Não vamos reduzir ROMA à fotografia, ok?

ROMA é como Alfonso Cuarón falou: um filme sobre uma empregada doméstica no México em 1971, em preto e branco e que não força plot twists para animar a plateia. Filmado digitalmente em uma câmera Alexa, com o formato de 65 milímetros, fazendo qualquer cena doméstica, qualquer fato cotidiano e tomada mais íntima ter a grandeza de um épico de guerra. É por aí que opera a sensibilidade artística de Cuarón, que fez o filme baseado em sua infância, em sua família, no mixteco (um dos dialetos do país) e no México que viu desabrochar a duras penas. Ele foi diretor, roteirista, diretor de fotografia e editor da obra fazendo deste o filme mais pessoal de sua carreira.

Muito já se falou da fotografia de Roma e ela precisa mesmo ser reconhecida. Perdi a conta de quantas cenas foram icônicas para mim. Teve a cena da “despedida” do médico na frente da casa com as crianças na calçada, a tomada dos praticantes de artes marciais, Cleo (Yalitza Aparicio) andando por um bairro sem calçadas, ruas ou esgotamento sanitário, a cena do incêndio, aquela no cinema, o plano sequência do parto, o abraço quente e que mistura alívio e desespero próximo do fim e que virou cartaz do filme. Que coisa linda tudo isso! A câmera se comporta como uma mera testemunha de tudo e sua movimentação, que parece meio canhestra a princípio, faz com que as perambulações dos personagens tenham que ser milimetricamente encenadas, e mesmo assim diretor e elenco fazem tudo soar natural.

Mas por favor não reduza Roma à sua fotografia. É como reduzir o clipe de “This Is America” às referências. O filme fala por si só, mesmo que pareça muito quieto. A tensão fica no ar, nas entrelinhas dos diálogos, em cada cômodo da casa onde a dinâmica familiar vai ruindo e depois se reconfigurando. Mais do que ver a tensão – e olha que Roma é um filme para não desgrudar os olhos – é preciso sentir como uma coisa leva a outra, como o drama de Cleo fica em segundo plano sufocado pelo que ocorre na casa da família. Se por mais de uma hora parece que os elementos da história soam meio aleatórios, eles vão fazer muito sentido e se unir na segunda metade.

É lindo de acompanhar.

Conforme assistia pela Netflix, diversas vezes me peguei pensando em filmes italianos dos anos 60, como os de Michelangelo Antonioni, mas principalmente os de Federico Felini. É claro que pode ter um pouco desse DNA em Cuarón, mas não soa como homenagem – o que é ótimo, nesse mundo onde parece que uma obra só consegue se fazer notar por certo público se tiver uma “referência” para pescar. Outra coisa que me peguei pensando constantemente é que era um dos melhores exemplos de Cinema que vi em 2018, do tipo que muita gente teria medo de fazer visto que não há mais um mercado de salas de cinema para produções como essa. É por isso que é tão importante que a Netflix esteja promovendo a obra e a colocando em mais de 100 países ao mesmo tempo.

Se eu tivesse que destacar uma cena, seria a dos praticantes de artes marciais, quando o mestre pede que todos juntem as mãos acima da cabeça, recolham uma das pernas formando um 4 e vejam se conseguem se equilibrar. A princípio parece uma cena longa demais e que seria cortada a seus momentos principais em um filme mais prático no roteiro e no trato com sua audiência. Mas Alfonso Cuarón quer dar tempo para sentirmos as coisas e tudo o que se revela nessa cena que aparentemente está sobrando. É importante que Cleo se veja desamparada por Fermín. Mas é mais importante ver do que ela foi capaz sozinha.

Uma vez, durante os anos de faculdade, um amigo (oi, César!) disse que gostava de deixar um dos filmes do Antonioni – acho que era o inglês Blow Up – Depois Daquele Beijo – passando na tevê, sem áudio, só para apreciar as imagens. Roma tem o mesmo poder, com a “vantagem” do formato 65 mm encher os olhos. Se Blow Up tem o jogo de tênis imaginário para coçar nossa mente, Roma tem uma poesia intrínseca e aponta para cima, para vermos mais um avião cruzando o céu do bairro, e pensarmos no que isso talvez queira nos dizer hoje.

A psicologia em SACRIFICE, de Derren Brown

Quando assisti a Miracle, um dos mais recentes espetáculos do mentalista inglês Derren Brown, fiquei impressionado não com a habilidade de ilusionista do homem,mas como ele foi capaz de “enganar” o cérebro das pessoas explicando tudo o que fazia, mas criando um teatro para fazê-las crer que tudo estava acontecendo mesmo. No fim, ele prova que as pessoas (grande parte delas, pelo menos) acreditam no que querem ou escolhem acreditar.

