RDR2 – Cadê o Gavin? Cadê a Miriam? – Parte 3

Encontrei mais duas obras de um provável serial killer do velho oeste americano, seguindo o mesmo padrão da primeira: corpo decepado da cintura para baixo, membros e entranhas pelo chão, a cabeça presa ali por perto, com um papel entre os dentes. Foram ao todo três vítimas, dispostas de modo bem espetaculoso, em regiões bem diferentes do mapa de Red Dead Redemption 2. Cada pedaço de papel tinha um pedaço de frase em que o assassino desafia você a encontrá-lo.

Com as três pistas na algibeira, cavalgava por aí até encontrar, na beira de uma estrada de terra, uma casa destruída. Sobrou apenas o assoalho e algumas madeiras. Mas havia um alçapão. Assim que Arthur Morgan o abriu, um cheiro azedo o fez dar uns passos para trás e emitir ruídos enjoados. Ao chegar ao pé da escada, havia um show de horrores: corpos dilacerados, membros amputados, humanos e animais, por todos os cômodos. Manchas de sangue e pedaços de corpos, ossos, crânios, ferramentas. O covil de um perturbado. Havia a carta de uma mãe também, onde líamos que ela se preocupava com a solidão do filho e desejava que tudo estivesse bem com ele, embora ela não fizesse ideia do que o “garoto” fazia por aí. No fundo da sala subterrânea havia um cômodo onde o homem deveria fazer o trabalho pesado. Muitos elementos dispostos ali davam a entender que ele ritualizava tudo, com fervorosa inspiração metafísica. Achei a faca dos crimes e quando fui pegá-la, ZÁS… Arthur Morgan foi para o chão com um golpe do criminoso, que se aproximou por trás.

Consegui sair da enrascada antes que ele começasse a me esfolar. Amarrei o homem com minha corda de laçar cavalos e o joguei na garupa do meu cavalo de guerra, chamado Marlon. Cavalguei até Valentine, a cidade mais próxima, e o levei ao gabinete do xerife. Joguei o rapaz na cela. Nesse ponto, o homem parecia bem controlado até, mas foi só o xerife se aproximar dele para o sujeito virar uma fera e pular na jugular da autoridade. Não teve jeito, tive que sacar minha pistola Volcanic e abrir um orifício em seu crânio. Uma pena! Queria saber mais sobre as motivações do serial killer. O xerife ficou tão abalado com o ataque que nem me pagou recompensa. Oh boy…

BIZARRICES

RDR2 mostra o oeste em decadência, quando a lei já começa a fazer parte do ideário americano. Arthur Morgan e sua gangue ainda preferem o jeito antigo de fazer e resolver as coisas e sentem que estão ficando para trás, mas o romantismo do banditismo está nas veias de Dutch van Der Linde e sua gangue. Enquanto tentamos enganar famílias rivais e ricas de Rhodes e nos extorquir cada pobre cidadão que pegou dinheiro emprestado do Strauss, um alemão agiota do meu bando, temos que tomar cuidado com as autoridades ao longo da história principal. Enquanto essa parte do jogo é bem pé no chão, há um sem fim de bizarrices em Big Valley, Scarlett Meadows, Grizzlies, Bayou e Roanoke Ridge.

Tem uma casa de dois andares abandonada. Se conseguir invadi-la pela janela do segundo andar, vai encontrar uma criatura construída com partes humanas e animais. Vai saber o que aconteceu para o local ser esvaziado aparentemente às pressas, pois o experimento ficou ali, assim como as anotações do homem da ciência que tentou dar vida ao mutante. Tem uma outra casa que, ao entrar, tem uma família inteira morta. Os corpos estão deformados, como se algo tivesse explodido e levado metade do rosto da mãe, uma parte do tronco do pai, as pernas do filho. Uma rápida investigação e descobrimos que uma lasca de meteorito caiu na casa, bem no forno da família, e causou essa impactante cena de horror.

Aquela cabana que encontrei cheia de esqueletos e um texto que parecia apontar para um suicídio em massa te deixa ver um óvni, é tudo uma questão de esperar até a hora certa. Em Butchers Creek, um dos lugares mais sinistros do jogo, tem um casebre onde uma pentagrama brilha toda noite às 4 AM. Estou curioso para saber o que fazer com isso. Há um vampiro em Saint Denis, a maior cidade do jogo, um homem que corre (pelado) com lobos perto de Roanoke e vozes na floresta durante a noite. Sem falar de um hermitão escondido em uma caverna no ponto mais a oeste do mapa. Ele só diz que abandonou a sociedade e que não vai sair de lá, que quer ficar sozinho e que você deve ir embora.

