Eugene Thacker e como Pensar o Impensável

Eugene Thacker, filósofo e professor da universidade The New School de Nova York, teve reconhecimento com o lançamento de IN THE DUST OF THIS PLANET, primeiro livro de uma trilogia que tenta filosofar a partir de temas sombrios e ocultos ligados ao terror. A base de sua argumentação parte de filmes e livros de terror, de religiões pagãs e chamadas satânicas. Mas como ele próprio deixar claro, seu objetivo não é fazer uma filosofia do terror, e sim explorar o Terror da Filosofia.

A filosofia lida com o racional, com os fenômenos que os seres humanos podem e estão esquipados para investigar, entender e interpretar. Contudo, Thacker cria um paradoxo em sua obra e tenta racionalizar sobre aquilo que não há razão de ser ou, pelo menos, é impossível para os seres humanos compreenderem. Esse é o “terror da filosofia”: entender o que não está ao alcance da capacidade humana apreender ou mesmo conhecer.

…O que nós preguiçosamente chamamos de “sobrenatural” é simplesmente um outro tipo de natureza, mas um tipo que está além da compreensão humana…

O prólogo de In The Dust Of This Planet é um ensaio por si só, com um ponto de vista interessantíssimo. O autor diferencia o mundo-para-nós (world-for-us), que é o mundo em que os humanos agem e conseguem apreender e interpretar, do mundo-em-si-mesmo (world-in-itself) que é o mundo sem a racionalidade humana, indiferente a ela. O mundo-em-si-mesmo é o que é, sem a agência dos homens, e não deve ser pensado como algo que aí está para servir à humanidade. E por fim temos o obscuro mundo-sem-nós (world-without-us), que seria a faceta mais autônoma do planeta, cuja existência não se importa com a presença humana e ainda pode guardar elementos e fenômenos que estão além do conhecimento da humanidade, totalmente ocultos para ela. Esses fenômenos até podem se manifestar à humanidade, mas nós não estaremos prontos ou equipados para entendê-las completamente.

Para Thacker, esses fenômenos ocultos do mundo-sem-nós se manifestam nas obras de terror de diversas formas, como demônios, como o vazio mais perfeito, como a manifestação sobrenatural que arrepia nossa espinha por estarmos diante de algo que não sabemos de que é feito, o que significa e o que pode fazer conosco. Embora a gente sinta medo e se assuste com o que vemos em obras de terror, Thacker diz que o impensável vai além desses sentimentos. O impensável é o desconhecido.

Quando resolve abordar as práticas mágicas, diz: “Enquanto a filosofia oculta tradicional é um conhecimento oculto do mundo aberto, a filosofia oculta hoje é um conhecimento aberto do mundo oculto.” E completa com: “
A nova filosofia oculta é anti-humanista, tendo como método a revelação do não-humano como um limite para o pensamento…”

ABSTRAÇÃO E ARTE

Ele começa discutindo o que é o termo “black” em “black metal”, para dar conta de como “negro” é um adjetivo amplamente usado em nossa cultura para designar o que está além ou escondido dos seres humanos. Depois passa a refletir sobre filmes e livros de terror – com citações e análises muito interessantes de Stephen King, J. G. Ballard, H. P. Lovecraft, A Divina Comédia de Dante e as versões de Fausto de Goethe e Marlowe, o mangá Uzumaki de Junji Ito, entre outros – e como o desconhecido entra em nosso mundo e é representado, seja por demônios, por neblinas, por fluidos, por magia e etc para dar conta do que é o impensável.

O autor não fica preso a essas obras como se estivesse fazendo uma análise de cinema e literatura. Ele parte dos elementos que se apresentam nessas obras para realmente filosofar e tentar encontrar uma forma de nos fazer enxergar o que não é possível entendermos e que acaba traduzido em seres místicos, religiões obscuras e existências lovecraftianas nas artes.

Eugene Thacker tem uma escrita simples, fluida e bem objetiva. A todo momento ele recupera e resume conceitos já explorados para garantir que o leitor continue acompanhando seu pensamento. É realmente uma obra original. Se ler não é o problema, a dificuldade de In This Dust Of This Planet está em abstrair. O desconhecido, por definição, é algo que só podemos começar a imaginar (ou nem isso), mas como somos incapazes de entendê-lo – por ser impensável, oras – é preciso sempre ter em mente o nada, o zero absoluto, a escuridão mais densa… enfim, palavras para definir isso é nossa tentativa de dar sentido a algo que está além do sentido. Percebe como é preciso exercitar o pensamento abstrato para acompanhar o autor?