Brown sempre repete o mantra “as histórias que contamos a nós mesmos”. Seus espetáculos, como Miracle e o novo SACRIFICE (ambos disponíveis na Netflix), nos mostram como esse tipo de mantra funciona em nossas vidas. Em Miracle, ele diz com todas as letras que é um ateu e que não haveria possibilidade de Deus agir por meio dele, mas mesmo anunciando isso, ele cria um teatro religioso análogo ao dos pastores evangélicos americanos e repete – ele, um homem sem fé – os mesmos milagres que os tais pastores que dizem estar imbuídos do poder do Espírito Santo. Derren deixa implícito como tudo é sugestão, hipnose, ilusão e técnicas psicológicas, mas que muita gente tira proveito disso para se passar por instrumento de Deus – e nós nos deixamos levar por essa falácia, pois não compreendemos como aquilo que ele faz seria humanamente possível.Porém, um ateu acabou de realizar os tais milagres (truques) bem na frente de centenas de pessoas.

Em Sacrifice, Derren Brown cria uma espécie de reality show para mais uma vez mostrar como muitas de nossas limitações e também a forma como enxergamos o mundo estão presas às histórias que contamos a nós mesmos. Após uma seleção de pessoas, ele define que Phil, um morador da Florida,será sua “cobaia”. Phil é casado e pai. Logo percebem que o homem é da opinião de que a permanência de mexicanos e latinos nos Estados Unidos é um erro, pois eles roubam os empregos dos americanos, entre outros motivos.

Mas dessa vez o show de Brown é um experimento de comportamento. A intenção do ilusionista é fazer com que sua cobaia seja capaz de pular na frente de uma bala para salvar um desconhecido. Para isso, implanta um chip na nuca de Phil e diz que o aparelho está ligado a um aplicativo que foi instalado em seu celular. O intuito seria aprimorar Phil. Na realidade, Brown quer que Phil acredite que será capaz de novos feitos justamente porque tem um chip em seu corpo e faz os treinamentos mentais com o app. Brown conta uma história à sua cobaia.

A cobaia precisa crer nessa história para crer em si mesmo. Embora Sacrifice seja um produto para televisão e use muitos artifícios para criar tensão no expectador, pode ficar a impressão de que tudo o que Brown faz com Phil é combinado. Mas a psicologia pode explicar. Recorri aos conhecimentos em Análise do Comportamento da minha namorada, Juliana, para poder contar quais são as prováveis técnicas usadas por Brown neste caso.

CONDICIONAR É PRECISO

De frente para Phil, Derren Brown começa a envolver sua cobaia em uma narrativa sobre o que fazer com o corpo para não sentir dor. Isso envolve falar certas palavras para encorajá-lo e ensiná-lo alguns truques, como dar três soquinhos na cabeça. No caso, Derren quer que Phil sinta sua mão anestesiada a ponto de poder perpassá-la com uma agulha e o homem não sentir nada. Phil já está usando o aplicativo, já tem o chip implantado e já sabe reconhecer um sinal sonoro do app que indica que “é hora de ter coragem” ou então “é hora de acreditar”. Como já sabemos, o chip não funciona. O app é só parte do teatro para que ele acredite estar sendo treinado para novos feitos. O som é um gatilho para lembrá-lo disso tudo. Os socos na cabeça é uma ritualística. E dá certo. A agulha atravessa a pele da mão de Phil e ele não sente nada.

Em Análise do Comportamento, podemos dizer que Brown está realizando um Treino Discriminativo. Ele introduz estímulos para que Phil comece a discriminá-los, ou seja, reagir a cada um deles diferentemente do que normalmente reagiria. Derren coloca Phil em certas situações – como na beira de um precipício para um lago – para disparar esses estímulos e ver se Phil é tomado pelo ímpeto de fazer o que o ilusionista quer que ele faça, mesmo que vá contra sua vontade. Phil não gosta de água ou de altura, então pular seria ir contra sua “programação”. Ele tenta. Ouve o sinal sonoro do app, dá os socos na cabeça, fica de cara como abismo, mas não pula. Por quê não? “Porque a história de aprendizagem de uma pessoa é longa e forte o bastante para impedir que certos pareamentos de estímulos façam-na ter comportamentos dessa magnitude”, diz Juliana.

É importante lembrar que Brown faz um produto de entretenimento, não uma pesquisa acadêmica com Sacrifice. É possível que ele tenha utilizado métodos realmente existentes na psicologia comportamental (que descrevemos neste texto), é preciso notar também que pode ser um método eticamente duvidoso para os padrões da Análise do Comportamento.

