por estilos, mas enraizada na sensibilidade do homem que a fez, um compositor que já fez erudito, música eletrônica a quatro mãos, rodou seu país natal a procura de diferentes parceiros musicais para capturar a variedade folclórica da música islandesa e que também faz trilhas sonoras.

Combinando sua habilidade no piano às novas possibilidades criada pelo Stratus, Ólafur Arnalds segue se desafiando e exercendo a criatividade.

Carne Doce, Death Cab For Cutie, Mark Lanegan & Duke Garwood

CARNE DOCE

TÔNUS, terceiro álbum dos goianos do Carne Doce, é a maturidade em desenvolvimento. Pouca coisa lembra o som que faziam no primeiro, Carne Doce, que era mais psicodélico e barulhentinho. Carne Doce quase não precisa de histrionismo. Ele dá muito certo apostando em guitarras mais suaves, baixo bem legal e bateria que fica ali, acompanhando tudo de forma bem controlada, mas acanhada.

A sensualidade da banda, presente nos versos, nas fotos e ainda mais na forma expressiva como Salma Jô se interpreta as canções ao vivo, chega ao ponto em que se solidifica. Continua sendo um dos diferenciais da banda no rock e na MPB, mas já é regra, não mais exceção. Ouvir e conferir um show do Carne Doce já é sinônimo dessa sensualidade que vem pela forma como a banda toca, como Salma se movimenta e passa pelo próprio nome da banda, que evidencia um paladar muito específico.

O verbal é importante também. Em “Comida Amarga”, ela canta: “Já não sou mais gostosa / Você goza triste em mim”. E aí temos também a sensacional “Amor Distrai (Durin)” que fala de sexo sem rodeios, sem escândalo. A faixa-título consegue ser (além de oitentista) ainda mais visual ao descrever um corpo bonito. É claro que esse não é o único tema de Tônus, mas acho que vale a pena ressaltar esses temas, porque, neste disco, parece que Salma, a principal letrista do grupo, encara o que é e o que pode deixar de ser, mas que gosta de ser.

Assim como todo o resto, a guitarra de Macloys continua bem criativa e melódica, mais delicada do que nos álbuns anteriores. Faz de Tônus um álbum mais contido, de certo modo, mas não menor.

DEATH CAB FOR CUTIE

O novo disco do Death Cab For Cutie, o THANK YOU FOR TODAY, mantém a banda no mesmo patamar de Kintsugi, o anterior. É aquela mesma vibe de musica bonita, fofa e que tenta ser emocional. E chega a ser mesmo, em alguns momentos. A atmosfera às vezes é meio fria, mas nada que congele seu envolvimento com a banda. 

É um disco OK e acredito que muito disso se deve à sua duração relativamente curta. Com 38 minutos, não deixa muito espaço para enrolação. Não se estende demais, podendo cansar o ouvinte, visto que a surpresa ou a variação rítmica, não é um dos méritos de Thank You For Today.

Sendo assim, é um bom álbum. Nada que dê para apostar que entre em lista de melhores do ano de sites e revistas, mas quem liga? Death Cab For Cutie quer seu coração. Se a música o tocou, é isso que importa.

MARK LANEGAN & DUKE GARWOOD

Eu adoro Mark Lanegan. Ultimamente, praticamente tudo que tem lançado tem me agradado bastante. WITH ANIMALS, com o amigo Duke Garwood, é um projeto que exige que o ouvinte entre na proposta dos dois artistas. É um bom disco de música de fundo, um tanto meditativo até, sem crescendos e sem apelar para emoções exaltadas. Letras sombrias e atmosfera noturna do início ao fim, cheio de sons que evocam o lado selvagem escondido do homem e da natureza.

Lanegan está bem. Garwood está bem. As composições são bem produzidas e pensadas para poucos músicos a executarem ao vivo. Não é um disco de rock ou com uma vibe mais pungente, como seus últimos trabalhos. São canções mais minimalistas que seguem uma coerência sonora e objetiva do início ao fim.