Encontrei uma cobra vermelha e enorme, morta e pendurada em uma árvore. Pelo jeito ela não serve para nada, apenas para enfeitar a floresta, mas aproveitei para fazer um autorretrato de Morgan com o bichão. A leste do Big Valley, achei um ritual pagão. Tinha desenhos no chão, velas e pedras marcando os quatro pontos cardeais e um torso de um humano fincado numa estaca bem no centro. O meio cadáver usava uma máscara, que eu roubei para mim e usei para assaltar várias lojas, carroças e matar vários inimigos com estilo. Não tenho certeza ainda se esse local tem alguma conexão com algum segredo ou se é só piração weird da Rockstar.

PESSOAS FALTANDO

Um dos mistérios mais legais de Red Dead Redemption 2 pode ser um dos mais bobos também. Em Rhodes, um chapa anda pelo vilarejo perguntando sobre seu amigo Gavin, que ele não consegue achar. É possível encontrar o mesmo sujeito em Saint Denis. Se interagir com esse NPC, podemos ouvir a história e a preocupação do personagem, mas nunca é dada a opção de ajudá-lo ou não. Simplesmente não é uma tarefa para Arthur Morgan no jogo. Pode ser que seja só isso, uma piada dos desenvolvedores da Rockstar. Ou pode ser que os elementos para resolvermos esse quebra-cabeça – ou pelo menos saber o que houve com Gavin – necessite juntar peças muito distantes uma das outras, como o caso de Emerald Ranch, ou a disputa entre os Braithwaite e os Gray. (Aliás, que entrada emocionante, triunfal e bem feita a da gangue Van Der Linde no casarão dos Braithwaite no fim do capítulo 3!)

Em Emerald Ranch há uma garota que todos os dias aparece na janela mais alta da maior casa. Ela não faz nada e não diz nada. Não há como entrar na casa ou interagir com ela. Nesse mesmo rancho, há um salloon fechado, marcas de tiros de grosso calibre na parede e sangue no chão. Mas não é apenas umas pocinhas de sangue que vemos. É sangue remexido, como se o dono daqueles glóbulos vermelhos tivesse se arrastado pelo chão para tentar se esconder, sair pelos fundos ou, quem sabe, chegar até uma escopeta.

Atrás do salloon há uma lápide em nome de Joshua Burgess. Muitas milhas cavalgadas acima do rancho, peto da floresta Cumberland, encontrei uma carroça dos correios abandonada e uma carta de uma tal Annabelle a uma tal Miriam Wegner. A remetente dizia que virou atriz em Nova York, fazendo pequenos papeis na Broadway, e que lamentava a morte trágica de Joshua, provavelmente o mesmo da lápide. No fim, a amiga pedia para que seu tio Eugene, o pai da garota e um já conhecido manda-chuva de Emerald Ranch, entregasse a carta a ela, pois esta era a sexta carta que Annabelle enviava e não obteve respostas das anteriores. Huuuummmm…

Foi assim que deduzi que a garota na janela em Emerald Ranch deve ser Miriam Wegner. Joshua, seu suposto namorado ou coisa do tipo, deve ter morrido no confronto no salloon (e que confronto brutal deve ter sido). Sabe-se lá porque e por que ela está confinada na casa grande agora, se por espontânea vontade e luto ou se Eugene tem algo a ver com isso. Estou com muito mais de 100 horas de jogo e no meio do capítulo 4 e até agora não encontrei esse Eugene. Planejo não fazer nada de bom com ele.

O Gavin virou um hit fora do game. Jogadores fazem essa piada, procuram pistas e até forçam a barra para tentar fazer alguma coisa se encaixar no caso. É bem legal, realmente, pois o amigo do Gavin é um pobre coitado que deve andar muito por aí perguntando pelo desaparecido sem que ninguém se importe. Apenas nós, no comando do joystick. Isso é só uma demonstração do tamanho da imersão em RDR2. O caso de Miriam, no entanto, é um desses que vem sendo citado desde as primeiras horas de exploração e acaba dando um senso de imprevisibilidade ao jogo, criando uma tensão entre nós e aquela região do jogo eletrônico. A gente se importa e se importa muito com a jovem na torre.

Leia a primeira parte da crônica RDR2 – Lá Vem a Morte

Leia a segunda parte da crônica RDR2 – Mas Será o Cthulhu?