EMPATIA

Em outra situação muito bonita do programa, Phil é colocado cara a cara com um mexicano em uma sala. Ficam sozinhos e em silêncio, um olhando para o outro. Derren Brown conhece os preconceitos de Phil e tenta quebrá-los. Phil percebe que o mexicano é igual a ele, não é uma ameaça ali. Chora e pede um abraço do rapaz. Não sabemos se isso desmonta seu preconceito contra imigrantes, mas fica claro que passou a enxergar as coisas de forma diferente. O abraço até parece uma culpa (de Phil) sendo jogada para fora.

Antes, porém, Brown analisou o genoma de sua cobaia e apresentou de quais regiões do mundo vêm os genes de Phil. E uma pequena porcentagem é da América Latina. Quem diria, logo ele, um cara que vê os mexicanos como um problema, tem dentro dele uma herança desse povo também.

A revelação genética amaciou Phil. Essa nova informação em sua história (devida e no experimento) fez com que ele chegasse a se sentar de frente para o mexicano tendo que encarar não apenas seu preconceito refletido em si mesmo.

De acordo com Juliana, que me explicou as técnicas psicológicas que podem estar envolvidas aí, Phil tem uma história de aprendizagem muito longa e tem muitas autorregras que não descrevem a realidade, como a crença de que imigrantes roubam os empregos dos estadunidenses. Ao apresentar o mapa do genoma de Phil, Derren colocou mais um elemento para que o homem criasse para si mesmo “uma nova história” e outras regras mais condizentes com a realidade(mais afastadas do preconceito).

Por causa das autorregras que “regiam” o pensamento e comportamento de Phil, ele tinha um padrão de comportamento quando era confrontado com certas questões ou situações, como é o caso dos imigrantes. Todos os estímulos apresentados até aqui, desde a informação do genoma até os soquinhos na cabeça para lhe dar força em uma situação difícil, são parte de uma espécie de treinamento para que Phil aprenda a se comportar de outra forma, quebrando o padrão produzido por seu histórico de aprendizagem.

SENSIBILIZAR DE NOVO

Phil, como você já percebeu lendo até aqui ou assistindo, está condicionado por sua história de aprendizagem, que o levou a criar suas autorregras. O experimento faz com que ele seja dessensibilizado, para que certos pareamentos aversivos se dissolvam. Ou melhor: o experimento buscar quebrar o pareamento entre o estímulo aversivo(presença de latinos) e a resposta emocional (preconceito, ódio). Neste caso, dessensibilizar significa sensibilizar de novo, ressignificando, por exemplo, seu entendimento sobre o que é um mexicano. “Essas quebras de pareamento e o reforço positivo (entender o mexicano, abraça-lo, enxerga-lo como igual) lhe contam uma nova história e aumentam a probabilidade de se comportar com mais empatia no futuro”, me diz Juliana.

No final, o ilusionista cria uma situação que envolve atores e uma equipe de filmagem escondida para fazer com que Phil de fato acredite estar em uma situação extrema e tenha que tomar uma decisão que envolva ficar entre uma arma e um imigrante por livre e espontânea vontade.

É interessante notar que na cena final de Sacrifice, Brown espalha estímulos pelo cenário. O carro em que Phil está reproduz o mesmo sinal sonoro que ele ouviu no aplicativo em situações chave anteriormente. O local da ação contém um catavento vermelho, que lembra muito a espiral vermelha ícone do app. Mas será que o preconceito foi desmontado a ponto de Phil acharque é seu dever defender um imigrante em seu país?

Quem já assistiu, sabe o que acontece. Quem não viu, precisa assistir para saber como a metodologia do mentalista e ilusionista podem ser encaradas à luz das técnicas psicológicas da Análise do Comportamento – dessensibilização e treino discriminativo. Lembrando que Brown embora sempre explique ao público o que está fazendo e o que espera conseguir de Phil, ele não entra em detalhes sobre a teoria que dá base ao seu experimento. As técnicas de Análise do Comportamento explicam, mas ele pode ter seguido outra linha teórica.

Apesar de todo o espetáculo montado por Brown para encantar a plateia, seja dentro de um teatro ou pelo streaming da Netflix, o que acho incrível nele é como ele monta seu discurso ao seu público (ou sua cobaia). Ele diz o que está fazendo e tem um objetivo com isso, que pode ser desmascarar charlatões que querem nosso dinheiro e nossa mente (como gurus, religiosos, pessoas malintencionadas querendo se aproveitar da fé das pessoas) ou até mesmo nos fazer enxergar alguns dos entraves psicológicos que estabelecemos a nós mesmos, acreditamos nesses entraves e assim nos limitamos. O importante não é a ilusão ou a graça do truque de Derren Brown, mas sim o que ele revela de real sobre nós a partir da ilusão.