…esse confronto com o mundo inumano pode se manifestar como os vários demônios, fantasmas e criaturas maléficas que povoam o quadro mitológico e cosmológico de diferentes tradições religiosas. Podemos até acrescentar que esse confronto com o divino como algo terrível é também um tema central do romance gótico do século 18.

Kant, Kierkegaard, Aristóteles, Schopenhauer, Nietzsch, Agostinho e Aquino são filósofos que Thacker recupera para discutir suas teses. Me chamou a atenção como até mesmo filósofos ocultistas, como Aggripa, e teólogos, como Rudolf Otto, ele também evoca para dar a dimensão desse terror da filosofia. É realmente uma obra instrutiva e que te ajuda a filosofar com o que Thacker chega a chamar de não-filosofia. A ideia da obra é realmente mostrar, por meio da produção cultural humana, os limites do pensamento e colocar na equação o mundo-em-si-mesmo e o mundo-sem-nós, o que nos obriga a pensar na(s) existência(s) como coisas em si mesmas, não em termos humanos. Filosofar sobre isso e dessa forma acaba, de fato, levando a filosofia ao seu próprio limite.

Não é preciso ter um conhecimento amplo de filosofia clássica, contemporânea, niilista ou Idealismo Alemão. Também não precisa ser um fã de King, Lovecraft, filmes de terror e praticante de magia da mão esquerda para compreender In The Dust Of This Planet. Mas se tiver afinidade ou curiosidade com esses temas citados, o livro fica ainda mais delicioso e realmente joga muitas trevas na luz do que achávamos que sabíamos.

BURACO NEGRO E O POP

Como disse, o pensamento abstrato é importante para chegar ao coração do que Eugene Thacker quer nos dizer com Impensável. Ele não faz essa analogia no livro, mas foi a que criei para eu mesmo conseguir visualizar melhor a questão. Então, imagine um buraco negro no espaço: embora seja invisível, sabemos que ele existe, que ele suga toda a matéria e até a luz para dentro de si. É um enorme poço gravitacional e está lá, como uma existência que não sabemos bem o que representa, pois se passarmos por ele não sabemos o que há do outro lado. Simplesmente não sabemos. Não há evidências. Não sabemos ao certo nem quando os menores e nem quando os maiores (os supermassives) foram feitos. É algo que não tem moral e nem vontade, como o world-without-us de Thacker. Ele engole tudo, sem distinção, sem se importar, sem culpa ou remorso. Pode até ser que do outro lado exista algo maravilhoso, mas somente a ideia de ficar cara-a-cara com um buraco negro é aterrorizante. Sentimos medo, medo do que não sabemos o que é, para onde vai, o que é capaz de fazer conosco e com qualquer outra coisa. Um enigma. Além da escuridão de sua invisibilidade, o restante é impensável.

In The Dust Of This Planet foi lançado em 2011. Ganhou ainda mais reconhecimento quando Jay-Z apareceu ao lado de Beyoncé usando uma jaqueta com o nome do livro no clipe de “Run”. O título virou artigo de moda, desdobramento bem incomuns para obras filosóficas niilistas. Nic Pizzolato, roteirista de True Detective, também admitiu ter se influenciado pelo livro para a primeira temporada da série, o que só aumentou o alcance do texto. Há duas continuações, ambas de 2015, e que pretendo ler também.

O divino é sombrio porque não temos conceito para ele.

No momento, não faço ideia de como Thacker aborda o assunto dos limites do pensamento e da não-filosofia nas continuações da sua série Horror of Philosophy, mas acredito que siga na trilha de investigar abstratamente como seria um mundo em que nem tudo precisa de “uma razão para ser” (princípio básico de filosofia), embora ansiemos por dar significado a tudo, pois é terrível não sabermos, não é? Mas em um mundo como o nosso, em que os terrores políticos e principalmente climáticos parecem ameaçar continuamente a vida no planeta, acredito que há muito mais para pensarmos sobre o mundo-em-si-mesmo e o mundo-sem-nós, mesmo que para chegar ao mundo-sem-nós tenhamos que estar todos mortos e, por isso, sem ninguém para de fato pensar este mundo-sem-nós que, no final das contas, será um mundo sem pensamento algum.

Parece muito niilista para você? E é mesmo. Mas Thacker não pratica o niilismo do tipo “está tudo ferrado agora”. Mesmo que nada tenha sentido, mesmo que nada tenha a resposta que buscamos ou que achamos que precisamos, ele parece querer dizer que vale a pena viver. Afinal, até mesmo a falta de fé de que existam respostas é fé em alguma coisa.

IN THE DUST OF THIS PLANET
Eugene Thacker
Editora Zero Books
170 páginas