O segredo como fantasma em A Maldição da Residência Hill

Estava um pouco cético quando comecei a assistir a A MALDIÇÃO DA RESIDÊNCIA HILL (The Haunting Of Hill House). Será que esse gênero de terror com casa mal assombrada ainda poderia render algo interessante? De todos os gêneros do terror, esse me parece um dos mais desgastados e só perde, talvez, para os zumbis.

Mas a série original da Netflix prova que o subgênero ainda pode ter fôlego. É aquela velha história: tudo depende de uma boa história para contar e ter o que dizer com ela. A favor da série contam também mais três fatores, os mais determinantes de todos: bons personagens pelos quais você aprende a se importar, bons atores adultos e mirins para dar vida a essas almas torturadas e um diretor que está à frente do projeto do começo ao fim.

Até o quarto episódio eu vi A Maldição da Residência Hill com curiosidade. A partir do quinto eu comecei a realmente ver como a estrutura daquilo tudo se desenhava. O sexto capítulo é maravilhoso, com todos aqueles longos planos sequência e detalhes minuciosos, uma prova da qualidade de todos os envolvidos, da sala de roteiristas à direção de arte, dos atores e do diretor Mike Flanagan à equipe de filmagem que precisou ensaiar todas as etapas do episódio 6 durante mais de um mês antes de sua realização. Fiquei pensando seriamente que a série teria chegado ao seu ápice nesse episódio. Afinal, depois daquela demonstração de verve narrativa, de interpretação e de arquitetura de uma cena em uma série de TV, haveria como se superar?

De fato, em termos de formato, não há como superar o sexto capítulo. Porém, o sétimo confirmou algo que eu vinha sentindo há algum tempo. A série não faz você pular de susto, mas também não fica escondendo que é um terror. Elementos sobrenaturais estão presentes desde o primeiro episódio, sempre em doses suficientes para que se instale uma tensão, e não para te desviar do drama familiar, que é o que realmente importa. Ao terminar o sétimo episódio, senti o ambiente ao meu redor gelado. Não estava arrepiado, mas minha coluna estava rígida. Eu fiquei tenso de verdade.

Aliás, a Residência Hill é rica em fantasmas. A velha e doente Hazel, a insana Poppy, o homem do relógio, Abigail, a mulher do pescoço torto e o homem alto são apenas aqueles que a série escolheu para conduzir a história da primeira temporada. Existem diversos outros que aparecem por brevíssimos momentos, escondidos em cantos escuros dos enquadramentos. Não são exatamente fáceis de ver, mas uma vez que os descobrimos lá, é mais fácil entender a “reunião” deles no último capítulo – além de dar um ar de ainda mais tensão no espectador.

O sobrenatural existe na Residência Hill, como manifestação de forças além de nossa compreensão e como sintomas de culpa e medo. O contraste entre os irmãos Steve e Luke é ótimo. De um lado, um cara que ganhou a vida falando de assombrações e ele mesmo nunca viu uma e nem acredita nessas coisas. É cético mesmo quando a irmã morta aparece na frente dele. E ele tem razão em não sucumbir à histeria. Luke tem uma ligação de gêmeo com Nellie, a irmã que falece. Ele quer ficar bem, quer ficar sóbrio (das drogas e da superstição), mas acredita na manifestação sobrenatural lá no fundo do seu eu. Steve e Luke somos todos nós, afinal, quando o desconhecido se apresenta. São fantasmas ou vestígios de alguma doença mental?

Doença mental é outro aspecto evocado a todo momento em A Maldição da Residência Hill – e não é evocado apenas para despistar as ocorrências sobrenaturais. Mike Flanagan, o criador, realmente deixa o tema fluir, como no episódio 3, focado em Theo, a psicóloga, que ilustra com muita habilidade como uma criança pode processar um abuso e transformá-lo em algo metafísico. A irmã Shriley representa sobriedade e controles brutais, mas desde cedo é possível perceber que algo não está exatamente certo com ela. E a assombração relacionada a ela é outro exemplo de manifestação gerada por uma culpa ocultada por seu orgulho e vergonha.

É um bom terror pela tensão e por ser, acima de qualquer coisa, a história de uma família. De forma completamente alinear vamos juntando pedaços de histórias e entendendo quem é o que e quem fez o que e quando. Isso vale para os irmãos, para os pais, para alguns dos fantasmas e para a própria casa mal assombrada. É um labirinto pelo qual Flanagan nos conduz. Em seu final, é preciso estarmos atentos para perceber que a mãe Olivia – vivida pela ótima Carla Gugino – é a chave de tudo que nos intriga mais. Ou melhor, a maternidade e o peso de suas responsabilidades pode ser tanto uma benção como uma maldição (um tema que é bem comum em várias histórias de terror, como O Bebê Rosemary e Alien, o 8º Passageiro, entre tantos outros).

No oitavo episódio há um diálogo excelente entre Theo e Shirley após alguns eventos traumáticos. Theo tenta explicar à irmã o que é ser tomada pelo mais escuro vazio e sentir o mais absoluto nada. Isso ressoa na ideia em uma das ideias de terror mais profundas analisadas por Eugene Thacker em In The Dust Of This Planet. É interessante que A Maldição da Residência Hill acabe tentando por em palavras algo que é impossível de ser ilustrado, mas que está em sua história.

Várias dimensões do terror colidem na série. Os mortos assombram a família Crain. A doença mental também. Mas a metáfora usada que é a grande sacada dessa história são os segredos que a família guarda e que acabam virando fantasmas em suas vidas. Quase todos eles têm algo a esconder. E o que permanece oculto é o que castiga suas vidas. No caso de Steve, o cético, isso se manifesta como fim de um casamento. Para Shirley, que se preocupa em ser a fortaleza moral da família, seu segredo se manifesta como uma alucinação. Em alguns casos, como no dos gêmeos Luke e Nellie, há uma somatória de sobrenatural, segredo e doença mental.

Fantasmas escondidos nos enquadramentos, segredos e uma casa enorme com um quarto fechado. Uma série que te resume todo o drama logo no primeiro episódio, mas que precisa percorrer os outros nove para te dar um panorama mais completo. Roteiro e montagem, assim como aspectos da direção de arte, se comportam como um labirinto. O mesmo que está na abertura de Maldição da Residência Hill. Tudo isso sem pesar demais a mão e sem soar hermético, mas exige que você tenha atenção aos detalhes.

Bojack Horseman: 5ª temporada é um pedido de ajuda

Nem sempre as temporadas mais bem estruturadas são as melhores. Acho que a quinta temporada de BOJACK HORSEMAN não supera a terceira em termos de como pode ser sombria e despirocada, mas é a temporada que, até agora, me parece a mais madura.

O seriado sempre teve a metalinguagem em seu DNA. Uma série na TV sobre um ex-astro de seriados da TV vivendo em Hollywoo(d) e tentando viver a vida de forma hedonista recheada de autossabotagem. Uma ironia meio surreal, como só desenhos conseguem fazer, da vida real de astros em Los Angeles e seus problemas. Piadas com atores reais são recorrentes.

Na quinta temporada, BoJack consegue finalmente um emprego em Philbert, uma nova série de TV policial. Aí a metalinguagem se completa: um seriado falando sobre um seriado e como ele é feito, com todas as inseguranças e incertezas, questões de ego e dificuldades criativas entre roteiristas, produtores e atores. Isso é muito bem feito ao longo da temporada, pois há piadas e ironias com todo o processo de criação de uma série. Nada escapa aos olhos do roteiro: desde os problemas para financiar uma produção e como se comporta o mundo de CEOs do entretenimento até o flagrante machismo e como ele acaba sustentado pelas atrizes que, embora expostas a isso, se apegam ao fato de terem um papel que pague as contas.

Mas para quem vinha acompanhando BoJack, vê-lo trabalhando é uma novidade. Por quatro temporadas tudo o que ele fez foi covardice e autossabotagem, agindo com cinismo e niilismo. É um homem/cavalo empático, mas abre mão da empatia em favor de seu egoísmo e idiossincrasias. Dessa vez, embora continue com suas bojackices, ele se propõe a fazer algo e vai até o fim. É ao final desse processo que a série deixa ele mais solto para ser a existência caótica de sempre. Mas senti um respiro nesta temporada. É o mesmo BoJack, mas menos previsível.

O Sr. Peanutbutter (ou Manteiga de Amendoim) passa por algo parecido. É o mesmo cachorro de sempre, mas pela primeira vez senti um aprofundamento de sua consciência sobre o que fez e o que ainda faz. Tem todo o imbróglio com sua nova namorada e aquele maravilhoso episódio das festas de Halloween (“Mr. Peanutbutter’s Boos”) que, pelo menos para mim, colocou uma nova camada sobre a personalidade dele, melancolicamente, acabou fazendo com que pelo menos eu me identificasse em algum grau e enxergasse meus próprios erros.

Eu passei pelo mesmo quando o meu pai morreu e estou passando pelo mesmo agora. É tipo aquela série Becker, com o Ted Danson. Eu vi a série inteira achando que ia melhorar, mas não melhorou. Tinha tudo pra dar certo, mas fizeram dar errado. Quando cancelaram, fiquei muito chateado. Não por gostar da série, mas por saber que podia ser bem melhor.

Mas já era, e perder os pais é assim.

A Princesa Carolyn é outra que desde a quarta temporada tem tido um arco bem interessante e que chega ao completo destaque agora. Workaholic pra caramba, ela tenta manter a carreira em dia e lida com a vontade de exercer a maternidade. Ganha um episódio só seu praticamente (“The Amelia Earhart Story”) e vemos, sem sombra nenhuma de dúvidas, como ela já é uma mãe para todos aqueles adultos que ficam no pé dela e não sabem lidar com aspectos de sua vida. Mas isso não é ser mãe. Isso são os outros não sendo adultos ou bem resolvidos ou confiantes o suficiente.

E aí temos o “Free Churro”. O longo monólogo de BoJack ao lado do caixão da mãe. 20 minutos de câmera congelada no Cavalo-Homem. A gente acha que vai ser de partir de o coração, e é mesmo, mas no meio o personagem não consegue nem na morte da mãe deixar de fazer bojackice. A gente entende a mágoa dele que leva ao cinismo e percebe que o cinismo dá lugar ao buraco que ficou ali no lugar do peito durante a vida dele. E aí o roteiro dá aquela virada nos últimos segundos, só para nos lembrar que estamos no mundo do desenho animado BoJack Horseman. Se cabe algo derivado dos Grandes Dramas da TV, cabe algo de surreal das sitcoms mais manjadas.

Não achei a quinta temporada tão pesada quanto à quarta, mas não é porque o roteiro não lide com questões difíceis e deprês. É que os episódios estão melhor estruturados para contrapor uma sensação à outra. Ou então uma situação, por pior que seja, é enquadrada com um humor retardado de desenho animado. Mas há cenas que tratam de coisas seríssimas que acabam fugindo a essa regra. Uma delas é a da nudez frontal de BoJack na série que está gravando. Outra é a da briga com sua parceira de cena, Gina Cazador, que prefere deixar o cavalo escroto se safar para não virar mais uma vítima aos olhos do público e da indústria do entretenimento.

Os personagens apresentam desenvolvimento, mas não resolução. A imagem de Diane dirigindo ao final é icônica, emoldurada pela canção “Under The Pressure” do The War On Drugs. Peanutbutter deixa sua personalidade falar mais alto que sua razão e que seu coração. BoJack acaba aceitando seu problema de saúde mental, mas conhecendo a figura, já podemos prever como seu cinismo tratará seu corpo e sua mente na sexta temporada.

A crítica ao entretenimento americano, aos seus personagens da vida real e aos seus meios de produção, está mais aguda do que nunca, já que a metalinguagem atinge seu ponto máximo. Diria que é uma crítica ao “way of life” americano também, mas isso quase todas as séries dramáticas conseguem ser também. Agora penso que cada passo em falso de BoJack é um pedido de ajuda e que nós, se nos identificarmos um pouco que seja com ele, também precisamos de ajuda.

Bojack. I see you!

Noite de Lobos: mistérios e famílias

O maior problema de NOITE DE LOBOS (Hold The Dark) é não se desenvolver tão bem quanto poderia. Final aberto para interpretações e que se desvia de clímax moralista geralmente são ingredientes que fazem o público sair perplexo do cinema, talvez acreditando que nada mais importa, que tudo está condenado, que somos incapazes de mudar o absurdo da vida. Um filme que acerta em cheio nisso, por exemplo, é Onde os Fracos Não Têm Vez, dos irmãos Cohen. Noite de Lobos poderia acertar mais, caso as duas horas que viessem antes do final fossem melhor construídas.

Medora Sloane (Riley Keough) perde o filho logo na primeira cena. Vive em uma vila no interiorzão do Alasca. O marido está na guerra do Iraque. Ela contrata o escritor e pesquisador de lobos Russell Core (Jeffrey Wright) para vingar o filho. O homem aceita mais por empatia ao luto da mãe do que por convicções profissionais. Mas era tudo uma armação e há intrigas antigas e macabras correndo pela vila e pelo sangue da família Sloane.

Isso é o que mais irrita em Noite de Lobos. Os elementos espalhados pela narrativa dariam um ótimo filme: lendas do Alasca, metáforas familiares, rituais e magia, talvez problemas psicológicos. Mas o diretor Jeremy Saulnier e o roteirista Macon Blair jogam tudo para o alto e não apenas não conectam os elementos de forma convincente como parece que a produção inventa cenas que, fundamentalmente, não servem para muita coisa a não ser colocar mais um corpo no caixão.

O filme tenta fazer com que tenhamos compaixão por todos eles. O protagonista é um cara esperto, mas meio sem sal. Alexander Skarsgård, de poucas palavras, é mais frio que o Alasca inteiro interpretando Vernom Sloane. Temos inclusive um tiroteio lá pela metade do filme, uma cena violenta e enorme, que dá um destaque desmedido a um personagem secundário que não acrescenta quase nada à trama ou ao nosso entendimento daquele mundo e daquele contexto misterioso.

A fotografia tenta fazer jus ao nome do filme em inglês e investe em cenas escuras em 70% do tempo. É uma tentativa de conseguir expressar a escuridão dos personagens e dessa história macabra. Porém, no final das contas, pode parecer que a fotografia quer jogar sombras sobre as muletas do roteiro para manter o mistério da trama.

Talvez não sejam muletas de roteiro e todos os elementos ali façam sentido (as máscaras, o demônio-lobo, o sangue da família, a morte da criança, o símbolo escrito em sangue no caixão). Nesse caso, o filme pode achar que está sendo maduro o suficiente para apontar caminhos e o espectador que se vire para pesquisar a cultura indígena do Alasca e descobrir sozinho as ligações.

Temos duas certezas, afinal. 1) A mãe, Medora, é talvez a personagem mais interessante e a que melhor temos sede de entender. Curiosamente, de todos os personagens, é a que tem menos tempo de tela. 2) Trata-se de uma história sobre família e os diversos processos que nos conectam aos nossos entes queridos. Tudo que ocorre, ocorre senão para que Core possa se religar à sua filha. Se tem alguém que é “salvo”, é Core. O que realmente importa ao filme não tem nada a ver com a mística que Saulnier tenta filmar, e sim com as famílias, suas (des)conexões e suas gerações. Por isso, por mais pessimista que possa parecer o final, há algo nisso tudo que deu certo.

Não é um significado final ruim, de forma alguma, e até expande a proposta do diretor. Mas há tropeços demais de desenvolvimento que fazem a conclusão soar deslocada.

O Alasca é uma locação e tanto para este filme, no entanto. Tem a questão das grandes distâncias, das dificuldades e escassez de recursos que torna tão difícil a sobrevivência de uma família de lobos quanto a de humanos. Ao mesmo tempo, ir ao Alasca caçar um lobo é a desculpa de Core para, quem sabe, dar uma olhada na filha.

Originalmente, Noite de Lobos iria ser distribuído pela A24, mesma empresa que lançou A Bruxa e Hereditário. Mas pouco antes de começarem a filmar, a Netflix comprou os direitos de distribuição. Porém, antes que estivesse na Netflix, estreou no Festival de Toronto. O roteiro é baseado no livro de William Giraldi de mesmo nome. Em janeiro deveremos ver o novo trabalho de Saulnier: ele é o responsável pela direção dos dois primeiros episódios da terceira temporada de True Detective.

Maniac acerta na psicodelia narrativa

MANIAC, nova série original da Netflix, se beneficia de alguns fatores que não podemos deixar de lado. Em primeiro lugar, a visão do criador, roteirista e produtor Patrick Somerville parece ter recebido um tipo muito especial de carta branca. Enquanto muitas séries da Netflix são feitas pensando em nichos de público, me peguei vendo cada episódio e tentando adivinhar qual teria sido o público-alvo na mente de Somerville quando apresentou o projeto.

Em segundo lugar, o talentoso Cary Joji Fukunaga dirigiu todos os 10 episódios. Séries geralmente entregam roteiros a diretores diferentes para que o ritmo das gravações seja agilizado. Assim, cabe aos produtores manterem o padrão de qualidade e identidade visual do programa. Como Fukunaga (que também dirigiu os 8 episódios da primeira temporada de True Detective) também é produtor executivo de Maniac, sua direção é menos um ato de transposição do roteiro e mais um tipo de assinatura estilística mesmo.

(Quem viu True Detective lembra de um plano sequência espetacular e tenso que Fukunaga concebeu no episódio 4. Em Maniac, ele faz outro plano sequência cheio de cor, movimento, coreografia e graça no episódio 9. Imperdível!)

Isso garantiu uma cara muito própria e original à Maniac. Essa primeira temporada se passa em uma Nova York de hoje, mas com elementos do futuro embalados na estética oitentista. É retrofuturismo e não demora nada para percebermos que é cyberpunk também (uma subdivisão da ficção científica que curiosamente tem sido bem debatido neste site aqui, aqui e até aqui).

ENREDOS DENTRO DO ENREDO

Maniac acompanha uma parte transformadora da vida de Annie Landsberg (Emma Stone) e Owen Milgram (Jonah Hill). Annie perdeu a irmã mais nova em um acidente e não conseguiu se livrar do trauma. Além disso, está viciada em um remédio que nem chegou ao mercado ainda. Owen sofre de esquizofrenia, é o filho menos notável de uma família e precisa testemunhar a favor de um irmão que pode não ser um santo na história. Eles se inscrevem em um experimento farmacêutico que mistura psicanálise, behaviorismo, psiquiatria, neurologia, inteligência artificial e que promete trazer à tona o trauma mais expressivo de cada indivíduo, limpar suas barreiras mentais e então confrontá-los com o problema, levando-os à cura.

Embora essa seja a linha mestra da série, há diversos outros enredos  paralelos e narrativas dentro das narrativas se desenvolvendo de uma forma bem psicodélica. Não é exatamente difícil acompanhar a série, mas seus personagens, durante as fantasias/sonhos que vivenciam no experimento, vão de um excêntrico ritual espírita à uma floresta povoada por elfos, de uma vida suburbana americana à uma vida como mafiosos. É uma loucura que quebra a expectativa do espectador. Contudo, com a mão firme e segura de Somerville e Fukunaga, todas essas experiências narrativas nunca se desviam do que a série pretende contar, seja no plano mais superficial ou em seu substrato mais profundo de significado.

– E daí se viu coisas que não estavam lá. As pessoas veem alienígenas, ouvem vozes, veem fantasmas.
– Isso é diferente. Minha mente… não funciona direito.
– A de ninguém funciona.

Todos os enredos – que na verdade são um só – estão recheados de humor negro. Nada que te faça gargalhar, mas está lá aquele tom cômico que não deixa a tristeza dos personagens pesar demais. Certas sequências são um pouco exageradas de propósito, fazendo a série ter um ar meio galhofa mesmo. E a violência não é onipresente, mas quando acontece deixa sangue espalhado pelos rostos, roupas, paredes e banheiras do cenário.

Além de escritor de dois romances e principal roteirista de Maniac, Patrick Somerville fora roteirista de alguns episódios da ótima The Leftovers. Ou seja, ele já está acostumado a escrever para séries viajadas, mas que devem ser firmes no seus significados. Além disso, trouxe da série da HBO para a Netflix o ator Justin Theroux.

EMMA & HILL

Emma Stone começou a carreira cinematográfica em Superbad (2007), filme adolescente que também deu reconhecimento à Jonah Hill. Nesse filme, os dois atores interpretavam jovens que não sabiam muito bem como fazer o que queriam e, ao final da história, isso era o que mais nos conquistava em ambos. Hoje, os dois são reconhecidos grandes atores de cinema. Maniac é, sem dúvida alguma, um dos melhores trabalhos de atuação dos dois.

A Maniac da Netflix é baseada numa série norueguesa de mesmo nome, mas a produção americana mudou vários elementos da original. Para começar, a série escandinava tinha apenas um protagonista masculino. Quando conseguiram contratar Emma Stone, encontraram um jeito de Annie e Owen terem peso igual na narrativa e, mais do que isso, complementares.

Um paralelo interessante é que em Superbad, por mais que houvesse um interesse romântico rondando os personagens de Stone e Hill, eles terminavam o filme como amigos, sem consumar nada. Em Maniac, o arco de ambos confia muito mais numa amizade que os ajuda a superar e entender seus dilemas do que em interesses amorosos.

CONEXÕES

Além dos paralelos com Superbad e com a série norueguesa, Maniac tira proveito de diversas outras obras. Há um computador e uma inteligência artificial que foi programado a partir da personalidade de uma mulher, mãe de um dos cientistas que criou o teste farmacêutico a que Owen e Annie são submetidos. No anime Neon Genesis Evangelion, lá de 1995, um supercomputador também incorporou a “alma” e a personalidade da mãe de uma das cientistas que operava a máquina.

Toda a conexão das cobaias e seus sonhos (ou reflexos) remetem aos simstims de William Gibson, que antecipou a realidade virtual como um ambiente de ciberespaço. O próprio retrofuturismo da série é muito palpável hoje quando lemos Neuromancer (1983), sem falar que todo o teste, em território americano, é conduzido por uma equipe japonesa, o tipo de presença nipônica que inunda o mundo da Trilogia do Sprawl também.

Na série temos ainda os mcmurphies, que nunca são explicados, mas fica aquele ar de “deve ser problema”. McMurphy é o sobrenome do personagem de Jack Nicholson no clássico Um Estranho no Ninho (1975), que acaba lobotomizado no fim do filme. Isso dá uma boa pista do que Dra. Azumi e Dr. Mantleray querem dizer com o termo.

NETFLIX ACERTA

Já há algum tempo a Netflix recebe críticas por lançar diversas novas séries e não cuidar do padrão de qualidade de suas produções originais. Para cada Orange Is The New Black, Bojack Horseman ou House of Cards, há outras séries que apostam em determinados nichos de público e ficam devendo muito em roteiro e originalidade.

Embora Maniac me pareça arriscada, ela é uma série que, pelo menos nesta primeira temporada, se mantém desafiante, arrojada e, por mais psicodelica que pareça, atada a seu storytelling. Somerville, Fukunaga, Emma Stone e Jonah Hill entregaram uma das melhores novas ideias de 2018.